DE PONTA A PONTA

Aparecida leva o título

A escola de samba Mocidade Independente de Aparecida conquistou os jurados e o título de campeã do último Carnaval do milênio em Manaus. A agremiação obteve nota máxima em todos os quesitos e ficou na frente da Grande Família e da Reino Unido da Liberdade, segunda e terceiras colocadas, respectivamente.

A campeã somou 180 pontos, seguida da vice com 175,5 e do terceiro lugar, com 174,5 pontos. A quarta colocada foi a Vitória Régia e em quinto lugar ficou a Balaku-Blaku. A sexta posição foi dividida entre a Unidos da Alvorada e a Sem Compromisso, enquanto a Mocidade do Coroado ficou em sétimo.

A apuração aconteceu no final da manhã de ontem, no Comando Geral da Polícia Militar, e foi acompanhada por pequenas mas persistentes torcidas, que ignoraram a chuva constante e se mantiveram do lado de fora até que fossem apurados os resultados finais. Somente dois representantes de cada escola puderam acompanhar os trabalhos.

Com cerca de quatro mil brincantes, a Aparecida levou para o sambódromo o enredo “Lua, luar - olha o boto sinhá” e homenageou o senador Gilberto Mestrinho. Aos 72 anos, o político, que inicialmente pensava em não desfilar, esbanjou vitalidade como destaque da escola do bairro onde viveu até ser governador do Estado.

Ainda antes da divulgação dos três últimos quesitos, os componentes da Aparecida já comemoravam a vitória cantando o enredo e festejando o 12º campeonato carnavalesco da escola, que completa 20 anos no próximo dia 15.

“Todos os anos nós organizamos o desfile com o propósito de vencer”, disse o presidente da agremiação, Edinaldo Athan, sem demonstrar muita surpresa com o resultado.

Torcida sob a chuva

A chuva constante da manhã de ontem não impediu que grupos de torcedores e brincantes acompanhassem a apuração do lado de fora do Comando Geral da Polícia Militar. Já nos primeiros resultados, a Mocidade Independente de Aparecida posicionou-se como favorita, embora a pouca diferença nas notas fizessem com que as demais torcidas também vibrassem a cada dez ou 9,5 recebidos pelas escolas.

Uma saudável rivalidade se evidenciou ao longo da divulgação entre adeptos da Aparecida e Vitória Régia, que se provocavam mútua e pacificamente. “Há, há, há, pra ganhar tem que roubar”, entoavam os torcedores em verde e rosa. “Há, há, há, pra ganhar tem que gastar”, retrucavam os verde e branco, que já comemoravam o título antes mesmo de serem apuradas as notas dos três últimos quesitos.

Enquanto fluía a disputa verbal, torcedores da Grande Família conferiam nota por nota, já de olho na segunda colocação. Cada conceituação menor das demais escolas era comemorada pela agremiação, que se juntou no coro contra a já favorita Aparecida. O vice-campeonato foi comemorado como se fosse a primeira colocação entre os torcedores.

“Eles são a indústria, nós somos a plebe. Eles pagam para fazer as fantasias, nós fazemos”, disse o administrador Carlos Alberto Correia, 32, torcedor da Grande Família. “Nós só perdemos por causa do Gilberto”, disseram, em coro, outros adeptos da mesma escola.

Menos numerosos, componentes da Reino Unido, quarta colocada, também se aliaram às críticas contra a vencedora. “Foi um roubo explícito”, disse a dona de casa Aurilene Saraiva, 25, em visível desolação. “Notas mais baixas dadas à escola em quesitos como fantasias, onde fomos visivelmente melhores, foi deliberadamente prejudicial”, disse. Segundo ela, os torcedores já esperavam pelo resultado, tanto que resolveram concentrar-se na quadra para comemorar o primeiro lugar obtido com o Estandarte do Povo. “Toda a vez que a Aparecida homenageia gente importante, ela ganha o campeonato”, sustentou a dona de casa. Para ela, diferente do resultado oficial, o Estandarte é uma premiação livre de influências de poder.

Enquanto integrantes das demais colocadas faziam suas argumentações, campeãs e vice recebiam com festa os troféus e trocavam cumprimentos e felicitações antes de seguirem para as quadras, onde a festa aconteceu.

‘Pude sentir o carinho  do povo’

Homenageado pela Aparecida, o senador Gilberto Mestrinho não estava em Manaus para acompanhar a festa da conquista do campeonato. Do Rio de Janeiro, o senador falou por telefone com A CRÍTICA e disse que deve estar de volta ao Estado no final do mês. Só então terá oportunidade de comemorar o título junto à agremiação.

“Já estava feliz pela homenagem, agora estou muito mais pelo título”, disse Mestrinho, que acompanhou a consolidação da Aparecida como escola de samba por estar situada no bairro onde cresceu e tornou-se político. Mesmo com a proximidade, o senador fez questão de ressaltar que, como um entusiasta do Carnaval, sempre manteve boas relações com todas as entidades carnavalescas da cidade. “Sempre apoiei o Carnaval”, disse o parlamentar, que, apesar de assistir aos desfiles, pela primeira vez pisou na passarela como integrante. “Cheguei cedo e acompanhei o desfile do início ao fim. Todas as escolas demonstraram um bom nível”, observou.

Apesar de ser o homenageado da Aparecida, Mestrinho afirmou que não acompanhou de perto os preparativos para o desfile. “Fui à escola apenas quando comunicado da homenagem e na última sexta-feira”, disse. Avisado dos resultados logo após o término da apuração, o senador aprovou a emoção de ser um destaque. “Foi bom principalmente porque pude sentir o carinho do povo. Carnaval é uma festa popular.”

 

 

COMUNIDADE ORGULHOSA

Grande Família arrebata o vice

Um vice-campeonato com sabor de campeonato. Assim a escola de samba A Grande Família comemorou o segundo lugar na classificação do Carnaval deste ano. Aos gritos de “é campeã, é campeã”, os membros da agremiação saíram em carreata do auditório da Polícia Militar, no Centro, até o bairro de São José, Zona Leste, onde a festa não tinha hora para acabar. “Vamos festejar esta que é a vitória mais significativa da nossa história”, disse o representante da escola, Gilberto Ferreira, com os troféu nas mãos. A escola ficou com 176,5 pontos na contagem geral.

Com o tema “Laços e abraços... Maranhão, cultura popular”, de Kléber Paiva e Pelado Júnior, a escola levou para a avenida quatro carros alegóricos, 20 alas, 250 ritmistas, cem baianas e cerca de 3 mil brincantes. Ganhar o vice-campeonato, na frente de grandes nomes Reino Unido e Vitória Régia, não podia acabar em outra coisa a não ser em samba. “Foi uma grata surpresa que orgulha o povo do São José e honra aqueles que lutaram muito para esse desfile”, disse Gilberto.

Na quadra da escola, os tambores rufaram aos gritos dos carnavalescos, alguns dos quais vestiram a fantasia para comemorar. A porta-bandeira Hermoginde Andrade Lima e o mestre-sala Kaleb Aguiar, ganhadores do galhardete entregue pela Rede Calderaro de Comunicação (RCC), diziam não ter palavras para traduzir tanta felicidade. “É maravilhoso sentir essa vitória, que tem sabor campeonato”, afirmou.

A dona de casa Vanda Pereira, 42, balançava uma bandeira da escola nas cores vermelho e branca, também para comemorar o que ela considerou um grande feito da Grande Família. Vanda, que desfilou na ala representando o babaçu, sentia-se orgulhosa pelo título de vice-campeã. “Nunca pensamos em chegar a tanto, mas fizemos por merecer.”

Vitória Régia promete não mais disputar

A Vitória Régia não vai mais disputar o Carnaval amazonense. O anúncio foi feito ontem, em tom de desabafo, pelo presidente da escola, Darlan Braga, indignado com o quarto lugar dado à escola, que ficou com 174 pontos na contagem geral. “Isso é um absurdo, falta de sensibilidade, de respeito e de conhecimento dos jurados que privilegiaram aqueles que tinham dinheiro”, assegurou Darlan.

Ele criticou o julgamento, questionando os critérios que levaram os jurados a dar nota 9 e 9,5 para quesitos como alegorias, adereços e harmonia. “Nós fizemos o melhor, com poucos recursos, mas mostrando uma escola bonita que, infelizmente, não foi reconhecida pelos jurados.”

Para o presidente, este resultado deixou claro que há cartas marcadas no Carnaval amazonense e só as grandes escolas, que conseguem arrecadar muito dinheiro, vencem. “Não adianta fazermos o esforço de mostrar o mais bonito porque só ganha quem tem dinheiro.”

Darlan criticou, ainda, o Governo do Estado por não incentivar como deveria o Carnaval amazonense. “É uma vergonha que o governo dê R$ 60 mil para uma escola, valor que não dá nem para fazer um carro alegórico, enquanto investe em outros tipos de festa”, disse ele, referindo-se ao CarnaBoi, evento promovido pelo Governo. Para ele, o Carnaval, que levou mais de 120 mil pessoas ao sambódromo, deveria receber mais atenção e recursos do Estado porque representa a cultura e a tradição do povo amazonense. “É uma vergonha não termos recursos do Governo para fazer o Carnaval”, assegurou.

Segundo Darlan, a Vitória Régia está fora da Associação do Grupo Especial das Escolas de Samba de Manaus (Ageesma) e nos próximos carnavais pode até desfilar, mas sem concorrer a títulos.

O presidente da Ageesma, Getúlio Lobo, ficou surpreso com a decisão da Vitória Régia e prometeu procurar os diretores da escola para conversar. “Vamos tentar demovê-los dessa decisão porque isso só vai prejudicar o Carnaval”, disse Lobo. Sem querer discutir as justificativas de Darlan Braga para a saída da Ageesma, ele acredita que a escola vai retroceder na sua decisão.

Ednaldo Atan, vice-presidente da Ageesma, também mostrou-se preocupado com a posição da Vitória Régia. “A escola deve repensar isso porque somos todos sambistas e queremos o melhor para o samba do Amazonas”, explicou ele, para quem atitudes como essa só trazem prejuízo.

Classificação emociona o carnavalesco

Aos 70 anos de idade, Antônio Soares de Oliveira, o mestre Maranhão, animador cultural, compositor, carnavalesco por convicção, radicado em Manaus desde sua adolescência, ficou emocionado com a classificação da escola A Grande Família. “Fico feliz por ter contribuído para que uma escola simples, da periferia de onde venho, do povão, tenha sido tão bem classificada diante de escolas com tanto dinheiro”, afirmou Maranhão, ontem à tarde, após conhecer o resultado.

Maranhão, que foi o fundador do Grêmio Recreativo Escola de Samba Barelândia, em 1980, do Parque 10, explicou que A Grande Família merecia esta classificação ou até mesmo o primeiro lugar, por ter levado para avenida do samba um enredo objetivo, contando a história e a cultura do povo amazonense. “Poucos fizeram isso”, disse ele, lamentando que a falta de dinheiro tenha limitado a escola, que poderia ter feito mais e conquistado o título de campeã.

Criador do “Garrote Luz de Guerra”, onde procurava manter-se fiel ao verdadeiro auto do bumba-meu-boi, Maranhão garante que a Grande Família fez um Carnaval autêntico, com um enredo que mexeu com os foliões no sambódromo. Ele, que brincava Carnaval quando a avenida Eduardo Ribeiro, Centro, era de paralelepípedo, acredita que a festa deve sempre buscar suas origens, sem fugir das tradições. “Hoje, só ganha quem tem muito dinheiro. Mas nós saímos bem e fico orgulhoso por ter contribuído para essa vitória.”

 

 

SAMBÓDROMO LOTADO

CarnaBoi animou mais de 200 mil

O CarnaBoi levou cerca de 200 mil pessoas ao sambódromo em duas noites de festa, na segunda e terça-feira. Gente de todo tipo brincou de boi bumbá em plena "pass do samba": drag-queens, vips, tiazinhas e tiozinhos (os mais abundantes), piranhas desgarradas do bloco que reuniu outras 40 mil pessoas no Centro Social Urbano do Parque Dez e as inevitáveis gangues de "jiu-jiteiros", puxando briga com todo mundo. Entre mortos e feridos salvaram-se todos, principalmente a alegria pelo surgimento de um Carnaval diferente.

O agito começou por volta das 21h30 de segunda-feira, com o trio da Caprichoso encabeçado por Robson Júnior, que entrou de forma tímida no sambódromo. Com pouca gente no rabo do trio e, aproximadamente, 30 mil brincantes nas arquibancadas, o que levantou mesmo a apresentação foi a dançarina Ivonice Mendonça, que mostrou para a galera como é que se vem ao mundo.

Na seqüência, o animal Carlinhos do Boi levou sua irreverência ao limite e colocou a galera para bailar ao som do "Uererê". Outros destaques de seu trio foram os dançarinos fantasiados de Batman, Mulher Gato, Mulher Maravilha e o menino prodígio Robin.

Levantador do Caprichoso, Renato Freitas usou toda a força do megatrio elétrico Pitt Bull – um gigante de quase 30 metros de comprimento e 30 mil watts de potência – e, com a ajuda da galera Força Azul e Branco (FAB), incendiou de vez o sambódromo com a cadência de suas toadas.

Por volta da meia-noite, com o bloco das Piranhas do Parque Dez já engatando marcha lenta, drag-queens e as próprias "piranhas" começaram a chegar ao sambódromo, trazendo muita alegria. Foi nesse momento que entrou na "passarela da toada" o trio de Ricardo Lyra, que apesar de ser levantador oficial do bumbá Garantido vinha com a FAB na frente e o Comando Galera atrás. A união das duas galeras agitando bandeiras azuis e vermelhas contagiou as arquibancadas lotadas e Ricardo fez uma das melhores apresentações da noite.

O ponto alto, contudo, ficou a cargo do "rei" David Assayag, que entrou por volta de 2h, quando o sambódromo já estava "anabolizado" ao extremo pela participação da "piranhas". David fez um grande show e arrebentou quando cantou a toada "Eterno Campeão", que abre o CD oficial do boi da baixa do São José de Parintins.

Com parte dos brincantes já se retirando, a tribo do Pop da Selva, Arlindo Júnior, que vinha comandada pelos levantadores Renato Freitas e Raiff Mattos, fechou a noitada, por volta das 4h de ontem, a primeira versão do CarnaBoi. Ainda se recuperando do acidente automobilístico sofrido no sábado, o Pop acompanhou quase todos os trios e ainda fez uma declaração de apoio à festa.

"Acertamos na mosca com a realização deste evento, que com certeza terá repercussão nacional e, no próximo ano, já deverá estar trazendo turistas para nossa cidade", comemorou o secretário Estadual de Cultura, Turismo e Desporto, Robério Braga.

Carnavalescos cobram apoio

Embora reconhecendo haver espaço para a realização do Carnaval e do CarnaBoi, evento promovido pelo Governo do Estado após o desfile das escolas de samba do Grupo Especial, presidentes das agremiações e organizadores do Carnaval amazonense cobraram mais apoio da administração estadual para realização da festa.

"Pelo menos 150 mil pessoas, entre platéia, brincantes e pessoal da organização foram ao sambódromo neste Carnaval, demonstrando que esta é uma festa popular, da nossa cultura, e que merece mais atenção dos órgãos oficiais", disse Ivo Carneiro, coordenador do Carnaval, promovido pela Rede Calderaro de Comunicação (RCC).

Ivo explicou que por ser feito pelas comunidades organizadas nos bairros de Manaus, o Carnaval é o espetáculo ao qual as famílias vão assistir, diferente do CarnaBoi, no qual a maioria dos jovens vão para dançar. São públicos diferentes, acentuou ele. "Enquanto os jovens vão para o CarnaBoi, as famílias vão ver os desfiles das escolas de samba, e isso é bonito", completou.

Roquelane Alves, da Unidos do Alvorada, foi outro que cobrou do Estado mais apoio às escolas de samba. "Eu acho que o Governo tem que fazer o CarnaBoi, mas não pode deixar de investir mais no Carnaval porque este é feito pelo povão", afirmou ele. Ednaldo Athan, da escola campeã deste ano, a Aparecida, também defendeu mais investimentos do Governo no Carnaval. "Tanto o CarnaBoi quanto o Carnaval têm seus espaços, mas o Governo não pode deixar de investir mais no Carnaval", opinou.

 

‘VERDINHOS’ EM AÇÃO

Desfile deixou mais de 250 toneladas de lixo

O Carnaval dos "verdinhos", como são chamados os garis do Departamento Municipal de Limpeza Pública (Demulp), foi de muito trabalho. Mais de 250 toneladas de lixo foram retiradas só do sambódromo. Nas ruas por onde passaram blocos e bandas, o trabalho também foi redobrado. Só no Bloco das Piranhas, no CSU do Parque Dez, foram retirados nos três dias de festa 120 toneladas de lixo. O diretor do Demulp, Francisco Mendes, passou o dia percorrendo os lugares onde havia acúmulo de resíduos. "Todo o nosso efetivo passou o Carnaval trabalhando. Não paramos em nenhum momento". Foram, ao todo, 1,5 mil profissionais envolvidos.

No CSU do Parque Dez, ontem, a área já estava completamente limpa. Os coordenadores do Bloco das Piranhas contabilizavam o sucesso do evento: mais de 50 toneladas de alimentos não perecíveis arrecadados. Hoje, eles irão definir quais as entidades que serão beneficiadas.

No sambódromo, a limpeza também já havia sido concluída. Somente na área lateral, os carros alegóricos e outras fantasias deixavam um aspecto de abandono do lugar. Oito crianças pegaram os bonecos de isopor e os fizeram de barco em um igarapé que corta a Vila Olímpica.

O diretor do Demulp sugeriu que as escolas e organizadores do evento estipulassem um prazo máximo para a retirada dos carros alegóricos. "Os carros pertencem às agremiações e não é nossa competência retirá-los dali", explicou. O relações-públicas da Ageesma, Luisinho Sá, informou que na próxima segunda-feira as escolas de samba irão se reunir com o vice-prefeito, Omar Aziz, para ver se conseguem um terreno onde possam colocar as ferragens e outros materiais das alegorias.

 

ALERTA EM PASSEATA

Mulheres querem reconhecimento

Ontem, no Dia Internacional da Mulher, uma passeata serviu de alerta para a falta de reconhecimento das conquistas femininas. A manifestação foi realizada à tarde por fiéis da igreja Santa Maria, no Núcleo 16 da Cidade Nova, Zona Norte. “Ainda enfrentamos muita discriminação e queremos lutar contra isso”, disse a dona de casa Suzineide Mendes de Lima, 33, uma das organizadoras do evento. Além de mulheres, a passeata reuniu também homens que marcaram presença apoiando as conquistas femininas.

A passeata denominada “A mulher à luz de Maria” reuniu pouco mais de cem pessoas, mas chamou a atenção dos moradores da Cidade Nova. A educadora Ocirema Pessoa, 39, coordenadora da passeata, disse que o dia 8 de março serviu não apenas para refletir a situação da mulher, mas também para alertar sobre a importância de resgatar a dignidade humana. “Aproveitamos o tema da Campanha da Fraternidade, que é ‘Dignidade Humana e Paz’, para discutir a situação do ser humano em todos os setores da sociedade.

Melhores condições de trabalho, maior participação na política e economia, e salários iguais aos dos homens foram as principais exigências das manifestantes. A educadora Maria Rita Silva, 33, disse que a luta hoje não se restringe à discriminação feminina, mas contra a exploração e marginalidade que atinge a todos, como o desemprego. “Vemos hoje mulheres e homens desempregados por culpa de uma política neo-liberal que empobrece a população”. Ela disse que a mulher precisa despertar para sua importância na sociedade, porque desempenha função de educadora dos filhos, tornando-os cidadãos.

O engenheiro agrônomo Oto Gil da Silva, 36, disse que acompanhou a passeata porque era necessário “quebrar alguns tabus” numa sociedade machista. Ele justificou que estava no movimento para dar um bom exemplo. “Um marido quando discrimina sua esposa comete um grave erro porque seus filhos também adotarão esse comportamento. É preciso quebrar esse ciclo”, enfatizou.

Hoje, as mulheres representam 51% da população brasileira e 49% dos eleitores do País. O dia 8 de março foi instituído Dia Internacional da Mulher porque nessa data, em 1857, 139 operárias foram queimadas no interior de uma fábrica em Nova York ao exigirem melhores condições de trabalho.

A apresentadora de TV Norma Araújo, 46, destacou que mulheres ainda são pouco remuneradas pelas tarefas que fazem. “É lamentável, mas é comum ver mulheres fazendo a mesma tarefa que homens e ganhando menos”, acrescentou.

 

POLÍCIA SE SURPREENDE

Índice de violência cai nos cinco dias de folia

O que aconteceu de especial neste Carnaval para que o índice de violência tenha sido extremamente inferior ao dos anos anteriores? Essa, certamente é uma pergunta que, em princípio, intrigou e até surpreendeu algumas autoridades policiais. Mas elas atribuem a redução de casos policiais ao forte esquema de segurança montado pelas Polícias Civil e Militar. Em cinco dias de plena folia, os dois principais prontos-socorros de Manaus atenderam, juntos, mais de 1,8 mil pessoas entre os dias 3 e 7. Nesse período, a PM registrou apenas dois homicídios.

Mesmo assim, a maioria dos pacientes atendidos pelos Prontos-Socorros João Lúcio, na Zona Leste, e 28 de Agosto, na rua Recife, foi encaminhada à clínica médica. Grande parte dos casos foi de dores de cabeça, barriga, embriaguez e pequenas lesões. A Polícia Militar recebeu mais de 1,17 mil chamadas pelo telefone 190, de emergência, pelo menos um terço de trotes, segundo o Centro de Comunicação da PM (Cecompom), o que transformou o Carnaval 2000 num dos mais tranqüilos dos últimos anos.

O mais intrigante é que a violência não foi inferior apenas no Amazonas. Grandes cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, campeãs em crimes, também registraram uma queda nos números de ocorrências em comparação a outros anos.

Para o delegado-geral da Polícia Civil, Vinícius Diniz, parte do mérito deve-se ao esquema montado pela instituição, que este ano inovou e manteve os plantões, de sexta-feira passada até ontem, em 22 delegacias, dentre distritos policiais e especializadas, funcionando 24 horas.

“Onde chegava uma reclamação, por menor que fosse, nossos policiais checavam e resolviam, o que inibia a seqüência da ação, que geralmente termina em homicídio”, explicou o delegado-geral. Vinícius afirmou que esta é a primeira vez que o plano dos plantões é colocado em prática.

Segundo ele, nos anos anteriores apenas quatro plantões funcionavam no período do Carnaval e isso acabava estrangulando as ações da polícia. O delegado acredita, também, que a notícia de que a Polícia Civil iria colocar nas ruas durante o período carnavalesco todo os seu efetivo e funcionar com todas as delegacias inibiu a delinqüência.

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