- Short, preciso que reúna a equipe. Acho que surgiu uma coisa especial para vocês.

Fora a ordem do velho Michail alguns dias atrás, numa conversa particular durante uma visita à sua casa, nos jardins. Ele nunca gostava de ter esse tipo de conversas trancado em seu gabinete, nem protegido por um potente feitiço como a maioria dos chefes mágicos; sempre achou que havia muitos ouvidos perambulando pelos cantos.

- Vocês partirão para Londres dentro de poucos dias... algum problema, Short? – perguntou, notando a sombra passageira no semblante da auror.

- Hã...? Não, problema algum, senhor.

Londres.

Após a saída do ministro, ela ainda ficou ali, de pé, a expressão distante.

Londres. Depois de tanto tempo, voltaria a pôr os pés lá.

A notícia, poucos dias depois, de que o diretor de Hogwarts havia falecido... não, sido assassinado, e pelo que havia sido repassado, por um de seus homens de total confiança, ajudou a embaralhar ainda mais as coisas... Agora ela estava ali, esperando silenciosa, enquanto imagens e luzinhas passavam velozmente através do vidro, virando simples borrões, divagando em seus pensamentos pela quinquagésima sétima vez desde que soubera que teria de voltar a Londres...

Alguma coisa fria acabara de encostar em seu ombro, e a trouxe à realidade. Os borrões diminuíram a velocidade e começaram a ganhar forma. Estavam parando.

Não havia sinal de vida naquela rua estranha àquela hora da madrugada, quando um ônibus roxo de dois andares surgiu a pouco mais de meio metro acima do asfalto e pousou majestosamente.

- Ministério da magia, Londres. – anunciou o motorista para o grupo de aurores, alguns dentre eles mantinham os olhos fechados e poderiam fazer qualquer um acreditar que estavam realmente no sono dos vulneráveis.

Mas eles nunca dormiam em serviço – Chegamos

O próprio motorista serviu de guia para o silencioso grupo, com Hope Short e Darten Sanguini logo às suas costas. Aquela não era a primeira vez que visitava aquela instalação; era apenas mais uma de certas idas e vindas para tratar de certos assuntos entre os dois ministérios.

Mais uma vez contemplando a falsa paisagem noturna da sua janela, Scrimgeour usava as últimas partículas de paciência que lhe restavam, pensando em como seria “divertido” comandar outra vez um grupo de aurores. “Um grupo excepcional de aurores”, como lhe havia garantido Michaíl. Foi interrompido em meio a esses pensamentos quando teve a constatação de que o esquadrão estava à sua porta e aguardava instruções.

Eram doze homens, afinal. “Homens” era apenas modo de pensar, já que as apresentações formais ficaram a cargo da líder do esquadrão, uma mulher proporcionalmente magra e de estatura mediana, longas mechas onduladas e negras fazendo par com a expressão séria e altiva, de nome Hope Short. Scrimgeour passou o olhar analítico em cada um dos membros, mas não pôde deixar de se ater a um em particular.

Ele fixou os olhos na figura esguia e muito, mas muito pálida para seu gosto, prostrado bem ao lado de Short. Que espécie de gente Michaíl estava empurrando para seus ombros, afinal? O homem tinha uma aparência jovem e parecia ser cordial apesar de todo o resto. O cabelo castanho avermelhado escorria pelo seu corpo até quase atingir a cintura; uma das mechas da frente cuidadosamente colocada atrás da orelha. Usava uma camiseta, por cima da qual estava um longo sobretudo de manga longa, e calça comprida, todas as peças negras, contrastando com os tons de sua pele e cabelos. Ele parecia ostentar sempre um meio sorriso calmo e misterioso, e agora devolvia um olhar castanho escuro, sem parecer se importar realmente com sua insistência em mirá-lo por mais tempo que o normal. O que aquele cínico do Michaíl estava pensando quando lhe enviou um vampiro?

Tirou o olhar a contragosto, antes que o ato fosse recebido com animosidade, e foi direto ao assunto. Assim que havia dado as instruções iniciais, não perdeu a chance de pedir que Short aguardasse mais uns instantes, na sala ao lado; ela obedeceu com um meneio de cabeça, olhando de soslaio o parceiro pálido, provavelmente prevendo o teor da conversa.

* * * *

- Você só pode estar brincando! – reagiu Harry ao saber que queriam levá-lo ao Ministério praticamente à força.

- Nós não brincamos com coisas sérias, Potter. Temos ordens expressas para voltarmos para as dependências do Ministério com você entre nós dois. Ninfadora Tonks – continuou, apontando o dedo para a colega - é sua obrigação fazer o garoto contribuir, sabe disso, não sabe?

Tonks olhou para Harry e depois para Lupin, procurando uma forma de contradizer os aurores. Lupin estava pronto para dizer algo, mas Harry o interrompeu

- Pois eu tenho a impressão de que os dois vão se meter em problemas, porque eu não sei onde está escrito que tenho que ceder aos caprichos do Ministro. Se eu fosse vocês, iria correndo dar o recado e torcendo para que não fosse despedido. – Harry tinha acabado de passar por situações perturbadoras, estava exausto física e mentalmente e estava disposto a mandar os lacaios de Scrimgeour para algum raio que os partisse.

Por um momento apenas, os dois aurores pareceram perder a calma, mas se recompuseram como se não lhes tivesse chegado ofensa alguma aos ouvidos.

- O ministro da magia, Potter – disse o mais baixo, pausadamente –, não tem nada a ver com a sua ida ao ministério hoje. E se eu fosse você, já estaria a meio caminho de lá.

Apenas alguns instantes depois, um silvo agudo cortava caminho entre a paisagem verde, de volta para Londres.

* * * *

Hope esperou contrariada os demais aurores saírem da sala, ainda não havia se acostumado com o interesse desconfiado das pessoas a respeito de Sanguini. Era verdade que nunca se tinha visto antes um ser desse tipo realmente efetivado nas forças daquele país então, calmamente, se preparou para esclarecer as possíveis dúvidas sem mais demora, pois ela sabia reconhecer a tática de florear os assuntos o máximo possível até que se chegue ao ponto da questão quando alguém tentava colocá-la em prática; recusou o chá oferecido por Scrimgeour e foi direto ao assunto

- Não pude deixar de notar, ministro, que o senhor não se sentiu à vontade com um de meus homens.

Scrimgeour ergueu uma sobrancelha, abandonando o sorriso milimetricamente medido que guardava para essas ocasiões.

- Muito bem, agente Short. Foi bom ter notado. Espero que considere o fato disto ser uma coisa, digamos, bastante rara por aqui. Não escondo o fato de que fiquei curioso.

- O nome dele é Darten Sanguini – interrompeu Hope sem rodeios, deixando transparecer um mínimo tom de desafio -, o universo de aurores do nosso país é aberto a qualquer ser mágico ou não, desde que pertença ao nosso mundo e seja devidamente qualificado. Sendo assim, ele é formado na academia de aurores assim como qualquer outro agente que tenha visto aqui esta noite – e manteve o olhar fixo no do Ministro, que a encarou por alguns tensos segundos.

A objetividade e determinação daquela auror estavam bem claros, além do temperamento impetuoso e ao mesmo tempo calculista. Ele já tinha visto temperamento semelhante em outro lugar: Potter.

Começava a ver vantagens; se eles tinham o garoto metido a ousado, ele agora também tinha a sua. Se não conseguira arrancar nada de Potter, uniria então o útil ao necessário.

Búlgaros, sempre se achando durões.

- Minhas sinceras desculpas se ofendi um de seus agentes, não foi minha intenção. Você, como chefe de um excelente grupo, deve entender que devo tomar minhas precauções – disse com tato, quebrando o silêncio estratégico. Vigiaria o vampiro de longe.

- Espero ter a satisfação de poder mostrar que devido a certas... habilidades que possui, Sanguini é um de nossos melhores aurores – concluiu, com um meio sorriso.

– Ficaria muito satisfeito com isso – sorriu o ministro - Pois bem, acho que podemos voltar ao assunto primordial. Já tenho o primeiro fio que você vai seguir, Srta. Short. Me garantiram que você é especialmente familiarizada com ambientes um tanto inóspitos, e é exatamente disso que precisarei no momento.

* * * *

Scrimgeour observou atento os búlgaros se dispersarem; deveriam se alojar em áreas distantes uns dos outros, no máximo em duplas, por questões estratégicas. Eram sujeitos calados e compenetrados, isso dava para se notar logo de cara. O ministro não queria se importar com o fato deles terem um tipo diferente de conduta, primeiro porque foi justamente esse o motivo que o levou a “contratá-los”. Ele também não queria ficar tenso com o outro fato de um de seus membros ser nada menos que um vampiro, seres que permaneceram e aparentemente ainda permanecem nulos até agora; quem poderia saber se eles estavam realmente nas sombras? E que ele parecia calmo e amigável demais para o seu gosto. Ele também não estava nem um pouco a fim de lembrar de problemas do passado, envolvendo uma antiga equipe de aurores.

Acontece que seu subconsciente tratava de martelar seu cérebro, determinado em avisá-lo que ele estava se preocupando, sim.

* * * *

Para a maioria das pessoas em Hogsmeade, quase cinco da manhã era extremamente cedo. Principalmente quando dois estranhos batem à sua porta. Corrigindo, entram pela sua porta.

As ordens tinham sido bem claras: deveriam entrar e sair dos lugares sem fazer alarde, e só poderiam revelar sua condição de aurores ao mínimo de pessoas possível. Foi por isso que assim que puseram os pés numa estalagem de Hogsmeade, enquanto o sol cogitava seriamente a ameaça de se erguer, o balconista parou de organizar melancólico as garrafas nas prateleiras e mirou a estranha dupla que adentrara no aposento; assim que notou a palidez incomum, o semblante calmo e o corpo esguio de Sanguini, ficou paralisado e de olhos vidrados, deixando cair um copo de vidro que parou seu percurso antes de chegar ao chão e se espatifar, e voltou sozinho para seu lugar ao lado dos outros na prateleira.

Depois do movimento Hope recolocou a varinha num bolso interno da capa, olhando de soslaio para Sanguini, que apenas deu de ombros.

Só conseguiram o tão desejado quarto depois de uma longa e cansativa abordagem de quem eram e de onde vieram, histórias sobre visita a parentes e coisas do tipo, e uma bela conclusão sobre como um verdadeiro comensal da morte não se disporia a responder metade daquelas perguntas e de como todos já estariam mortos.

- Da próxima vez, transfiguro você, ou finjo que é meu criado. – advertiu Hope, desabando na poltrona um tanto corroída, determinada a tirar um bom cochilo.

- Quem mandou eu chamar tanta atenção? – Sanguini olhou na direção da poltrona, já que não obtivera resposta. Hope tinha adormecido ali mesmo, numa posição pouco confortável. O vampiro se aproximou com passos silenciosos como os de um gato e ergueu-a nos braços, sem que ela movesse uma pálpebra e colocou-a na cama, ainda tendo o cuidado de puxar um cobertor sobre seu corpo.

- Logo agora que eu queria dar uma olhada no estoque de sangue em pó numa dessas lojas... – comentou ao acaso, olhando em seguida para cima e amaldiçoando a droga do teto por não ter vigas.

- Ótimo. Onde é que eu vou dormir agora?

* * * *

Harry desembarcou com o sol já dando sinais de querer impor seus raios pela cidade. Um daqueles carros enfeitiçados já o aguardava na estação e de lá foram direto para o ministério. Harry sequer lembrava da expressão “dormir”, os últimos acontecimentos vagueavam desordenados pela sua cabeça tentando expulsar o pensamento impertinente que depois de tudo o que acontecera, ainda tinham a pertinência de levá-lo quase à força para aquela droga de lugar.

Assim que passaram por todo o tedioso processo de entrada nas dependências do Ministério, Harry surpreendeu-se ao notar, não sabendo ainda se deveria alegrar-se com isso ou não, que o caminho pelo qual estava sendo guiado divergia daquele que levava ao gabinete de Scringeour. Passados uns tantos metros, ele decidiu perguntar, afinal de contas, estava ali a muito contragosto.

- O ministro realmente queria ter umas palavras com você, mas teve de tratar de outro assunto particular. – Então Savage calou-se de uma forma que sugeria que simplesmente não queria ou não podia falar mais sobre o tal assunto particular, e Harry decidiu guardar isso na memória.

Harry seguiu cada vez mais irritado aquele sujeito, adentrando as salas subterrâneas do Ministério com uma urgência disfarçada.

Não tardaram em chegar a uma ampla sala quadrada, de piso de mármore branco, paredes brancas e teto igual e impecavelmente branco. Em cada parede havia uma porta, todas da mesma cor do resto da sala e com entalhes em relevo.

Savage entrou na porta à esquerda, que Harry viu intrigado, antes de fazer o mesmo, que ela possuía um grande símbolo gravado em relevo em sua superfície: as duas varinhas cruzadas do Hospital Saint Mungus.

A porta fechou-se silenciosamente às suas costas.

O homem pegou algumas coisas em cima de uma mesa no fundo da nova sala, impressionante apenas pelo simples fato de não apresentar metade da bagunça das outras dependências que Harry já vira no Ministério. Ele se virou e sentou na ponta desocupada da mesa.

- Sente-se, Potter.

Harry não fez nenhum esforço para esconder a expressão de extremo desagrado que ostentava em seu rosto. Tampouco lutava contra a vontade de pular em cima do pescoço do homem e esganá-lo no melhor estilo trouxa, cada vez que ele o chamava de “Potter”. Isso o fazia ter lembranças ainda mais desagradáveis.

- O nome é Harry. – disse Harry, impassível, já sentado e esperando que a palhaçada acabasse.

O homem o fitou.

- Me escute com atenção, Harry. – e examinou dois pequenos papéis – O que tenho a falar envolve os comensais. – Harry se remexeu na poltrona, soltando um “me conte alguma novidade” – E trouxas. – continuou ele – Harry, alguns de nossos aurores têm fortes indícios de que os seguidores de você-sabe-quem resolveram dar uma festinha coletiva. Sabe o porquê, não sabe, Harry?

Harry apenas assentiu, afundando seu corpo ainda mais no assento. Viu que pensar no assunto era inevitável.

- Eles estão comemorando – disse o homem, em tom calmo, embora seu rosto revelasse o contrário.

O sentimento de raiva não deixou que ele ouvisse o resto das palavras. Ela lhe mostrava corpos negros sem rosto, amontoados feito corvos, gargalhando... o som ecoando cada vez mais nefasto... via dois seres no meio de todos eles; Lord Voldemort, apresentando aquele que se mostrara tão perverso quanto ele mesmo, e bem a seu lado, com um sorriso de triunfo, Snape tirava sua máscara.

- ... à noite, eles resolveram se divertir. – Savage continuou, tirando Harry de seu devaneio momentâneo.

- Ouviu o que acabei de dizer, Potter? Trouxas foram atacados ontem à noite, em pleno centro comercial, embora acreditem ter sido obra da natureza enfurecida; um terremoto. Muitos deles saíram gravemente feridos, e também não se livraram das azarações. Por isso, há um bom número deles no Saint Mungus nesse momento.

- Fui chamado aqui só pra ficar sabendo dessa grande novidade, não é? Afinal de contas, todos estávamos esperando que eles de repente sentassem e confraternizassem com os trouxas, não é? Não me diga qu...

- Petúnia e Walter Dursley. – soltou o homem, e Harry demorou um tempo para se calar e entender a informação.

* * * *

"Viagens" da autora! - Olá o/
Espero que tenham gostado do extra no final do capítulo! É um desenho chibi (também conhecido como Super Deformed, desenho de um personagem adulto com traços infantis) do Sanguini. Vou tentar colocar mais desenhos de vez em quando pra vocês.

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