Madrugada

Nos chega leve aos olhos,
O suportar de um sono pesado,
Nos pesando e nos medindo,
De um sonho que não tivemos nem vivemos,
Acordados que estávamos, na hora de dormir.

Nos vem suave um frio,
Que nos sobe pelos pés,
Vindo do chão gelado que não pisamos,
Da casa vazia que o coração já não habita,
Na cidade fria em que já não vivemos.

Nos chega calmo o som aos ouvidos agora,
Numa melodia que nos lembra de algo,
Que não conseguimos mais lembrar,
Vem numa voz doce, que já conhecemos,
De momentos melhores, nas nunca com tanto sentido.

Não nos chega o pouco que temos,
Não nos basta apenas os sonhos,
Adormecidos ou despertos, tanto faz...
Já não bastam as palavras,
Rabiscadas em rascunho ou papel de carta, tanto faz...

Não nos chega o sono tranqüilo, nem o verão,
Nem novos sons, já não chega nada de novo,
Não nos chega um novo dia, um novo querer,
Já chega de não dormir, de sentir frio, de ouvir e calar,
Já chega de esperar.

Rosa Panerari

 

 

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