Em primeiro lugar, é indispensável
que o discípulo que será guiado pela Tríplice Visão
possua fé, pois se diz no Dashadharma Sutra:
"Nenhum bom resultado poderá aparecer em casa do homem desprovido de fé, como a semente queimada pelo fogo não dará nenhum fruto”.
Se fé é ausente, até mesmo
a fundação da virtude se acha ausente.
Não se pode então seguir a via
da liberação. Nenhuma qualidade própria do Dharma
dos Buddhas pode ser alcançada, nenhuma bênção
do Lama ou das três jóias (Buda, Dharma, Sangha) pode ser
obtida. Se se quer pôr o Dharma em pratica, fé é indispensável.
"Fé é um preliminar indispensável
como a mãe.
Ela é fonte de todas as qualidades
que dela faz prosperar. Dela se dissipa as dúvidas e permite de
cruzar as corredeiras (do sofrimento).
Fé é a marca da cidade da felicidade.
Fé faz o mente claro e puro, põe
fim na vaidade e é raiz da humildade.
Fé é o melhor dos tesouros,
das jóias, é como as pernas que nos levam, como os braços
que nos permitam de recolher as virtudes. " (Ratna pradipa Sutra)
Que é fé?
O Abhidharmakosha diz:
"Ela é confiança nos atos, seus resultados, na verdade e nas jóias; ela é também aspiração e profunda apreciação."
Uma pessoa dotada desses três tipos de
fé - profunda apreciação, aspiração
e confiança - não deverá em nenhum caso abandonar
o Dharma sob pressão de um ou de outro dos quatro causas.
Estas quatro causas são: desejo, ódio,
medo e ignorância.
Aquele que não abandona o Dharma, até
mesmo sob efeito do um dentre elas, é uma pessoa na qual fé
não pode ser destruída pelas obras de um demônio.
Não abandonar o Dharma sob o efeito
do desejo significa que, sabendo os prejuízos da avidez, não
se desencaminhará do Dharma, até mesmo se com tal conduta
obteria as riquezas da realeza.
O mestre Maitreya diz:
"A felicidade do Samsara é efêmera. Mesmo se não tem nada a esperar, o ignorante a procura. O pesquisador obstinado da liberação se afasta disso, até mesmo das riquezas que obtenha realeza".
Não abandonar o Dharma sob efeito do ódio significa que:
"Um só acesso de cólera carregada
de ódio reduz a nada os empenhos virtuosos tal como a prática
do dom, das oferendas aos Sugatas e outras virtudes acumuladas durando
mil éons.
Não há pior falta que o ódio,
nem maior ascetismo do que a paciência.
Aplique-vos assim à paciência.
Procurem de diversos modos a meditar a paciência."
(Bodhicaryavatara)
Abandonar o Dharma sob efeito do ódio
ou da cólera não faz nenhum mal ao nosso inimigo, mas contra
nosso próprio bem.
Reconhecendo os mal-feitos de tal ódio,
não se deve desencaminhar assim do Dharma.
Não abandonar o Dharma sob efeito do
medo significa que até mesmo se qualquer um nos ameace de nós
matar se nós continuarmos a atuar em harmonia com o Dharma, ou de
nos desprover de todas nossas posses, nós não nos deixaríamos
intimidar.
Sabendo que medos ou sofrimentos desta vida
não são nada em comparação com os dos infernos,
não nos desencaminharemos do Dharma.
O mesmo texto nos diz:
"Mesmo se todos os deuses e anti-deuses se voltem contra mim, eles não seriam capazes contudo de ter sucesso em me mergulhar no fogo eterno dos infernos. Durante o encontro com este poderoso inimigo eu seria reduzido a cinzas".
Conforme este texto não abandonar o Dharma sob efeito da ignorância significa que:
"As pessoas sofrendo de doença são incapazes de agir. Inclusive quando o mente se acha sob o predomínio da ignorância, não se pode ter sucesso em nada no Dharma."
Entendendo que todas as faltas provêem da ignorância do bem e do mal, se se quer superar esta lacuna, será necessário seguir o texto que diz:
"Aprenda como servir a seu Lama. Você saberá seguir os seus discursos e Sutras do Buda."
Em suma, não se desencaminhar do Dharma em troca de uma dessas quatro condições contrárias, assegura o sucesso na via do Dharma.
O Ratnavali afirma:
"O ser cheio de fé é aquele que
não se desencaminha do Dharma sob efeito de uma conduta nascida
do desejo, ódio, medo ou ignorância.
Ele constitui o melhor receptáculo
de todas as virtudes".
Reconhecendo assim fé como a raiz de
todas as qualidades, para não perder o tesouro que nelas se constituem
e fazer prosperar, devemos rezar ao Lama e às
três jóias (Buda, Dharma, Sangha),
e entender os atos dos seres santos, ler os Sutras, evitar companhia de
amigos ruins e ao contrário buscar amigos de conduta pura.
É necessário assim se aplicar
a todas as possibilidades de fazer produzir e sobressair o campo da fé.
"Aquele que aspira pôr um termo ao sofrimento e chegar ao início da felicidade, deverá consolidar a raiz da fé e voltar firmemente seu mente para o despertar." (Shiksha Samuccaya)
A fim de dar a luz a fé nos que são desprovidos e consolidar em casa desses que a possuam, é bom de escutar as narrações da vida dos Lamas da linhagem espiritual que se segue, de desenvolver seu fervor e continuidade; enfim, de se direcionar as orações que o ensino nós transmite.
Uma tal pessoa desprovida de fé deve fazer a prática num lugar cujas qualidades são descritas no Sutralankara:
"O lugar escolhido para a prática do sábio deve ser bem abastecido, auspicioso. Ele deve desfrutar de um muro de qualidade, de companhia de nobres companheiros e reunir todas as condições conducentes ao sucesso do empreendimento."
"Bem abastecido" significa que deve ser fácil de se obter comida tal que esta seja provida.
"Auspicioso" se refere à segurança do local escolhido, este deve ser destituído de ladrões ou outros malfeitores.
A "boa qualidade do muro” se refere à qualidade da terra e da água, que deve abastecer a fim de não provocar males.
Companhia de "nobres companheiros" significa que a companhia humana não deve contribuir para a multiplicação dos impulsos maus ou das faltas.
"As condições conducentes ao sucesso do empreendimento" são a ausência de multidões humanas de dia, inclusive a ausência de barulho à noite.
Ele é assim aconselhado a praticar dentro de um lugar tal como nós descrevemos.
Como ele deve sentar-se?
É necessário adotar uma postura de meditação correta, as pernas cruzadas na postura Dorje ou outra, mas evitar ficar inclinado. É dito no Bhavanakrama:
"Tendo colocado diante de si uma estátua ou uma imagem de Buda ou de Bodhisattva, se cumprirão as oferendas e outras praticas, se mantendo sobre uma almofada confortável na postura do Buda Vairocana ou na postura meio-lotus."
A meditação que se deve praticar
se compõe normalmente de uma parte preliminar, constituída
da tomada de refúgio e outras orações, depois o principal
assunto próprio da meditação, e por fim uma conclusão
constituída pela distribuição das virtudes adquiridas
assim como a manutenção no mente do sentido da meditação.
Essas duas partes, a preliminar e a conclusão,
terão de ser acrescentadas a todas as meditações.
Aqui, contudo, o refúgio constitui
o corpo da meditação principal, e nós vamos descrever
em detalhe, desenvolvendo os cinco pontos que o caracterizam: causa, objeto,
a maneira, as bondades e os regulamentos a seguir.
I- CAUSA DO REFÚGIO
Há três causas suscetíveis de refúgio: medo, fé e compaixão.
Que significa tomar refúgio sob efeito do medo?
Procura-se refúgio quando se tem medo do sofrimento da queda para si mesmo ou para outrem.
"Desde o passado eu tenho desobedecido a seus conselhos e eis que me mantenho confrontando grande medo. Procurando em você meu refúgio, eu lhe suplico de dissipar depressa este medo."
Aqui se tem a resolução de apoiar-se sobre um refúgio seguro a fim de escapar ao sofrimento no qual se acha ou para outrem.
Acerca de compreender o refúgio sob
o efeito da fé, isso consiste em desenvolver fé vinda de
uma profunda apreciação das qualidades do objeto de refúgio,
que possue poder de acabar com o medo do sofrimento.
Fé pode também provir do desejo
de obter um estado idêntico àquele do objeto do refúgio.
Este pode também ser fé na confiança, na profunda
verdade da lei de produção dos fatos em função
de causas e de condições.
Esses três tipos de fé incitam
à busca dum refúgio.
Buscar refúgio a partir da compaixão
é próprio de uma pessoa pertencente à via do Mahayana.
Esta pessoa é levada ao refúgio
diante da observação do sofrimento de outrem, que
ela não pode tolerar, imaginando como
ela suportaria se ela mesma se confrontasse com uma tal situação.
Tocada pela compaixão, ela procura um refúgio a fim de proteger o outro do sofrimento.
Em resumo, se dirá que é muito importante de tomar refúgio relativamente às três causas que nós vimos de descrever, pois tomar refúgio sem pensar não pode dirigir a nenhum bom resultado.
"Toda prática de recitação de mantras ou de outro ascetismo, até mesmo realizada durante muito tempo, se é feita com mente distraído e ocupado em outro lugar, é desprovida de senso. Assim falou o onisciente Buda."
II- OBJETO DO REFÚGIO
Ainda que não importem as diferenças dos objetos do refúgio em função dos três veículos - grande ou pequeno - em funç&atildde;o dos limites da realização (escolas de pensamento) no interior desses veículos, no que nos concerne aqui, o primeiro objeto de refúgio é o Lama e sua própria linhagem de mestres. O Lama é o mestre que nos revela a via de purificação.
- O segundo objeto de refúgio é a jóia do Buda que desfruta de todas as necessidades pessoais tal como a posse dos corpos de Dharma, livre de todo defeito e dotado de todas as qualidades. Ele possua também o poder da realização do bem para outrem, o que ele cumpre com seus corpos que permanecem tão longo tempo quanto dura o Samsara.
- O terceiro objeto do refúgio é a jóia do Dharma que se compõe da parte doutrinal dos Três Cestos e dos Doze Membros da Fala do Buda, e da parte da realização sob forma das Três Práticas ou dos dois aspectos da cessação do sofrimento e do caminho para lá dirigido.
- O quarto objeto de refúgio é a jóia da comunidade, constituída por todos os eminentes seres que possuem um grau de adiantamento tal que eles não têm mais que volver forçados para o mundo, e por todos os seres ordinários os quais estão na via antes de mim mesmo.
III - COMO TOMAR REFÚGIO?
Comece por prostrar-se diante as imagens dos
Lamas e das três jóias (Buda, Dharma, Sangha), fazendo oferecimentos
etc. Sente-se então sobre uma almofada confortável na postura
de meditação. Imagine que a assembléia dos Lamas,
dos Buddhas e de seus filhos assim como todos seus discípulos se
acham de fato presentes no céu na frente de si mesmo, que se está
mesmo em companhia de todos os seres vivos dos seis estados, dentre os
quais nosso próprio pai e mãe, e unindo as mãos em
prece de humildade física.
Demonstra-se além disso vocalmente
seu respeito em recitando os versos de refúgios.
Fazendo assim, se desenvolvem em seu mente
uma grande fé e uma grande humildade, considerando que no passado
e em um grande número de existências antecedentes, nós
não consideramos seguir os preceitos de nossos mestres.
Não tendo tomado as três jóias
(Buda, Dharma, Sangha) como refúgio, isso nos fez suportar um grande
número de sofrimentos na roda de existência.
O praticante mantém essas resoluções:
"Daqui em diante, até obter o despertar,
eu não colocarei mais esperanças que na compaixão
do Lama e nas três jóias (Buda, Dharma, Sangha).
Dentro de um mente de perfeita confiança,
eu pensarei que o Lama e o Buda são os mestres que revelam a via
da perfeita liberação, que o Dharma é a via e que
a comunidade (Sangha) representa os companheiros na pratica da via. Então
eu suplicarei ao Lama e às três jóias (Buda, Dharma,
Sangha) para que, em sua onisciência, eles façam de modo que
todos os atos dos corpos, da fala e da mente de todos os seres vivos sigam
a via dos Buddhas.
Eu pensarei além disso que, assim como
eu, que todos os que tomarem o mesmo refúgio, os seres do espaço
infinito, sigam meu exemplo."
Recitará assim um grande número de vezes e do fundo do coração, a fórmula do refúgio dividida em quatro partes.
Para concluir, se prosterne diante do Lama e das três preciosas jóias, tomando refúgio neles e rezando assim:
"Eu vós peço de bem aprazer afinar vossa bênçãos a meu continuum mental. Abençoem-me a fim de que minha mente se incline para o Dharma; a fim de que eu possa praticar a via do Dharma; a fim de que os enganos sobre a via se dissipem; a fim de que esses enganos me apareçam como conhecimento transcendente; a fim de que, por nenhum momento, minha mente seja atravancada pelos inimigos para o Dharma; a fim de que do mais profundo de meu ser nasça amor, compaixão e uma mente de despertar autênticos e a fim de que eu obtenha depressa o estado de Buda onisciente perfeitamente realizado."
Se se desejar recitar o refúgio por versos:
"No glorioso Lama raiz e na sua linhagem que
é a quintessência dos corpos, da fala, da mente, das qualidades
e da atividade divina
de todos os Sugatas dos três tempos
e dos dez direções,
fonte dos oitenta mil doutrinas do Dharma,
o mestre supremo da eminente comunidade,
a partir de agora e até obter o despertar,
eu mesmo e todos os seres das três esferas
do espaço infinito,
nós tomamos refúgio com maior
reverência de nossas três portas
nos Buddhas que são os mestres que
alcançaram a perfeição da renúncia e da realização,
nós tomamos refúgio com maior
reverência de nossas três portas
no Santo Dharma que é a doutrina de
duas partes, teórica e de realização,
nós tomamos refúgio com maior
reverência de nossas três portas,
Na suprema comunidade dos que detém
os Ensinamentos dos Buddhas e de seus filhos,
nós tomamos refúgio com maior
reverência de nossas três portas”.
Esta oração deve ser recitada tantas vezes quanto for possível. Então continua assim:
"Diante do Lama e das preciosas jóias, nós nos prosternamos tomando refúgio. Eu peço de bem aprazer conceder suas bênçãos a meu corpo, fala e mente assim como todos os seres vivos.
Abençoe-nos a fim de que nossa mente se incline para o Dharma; a fim de que nós pratiquemos corretamente; a fim de que os enganos e ilusões encontradas na via desapareçam; a fim de que os erros apareçam como conhecimento transcendente; a fim de que as preocupações estranhas ao Dharma desapareçam; a fim de que amor e compaixão possam nascer; a fim de que nós possamos praticar ambas as mentes de despertar, e a fim de que nós obtenhamos depressa o estado de Buda."
Tendo rezado assim, se imaginará que os objetos de refúgio nos olham com sua sabedoria transcendente onisciente; que eles nos consideram com sua compaixão benevolente; que eles nos protegem com sua divina atividade; que eles nos guardam e nos abençoam com seu poder de proteção.
Para concluir, dedique o mérito dessa meditação pelo bem de todos da maneira seguinte:
Ao sair da meditação, nós devemos desejar que a virtude adquirida permita a todos os seres vivos que têm algum dia sido nossas mães de realizar ambos objetivos, seu e de outrem, e alcançar o estado de Buda. Poderá além disso recitar versos compostos pelo mestre Nagarjuna assim como outros que souber.
Em todos os intervalos entre as sessões
convém se recordar das qualidades das três jóias (Buda,
Dharma, Sangha) e de não se achar em contradição com
o refúgio, cultivando ainda o desejo de seguir seus ensinamentos.
É muito importante ainda se recordar
da prática, pois se diz que uma virtude desprovida desta memória
perde tudo o sentido.
"A desatenção é como um ladrão que, acompanhando nosso esquecimento nos rouba os merecimentos acumulados e nos dirigindo de volta para os ruins estados de renascimento."
Assim, se desejar conservar o método é necessário principalmente controlar nossa própria mente.
"Quem deseja manter uma disciplina deverá
manter um controle estrito sobre sua própria mente. Se não
controla sua mente, é impossível de manter uma disciplina".