
Não demorou muito até que os comensais fossem vencidos, com Avery e o misterioso vampiro lutando lado a lado. Quando estava tudo terminado, melhor dizendo, quando toda a decoração do bar, as cadeiras, latas e cacos de vidro espalhados no chão, um ruído típico foi ouvido no salão ainda fechado e mais dois homens se materializaram ali. O feitiço anti-aparatação era apenas provisório.
Os recém chegados passaram pelos outros dois com um discreto aceno de cabeça, indo em direção aos comensais desacordados e presos por uma corrente mágica.
- Não se preocupem, este é o verdadeiro – disse a voz de Avery atrás deles.
Havia um motivo para ele ter dito isso. Estavam imobilizados quatro ao invés dos três com quem estiveram lutando. Com um filete de sangue escorrendo da boca semi-aberta, igualmente inconsciente, estava um homem idêntico a Avery.
Um dos dois confirmou com um gesto simples da varinha na direção do Avery caído enquanto o outro limpava a bagunça do ambiente.
- Mais alguns para julgamento – comentou e desapareceu com um estalo junto com o companheiro e os comensais.
Foi quando o vampiro olhou satisfeito para o outro Avery.
- Veja, seu cabelo.
Os fios curtos foram se alongando e escurecendo, ao passo que seu rosto se contorcia em formas impossíveis e seu corpo ia perdendo o aspecto masculino. O vampiro ficou observando a mulher surgir devagar e fitá-lo com os conhecidos olhos afilados e castanhos.
- Finalmente. O imbecil cheirava a porco.
- Bem vinda de volta, Hope.
Ela retribuiu com um pequeno sorriso.
- Apresse-se, Sanguini. Creio que ainda temos de plantar certas informações na mente daqueles policiais – e agora sua voz não escondia um tom contrariado – Eles estão bem menos preocupados do que deveriam, e tudo o que posso dizer é para tomarem cuidado com a droga dos raios verdes.
- Não sei se devo chegar muito perto – disse Sanguini com um ar divertido – Acho que o chefe deles tem pavor a mim – deu uma pausa, assumindo a expressão de quem lembra de algo engraçado – Não faço idéia do por que.
E parecia ser verdade. Sempre que Sanguini aproximava-se do homem, este o olhava esquisito e colocava uma das mãos no pescoço como se quisesse escondê-lo. De vez em quando o vampiro o flagrava levantando a gola da farda de forma discreta. Provavelmente ele não conseguia entender o motivo de alguém ficar andando por aí com a cor que se costuma adquirir dentro de caixões e coisas do tipo.
- Ah, é – continuou – Ivan e os outros já deram conta do recado enquanto os policiais montavam vigília lá fora, crentes de que pegariam um dos grandes hoje – Sanguini puxou a manga da camisa negra e examinou um relógio prateado no pulso – Adivinhe – disse, sempre com o meio sorriso que, segundo Hope, teimava em não deixar seu rosto – Estamos incrivelmente atrasados, e a noite ainda vai ser longa.
- Um vampiro que usa relógios trouxas – comentou Hope casualmente – Não sei porque ainda me surpreendo. Sanguini, você realmente não existe.
- Jura!? – exclamou num tom que considerava espantado, enquanto dava beliscões em si mesmo – Ora, você me conhece. Venero os trouxas desde que eles criaram o protetor solar fator 150 – e esperou para ver se a frase surtia o efeito desejado, coisa que aconteceu logo em seguida: conseguiu fazer Hope dar o primeiro sorriso aberto da noite inteira.
- Era mais ou menos disso que eu estava falando.
- Mais um ponto para mim – vibrou o vampiro, fazendo um “V” com os dedos.
Hope segurou o braço de Sanguini que, sendo um vampiro, não possuía poder mágico igual ao dos bruxos e portanto, não usava varinhas e nem tinha a capacidade de aparatar, antes que ele a fizesse ter uma crise de riso, coisa muito rara.
O relógio de Sanguini marcava quase uma da madrugada quando os dois desapareceram com um característico estalo.
* * * *
“O bruxo não havia mandado seguidores fiéis apenas para capturar e matar o diretor de Durmstrang, mas para aumentar o número de aliados.”
Refletia o Primeiro Ministro Búlgaro tempos depois de uma visita não exatamente inusitada.
Agora havia um número de aurores cuidando para que os recentes ataques a aglomerações de trouxas em seu país parecesse um atentado terrorista, e a idéia dada por Rufus de parte deles ser infiltrada na tal “polícia” não era tão ruim assim.
Os dois ministros acabaram concordando que o foco estava começando a se espalhar de forma perigosa e, como diz um ditado bruxo que foi misteriosamente incorporado pelos trouxas, era preciso cortar o mal pela raiz.
E o novo esquadrão de auxílio internacional havia sido submetido aos mais complexos tipos de treinamento búlgaro para dar uma mãozinha para que isso acontecesse.
Michail Mílanov observou os silenciosos membros do esquadrão, alguns recostados na parede e outros sentados na fileira de assentos do escuro hall de entrada do prédio, aguardando o momento da partida. O ministro murmurou um comentário incompreensível; ainda havia um pequeno problema momentâneo.
Dois de seus aurores, indispensáveis no esquadrão, estavam atrasados.
Ao menos eles tinham um bom motivo, uma missão importante para capturar os responsáveis pelo fortalecimento dos seguidores dele em seu país, muito provavelmente comensais de seu círculo íntimo.
Esse momento de reflexão foi o tempo necessário para que um de seus assistentes chegasse com a informação de que Hope Short e Darten Sanguini haviam aparatado nas imediações do prédio e pediam permissão para se juntar ao resto do esquadrão. A missão havia sido concluída com sucesso.
O ministro sorriu satisfeito.
O lugar tinha um aspecto desolado, uma velha garagem de ônibus agora abandonada. Todos os veículos no amplo estacionamento se encontravam devidamente alinhados em duas fileiras, tristonhos, decrépitos e caindo aos pedaços quando o grupo de aurores surgiu da escada que dava no andar inferior do prédio do Ministério. Um homem baixo e rechonchudo passou à frente deles e parou diante da porta de um ônibus no mesmo estado deplorável dos outros, pegou sua varinha e com um movimento de maestro, deu um toque rápido na lateral do carro.
Como se mãos enormes e invisíveis estivessem arrancando a lataria exterior do ônibus, conforme a antiga roupa de metal ia se desdobrando, uma novinha em folha, de um roxo escuro polido aparecia e tomava seu lugar.
O Nôitibus ministerial abria sua porta com o leve som que só carro novo faz, matando os outros de inveja.
Há um tempo razoável já era do conhecimento do ministro e do departamento de aurores em si que uma viagem coletiva destes últimos exigia o gasto de preciosos minutos e segundos nos procedimentos mágicos protetores, e depois na viagem em si, além do perigo corrido no processo, como um bom número de pessoas voando cada uma em sua vassoura, berrando umas para as outras para manter toda a organização possível.
Um veículo que se move mais rápido que qualquer outro já inventado era algo mais que bem-vindo.
Os membros do esquadrão entraram no nôitibus, procurando um bom lugar para se segurar. O motorista olhou para os passageiros, fez sinal de OK e pisou fundo.
Algumas frações de segundo depois, o nôitibus passava na sua habitual velocidade absurda pelo túnel subterrâneo que desembocava numa rua pouco movimentada, parar sumir como um vendaval invisível noite afora.
* * * *
Nuvens alaranjadas cobriam o céu, anunciando o fim da tarde. Lá longe na linha do horizonte, um trem cortava caminho na paisagem verde, soltando vapores ocasionais.
O borrão das planícies e dos campos se refletia nas lentes de Harry, sem que ele as enxergasse realmente. Estava naquele trem, praticamente sozinho, com exceção de Lupin e Tonks, que agora deveriam estar ali pelo corredor, como que respeitando seu silêncio.
Tentava esquecer por um segundo um fato, mas outros ousavam perturbar sua mente. Voldemort... a profecia... tentara não pensar também sobre isso, mas agora seria inevitável.
Ele fechou os olhos com força, tentando visualizar algo diferente... via um prédio irregular pendendo de um lado, mas sempre misteriosamente equilibrado, sem nunca desabar. Lupin oferecera a Harry um tempo, mesmo breve, de descanso na Toca antes de passar o último período na casa dos Dursley, mas ele não faria isso. Não agora e não com o mundo bruxo mais vulnerável do que nunca. Não iria se arriscar a ir para a Toca e pôr seus amigos em perigo. E além do mais, ele tinha de ir para a casa dos tios. Só mais esta vez.
Harry só percebeu que o trem havia diminuído a velocidade quando Lupin abriu com cautela a porta da cabine e esperou que olhasse para ele.
- King´s Cross, Harry. Chegamos.
Foi quando Harry já tinha posto os pés no outro lado da estação, com Lupin e Tonks o ajudando com a bagagem, que o ex-professor insistiu.
- Tem certeza que não quer, Harry? – e Tonks reforçou – Há aurores protegendo a Toca dia e noite... você realmente não precisa ir agora, se não quiser.
Ele deu um sorriso fraco e procurou determinação para dizer
- Preciso – e achou que deveria completar com qualquer coisa que fosse – Eu estou bem.
Lupin assentiu. No fundo sabia que deveria ser assim, mesmo que a idéia não lhe agradasse, ainda que a Rua dos Alfeneiros e proximidades também estivessem recebendo vigília.
Nesse momento seu olhar bateu em duas figuras vestidas de negro que vinham a passos largos na direção dos três. Harry puxou a varinha instintivamente, como se sua mente apagasse todos os pensamentos anteriores e só lhe restasse uma raiva crescente.
- Calma – disse Tonks, colocando a mão em seu ombro – São aurores.
Quando eles se aproximaram Harry notou que um já era conhecido, mas não identificava o outro, apenas uns poucos centímetros mais baixo e cabelo castanho-escuro curto. Ambos usavam os típicos ternos trouxas para certas situações.
- Savage. Kirm – cumprimentou Tonks e eles acenaram de leve com a cabeça para os três.
- O que vieram fazer aqui? – indagou Harry, cuja raiva não tinha passado por completo.
- Potter – começou Kirm, com tato, olhando de relance Tonks e Lupin, que os fitava com um quê de desconfiança na face – Precisamos que venha conosco. É um assunto de seu interesse. E urgente.
* * * *