Maria
é mulher. Vive numa sociedade patriarcal, na qual os homens têm a
primeira e a última palavra. Enquanto os homens aprendem a ler e a
escrever nas sinagogas, a cada sábado, as mulheres normalmente
permanecem analfabetas. Elas não podem conversar com um homem em público.
Ficam confinadas em casa. Em um julgamento, o testemunho do homem vale
mais do que o da mulher. Se a mulher perde o marido, a herança do
falecido não fica com ela, mas sim com os familiares dele. A mulher
fica viúva, sem filhos, não tem a quem recorrer, a não ser alguém
que lhe resgate os direitos.
Maria
vem de Nazaré, uma pequena cidade da GaIiléia. A terra de Jesus, a
Palestina, está dividida em três regiões: a Judéia, ao sul; a
Samaria, ao centro; e a Galiléia, ao norte. Os habitantes da Judéia se
consideram os judeus mais piedosos, mais puros nos costumes e
cumpridores das leis religiosas. Na Judéia está a cidade de Jerusalém,
lugar de peregrinação, capital religiosa e grande centro econômico.
Os galileus não têm boa fama. Da Galiléia partem vários movimentos
de libertação contra os romanos. Os galileus têm um sotaque gozado,
que os identifica facilmente. Nazaré é uma cidade sem importância.
Natanael chega a perguntar se de lá pode sair alguma coisa boa (cf. Jo
1,46). Os chefes dos sacerdotes não acreditam nos galileus e sabem que
de lá não surgiu nenhum profeta importante (cf. Jo 7,52).
Lucas
começa o Evangelho narrando a anunciação do anjo Gabriel ao pai de João
Batista (cf. Lc 1,8-20). Zacarias, homem e sacerdote, está no templo,
localizado em Jerusalém, na Judéia. Ele tem tudo para ser o religioso ideal
do seu tempo. Mas Zacarias duvida. Não tem fé suficiente (cf. Lc
1,20). O mesmo enviado de Deus vai então para o outro extremo da
Palestina. Visita uma menina-mulher, fora do templo, na Galiléia, em
Nazaré. Ela acredita e acolhe a proposta de Deus (cf. Lc 1,38.45). Acontece o oposto do que poderíamos esperar.
Deus esconde os seus segredos aos sábios e entendidos e os revela aos
pequeninos (cf. Lc 10,21).
Maria
e José não são ricos. Jesus nasce fora de Jerusalém, em Belém. Não
há lugar para ele na hospedaria. Maria o envolve em panos e o deita
num cocho. O menino Jesus não nasceu em berço de ouro. Esse é o
grande sinal revelado aos pastores: “Vocês
encontrarão um recém-nascido envolto em faixas e deitado num cocho” (cf.
Lc 2,12). Você acredita num sinal desses? Não seria mais fácil
esperar do Salvador, Cristo-Senhor, algo extraordinário, poderoso,
estrondoso? Mas a simplicidade de Deus rompe com nossos esquemas e nos
surpreende.
Mais
tarde, Maria e José levam o menino Jesus ao templo. Seguindo a tradição
dos judeus, fazem um sacrifício de oferta ao Senhor (cf. Lc 2,22-24).
Como são pobres, não oferecem um cordeiro, mas somente um par de rolas
ou duas pombinhas (ver Lv 12,6-8; 5,7).
Maria,
mulher de coração pobre e solidária com os pobres
O
cântico de Maria, que está em Lucas 1,46-55, foi denominado de
“Magnificat”, palavra em latim que significa “engrandece”,
“exalta”. Está baseado no hino de Ana, mãe de Samuel (lSm 2-10).
Se lermos um depois do outro, notamos as semelhanças.
Maria
começa sua oração abrindo-se a Deus, numa explosão de contentamento:
“Minha alma engrandece o Senhor
e meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc
1,46). É uma pessoa de coração aberto ao Senhor, toda sintonizada com
Deus. Reconhece-se como uma mulher especial, agraciada por Deus. Diz
claramente que “de agora em
diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48).
Não se esconde debaixo de falsa modéstia. Aqui está o segredo de sua
humildade: ela sabe que tudo é dom de Deus. Não toma nenhum louvor ou
honra para si: “O Senhor fez
em mim maravilhas, Santo é seu nome” (Lc 1,49).
O
cântico de Maria traz até nós as esperanças dos profetas de que, com
o Messias, virá um tempo de justiça e felicidade para todos. Alguns séculos
antes de Maria, Isaías anunciava: “Naquele dia, os surdos ouvirão e
os olhos dos cegos, livres da escuridão das trevas, tornarão a ver. Os
pobres terão maior alegria em Javé e os indigentes da terra exultarão
nele” (Is 29,18).
Maria
proclama:
“Sua
misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o
temem.
Agiu
com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso.
Depôs
os poderosos de seus tronos, e os humildes exaltou.
Cumulou
de bens a famintos, e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1,50-54).
Muito
não conseguem entender como, da boca de uma mulher aparentemente
pacata, podem sair palavras tão fortes e expressões tão duras. Maria
tem o vigor dos profetas, que querem fazer valer no mundo a bondade e a
justiça de Deus. Eles não querem fazer somente uma troca de papéis na
sociedade, jogando para cima quem está embaixo e fazendo descer quem
está por cima. O hino de Maria, como muitos cânticos dos profetas, está
cheio de indignação contra a injustiça que reina no mundo. Denuncia
como o orgulho, o mau uso do poder e a concentração da riqueza econômica
estragam a todos, ricos e pobres. Maria alimenta a esperança de que
vale a pena sonhar e criar alternativas em vista de uma nova sociedade.
A garantia dessa esperança vem da misericórdia e da fidelidade de
Deus, que socorre seu povo (cf. Lc 1,50.55).
O
“Magnificat” mostra que Maria é ao mesmo tempo uma mulher santa,
toda de Deus, e uma pessoa com consciência da história, da luta e das
esperanças do seu povo. O coração aberto para Deus faz dela um ser
humano alegre, cheio de vida, e também solidário com o povo sofrido.
Maria nos inspira um jeito de ser cristão muito atual, na América
Latina e Caribe, na linha de Medellín, Puebla e Santo Domingo. Ela nos
abre uma trilha nova e desafiadora, de integrar mística com cidadania,
espiritualidade com compromisso social.