Samael Aun Weor

A Consciência

A Cidade do México - Juan O'Gorman - século XX


Nestes instantes, vêm a minha memória inefáveis recordações. Uma noite qualquer de outono, conversava deliciosamente com um Adepto nos mundos superiores.

Conversar com um Irmão Maior nos universos paralelos das dimensões superiores é certamente algo impossível para os adormecidos, para esses pobres seres que sonham. Felizmente eu estou desperto.

O tema da conversação foi variado. O diálogo desenvolveu-se em síntese.Litelantes estava calada... ela também está desperta e gosta de me acompanhar... ela é a minha esposa sacerdotisa.

Aquela conversa corria deliciosamente como um rio de ouro sob a selva espessa do sol. O Venerável queria uma entrevista comigo, aqui em baixo, no mundo físico, na região tridimensional. Definimos os fatores de tempo e lugar, porém, Litelantes protestou: À
meia-noite e tão longe da nossa casa, em mero ponto central da cidade do México...

Inúteis foram os seus protestos... Ele e eu fixamos a data e firmamos a palavra.

Passaram-se os meses do outono... eu aguardava com sumo interesse o ansiado ano de 1968. Contudo, tudo passa ... e não me tocou esperar demasiado, a noite esperada chegou.

Saí de casa cedo, assim tinha de ser, pois essa noite é de muitas visitas, devia me antecipar. Um táxi conduziu-me desde a calçada de Tlalpan até o Zócalo. Tive de descer na 20 de novembro, exatamente uma das esquinas da praça da Constituição.

A viagem tinha de ser paga. - Quanto devo ? – Dois pesos, senhor. - Aqui os tem, pode cobrar. O chofer recebeu o dinheiro, sem nem remotamente pressentir o motivo da minha viagem ou a identidade da minha pessoa. Que pode saber um adormecido? Por acaso, o pobre chofer conhecia os meus estudos? Que poderia exigir dele? Um  onhador a mais... manejando um táxi... nada mais.

Andei pelo centro do Zócalo, me detive diante de um grande poste de ferro que servia de mastro para a bandeira nacional. Era ali o lugar exato do misterioso encontro.

Primeiro devia reconhecer o local e assim o fiz, porém, ainda não havia chegado sequer as dez da noite.

Caminhei pela avenida 5 de maio devagarzinho...  e alcancei o parque da alameda. O gelo do inverno que respira nos cerros do nunca, sem matizes e sem aromas, baixava em frescos caudais de prata cobrindo os prados murchos.

Sentei-me em um banco do parque. O frio dessa noite de inverno era tremendo. Por aqui e por ali alguns alegres meninos brincavam bem abrigados. Anciões austeros conversavam sobre coisas talvez muito sérias e graves ou pelo menos sem importância. Os namorados sorriam com olhares de fogo luciférico. Resplandeciam luzes de cores variadas e não faltava, como é normal nesse colorido e pitoresco conjunto humano de ano novo, alguns disfarces. Pessoas que se divertiam tirando fotografias diante dos três reis magos.

Névoa que brota da montanha, nostalgia obscura, paixão estranha, sede insaciável, tédio imortal, desejo terno, subconsciente, indefinido, ânsia infinita do impossível... eis o que a humanidade sente nestes momentos.

Várias vezes perambulei perto das cristalinas fontes contemplando junto aos  pinheiros belas imagens: globos de varadas cores, simbólicas representações do ano
velho e do ano novo, carros arrastados pelos cabritosde capricórnio e outras cenas.

Uma e outra vez, voltando devagarzinho pela avenida 5 de maio, me acerquei do mastro da nossa bandeira nacional, no centro da praça da Constituição.

Olhava ao redor com ansiedade. O glorioso lugar estava relativamente vazio e para cúmulo, não resplandecia nessa noite o pavilhão da pátria com a águia do espírito, a serpente sagrada e o nopal da vontade.

Obscuros Alexandres e Espártacos que longe estão de compreender tudo isto. Nos cruentos labores da guerra, semeadora de louros e desgraças, foram todos ídolos de
argila, que caíram por terra desfeitos em pedaços.

Em sublime absorção, remexi minha própria mente, meditando no mistério da vida e da morte.

Faltava tão somente meia hora para o encontro mencionado. Diversas vezes andei, silencioso, por aí, entre o Zócalo e a Alameda. De repente, olhando para o relógio, suspirei profundamente, dizendo com uma voz que assombrou a mim mesmo: Finalmente, a hora está próxima.

Era necessário apressar um pouco o passo para retornar mais uma vez ao lugar do encontro. Ressoaram os sinos da velha catedral metropolitana, quando, ansioso, me
detive diante do mastro da bandeira nacional. Faltavam apenas uns 15 minutos para a meia-noite. Olhei ao redor, como que inquirindo, como que buscando algum sinal indicador da presença do mestre.

Inumeráveis perguntas me assaltavam. Seria o Guru capaz de faltar ao compromisso? Quem sabe, a recordação do encontro não tivesse passado para o seu cérebro físico ?

Por fim, ‘Oh!  Deus’, ressoam as 12 horas do ano novo no campanário do templo. Começava a me sentir algo frustrado quando percebo 3 pessoas à minha frente. Tratava-se de uma família estrangeira, talvez inglesa ou norte-americana, não sei.

O cavalheiro avança sozinho para mim. Fico a observá-lo atentamente. Conheço aquelas feições, aquela presença majestosa. O Mestre me felicita, me abraça, me deseja êxito total para o ano de 1968 e se retira.

Eu noto nele algo estranho. Veio a mim como um sonâmbulo, inconsciente, como que movido por uma força superior. Isso me alarma e me entristece um pouco. Será possível que a consciência do Mestre esteja desperta nos mundos superiores e adormecida no mundo físico ? Que coisa estranha, enigmática, profunda !

Depois do encontro com o Mestre já não mais me sentia frustrado e em meu coração havia contentamento.

Avancei feliz para o átrio da velha catedral de pedra. Aguardava e logo surgiu meu filho Osíris com seu pequeno carro cor de fogo. Deteve-se um instante para me recolher e conduziu-me para casa.

O Mestre cumpriu a promessa ? Foi sua primeira pergunta. Como a resposta fosse afirmativa, alegrou-se muito para em seguida guardar silêncio.

Será útil, ainda, acrescentar que depois deste acontecimento tive uma nova entrevista com o Mestre nos mundos superiores. Agradeci o cumprimento da promessa e o felicitei. O Guru, muito alegre, sentiu-se satisfeito por ter podido conduzir a sua
personalidade humana até o lugar previamente combinado.

Obviamente, o Mestre em si mesmo, é isso que os hindus chamam de ÁTMAN, o ESPÍRITO DIVINO, unido com sua alma espiritual ao BUDDHI.

A ALMA HUMANA ou MANAS superior, revestida com sua personalidade terrestre, constitui o que sabiamente se denomina de BODDHISATTWA no oriente misterioso. Logo, é fácil compreender que aquele homem que veio a mim era o BODDHISATTWA do Mestre. E vinha dormindo... que dor !

Ele era um BODDHISATTWA caído... no entanto, o Mestre conseguiu controlá-lo e conduzi-lo como a um autômato, como a um marionete, até o lugar do encontro.

Nada há de estranho que um BODDHISATTWA, alma humana de um Mestre, depois de cair, submerja no sonho da inconsciência, lamentavelmente.

Nos tempos antigos, na época em que os rios de água da vida vertiam leite e mel, viveram sobre a face da terra muitos Mestres. Com o advento fatal da KALI YUGA, a idade negra em que vivemos, muitos BODDHISATTWAS caíram e a lira de Orfeu tombou sobre o pavimento do templo feita em pedaços.

A grande Divindade antiga caiu derrubada. Ela repousa sobre um flanco, o rosto contra a terra. Não obstante, as hierarquias celestes a levantam.
 

Samael Aun Weor
Mensagem de Natal de 1969/1970
Capítulo 3 - A Consciência

Samael Aun Weor
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