Raios de sol se estendiam preguiçosamente pela grama. A brisa suave que tocava calmamente tudo em seu caminho fazia daquela uma bela tarde, realmente.

Mas ninguém ali reparava nisso.

O calor aconchegante de fim de tarde tornava o ambiente propício a brincadeiras à beira do lago.

Porém nada disso estava acontecendo.

Frio...

Harry sentia frio ao ver a fila fúnebre de pessoas deixando os terrenos de Hogwarts, alguns alunos talvez para nunca mais voltar. Alguns se davam ao trabalho de olhá-lo e apenas balançar a cabeça. Por um momento, desejou ser qualquer uma daquelas pessoas, livrar-se da sensação de vazio que insistia em perturbá-lo.

Sozinho.

Sentia-se completamente sozinho e recluso em seus próprios pensamentos até uma mão tocar seu ombro.

- Harry... – disseram duas vozes.

- Lupin. Tonks.

A expressão sempre suave do professor, de uma forma estranha, o fez sentir-se melhor, e ele soltou um longo suspiro.

- Harry, veio para este lugar e ficou solitário boa parte da tarde. – disse calmamente – Seus amigos estão preocupados. Venha, é hora de irmos. Um bom descanso lhe fará bem.

Harry foi obrigado a pensar numa outra coisa.

- Terei de ir novamente passar péssimos dias nos Dursley – disse para si mesmo.

- Só vai ter de agüentar mais um pouco. Infelizmente isso é necessário, você sabe, Harry. E Dumbledore iria querer que você fosse. – Fez uma pausa só para notar como ele tinha o olhar distante – Mas não precisará ir agora. Você, mais do que ninguém, tem o direito de descansar um pouco na Toca antes.

Harry olhou mais uma vez a tumba branca, sem sentido, e obrigou-se a virar as costas.

- Então vamos – disse apenas.

Logo eles eram mais um ponto à distância, se afastando dos jardins.

* * * *

Uma pessoa havia permanecido nos jardins da escola depois que todos se foram. Essa pessoa olhava com desconfiança para um ponto no interior e além dos grossos troncos das árvores da floresta proibida, e sua expressão realmente não era das melhores.

Rufus Scrimgeour repassava aquela cena em sua mente, agora sentado em seu gabinete, o olhar fixo num ponto qualquer da janela enfeitiçada, que por um acaso exibia a réplica de um céu nublado, embora ele nem notasse.

“Foram tempos difíceis”, pensou. “trouxas mortos, bruxos igualmente mortos ou desaparecidos... até mesmo muitos aurores...”

Desaparecidos.

A palavra vagava de um lado a outro do seu cérebro.

Mais uma vez a cena nos terrenos da escola quase uma semana atrás, teimou em invadir seus pensamentos. Ele jurara ter visto algo espreitando na borda da floresta. Algo familiar. Um corpo e um rosto, talvez.

Não, já havia analisado possibilidades mais nefastas, também, e estava fora de cogitação. Não havia nenhum comensal da morte se aventurando por ali. Não tão perto dos centauros.

Achou-se patético quando notou cogitar a possibilidade de “estar vendo coisas”. Um ministro da magia não pode andar por aí simplesmente “vendo coisas”. Justamente agora que não podia nem pensar em tirar férias...

toc... Toc... Toc...

Já tinha ouvido tanto esse barulho nos últimos dias, que estava cansado de saber de quem se tratava. Menos de trinta segundos depois e Alastor Moddy invadia a sala, o olho giratório focado em Scrimgeour. Percy surgiu atrás dele logo em seguida, inspirando o ar como se tivesse acabado de ser salvo de um afogamento.

* * * *

A luz de uma lua avermelhada revelava uma rua deserta. As casas pareciam embaladas por um sono profundo, mal notando o ar tenebroso a se acumular num certo ponto.

Silencioso como a morte.

Assim permaneciam quase todos os cômodos daquela casa, emanando antiguidade e exalando cheiro de mofo.

Uma mão esquelética com unhas escarlate tateava a parede, agora fria e escura. Acariciou também um velho armário, cujo espelho sujo de poeira refletia com dificuldade uma mulher de longos cabelos negros, examinando com uma mão cada recanto da sala, iluminada fracamente por chamas azuis.

Parecia que pedaços da própria escuridão haviam se desgrudado das sombras e agora vagavam pelo lugar.

- Chegou a hora. – disse uma voz semelhante ao sibilo de cobras – Meus caros comensais... finalmente o dia que eu aguardava com tamanha intensidade... – Lord Voldemort abriu os braços enquanto falava – está ao alcance de nossas mãos. – e baixou a voz para si mesmo – O velho está morto. MORTO! – bradou por fim, abrindo ainda mais os braços, e seus olhos vermelhos revelaram um brilho doentio.

Voldemort pareceu sair de um transe momentâneo, e sua expressão voltou a ser dura e implacável.

- Uma pena não ter saído tudo exatamente como planejado. – Seus olhos e muitos outros fixaram-se num corpo arquejante à sua frente.

Draco Malfoy tentava se controlar para não gemer de dor, e Narcisa estava ajoelhada a seu lado.

- Não tolero tanta fraqueza na mesma família. – sussurrou Voldemort, com desprezo na voz, então ignorou a cena e voltou a olhar os comensais.

- Mesmo com esse... erro, devemos parabenizar aquele que nos proporcionou este dia glorioso. – estendeu a mão tão branca quanto um fantasma para um dos comensais.

Severus Snape se pôs diante de Voldemort, uma expressão de satisfação desenhada no rosto.

- Foi um prazer servi-lo, milord. – ele usava uma camisa branca, agora em estado deplorável. Finos e longos rasgos com manchas de sangue estavam ali desde aquela noite. Voldemort fizera questão que ele permanecesse assim até o momento.

- Observem todos vocês, o que acontece no fracasso – e apontou Draco caído no chão – e na vitória – ergueu a varinha e lançou um feitiço que cicatrizou as feridas de Snape, ao mesmo tempo em que sua roupa voltava ao normal.

- Muito obrigado, milord. – disse, quase ajoelhando-se em reverência.

- Os fracos devem ser punidos. – murmurou Voldemort, e voltou a olhar Draco – O que acha que devo fazer com o inútil do seu pai?

Draco ergueu a cabeça, os olhos vermelhos não conseguindo esconder algo parecido com medo. Narcisa se abalou.

- Não! Por favor, meu marido não!

- Ah, entendo. Seu filho, então, que se mostrou incapaz de servir a mim. – sua varinha era erguida mais uma vez – Avada ...

- Milord – interveio Snape –, se me permite, penso que Draco ainda merece uma oportunidade. Deixe o garoto vivo e, caso ele realmente seja capaz, lhe dará alguma prova. Caso contrário –, e baixou a vista para Narcisa – morrerá tentando.

Voldemort fixou os olhos afilados em Snape por alguns instantes. Snape não movia um músculo sequer.

- Como estamos numa ocasião especial, e para mostrar minha... generosidade, que assim seja. Agora, meus comensais, espero que cumpram com êxito as ordens, estamos mais livres do que nunca!

As horas se passaram e agora apenas três pessoas ocupavam aquele cômodo da mansão Black. Belatriz ostentara um sorriso de triunfo quando se deu conta que era herdeira mágica da antiga casa. Só havia um pequeno contratempo nisso... ainda.

* * * *

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