Harry não teve chance de terminar a frase antes de entrar pela cozinha e ver a resposta com seus próprios olhos: todo e qualquer indício de que uma família conservadora e aparentemente, extremamente rígida com a limpeza e a aparência geral da casa morasse ali havia sumido; o chão tanto da cozinha quanto dos aposentos mais internos estavam infestados com cacos de vidro e pedaços do que um dia foram eletrodomésticos, parte dos móveis havia sido arrancado do lugar e outra parte jazia tombada no chão em posições impróprias, quadros também haviam se juntado à bagunça generalizada no chão por pura e espontânea pressão, e em um dos poucos que ainda permanecia na parede, um retrato que Harry lembrava ser de Duda aos 7 anos, com as bochechas salientes e os dentes de cavalo à mostra, agora tinha um buraco negro bem entre os olhos apertados, com uma penumbra ao seu redor cobrindo boa parte do que restava do quadro. Um inegável sinal de feitiço.
- Eu não acredito! Então eles estiveram aqui, os miseráveis! – rugiu Harry entre dentes. – O que eles pretendiam, depois de terem conseguido atacar os Dursley? E aliás – ele lembrou, quase com um estalo – como foi que conseguiram entrar aqui? Eu tinha uma proteção, não tinha?
- Nós só podemos supor ainda, provavelmente eles não atacaram aquele centro comercial à toa. Achamos que a proteção que você tem nessa casa não se refere à estrutura de concreto propriamente dita, mas sim a qualquer lugar em que esteja o laço familiar.
- Isso não faz sentido. Se fosse assim, então porque todas as vezes que me deixaram sozinho nesta casa não fui atacado? Todas elas?
- Desta vez não havia você para ser protegido, Harry. – Lupin pareceu pensativo por uns instantes – Eles devem ter feito algum tipo de tocaia. Mesmo que não pareça, acho que eles estão ficando mais organizados.
- Ou eles devem tê-los feito sair de propósito e então atacado! – reagia Harry - Mas e quanto à casa? Eles parecem não ter feito qualquer coisa além de baderna aqui dentro. Eles já haviam atacado os Dursley, o que havia para se fazer aqui ainda?
- É, tem isso também. Não temos certeza de nada, mas trabalhamos com a hipótese de que eles estivessem procurando alguma coisa, mas se sim, não fazemos idéia do quê... a não ser que Voldemort esteja presumindo que a proteção que você tinha aqui dentro se devia a algum objeto ou feitiço em particular. Mas como eu disse, não podemos afirmar nada, isso são apenas suposições.
Ainda processando as informações que ia recebendo, Harry não podia deixar de notar um detalhe em particular no quadro de Duda agora manchado; as marcas ao seu redor ainda mantinham um leve brilho colorido, de uma tonalidade que só poderia ser de um feitiço defensivo. Mas porque diabos eles precisaram lançar um feitiço defensivo?
Lupin notou a curiosidade no olhar do garoto, que estava concentrado analisando o quadro. Ele já esperava por isso.
- Estava esperando para lhe contar o fato mais intrigante por último – soltou Lupin, fazendo Harry voltar sua atenção para ele – Foi muito astuto de sua parte ter notado isso – e virou a cabeça para o garoto, com um olhar afetuoso – Você poderia ter um futuro promissor como Auror – e esboçou um sorriso, ao qual foi correspondido. Então aproximou-se do quadro, mostrando as manchas com um dedo, sem tocá-las. Ainda temos o caso deste feitiço aqui.
- Isso foi um feitiço defensivo – afirmou Harry, prontamente. Qual a necessidade de um feitiço desses se estavam todos entre Comensais?
- É justamente esse o ponto – respondeu Lupin, com a expressão preocupada – há sinais de luta mágica por aqui, Harry, e não apenas nesse quadro. Tudo indica que os Comensais enfrentaram opositores.
A língua afiada de Harry já estava a meio caminho de proferir a palavra “aurores” quando Lupin concluiu o raciocínio:
- Já sei o que está pensando, mas não. Fiquei sabendo através de nosso bom amigo auror de piercing na orelha que os aurores não chegaram aqui a tempo de se encontrarem com os Comensais, Harry. Não fazemos idéia de quem possa ter enfrentado e enxotado os Comensais daqui.
* * * *
Aquele casebre num local mais afastado da cidade parecia timidamente inofensivo, ainda mais sob a coloração alaranjada de fim de tarde. A impressão estava paradoxalmente correta. E também incorreta, visto quem estava ali dentro, no momento verificando o mais rápido que conseguia, vendo e revendo se a droga dos feitiços ilusórios estavam bem feitos. Tinham de estar bem feitos. Depois do ocorrido em sua casa, ele relutava em ficar naquele local por mais tempo que o necessário, não por medo, obviamente. Medo era uma coisa que ele se negara a ter desde... desde... bem, desde muito tempo. Agora ele mudava estrategicamente de local sempre que precisava fazer algo importante. Era preciso estar atento. Vigilância constante.
Alastor Moody atravessou talvez pela décima vez a extensão daquele pequeno aposento, que não se dividia em mais de três cômodos. Ele simplesmente não era capaz de ficar relaxando, lendo um jornal enquanto esperava. Aliás, que horas eram? Já era fim de tarde, verificou no relógio de bolso dentro das vestes. Ele começou a admitir que estava ficando tenso, e isso não era algo que poderia ser deixado de lado; respirou fundo e evocou a disciplina de anos de treinamento. Ele não havia chegado até ali ficando tenso.
Um reflexo verde na parede do outro lado da sala chamou sua atenção e ele se virou, ficando de frente para a lareira; observando um homem e uma mulher saírem das chamas e limparem as roupas.
- Tonks, Arthur – cumprimentou Moody, vendo Weasley procurar aflito algo para pendurar o chapéu.
- Ora, Moody, vamos acabar logo com isso, eu estou com um pressentimento muito ruim, se quer saber. Molly, coitada, ficou reclamando que não posso sair de casa quando Harry está prestes a chegar, e se quer saber, todos estamos muito aflitos para saber como ele está. Ah, meu Deus.
- Você está certo. Sentem-se.
Moody não mostrou interesse em imitá-los, em vez disso continuou andando de um lado a outro da sala, procurando as palavras para começar.
- Odeio enrolações, por isso vou ir direto ao assunto – iniciou Moody, com expressão semelhante a um comandante numa frente de batalha – A verdadeira guerra se iniciou depois de especulações e pequenos embates, e nós não podíamos prever no que isso iria acabar acarretando para o nosso lado – o tom de Moody não poderia ter sido mais claro; os pensamentos dos presentes logo se voltaram para o bruxo sacrificado na torre de arte.
Uma mão se ergueu, e Moody concedeu permissão para que Arthur se pronunciasse.
- Estamos certos de que o que diz é verdade, mas... porque todos os outros não foram chamados para essa conversa, Alastor? Porquê só nós dois? E ele procurou apoio no olhar de Tonks, que estava mais séria do que de costume nas últimas semanas, mesmo as marcas de aparente depressão terem deixado-na. A Auror assentiu e voltou o olhar para Moody.
- Pensei que nunca perguntariam – suspirou, finalmente fazendo com que seus passos desiguais levassem-no à poltrona – Não se preocupem quanto aos outros, eles saberão de tudo quando chegar a hora, e isso está mais perto que longe, principalmente para o garoto Potter – profetizou – Mas nesse momento em particular, para fortalecer a atitude que tomei, Arthur, eu preciso contar com sua discrição, e Tonks, nós precisaremos de você e de todos os poucos aurores que temos dentro daquele Ministério, agora mais ainda – Moody permaneceu em silêncio por alguns instantes, sem ser interrompido, pois os outros dois ali presentes notaram que o velho Auror parecia mais sóbrio do que nunca agora. – A Ordem da Fênix precisa. – dito isso, Arthur e Tonks arregalaram os olhos, e um pouco de esperança mesclada à dúvida pôde ser visto brilhando neles – Moody se permitiu mostrar os dentes num sorriso astuto – Todos sabemos o que o velho Dumbledore diria se desistíssemos agora.
Moody olhou para as mãos de Arthur e ficou claro que ele não estava com total controle das mesmas no momento. O ex-auror não era muito de cortesia. Hesitou um pouco, mas acabou conjurando um pequeno bule e duas xícaras em cima da mesa de centro entre eles. A mão de Arthur já tinha voado na xícara mais próxima e agora estava batalhando para ver se conseguia fazer cair mais líquido no recipiente que no chão. Moody esperou de forma misericordiosa Tonks oferecer a sua própria, já devidamente preenchida, a Arthur.
- Ah, obrigado Tonks. Moody, desculpe o mau jeito, pode continuar. Diga logo o que precisa tanto assim de discrição.
Moody entrelaçou os dedos, olhando para Arthur como se quisesse impedi-lo de ter espasmos. - Você deve se lembrar bem, Arthur. Eu falo de algo que aconteceu 20 anos atrás.
O que veio em seguida foi um alarmado “oh!” seguido do ruído de muitos estilhaços e chá verde se misturando no chão.
* * * *
As rodas de um Ford branco pararam com uma guinada elaborada, marcando o chão de terra batida no assim chamado jardim de uma construção interessante; contrária às expectativas de olhos alheios e da própria gravidade acerca do assunto, a construção teimava em continuar de pé. Assim fora para Harry, durante estes 6, 7 anos.
Kim dirigira com uma perícia notável desde a Rua dos alfeneiros até A Toca, se comprometera em deixar Harry e Lupin no local, mas sabia que não devia se demorar por mais tempo, pois correria o risco de darem por sua falta no Ministério trouxa. Foi por isso que assim que os dois colocaram todos os pés para fora do veículo, este disparou como um raio até virar um minúsculo ponto no horizonte, onde sumiu.
A despeito dos últimos ataques dos Comensais, A Toca parecia estar intacta, e Harry pôde comprovar isso – com certo alívio – quando notou olhinhos estreitos que sabia pertencerem à Moly Weasley, espreitando na portinhola de correr.
- Ah... – começou a voz dela lá de trás, parecendo indecisa – Harry, querido? Lupin?
- Por favor, Molly, pode abrir, somos nós – interveio Lupin. Sua voz soava cansada.
- Têm certez... – e parou, aparentemente notando a estupidez da pergunta – digo, como vou saber que são vocês?
Lupin suspirou. Harry achava difícil algum dia ouvir isso da senhora Weasley, visto que ela mesma já repreendera o marido pelo uso da mesma “técnica”, porém era compreensível, ele pensou, diante das circunstâncias... provavelmente ela já deveria estar sabendo dos acontecimentos. Lupin aproximou a face da portinhola e murmurou algo, do qual Harry só conseguiu distinguir as palavras “sobremesa” e “Arthur”.
Num tranco quase violento, a porta foi arrancada da posição inicial de “fechada” e se escancarou, a senhora Weasley praticamente avançou no pescoço de Harry.
- Oh, Harry querido! Eu fiquei sabendo... fiquei... – Lupin foi conduzindo gentilmente os dois abraçados para dentro e tratou de fechar a porta.
– Eu não gosto de estar fazendo isso, na verdade – suspirou, agora com as duas mãos em concha no rosto do garoto – Mas Arthur insistiu tanto, ainda mais... – e partiu para mais um agarrão no pescoço de Harry.
Foi entre os braços da senhora Weasley que ele pôde ouvir e ver passos acelerados descendo as escadas, e logo as pernas, corpos e cabeças dos demais membros da família. Ele olhou com atenção especial para Rony, e notou que tinha vontade de subir o mais depressa possível para o quarto que compartilhava com o amigo.
Nas horas que se passaram Harry sentiu a força do cansaço pronta para vencer um duelo com seus músculos. Ele passou boa parte do início da noite sentado à mesa com Lupin e quase todos os Weasley, à exceção de Arthur Weasley, que deveria estar fazendo mais um daqueles serões no trabalho, os gêmeos Fred e Jorge haviam fechado a loja de logros por um ou dois dias, uma espécie de luto; mesmo neles era possível notar um certo abatimento, que, talvez, eles achavam, que se xingassem bastante “aquele filho-da-mãe do Snape”, sua raiva diminuiria um pouco. Só um pouco. Mesmo com tantas pessoas, a casa em si mantinha um ar desolado, e Harry achou difícil que isso fosse apenas obra das chamas da vela sobre a mesa, criando sombras provocativas na sala.
Ajudado pela ira dos gêmeos, Harry se sentiu revigorado para repetir o momento em que o bruxo cometera o maior ato de traição da face da terra, pelo menos umas três vezes.
Harry ocasionalmente olhava para o relógio de parede encantado que a família mantinha à vista de todos; desde que chegara, o relógio mantinha insistentemente todos os ponteiros em “perigo mortal”. Isso o fez lembrar, diretamente, de Voldemort. As coisas estranhas que haviam acontecido no dia que se fora estranhamente tiraram uma coisa muito importante de sua cabeça, e que agora caiu sobre ela como uma bigorna de cinquenta quilos: ele ainda tinha a missão de achar as malditas horcruxes.
Todos se entreolhavam quando Harry saiu voluntariamente de seus pensamentos e voltou a sua atenção para a mesa. Ele não pôde deixar de notar os olhares preocupados deles, e Lupin pareceu notar o constrangimento que se abateu ali.
- Acho que o que quer que o Harry tenha de fazer, terá de esperar até amanhã. Ele deve estar exausto – e deu um olhar compreensivo para o rapaz, que foi correspondido - Não esqueça que terá de dar um depoimento amanhã, no Ministério.
Houve um silêncio mortal, só quebrado pela interferência de Molly, que começou a arrastar Harry para o andar superior, alegando que, infelizmente, ele tinha de acordar cedo e acabar logo com o tormento que viria no dia seguinte. Harry foi capaz de jurar que ouvira um palavrão dirigido a Scrimgeour, e que saíra da boca da Senhora Weasley.
Foi ainda acordado, envolto no lençol que ele viu Rony se esgueirar pela porta do quarto e se desviar como um dançarino de balé dos objetos no chão.
- Consegui escapar um pouco da vigilância da mãe – murmurou – Ela quer que, sabe, deixemos você em paz esta noite.
- Rony – chamou, num tom de voz incisivo – A Hermione, ela vem pra cá?
- Ah, sim. Mas os pais dela estão com muito medo, sabe... o ataque a trouxas, e tudo mais... – Mas acho que ela deve estar chegando amanhã ou depois.
- É que eu estou realmente cansado – admitiu – é desgastante ter que repetir uma mesma história várias vezes. Não quero que entenda mal, Rony – acrescentou rapidamente, vendo o amigo apresentar indícios de desapontamento.
- Não, não. Eu sei como é. – E ergueu o corpo, indo em direção à porta – Ah, e, Harry... - Sim? - Tome cuidado amanhã, no Ministério.
Ele sorriu e virou para o lado oposto, fechando os olhos e tentando dormir depois de um longo período sem lembrar o que isso significava. O cansaço finalmente o derrotou no duelo e ele adormeceu, podendo jurar, quando amanheceu, que tinha tido um sonho do qual não conseguia lembrar.
* * * *
Ele ficara inquieto durante uma parte da noite e depois, havia dormido como uma pedra. Só fora acordado para o almoço.
Ele comeu quase em silêncio, o amanhecer do novo dia trouxe para sua mente uma realidade amarga, que ele começava a enfrentar a partir de... agora. Vez ou outra uma antiga imagem de Hogwarts se insinuava entre seus neurônios, e isso contribuía para a quietude aparente do rapaz.
Houve um baque surdo do lado de fora da casa e Tonks apareceu pela porta, cumprimentando todos de forma a parecer gentil e por um momento seus olhos cruzaram com os de Lupin, que soltou um tímido “olá, Tonks, como vai?” e permaneceu com o mesmo ar durante toda a viagem ao Ministério, pois Tonks fora encarregada de encaminhar Harry para lá o mais breve possível, e o garoto fizera questão que Lupin os acompanhasse. Lá no fundo, essa barreira imaginária que separava os dois estava deixando-o profundamente irritado.
Harry começava a perceber, sem saber se deveria se sentir aliviado ou não, que enquanto eles se dirigiam diretamente à sala em que seria interrogado, não estava sendo importunado por mais ninguém – com isso sua mente quis dizer explicitamente, o Ministro em pessoa -, parecia simplesmente que as pessoas abriam caminho para a passagem dos três, que iam a passos largos, Harry agora podia ver para onde, exatamente.
Ele se viu diante de uma porta de folhas duplas e teve um maldito dèja vu.
- Qualquer coisa, estaremos aqui fora, Harry – concordaram Lupin e Tonks, colocando generosas doses de incentivo na voz.
Ele assentiu, e as portas foram abertas.
Após atravessar o portal, Harry se viu novamente na sala ampla, escura e circular, onde antes fora julgado. Olhando para a bancada de pedra semicircular do lado superior oposto, ele ainda podia ver os rostos severos e medonhos, e vez ou outra, um sonoro “hum-hum” ecoava em sua mente. Harry fez uma careta horrível e jurou que poderia ser capaz de vomitar e quase amaldiçoou Scrimgeour por ter de pisar ali mais uma vez. Então ele baixou a vista e notou uma pequena e aconchegante poltrona abandonada bem no centro do lugar; algo bem anormal, considerando o assento provido de correntes mágicas que se usava geralmente nessas ocasiões.
Vendo-se sem muitas opções, mesmo desconfiado do fato de ali ainda não ter aparecido alma viva sequer, não viu outra escolha senão aproximar-se da poltrona, imaginar se não estaria impregnada com alguma maldição horrenda, dar de ombros e sentar.
Foi então que ele viu, saindo de um local onde a pouca luz não conseguia alcançar, do seu lado esquerdo, primeiro um vulto, que à medida que caminhava para a luz, ia ganhando forma e contornos femininos, de porte médio e rosto altivo, emoldurado por mechas negras onduladas e rebeldes. A mulher parou a cerca de meio metro da poltrona e fez um leve meneio de cabeça.
- Boa noite, Harry Potter. Sou a agente designada para colher as informações que por ventura me dará, por ordem do Ministério da Magia. – disse ela, com um sotaque que Harry lembrava de já ter ouvido em algum lugar, com expressão monótona e uma elevação de voz que sugeria que o garoto não deveria ser o único a ouvir aquele cumprimento.
Harry, por sua vez, só conseguia imaginar que nunca a tinha visto nas vezes em que estivera no Ministério. Então, com um movimento inesperado, ela se inclinou para frente até que seu rosto estivesse bem próximo ao dele e moveu os lábios, porém, Harry notou, sem conseguir compreender, que deles não saía mais som algum.
- Mas o q... – e antes que pudesse terminar a pergunta, um som penetrou sua mente, sem ter que fazer todo o percurso através do aparelho auditivo antes: a mulher estava se comunicando com ele através, Harry pensou, de poder mental.
– o que diabos está fazendo na minha cabeça!? – murmurou, temendo que houvessem mais como ela escondidos nas sombras abundantes da sala.
“Não se assuste, Potter. Apenas considere este um meio mais... eficaz de comunicação, sem que possamos ser interrompidos. Costumam dizer que num lugar como este, as paredes têm ouvidos, não concorda?”
Harry olhou admirado aquela mulher, pelo que a mesma lhe dissera pouquíssimo tempo atrás, com o que agora tinha quase certeza que era uma voz dissimulada, ela trabalhava para o Ministério. Mas era intrigante o fato de parecer que ela não gostava de intrusões, mesmo que fossem de seus próprios colegas de trabalho.
“Sinto ter que fazer você vir aqui quando estaremos tão próximos e poderíamos poupar o meu e o seu tempo e paciência.” – e sorriu com o canto da boca.
“Próximos?” – indagou Harry, notando que para respondê-la, era necessário apenas pensar na resposta, agora certo de que a única coisa que sabia, era que não estava sabendo de mais nada.
“Vai entender o que quis dizer mais cedo do que imagina, Potter. Mas por hora, temos de brincar de seguir regras.”
“O que quer, afinal de contas?” – continuou Harry, não fazendo questão de esconder as rugas de desconfiança entre as sobrancelhas.
“Quero saber de tudo o que veio dizer aqui hoje, mas não quero que tenha o trabalho cansativo de recontar.”
E ao notar a expressão ainda mais arredia do rapaz, transmitiu apenas:
“Peço apenas que confie em mim. Basta apenas um fio de pensamento que inicie todos os fatos em sequência, e você não terá que fazer mais nada.”
Harry piscou. Ou estava interpretando tudo de forma absurda, ou o que ela estava sugerindo era que ele desse um fio do carretel de sua mente para que ela puxasse, imaginou se outros fatos que nada tinham a ver com o interrogatório também estariam inclusos no pacote. De súbito, ele olhou nos olhos da mulher, momentaneamente assustado por não ter desconfiado que ela poderia estar lendo seus pensamentos naquele exato instante. Se sim, Harry pensou, ainda sem poder crer na idéia, estava diante da melhor oclumente com quem já topara na vida.
“Eu não posso ler seus pensamentos, pelo menos não os que não estiver disposto a me dar, se é com isso que está preocupado” disse ela mentalmente logo em seguida, o que foi ou uma grande ironia. “A mente não é um livro aberto que se pode ler como e quando bem entender”. Após a transmissão dessa última frase, Harry teve um pensamento, um impulso tão cheio de raiva que a mulher fez um brusco movimento para trás, com uma careta de dor e a mão na testa; por um momento, uma imagem de uma figura negra fora jogada com violência em sua mente; a imagem de um homem alto e pálido com expressão de ódio e varinha em punho, e ela de repente notou que também sabia seu nome: Snape.
Harry, indeciso entre azarar a mulher e perguntar se estava bem, lembrou do momento em que o traidor ranhoso do Snape lhe dissera aquela mesmíssima frase tempos atrás.
- Foi algo que eu disse? – indagou a mulher, já recomposta do sobressalto, e sem recorrer ao estranho poder que usara até agora.
Harry fez que sim com a cabeça, ainda com expressão raivosa.
- Peço que me perdoe, não foi minha intenção. A propósito, poderia me dizer quem era aquele homem que você bombardeou na minha cabeça? – perguntou, dando um meio sorriso que sugeria que estava tentando ser gentil.
- Pois muito bem então – disse Harry, agora com vontade de gritar para o mundo inteiro ouvir que durante todos esses anos, ele estivera certo sobre aquele cretino. –, venha e faça o que quer que estivesse fazendo. Embora que, daqui, eu sei que não sairá resultado algum. Pensou.
A mulher assentiu, então aproximou-se e pôs uma das mãos sobre sua cabeça, voltando a se comunicar mentalmente.
“Tente não ser mais tão indiscreto assim da próxima vez” – Mentalizou a mulher, voltando ao método de mover os lábios sem som, como um fantoche. “Basta que pense no momento em que a confusão começou. O resto, deixe comigo.”
Após ver um verdadeiro show de imagens e vozes, ela tirou a mão do cabelo revolto de Harry, e este notou que a mulher tentava se recuperar de uma crise de tontura, passando um certo período com os olhos fechados e a mão sobre eles.
- Você... viu tudo?
- Creio que sim – disse, agora voltando o rosto para olhar em seus olhos – E agora penso ter compreendido o motivo daquele pensamento desagradável lá atrás. – E dizendo isso, endureceu a expressão. - Então este é Severo Snape, suposto assassino do diretor de Hogwarts?
Não foi surpresa para Harry descobrir que aquilo rendera uma dor aguda em seu peito.
- Suposto uma droga! Foi aquele maldito, eu estava lá, e agora você sabe! A mulher então se aproximou, pondo a mão em seu ombro.
- Agora temos mais um motivo para você me ajudar, Potter. Encontrar e capturar este homem é uma de minhas principais funções.
Ao ouvir aquilo, Harry poderia suspirar.
- Você é do Ministério, não? Pensei que já tivessem lhe dado motivos suficientes para trancafiá-lo em Azkaban. Você já deveria saber que ele era, e sempre foi um servo de Voldemort.
- Precisávamos das informações detalhadas acerca daquela noite fatídica, Potter. O ministério não sabia de tudo. “Eu não sabia de tudo” Harry assentiu, imaginando o quão misterioso estava sendo aquele interrogatório e se perguntando quem e de que lado aquela mulher estaria.
- Então foi só isso que você tirou de minha mente? – perguntou Harry, mesmo tendo sérias dúvidas quanto a acreditar na resposta que ela lhe daria.
- Com a informação inicial que você me deu? Garanto que só. – Dizendo isso, ela ergueu o corpo. – Isso foi tudo, obrigada por sua colaboração – Informou, voltando ao tom entediante de antes. - Espero que com isso você não precise ser novamente incomodado antes de deixar estas instalações. Mas é meu dever dizer que o Ministro ainda deve querer conversar com você.
Harry ainda ficou encarando-a enquanto ela apontava para a porta num gesto cordial e dizia que seus amigos deveriam estar aguardando. Vendo que o gesto da mulher deixava bem claro que eles não poderiam conversar mais nada agora, ele apenas se virou e seguiu em direção à porta.
Houve uma mudança na expressão da Auror: ela soltou os ombros, e sua face por detrás da mão aberta denunciava exaustão.
Assim que se ouviu o barulho da grande e pesada porta de madeira fechando o local, fazendo a escuridão se abater sobre a sala, algo se moveu nas sombras atrás de Hope Short; uma sombra que foi se separando das outras e ganhando movimento próprio.
- Quase pensei que o garoto tivesse te azarado. – Soou a voz de Sanguini às suas costas. Ele esperou um tempo. Silêncio. – Doeu muito?
- Ora, deixe disso. – retrucou Hope numa voz autoritária, embora estivesse sorrindo com o canto da boca, sentindo a conhecida e gelada mão de Sanguini pousar em seu ombro.
- Conseguiu alguma pista relevante? – Indagou Sanguini, a princípio usando o método tradicional de comunicação, e depois continuou, só que dentro da mente da Auror – “Você sabe, mesmo minha super audição não detecta... aquilo. Você usou, não foi?”
Hope lhe lançou um olhar que Sanguini decifrou corretamente como “foi estritamente necessário”.
- Depois, Sanguini. Agora nós temos um relatório extremamente chato para entregar.
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Aqui mais deseinho do Sanguini o/ E desta vez é a versão "normal", sem os traços chibi. Bem, eu postei essas duas versões diferentes de pintura pelos seguintes motivos: o primeiro desenho eu pintei à mão, com lápis de cor normal, e o segundo, uma amiga pintou no Photoshop. No primeiro, a cor da pele está na tonalidade certa, mas já a cor do cabelo, eu não tinha o tom certo de vermelho então tive de me virar com ele puro. Enquanto que no pintado no PS, a cor do cabelo está correta. Bem, está explicado XD Esperam que tenham curtido o desenho. E não, ele NÃO parece uma mulher! XD
Viagens da Autora! - Olá a todos o/Eu sei, eu sei, demorei um pouco. É que devido às atuais circunstâncias... er... a verdade é que sou bastante lerda pra escrever. Mas espero que com essa (hum) pequena demora, não tenha dado tempo de esquecer os acontecimentos do capítulo anterior...A propósito, o capítulo desta vez está maior do que a minha média. Acho que bati um récorde. Não sei se isto é bom ou ruim; vocês é que dirão (por favor, me digam mesmo XD)O fato é que, para não extrapolar e deixá-lo ainda maior, eu tive de cortar cenas cotidianas que em nada afetariam a trama. Digamos que eu corri até onde interessava em certas partes. Garanto que foram poucas.Caso contrário, eu teria de empurrar parte do capítulo para mais adiante, e eu não estava a fim de fazer isso...Espero que não me matem (XD)Té o próximo capítulo! o/