O que é meditação

Krishnamurti


NESTA TARDE desejo falar sôbre um assunto tão importante como o tempo, a morte e o amor, a cujo respeito estivemos falando outro dia. É necessário compreendê-lo, porque compreendendo o que é a meditação, estaremos aptos a compreender o tão complexo problema do viver. A meditação não é coisa separada do viver. Para se compreender o conteúdo, o significado a beleza e a grande profundeza do viver, com suas aflições, suas ânsias e temores, e necessário compreender igualmente o mui complexo problema ou questão da meditação.

Para o examinarmos um tanto profundamente, se possível, a esta hora, é necessário, antes de tudo esclarecer que não vamos lançar as bases de nenhum sistema, método ou exercício, porem simplesmente investigar, pois o simples ato de investigar e compreender a meditação, é meditação. Por conseguinte, em primeiro lugar, devemos ver, por nós mesmos, com muita clareza, o que não é meditação, e o que é meditação. São duas coisas muito distintas: o que é e o que não é. Examinaremos primeiramente o que não é meditação: e, pela rejeição daquilo que não e meditação, começaremos a descobrir o que e meditação.

Ora, quando fazemos uso da palavra “rejeitar”, com ela não queremos referir-nos a uma rejeição intelectual de palavras, porem, antes, à rejeição daquilo que pensamos ser a correta maneira de pensar, à rejeição de todos os sistemas, métodos, das futilidades que a mente inventa, na esperança de apreender algo de misterioso. E, para rejeitar, requer-se, não só raciocínio, análise, equilíbrio, mas também, acima de tudo, inteligência; e tudo isso exige energia. Não se pode rejeitar coisa nenhuma apenas verbalmente, pois, nesse caso, a rejeição nenhum significado tem na vida. Não se atingem as profundezas de nosso ser se, incidentalmente, esporádica ou ocasionalmente, rejeitais alguma coisa. Mas, se perceberdes de maneira total o significado de uma coisa e, depois, com a compreensão dessa totalidade, a rejeitardes, ela terá sido, então, eliminada de vosso método, de modo que podereis aplicar vossa energia e vossa atenção numa direção totalmente diferente. É o que vamos fazer nesta tarde.

Vamos meditar conjuntamente; vamos conjuntamente explorar êsse nosso estranho viver — que tão desvalioso parece que o homem vive a buscar, para êle, um alvo, uma finalidade. Estamos, todos juntos, investigando, cada um por si, o verdadeiro significado, e a profundeza, e a beleza, e a glória do viver. E essa investigação tem de ser feita com uma mente muito esclarecida.

Assim, em primeiro lugar, necessitamos de um espírito crítico, não disposto a aceitar coisa alguma, nem mesmo a própria experiência. Porque somos por demais ingênuos, queremos crer, queremos aceitar e ser guiados; e, visto que nossa própria vida é tão cheia de incerteza, de confusão, de mesquinhez, temos esperança de que um certo guru, um certo método — mesmo muito antigo — nos ajudará de alguma maneira a transcender esses conflitos, essas angústias e desditas. E, assim, estamos muito dispostos a aceitar todo aquêle — principalmente a pessoa religiosa, o sanyasi, o guru — que nos oferece um certo método de meditação; mas, dessa mesma pessoa religiosa devemos duvidar. Um ente humano inteligente, desperto, equilibrado, não deve “aceitar” nenhuma pessoa religiosa, inclusive a minha própria. Porque tanto tememos as coisas da vida — a perda do emprêgo, a morte, as incertezas, o êrro, a impossibilidade de alcançarmos o que chamamos Deus, aquêle mistério que o homem vem procurando desvendar através dos séculos; porque nossa vida é tão insignificante, tão sem valor e superficial, e nosso espírito também tão superficial, vulgar, infantil, preferimos “aceitar aquele que diz: “Eu sei, vós não sabeis; portanto, segui-me !“ — Não fazemos uso de nossa razão, nosso senso-comum; por isso, permanecemos insignificantes, superficiais.
Mas, se começardes a questionar, a duvidar, a exigir, a ser “impiedoso” com vós mesmo e com todo aquêle que vos oferece algum método — estais então no verdadeiro “estado de investigação”. A menos que vos investigueis profundamente, em vosso interior, não tendes possibilidade de descobrir o que é verdadeiro.
Ninguem vos pode levar a esse descobrimento, e, por consequencia, nenhum sistema. A verdade nao e uma coisa estática, que fica a vossa espera, enquanto seguis um sistema uniforme, enquanto praticais dia a dia um certo método, enquanto aprimorais a vossa mente e o vosso coração para alcançar aquêle estado a que chamais “a verdade”.
A Verdade não espera por vós!
Por conseguinte, cumpre perceber que todo método — não importa por quem tenha sido estabelecido — Buda, Sankara, ou em quer que seja — só pode amesquinhar mais ainda a mente. Porque, praticando, dia após dia, um certo sistema a mente se torna mecanica. Quando a mente pratica seguidamente uma certa coisa, assemelha-se àqueles que praticam pula todos os dias, repetindo, interminàvelmente. palavras, palavras, palavras sem muita significação. O puja. a meditação que praticam, nada têm em comum com o seu viver. São indivíduos embusteiros, ambiciosos, ávidos, cheios de rancor e de inveja, nunca deixam de “recolher-se a seu canto”, em casa, para meditar — mas continuam com a mesma hipocrisia de todos os dias.
Assim, sua mente, que já é mesquinha, que já é superficial, que já está a mistificar a si e ao próximo; sua mente, por mais que pratique um método e por meio dêle espere alcançar seus pequeninos deuses, nunca descobrirá o que é verdadeiro. Por conseguinte, permanecem êles, dia após dia. na angústia, no sofrimento, num estado de total confusão. Portanto, e necessário que cada um perceba com tôda a clareza, por si próprio, a total futilidade do hábito mecânico, do seguir um método.
Vêde, por favor, estamos aqui investigando juntos. Não estais aceitando minha palavra. Não estais substituindo o vosso guru por êste orador; isso seria verdadeiramente desastroso. Mas, estamos aqui em comunhão, com o fim de descobrirmos a Verdade, de descobrirmos por nós mesmos o estado de espírito próprio da meditação — descobrir êsse estado de espírito e não o como meditar.
Como dissemos, o método, por mais bem fundado, e consolidado pela tradição, não pode conduzir o homem a outra coisa senão a um resultado mecânico. Podeis ver e praticar uma certa coisa diàriamente; mas, isso não libertará a vossa mente das penas e da solidão e da agonia da vida. Ternos de compreender isso, e não um certo deus espúrio inventado pelo homem. Todos os deuses são invenções do homem; porque a verdade não pode ser descrita; o desconhecido não pode ser formulado em palavras; ao que não tem nome, não se pode dar nome; a mente tem de alcançá-lo impremeditadamente, — inocente, fresca, não-contaminada.

Assim sendo, o método, a infinita repetição de palavras, não levam ninguém a Verdade. Tampouco as orações, que são meras súplicas. Orais porque desejais felicidade, prazer, porque desejais algo. Desejais a paz na terra, e por ela rezais. Não podeis ter paz na terra, rezando. Só haverá paz na terra se fordes pacífico. Deus não vai dar-vos a paz; vós tendes de ser pacífico quer dizer, sem rivalidades, nem ódio, nem violências, nem divisões de nacionalidades; sem serdes muçulmanos, ou hinduístas, ou sikhs, ou parás, chineses, russos ou americanos. Tendes de ser pacífico; e, então, tereis a paz na Terra.

Quando em vosso coração, em vosso espírito, sois pacífico, então não orais, nem precisais de ajuda alguma. Assim, as orações das igrejas, dos guias, e dos santos, que estão simplesmente explorando o povo, nada significam, nenhum valor têm. A oração poderá produzir um certo resultado — um resultado mecanico. Há pessoas que rezam, não para terem Deus, para terem paz, mas para terem as coisas que desejam. Desejam geladeiras, casas, prosperidade desejam dinheiro, desejam passar em seus exames. E qual a diferença entre essas pessoas e aquelas que rezam para terem o céu, a paz? Não há diferença.

Precisamos, pois, compreender o significado da oração. O homem que reza para ter uma geladeira, a obtém, porque concentrou o espírito e tôdas as energias nesse desejo de uma coisa fora dêle próprio. Mas, a paz não está fora de vós. Vós tendes de criá-la, de torná-la existente; deveis deixar de ter nacionalidade. Estamos aqui em comunhão uns com os outros; não estais apenas a escutar-me. Se desejais a paz, deveis deixar de ser sikh, muçulmano, pará; tendes de trabalhar pela paz. E a oração é uma fuga a isso.

Assim sendo, os métodos — a repetição de palavras, de orações — não conduzem o homem a verdade, visto que são processos egocêntricos a serviço de interêsses egoístas. E a mente vulgar que ora, que pede, que solicita, que repete palavras, em circunstância nenhuma pode descobrir o que se acha além das palavras. Vós e eu estamos, nesta tarde, falando a êste respeito; estamos rejeitando tudo aquilo, não verbal ou intelectualmente, porém realmente, porque se trata da verdade — não porque o orador o diga, mas porque o é de fato. E quando se percebe claramente uma coisa como fato, pomo-la de parte, porque já não tem significação alguma.

As várias posturas que uma pessoa assume na chamada meditação, o respirar corretamente, o sentar-se corretamente, e demais exterioridades superficiais, têm um certo efeito de quietar o corpo. Naturalmente, se uma pessoa se põe a respirar regularmente, tranqüilamente, o organismo físico se torna quieto; mas sua mente continua superficial. Não se pode tornar a mente ampla, profunda, sã, vigorosa, lúcida, por meio da respiração. Podeis fazer isso durante dez mil anos, e continuareis com a mesma mente vulgar. Isso, portanto, precisa também ser posto de lado.

E há, também, as novas drogas que se estão experimentando na América e na França: Mescalina, L. S. D. -25, etc. Muitas pessoas as tomam para terem uma experiência extraordinária do real; pensam que, tomando uma pílula, se transportarão ao nirvana. O efeito dessas drogas (nós não as experimentamos!) é êste: tornam, temporàriamente, o sistema nervoso supersensível, superaguçado. A mente se torna muito alertada, muito sensível, penetrante, lúcida; vê as coisas muito mais intensamente; a flor se torna então muito mais bela. Mas os efeitos dependem da pessoa que toma a droga; se já tem ligeiras disposições artísticas, ou filosóficas, ou supersticioso-religiosas, terá a adequada experiência; e esta, naturalmente, lhe dá um extraordinário sentimento de ter apreendido algo de misterioso. Como sabeis, se um homem toma uma bebida alcoólica, esta o ajuda a vencer suas inibições e êle se sente, naquele momento, extraordinàriamente livre, fala com desembaraço e sutileza. Mas, nem o bebedor, nem o homem que toma drogas de qualquer espécie, está mais perto do Real. Talvez o “pecador”, o homem que não toma drogas, não segue gurus nem se senta numa certa postura, pensando, meditando, mesmerizando-se talvez esse homem, que chamais 'pecador, esteja muito mais perto', porque não finge ser o que não é, e sabe o que é.
Vemos, pois, que nenhum desses sistemas — orações, repetição de palavras, imagens, respiração, drogas — que nada disso dará resultados, porquanto a mente continua superficial. Esta é, pois, a primeira coisa que se precisa compreender: que a mente vulgar, a mente superficial, a mente confusa, o que quer que faça a fim de fugir de si própria, nunca encontrará “o que não tem nome”. Compreendido isso, o indivíduo retorna a si próprio.
Ora bem. É isso o que vamos fazer, vós e eu, nesta tarde — não teórica, porém realmente. Vós e eu vamos encarar-nos de frente, olhar-nos, impiedosamente; e, como resultado dessa observação de nós mesmos, a qual requer uma certa vigilância — de que trataremos mais adiante — estaremos aptos a descobrir o que realmente somos, o fato, o que é, e não o que deveria ser, que é pura imaginação. E daí, então, poderemos prosseguir. Isso temos de fazer juntos. Não estais aqui puramente a escutar-me; estamos aprendendo juntos. Para compreender, não deveis estar confundidos por sistemas, métodos, orações, crenças, etc. Tudo isso tem de ser pôsto de parte; isso será muito difícil para a maioria das pessoas, que querem crer. A mente que crê é a mais vulgar e a mais estúpida. Podeis crer, mas só “experimentareis” aquilo que credes, naturalmente.
Temos, pois, de compreender todo esse processo de “experimentar”; disso vamos tratar agora. Para a maioria de nós, o viver diário é desestimulante e muito pouco significativo. Passar todos os dias pela entediante rotina do emprego, ter um pouco de satisfação sexual, ocasionalmente, ter problemas inumeráveis, causadores de ansiedades, de medo, de aflição, e um ou outro momento de alegria — tal é nosso caminho costumeiro, nossa vida. A esse gênero de vida queremos furtar-nos; sendo tudo aquilo de tão pouco valor, queremos sensações diferentes, experiências diferentes e diferentes visões. Assim sendo, tratamos de procurar outra coisa. Queremos experiências mais grandiosas. Prestai atenção à psicologia, à razão, a sensatez do que estamos dizendo. Queremos experiências mais amplas, mais profundas, mais plenas; e as temos em conformidade com nosso fundo, nosso condicionamento.
Quando falamos de experiência, entendemos “reação a um desafio”, a reação a um desafio da sociedade, da economia social. etc. —, repito: reação a um desafio. E essa reação ao desafio é "experiência”; é o resultado de vosso condicionamento, como hinduísta, como budista, comunista, técnico, etc. Esse é o vosso fundo, vosso temperamento, vosso estado de espírito; daí é que reagis, que “respondeis” a qualquer desafio que se apresenta; e essa reação é “experiência”. Assim, pois, em conformidade com vosso fundo, com vosso, condicionamento, vosso temperamento, vossas emoções, “projetais” coisas; e tais “projeções” constituem vossas experiências - Vemo-nos, assim, colhidos numa rêde de intermináveis experiências, experiências resultantes de nossas próprias “projeções”, conforme os desafios que recebemos. Não vamos entrar em minúcias a êste respeito; mas fácil vos será compreendê-lo, se estais escutando verdadeiramente, se estais aprendendo.
Assim, a mente que busca experiências — prestai atenção, por favor! — está meramente a furtar-se ao fato — o que é. Assim, devemos estar sumamente vigilantes, a fim de não exigirmos experiência de espécie alguma. Percebeis o que estamos fazendo? Estamos despojando a mente de tudo o que é falso, despojando-a das crenças nos deuses, nos sacerdotes, no puja, na recitação de orações, e, mesmo, da exigência de super-experiências — experiências supra-sensíveis. Não estamos falando ilogicamente, porém lógica e sensatamente. Atrás do que se está dizendo, está a razão; não se trata de nenhuma fantasia ou capricho. Assim, pois, se estais seguindo o que estamos dizendo, sem lhe conferirdes nenhum caráter de autoridade, vereis que de vossa mente terão sido varridas tôdas as cargas que a sociedade e as religiões vos impuseram; estareis, então, frente a frente com vós mesmo.
Ora, o compreender a si próprio é absolutamente necessário. Meditar é esvaziar a mente, e, nesse estado de vazio, ocorre a “explosão” que nos lança no desconhecido. A mente que esta repleta, que está carregada de problemas, a mente que se acha em conflito, que não explorou as profundezas de si própria, não tem possibilidade de esvaziar-se. E a meditação e o esvaziar da mente, não no final, porém imediatamente, fora do tempo.
Investiguemos agora o estado da mente que aprende a respeito de si própria. Porque, se não aprendeis a respeito de vós mesmo, não tendes base para qualquer investigação ou outra exploração mais profunda; se não aprendeis a respeito de vós mesmo, ficais meramente a enganar-vos, a hipnotizar-vos para aceitar todo gênero de crenças, de dogmas, de orações. de visões. Deveis. pois. aprender a respeito de vos mesmo; esta é a base essencial. E podeis fazê-lo, instantaneamente e de modo completo; e esta é a única maneira de aprenderdes a respeito de vós mesmo — e não pelo processo da análise ou do exame introspectivo, que requer tempo. Mas. como já dissemos não há amanhã. não há instante seguinte; só há o presente. só o agora tremendamente ativo; e, para compreendê-lo. deveis afastar de todo, de vossa mente. a idéia de 'compreensão gradual'.
Agora, para aprendermos a respeito de nós mesmos, necessitamos de uma certa vigilância. Não estamos dando a essa palavra nenhum significado místico. Trata-se da vigilância comum de cada dia: estar-se consciente das côres, das árvores, da sordidez da imundície; estar consciente da espôsa e dos filhos — observá-los, ver como se vestem, de que maneira falam. Estar simplesmente — consciente. Sabeis o que entendo por essa palavra? Ao entrardes nesta tenda, perceber as
cores, perceber as várias pessoas sentadas, como estão sentadas, se bocejam, se estão sonolentas, cansadas, forçando-se a escutar, na esperança de obterem alguma coisa, os tiques nervosos que estão executando.
Perceber, sem condenar, sem julgar; observar pura e simplesmente e sem escolha, olhar sem condenação, interpretação comparação; nisso há grande beleza, e grande clareza na observação. Se dessa maneira vos observardes sem escolha, então, nesse percebimento, existe atenção, nenhuma entidade existe como “observador”, nem “coisa observada”. Não há “observador” a olhar aquilo a que está observando.
Agora, é preciso diferençar entre concentração e atenção. Concentração é processo de esfôrço, de exclusão, de repressão, de forçar todo o vosso pensamento, tôda a vossa energia num certo canal, por um dado momento, excluindo todos os outros pensamentos, tôda “distração”, assim chamada. Essa a espécie de concentração que a maioria de vós pratica em suas ocupações e quando está tentando a chamada “meditação”. Sois educados, desde os dias de colegiais, para concentrar-vos, para aplicar ou forçar a atenção numa dada coisa: no trabalho que estais executando, na página que estais lendo. Mas, a todos os momentos, outros pensamentos surgem, insinuam-se outras impressões, às quais tentais resistir. A concentração, pois, é um processo de exclusão e a atenção não é.

Estar atento implica que não há distração. Quando estais atento, “recebeis” o todo e não apenas a parte; vedes os presentes, as formas de suas cabeças, as côres, as luzes. Estais consciente e, por conseguinte, atento. Nessa atenção não há observador nem coisa observada, porque, nela, todo o vosso ser, vossa mente, vosso corpo, vossos nervos, vossos ouvidos, vossos olhos — tudo está atento; por conseguinte, não há divisão. Nesse estado de atenção há auto-observação. Não há, portanto, auto-condenação. Não se pode aprender se se está condenando. Não se pode aprender, se se está comparando. Não se pode aprender, se se está a dizer: “Serei aquilo amanhã”.

Assim, a mente que está atenta se acha num estado de não-contradição e, por conseguinte, num estado em que nenhum esfôrço existe. Esse estado é absolutamente necessário. Do contrário, se êle não fôr possível, a mente não pode ser esvaziada. Vereis por que é necessário o “estado de atenção”. A mente, em geral, é “barulhenta”. Está sempre a “tagarelar”. Sempre monologando, ou dizendo repetidamente o que irá fazer, o que fêz, o que deve fazer, etc. Nunca está quieta. E pensais que, para se produzir êsse estado de quietude mental, deveis praticar algum método — método que, por sua vez, se torna mecânico.

Mas, se estiverdes consciente de cada pensamento, ao surgir, sem julgar, sem condenar nem aceitar — porém simplesmente num estado de atenção — vereis que a mente se torna extraordinàriamente quieta; não a disciplinastes para a tornardes quieta, pois isso é de efeito mortal.
Porque, se se disciplina a mente, ela se torna superficial, vazia, morta. A mente deve ser viva, vigorosa, plena, cheia de vitalidade.

Se estais atento, dessa atenção vem sua peculiar disciplina, não solicitada, não-repressiva. Só a mente que dessa maneira se disciplinou, pela atenção sobre si própria e não mediante compulsão e ajustamento — só essa mente é lúcida. Então, a mente que está atenta aprendeu a respeito de si própria, a respeito de seus conscientes e inconscientes motivos, fantasias, ilusões, temores, ambições, avidez, ciúme, competição, e tôdas as demais coisas que somos nós; quando a mente, mediante vigilância, aprendeu a respeito de si própria, torna-se então quieta, não disciplinada, não narcotizada por drogas, não-rnesmerizada. Essa é a mente tranqüila. Ela tem de estar tranqüila, do contrario não estará vazia.

A mente de todos nós é o resultado de dois milhões de anos de tempo. Ela está condicionada e moldada; sob a compulsão de muitas impressões, sujeita a grande tensão, de ordem consciente e inconsciente; impelida pelas circunstâncias. Essa mente, pois, se não estiver totalmente quieta — quieta, e não exigindo, nem procurando — não ficara vazia.
Tôda coisa nova só pode verificar-se no vazio. Um novo ente humano é concebido no ventre vazio. A mente, por conseguinte, deve estar vazia, e não ser “posta vazia” mediante pensamento inibitivo, controlador, repressivo; isso não e vazio, porém apenas outra forma de fuga à realidade. E a realidade sois vós mesmo, o que verdadeiramente sois, e não o Super-Atman, que é invenção de nossas avós, de nossos pais, dos Sankaras e Budas. Tudo isso tem de ir-se, para que a mente se torne completamente vazia e tranqüila.
 Então, nesse vazio, há um movimento que e criação. Nesse vazio, há a energia de que a mente necessita para alcançar a Imensidade. E todo asse processo, do comêço “negativo” até o fim, o qual não é uma fuga da vida, porém a própria compreensão da vida — todo asse processo é meditação. E vereis, então, que estareis meditando em todo o correr do dia, e não num certo minuto do dia; estareis meditando no escritório, no ônibus, onde quer que vos encontreis. Estareis diretamente em contato com a vida. Estareis meditando, enquanto falais, porque estareis vigilante; estareis atento ao que estareis dizendo e a como o estareis dizendo, a como falareis com vosso serviçal, se o tendes. Estareis vigilante, estareis atento; por conseguinte, a mente, que é limitada, estreita, vulgar, agrilhoada pelo tempo, se libertará. Só essa mente pode encontrar o Eterno.

Essa, a beleza da meditação. Nela, não há compulsão nem esfôrço de espécie alguma. E o homem que é capaz de meditar, o homem que compreendeu o que é a meditação, só esse, e nenhum outro, pode dar ajuda.

Nova Deli, 8 de novembro de 1964

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