Percy surgiu atrás dele logo em seguida, inspirando o ar como se tivesse acabado de ser salvo de um afogamento.
- Perdão... senhor – disse Percy, arfante – tentei... – porém Scrimgeour o dispensava com um gesto da mão. Sabia que segurar Moody era um trabalho difícil.
O ministro soltou um curto suspiro e se recostou na cadeira. Estava ciente do porquê dele o estar pressionando – como se fosse só ele, pensou, lembrando das cobranças e das notícias nos jornais – e depois de um tempo analisando os prós e os contras, acabou por aceitar. E já tinha tomado as providências.
- Alastor. “Há quanto tempo.”
- Não me venha com suas ironias, Scrimgeour – Moody cruzou as mãos nas costas e pôs-se a andar de um lado a outro – espero sinceramente que tenha posto seu orgulho idiota de lado e tomado alguma medida sobre o que conversamos.
O ministro tentou esquecer por um momento o fato de estar aceitando conselhos de um auror aposentado, ainda mais sabendo, lá no fundo, que era uma coisa sensata, embora arriscada. Sua mente viajou no tempo, mais precisamente uma semana atrás, quando ele encontrava-se de pé diante daquela mesma lareira no seu gabinete. Já tirara completamente da cabeça o fato de que uma viagem daquelas podia ser extremamente perigosa, além de requerer um pedido formal ao setor adequado do Ministério da Magia, em que constasse o exato porquê de ir do país “A” ao país “B” via lareira.
Infeliz do sujeito que tentasse sem os devidos ajustes. Sim, era bastante complicado. Rufus riu para si mesmo. Era o ministro da magia, afinal de contas.
E um dos pontos fundamentais daquela viagem é que fosse mantida em absoluto sigilo. Pelo menos por enquanto.
Sem mais demora, jogou o pó verde nas chamas, esperando que seus miolos continuassem no lugar em que sempre estiveram durante o processo.
- Bulgária, Ministério da Magia – anunciou, deixando que seu corpo fosse envolvido pelas labaredas.
* * * *
A luz da lua chegava com dificuldade àquela parte sombria do subúrbio da cidade. O único sinal de vida naquele beco escuro parecia vir de dentro de uma construção acabada. Na melhor das hipóteses, as rachaduras que ameaçavam as paredes e a placa de metal acima da porta – caindo de um lado -, davam uma impressão geral de “mal conservado”. Das janelas superiores emanavam luzes fracas e opacas.
Até o ar ali dentro estava pesado. A fumaça dos cigarros somada ao cheiro de bebida forte e algo mais sórdido enchia o ambiente.
As pessoas ali não pareciam se importar nem um pouco.
O bar era conhecido pelo seu clima e principalmente pelos seus visitantes, no mínimo, estranhos.
Gargalhadas estridentes eram abafadas pelo som vibrante de uivos e assobios, em pleno show de strep-tease.
Havia um pequeno grupo de homens reunidos diante do balcão. Eles vestiam trajes negros e longos, podendo facilmente ser confundidos com fantasias para festas de Halloween, porém a variedade de roupas, cabelos coloridos, piercings e tatuagens circulando ao redor os tornava quase imperceptíveis. Alguns olhavam ao seu redor com nada menos que repugnância na face pelo simples fato de estar ali. Outros exibiam sorrisos amarelos e maliciosos, como se soubessem que daqui a alguns instantes algo estaria para acontecer.
De certa forma, eles estavam certos.
Por um breve instante, eles não notaram um homem com vestes idênticas e rosto oculto esgueirar-se pela aglomeração de uma pista de dança, vindo na direção deles, e parar. Foi quando um louro mais atento levantou o olhar e o percebeu.
- Avery – disse para que seus companheiros ouvissem – Já estava pensando que tinha se afogado na privada – e arrancou gargalhadas do resto do grupo.
O sujeito chamado Avery ainda mantinha uma das mãos atrás da cabeça quando parou no centro do lugar. O capuz e a máscara que encobriam seu rosto ocultaram sua expressão quando ele levantou a mão acima da cabeça.
Segurava uma pistola.
Antes que a maioria das pessoas ali presentes pudessem olhar espantadas para o objeto em sua mão, um estampido rápido e ensurdecedor fez-se ouvir.
- Evacuar o local. – ecoou uma voz masculina forte e clara o suficiente para que fosse ouvida no tumulto que se seguiu; a porta de saída ficou minúscula diante do número de pessoas que tentava atravessá-la de qualquer modo, mesmo atropelando alguém no percurso.
Não demorou muito até que a sinfonia estridente de gritos cessasse e a porta dupla de metal se fechasse sozinha com um rangido metálico atrás deles, deixando o silêncio cair pesado sobre o ambiente.
Clap... clap... clap...
O louro levantava-se de seu assento e batia palmas. Os outros quatro também continuavam ali e assistiram o “espetáculo” com um misto de curiosidade e desconfiança.
- Foi um belo show, Avery, devo admitir. Só não entendo o porquê de ter interrompido nosso pequeno... divertimento – concluiu, erguendo uma peça íntima deixada no chão – e ainda por cima com este artefato estúpido que tem nas mãos.
- Ah, peço que me perdoem. Eu realmente sinto muito. – respondeu, tirando sua máscara e atirando-a ao chão, revelando uma face marcada por cicatrizes, ainda mais deformada pelo sorriso cínico estampado no rosto. Ele começou uma caminhada lenta, de um lado a outro do salão, girando a arma nos dedos numa espécie de brincadeira maliciosa.
O louro olhou de soslaio para os outros comensais, finalmente assimilando o tom estranhamente sarcástico na voz de Avery. Suas ações alguns minutos atrás não haviam sido como planejado; ao invés disso ele acabara de dispersar o bando imundo de trouxas. Definitivamente, havia algo errado. Um outro comensal já apertava algo por dentro do bolso.
- Estamos lentos para perceber as coisas hoje, não? E, a propósito – disse, mirando e acertando o braço do comensal antes que ele terminasse de tirar sorrateiramente a varinha das vestes – essas belezas até que são bem úteis.
O comensal atingido se atirou em busca da varinha, gemendo pelo braço ensangüentado, mas o que caiu no chão foi apenas o corpo inerte quando um jato vermelho lhe acertou as costas; a ação foi muito rápida e os outros quatro já estavam de pé com as varinhas em punho.
A outra mão oculta do suposto traidor já saíra de trás da capa e agora apontava uma varinha diretamente para o grupo, fazendo par com a mão armada.
- Então é traição? - murmurou o louro, cerrando os dentes, mas logo mudou de expressão e agora exibia um brilho estranho no olhar – Perfeito! Levarei sua cabeça de presente para o lorde, – fez questão de apontar para a própria com a varinha enquanto falava – acho que ele ficará bastante satisfeito.
Os comensais fechavam um círculo em torno do oponente, visando encurralá-lo; eram três contra um. O inimigo não parecia mostrar sinais de medo ou preocupação, mas não importava... e caso ele aparatasse, o lorde o caçaria, e então...
- Afastem-se, ele é meu. – e faíscas roxas voaram de sua varinha, porém chocaram-se contra um escudo semi-transparente conjurado por Avery. O comensal só teve tempo de notar chocado seu feitiço voltar-se contra si mesmo antes se deu corpo sair rodopiando e bater nas prateleiras do outro lado.
O resto do grupo não perdeu tempo e várias faíscas de cores diferentes voaram em direção ao traidor. Ao invés de preocupar-se com a integridade física, o homem cometeu a sandice de olhar para cima.
Os atacantes ficaram imóveis, no que parecia um ato de espanto, pois um corpo acabara de se lançar de um ponto no teto exatamente no espaço entre os comensais e Avery, caindo de pé e de costas para eles, com os braços abertos. Seus feitiços apenas bateram na capa do estranho sem causar nenhum dano aparente; ele continuou imóvel.
Na verdade, além de espantados, também analisavam a situação. Eles sabiam perfeitamente que só havia dois tipos de seres resistentes a certos tipos de magia negra: o primeiro, lobisomens, apenas transformados, e com estes não precisavam se preocupar.
Quanto ao segundo...
Havia terríveis chances de ele estar bem adiante, o rosto de perfil mostrando os dentes arreganhados, salientando um dos caninos numa espécie de sorriso nada amigável. Um vampiro.
- Isso faz cócegas – disse, com um tom suave e afável que continha uma leve insinuação de ameaça – mas eu detesto que um bando de marmanjos me faça cócegas.
O rosto dos comensais se distorceu em fúria, não apenas pela ameaça na voz do vampiro, mas porque não estavam conseguindo aparatar, o lugar obviamente havia sido enfeitiçado. Emboscada.
* * * *