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Viajando por todos esses
países do mundo, tive de morar, por algum tempo, na cidade do conquistador
Gonzalo Jiménez de Quesada, ao pé das montanhas de Monserrat e Guadalupe.
Por aqueles tempos, já
muito próximos da segunda guerra mundial, foi-me apresentado, naquela cidade,
um amigo, por certo, muito singular.
Sucre, chamava-se e, viajando,
também tinha vindo em busca de conhecimentos universitários, de
certo porto do Atlântico, até o cume andino.
Com este amigo de outros
tempos, tudo foi muito curioso; até a insólita e prórpia
apresentação.
Alguém, cujo nome
não menciono, tocou, qualquer noite, na porta de minha morada, com o evidente
propósito de convidar-me a uma conversa profunda com o citado amigo...
Não foi, por certo,
muito formoso o lugar da reunião; uma venda de mau agouro, com um pequeno
salão.
E, depois de todos os formalismos
de apresentação, entramos na matéria da discussão.
Resultou palmária
e manifesta a capacidade intelectual de meu novo amigo; sujeito teórico,
especulativo, estudioso...
Dizia-se fundador de alguma
loja de tipo teosófico e citava, com frequência, a H.P.B., Leadbeater,
Annie Besant, etc.
No intercâmbio de
idéias é indubitável que brilhou, fazendo exposições
pseudo-esotéricas e pseudo-ocultistas...
Se não tivesse sido
por sua afeição ao hipnotismo e ao desejo exibicionista, aquela
reunião teria terminado pacificamente, mas, eis aqui que o diabo, onde
quer, mete a cauda.
Sucedeu que este amigo deu
por fazer demonstrações de seu poder hipnótico; e, acercando-se
de um senhor de certa idade que estava por ali, sentado perto de outra mesa, rogou-lhe,
muito cortesmente, que servisse de sujeito passivo para seu experimento.
Em se tratando de questões
relacionadas com a Hipnologia, não é demais enfatizar a idéia
de que nem todos os sujeitos são suscetíveis de cair em transe.
Sucre, com seu eu exibicionista,
é ostensível que não queria ver-se no ridículo; necessitava
demonstrar seu poderio e por isso fez sobre-humanos esforços para pôr
em sono hipnótico o cavalheiro.
Mas tudo foi inútil,
enquanto Sucre lutava, e até sofria, aquele bom cavalheiro por dentro pensava
o pior.
E, de repente, como se caísse
um raio em noite tenebrosa, sucedeu o que tinha que suceder; o cavalheiro passivo
saltou de seu lugar, increpando Sucre, tratando-o de ladrão, bandido, etc.,
etc. Mas nosso mencionado amigo, que tampouco era uma mansa ovelha, trovejou e
relampejou.
E voaram mesas pelos ares,
e cadeiras, e xícaras, e pratos e clamava o dono do negócio, entre
aquele grande destroço, pedindo que lhe pagasse a conta.
Afortunadamente interveio
a polícia e tudo ficou tranquilo; o pobre Sucre teve de empenhar sua bagagem
para pagar a dívida...
Passando aquele tão
desagradável descalabro, fixamos uma nova entrevista com o mencionado amigo,
a qual é óbvio que foi mais tranquila; pois, Sucre não se
meteu na cabeça a absurda idéia de repetir seu experimento.
Então, esclarecemos
muitas idéias e conceitos de fundo esotérico e ocultista.
O amigo ingressou, mais
tarde, na universidade com o propósito de fazer-se advogado e é
evidente que era um magnífico estudante.
Um dia qualquer, depois
de muitos anos, o mencionado amigo me convidou para uma refeição
e, de sobremesa, houve uma conversa sobre tesouros escondidos; então, ocorreu-me
narrar-lhe o seguinte caso:
"Dormia eu em minha
recâmara - disse-lhe - quando fui, subitamente, despertado por um estranho
ruído subterrâneo que corria ou circulava misteriosamente, de noroeste
a sudoeste."
"Sentei-me, algo sobresaltado
por tão inusitado som, para ver, do meu leito, o que estaria sucedendo."
"Então, com
grande surpresa, vi que, num canto de meu dormitório, a terra se abria."
"E surgiu, como por
encanto, o fantasma de uma mulher desconhecida que, com voz muito delicada, me
disse: "Faz muitos anos que estou morta; aqui, neste lugar, enterrei um grande
tesouro; tira-o tu; é para ti."
Ao escutar, Sucre, o meu
relato de sobremesa, rogou-me veemente, levá-lo ao lugar dos fatos; e é
claro que eu não quis negar-lhe este serviço...
Outra tarde, veio dizer-me
que se havia posto em contato com o dono da casa -um doutor muito famoso da cidade-
e me suplicou que investigasse se tal personagem era ou não, realmente,
o dono de dita propriedade, pois tinha suas dúvidas.
Confesso, singelamente e
com a mais inteira franqueza, que não me foi difícil realizar o
desdobramento astral; simplesmente aproveitei o estado de transição
entre a vigília e sono.
No instante de começar
a dormir, levantei-me delicadamente do meu leito e saí à rua. É
ostensível que o corpo físico ficou dormindo na cama.
Assim se realizou o desdobramento
do Eidolon com pleno êxito; ainda recordo, fielmente, aquele notável
experimento psíquico.
Voando, flutuando no ambiente
astral do planeta Terra, andei por várias ruas, buscando o consultório
médico do doutor...
Roguei ao meu intercessor
elemental que me levasse a esse consultório e é ostensível
que fui assistido...
Ao chegar a certa casa,
conclui ser a procurada. Três degraus conduziam à fachada suntuosa
de uma mansão...
Entrei por aquelas portas
e me encontrei em uma sala de espera; avancei um pouco mais e penetrei, resolutamente,
no consultório...
Examinei, em detalhes, o
interior deste último; vi uma mesa e, sobre ela, uma máquina de
escrever e algumas outras coisas; uma janela permitia ver o pátio da residência.
O doutor estava sentado e em sua aura pude ver a mencionada propriedade...
Regressei a meu corpo físico
muito satisfeito com o experimento; o Eidolon, certamente, é extraordinário...
Bem de manhã, veio
o meu amigo conhecer o resultado de meu experimento psíquico.
Narrei-lhe, detalhadamente,
tudo que havia visto e ouvido; então vi assombro no rosto de Sucre; ele
conhecia tal consultório e os dados que lhe dava, resultavam exatos...
O que sucedeu depois é
fácil de adivinhar; Sucre não só logrou que aquele médico
lhe alugasse a casa; mas, também, e isto é o mais curioso, fê-lo
seu sócio.
Por aqueles dias resolvi
afastar-me daquela cidade, apesar dos rogos daquele amigo que insistia para que
eu cancelasse minha viagem...
Quando regressei, mais tarde,
depois de alguns anos, àquele lugar, já tudo havia mudado, aquela
casa havia desaparecido...
Então me encontrei
em um terreno árido, horrível, pedregoso, espantosamente aborrecedor...
E vi instalações
de alta tensão elétrica e motores de dupla bomba e máquinas
de toda espécie e trabalhadores bem pagos, etc., etc., etc.
Sucre, vivendo ali mesmo,
dentro de um quarto, que parecia mais uma trincheira em campo de batalha; entrava,
saia, dava ordens imperantes aos trabalhadores, etc., etc., etc.
Aquele quarto estava protegido
com gigantescas rochas e em seus muros se viam muitas janelinhas que podiam abrir-se
ou fechar-se à vontade.
Por aqueles postigos vigiava
Sucre o que passava ao seu redor. Tais mirantes lhe eram, diz, muito úteis.
De quando em quando, ao
menor ruído exterior, empunhava sua pistola ou seu fuzil e, então,
daquelas aberturas viam-se, de fora, já abrindo, ou fechando, ou assomando,
através delas, as bocas dos fuzis ou pistolas...
Assim estavam as coisas
quando eu voltei; então, meu amigo me explicou que aquele tesouro era muito
cobiçado; que se tratava do famoso bezerro de ouro que tanto havia inquietado
a muitas gentes da comarca e que, portanto, estava rodeado de mortais inimigos
cobiçosos que haviam intentado assassiná-lo.
Válha-me Deus e Santa
Maria! Disse a mim mesmo... em má hora fui eu contar a este amigo a visão
do tesouro... melhor teria sido calar o bico...
Outro dia, cheio de otimismo,
confessou-me que, certamente, a doze metros de profundidade, havia encontrado
um boneco de barro cozido e que, dentro da oca cabeça do mequetrefe, achou
o pergaminho no qual estava traçado todo o plano do tesouro.
No laboratório do
doutor foi cuidadosamente tirado tal pergaminho da cabeça do fantoche;
pois, com o tempo e a umidade, havia grudado demasiadamente...
De acordo com o plano, existiam,
a doze metros de profundidade, quatro depósitos situados um a leste, outro
a oeste, um terceiro a norte e o último para o sul...
Tal plano dava sinais preciosos
e, ao final, tinha uma sentença firmada com iniciais de nome e sobrenome.
"Quem encontre meu
tesouro que enterrei em poços fundos, será perseguido pela Igreja
do Patrono e, antes de vinte dias, que não saibam que tirou as ganâncias
que enterrei para mim."
Por esses dias, já
a segunda guerra estava muito avançada; Hitler havia invadido muitos países
europeus e se preparava para atacar a Rússia...
Meu amigo era germanófilo
cem por cento e acreditava, muito seriamente, no triunfo de Hitler...
É claro, pois, que
influenciado pelas táticas políticas de Hitler, que hoje firmava
um tratado de paz com qualquer país e no outro dia o atacava, não
quis trabalhar de acordo com as indicações do plano...
Sucre disse a si mesmo:
"Tais indicações são um despiste... O tesouro está
muitos metros abaixo do boneco; os citados quatro depósitos não
me interessam..."
Assim, pois, abandonou as
indicações e se foi ao fundo; quando assomei ao buraco aquele, só
vi um precipício, negro, profundo, espantoso...
Amigo Sucre, disse-lhe:
O senhor cometeu um erro muito grave; deixou o tesouro acima, nos quatro depósitos
e foi ao fundo; ninguém enterra um tesouro a tanta profundidade...
É ostensível
que tais palavras, por mim pronunciadas, levavam a fragância da sinceridade
e o perfume da cortesia...
Entretanto devemos falar
sem rodeios, para dar ênfase ao eu da cobiça.
Inquestionavelmente, este
último ressaltava, exorbitantemente, em meu amigo, combinando-se com a
astúcia, a desconfiança e a violência.
De nenhuma maneira foi,
para mim, algo insólito que Sucre, então, trovejasse e relampejasse
vociferando a até endossando coisas nas quais jamais havia pensado.
Pobre Sucre!... Ameaçou-me
de morte; acreditou, por um instante, que eu, disse, estava muito de acordo com
seus conhecidos inimigos; talvez com o propósito de roubar-lhe o tesouro...
Depois de tudo e vendo minha
espantosa serenidade, convidou-me a seu refúgio de trincheira a tomar café...
Antes de afastar-me, definitivamente,
daquela hispânica cidade em outros tempos conhecida como Nova Granada, fez-me
aquele amigo outra petição; suplicou-me, de todo coração,
que estudasse, com o Eidolon, seu trabalho subterrâneo.
Eu também queria
fazer uma exploração astral naquela fundura e por isso acedi a sua
petição...
E sucedeu que, numa noite
deliciosa de plenilúnio, acostei-me muito tranquilo, em decúbito
dorsal (boca para cima) e com o corpo bem relaxado...
Sem preocupação
alguma propus-me vigiar, espiar meu próprio sono... Queria utilizar, para
minha saída astral, aquele estado de trasição existente entre
a vigília e letargia...
Quando começou o
processo de sonolência; quando começaram a surgir as imagens próprias
dos sonhos, delicadamente e como sentindo-me um espírito, fiz um esforço
para eliminar a preguiça e, então, levantei-me da cama...
Saí de minha recâmara
como se fosse um fantasma, caminhando delicadamente, e logo abandonei a casa...
Pelas ruas da cidade flutuava
deliciosamente, cheio de uma delicada voluptuosidade espiritual...
Não me foi difícil
orientar-me; prontamente estive no lugar dos acontecimentos, no terreno dos fatos...
Ante aquele buraco negro
e horrível que já tinha mais de setenta metros de profundidade,
um velhinho anão, um pigmeu, um gnomo de respeitável barba branca,
contemplou-me inocente...
Flutuando na atmosfera,
desci suavemente, até o fundo aquoso da nefasta cova de cobiças...
Tocando meus pés
sidéreos no limo da terra úmida e sombria, fiz com agrado um esforço
mais e penetrei no interior desta, sob o fundo mesmo do poço...
Quão suavemente descia
com o Eidolon, sob o assento negro de tal antro, do qual emanara muita água!...
Examinando detalhadamente
cada rocha de granito submergida sob as águas caóticas, adentrei-me
muito profundamente, sob aquele subsolo.
É evidente que meu
amigo de outrora havia deixado o fabuloso tesouro lá em cima como já
o dissemos em parágrafos anteriores...
Agora, nestas regiões
abismais, só via, ante minha insignificante pessoa, pedras, lodo, água...
Mas, de repente, algo inusitado
sucede; estou ante um canal horizontal que, saindo daquele terreno, dirige-se
para a rua...
Que surpresa! Sucre nada
me havia falado disto; nunca me disse que em semelhantes profundidades pensara
fazer uma perfuração horizontal...
Serenamente deslizei com
o Eidolon, por entre o sobredito canal inundado pelas águas; avancei um
pouco mais e logo saí à superfície pelo lado da rua...
Concluída a exploração
astral, regressei a meu corpo físico; a investigação, obviamente,
foi maravilhosa...
Mais tarde, quando comuniquei
tudo isto a meu amigo, vi-o muito triste; este homem sofria o indizível;
queria ouro, esmeraldas, riquezas; a cobiça o estava tragando vivo...
Entretanto, justificava-se,
dizendo que todo ese tesouro o necessitava para fazer uma revolução
proletária; disse que necessitava investir esse dinheiro em armamentos,
etc.
Quão horrível
é a cobiça!... Em tal lugar só reinava o medo, a desconfiança,
o revólver, o fuzil, a espionagem, a astúcia, os pensamentos de
assassinato, as ânsias de mandar, imperar, subir ao topo da escada, fazer-se
sentir... etc.
Quando saí daquela
cidade, tomei a resolução de jamais voltar a intervir nesses motivos
de cobiça...
"Vendei o que possuís
-disse o Cristo- e dai esmola; fazei-voss bolsas que não envelheçam;
tesouro nos céus que não se esgote, onde ladrão não
chega, nem cupim destroi. Porque onde está vosso tesouro, ali estará,
também, vosso coração."
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