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A Música Interior A
palavra criação supõe o surgimento de algo que ainda não existe. Em um nível
mais profundo, pode ser algo totalmente novo, ou simplesmente uma organização
diferente de elementos que já existem Por
um lado poderemos estar falando da criação da própria música, da poesia, e
por outro estar falando da criação de mais uma música, de mais uma poesia -
uma organização diferente de notas, tempos ou de palavras compondo algo
"novo". O
ato de tirar algo "novo" do nada por sua vez pressupõe que o artista
- o indivíduo pelo qual a arte se expresssa, esteja em um estado de espírito
diferente do normal, ou melhor dizendo, em um estado de conciência expandida
onde ele percebe formas, sons e cores não perceptíveis nos estados de
objetividade que o dia a dia impõe. A
centelha de toda obra de arte advém de um lapso de expansão da nossa percepção
o que pode demorar de alguns segundos, um flash do infinito a alguns minutos e não
mais que isto. Deste ponto em diante, assim como açoitados por um farol,
tatearemos no escuro, tentando nos lembrar, reter, repetir e repetir tendo a
certeza que não está perfeito e nem nunca estará. Este fato causa as mudanças
de fase de um artista onde todas as obras desta são apenas tentativas de
reprodução da grande "obra" que ele não chegou a captar por
completo. Vemos, como causa direta disto as canções que trocam todo o rumo
musical de uma era e as canções menores que tentam reproduzí-la nos
permitindo separar os verdadeiros artezãos dos seus seguidores. Vemos
aqui uma réstia da verdade oculta sob a "Música das Esferas" e do
"Inconsciente Coletivo" - Relâmpagos do absoluto sobre os artezãos
que, como escravos seduzidos, traduzem-os em obras menores para que toda
humanidade possa perceber e principalmente fazer com que mais artezãos
despertem e que mais luz desça sobre a superfície. Com
certeza toda inspiração vem de um momento especial causado por algum evento
que nos tocou de forma especial no levando a um estado de emoção. Desta forma
as causas podem ser inumeráveis e vão desde uma forma diferente de interpretação
de um fato vulgar, a processos de sedução, raiva, medo, insegurança, depressão,
extrema felicidade, um vislumbre de esperança e outros tantos. Uma
vez que o estado de emoção se encontra instaurado, a depender das ferramentas
que o artezão encontra em suas mãos, poderá advir uma música, uma poesia ou
qualquer outro tipo de arte não menos nobres. As
perguntas corriqueiras que se faz a qualquer artista, e neste caso, compositor,
é "como a coisa acontece" , "quem vem primeiro a letra ou a música"
ou se "a música vem completa". Bem, tenho minhas próprias experiências
e gostaria de enriquecer este texto com a experiência de outros compositores
mas, ficaremos por enquanto, com algumas das possíveis respostas. A Semente da CançãoGeralmente
a obra parte de uma semente (o lapso verdadeiro) e a depender do nosso estado
mental no momento, já que poderemos estar na rua, super-mercado, dirigindo,
andando na praia, ou deitado em um sofá olhando pela janela, este vislumbre
pode perdurar nos permitindo uma visibilidade maior, e que não queiramos
interferir muito no processo que, se interrompido, teremos a difícil tarefa de
mantê-la na mente, reproduzí-la e o mais difícil - acabá-la. Ela
aparece sempre como uma modulação sutil que se desenvolve sobre o ruído
branco do vento, as vezes aparece sobre o ruído confuso e aleatório dos
pensamentos, e, nossa tarefa é simplesmente focar e ouvir, ouvir e ouvir até
aprender e, até que isto aconteça, simplesmente fique em silêncio e não
interfira. É
como se um momento especial colocasse para tocar a fonte de música em nosso
interior Como
exercício poderemos ver, como resultado da nossa interferência, um mar de músicas
não acabadas onde nada mais se encaixa, ou outras que possuem estribilhos (chorus)
lindíssimos que não se encaixam com o resto, letras forçadas a
"caber" no tempo ou músicas perseguindo poesias. Enfim trabalhos que
não foram dados a gestação necessária, filhos prematuros ou nati-mortos. Um
bom compositor sabe sentir o momento, não interferir no momento e capturá-lo
em sua forma mais primitiva. E "o compositor", além disto, sabe criar
o momento. E
dai ? Os aranjadores e músicos continuarão e darão a forma necessária ao
trabalho. O arranjoArranjar
uma música é arrumar as partes que a compoem. A mesma música pode, e deve,
soar completamente diferente e muitas vezes se torna irreconhecível a depender
do arranjo executado. Pela
teoria da matemática estatística, arranjar é arrumar de forma diferente o
mesmo número de elementos, ou seja - trocar de lugar. A
composição fornece os elementos e deve fornecer material flexível para o
trabalho podendo propiciar arranjos mais ricos, dando abertura suficiente para a
criação dos arranjadores. O efeito contrário, onde se força um arranjo mais
elaborado sobre uma canção pobre, é surgir uma música diferente da produzida
afogando a original. O
curioso é que a complexidade da composição não é fato determinante desta
abertura e, muitas vezes, músicas simples permitem, com leveza e naturalidade,
arranjos inspirados e belíssimos. Basicamente
tendo forma, que é a estrutura sobre a qual assentaremos o arranjo, poderíamos,
por exemplo, começar a... Escolha dos InstrumentosA
depender do que sua canção diz, qual o clima desejado para ela, e preciso
definir, caso você possa escolher ou dispor, que instrumentos serão
executados. Obviamente, este poderá não ser o momento mais indicado e até
mesmo quando a canção se encontra quase finalizada nos dá idéia de
acrescentar aquele "blim". A
escolha de intrumentos implicará na escolha de músico e da captação ideal
para gravação. Escolher
instrumento é saber lidar com timbres, a composição harmônica que se quer
dar ao trabalho. Por exemplo : o dó que soa de uma flauta é completamente
diferente do mesmo dó executado em um piano ou violão. Esta diferença é dada
pelo timbre do instrumento. Estas notas são formadas, apesar de terem a mesma
frequência fundamental (dó), de diferentes componentes harmônicas e figuram
com desenho diferente quando "vistas" em seu formato "WAV"
na tela de um computador. Ou
seja o timbre é quem permite saber que instrumento é que está sendo executado
e até como está sendo executado. Saber
lidar com esta diferença de timbres e usá-los em seu favor lhe permitirá
tecer uma "segunda música" sobre a primeira propiciando textura ao
trabalho. É como se pintássemos um quadro sobre uma escultura. Complexo
? Sim, mas tenha certeza que as pessoas não sabem exatamente porque uma música
soa bem ou mal, mas sabem sem que seja necessário estudos mais profundos. Desenvolvimento das FrasesTalvez
tenha chegado o ponto de criar fases mélódicas com o instrumento adequado ao
seu trabalho, ou melhor os chamados "solos". Na maioria das vezes elas
repetem a linha melódica, a música propriamente dita, outras traçam um
bordado completamente diferente e até trocam de tom, ou "modulam".
Estas frases permitem que seu trabalho fique menos monótono e mais imprevisível
lhe conferindo certa surpresa e mais dinâmica e, claro, exageros, por outro
lado, cansam e desinteressam o ouvinte. Estabelecimento da dinâmicaConferir
dinâmica a um trabalho é atuar sobre a densidade musical tanto em volume de
som quanto na quantidade de instrumentos presentes em um dado momento. Um bom
exemplo de dinâmica é o rock progressivo, onde a música começa com um piano
"pianinho" - um "Debussy geral" e lentamente se torna pano
de fundo da invasão da Normandia acabando em som repetitivo que desaparece no
nada. A
dinâmica "leva" o ouvinte e é a responsável pela manutenção do
interesse contínuo pelo trabalho, mantê-lo atendo e prover descanço no
momento oportuno. Por
isto, dê uma boa vestimenta a sua canção... Procure
um bom arranjador ! ...e,
se quiser aprender mais, ou não tiver dinheiro para pagar o cachê (antes de se
assustar procure saber o preço - quase sempre vale a pena), escute muito aquilo
que você produz, e tente perceber como a forma e uso dos instrumentos agem
sobre seu interesse de ouvir mais vezes o trabalho e principalmente escute o
trabalho dos outros. Lembre-se
não há boa música que um arranjo ruim não estrague, logo existe muito espaço
para compositores e para arranjadores. |