Consulente_ Mestre, comecei a namorar um rapaz faz pouco tempo, e já estamos pensando em nos casar... Estou cheia de dúvidas, porque foi tudo muito rápido... eu nunca conversei sobre "esse" assunto com a minha mãe... E agora, já quase na hora do "vamo vê", eu tô assim toda nervosa, que nem uma boba...
Doutor_ Não me diga que você ainda é virgem?!! [Doutor bota as mãos no peito e começa a arfar. Mete a mão no casaco e, tirando um vidrinho de pílulas, engole todas de uma vez.]
Cons._ [Ela respira fundo, desfrutando o raro prazer do sadismo erótico:] Virgem? _ Ai, meu deus!, só se for na orelha!, tá me achando com cara de doente?! Pra ser sincera pro senhor, já nem me lembro mais quem foi que tirou o meu cabaço...
Dr._ [Recuperado do susto, ele sorri interrogativamente, com a mão no queixo, franzindo uma das sobrancelhas, de soslaio:] Então conta aqui pro titio...
Cons._ A minha dúvida é sobre outra coisa... É uma idéia boba, puxa-vida! Pra falar a verdade eu nem sei porque tô aqui! Sempre pensei que esse lance de "crise de valores" era só força de expressão, frescura de gente rica...
Dr._ Prossiga!, eu estou aqui, meu jambo!..
Cons._ Humm, doutoor!.. Paizaão! [Doutor caiu no agrado da moça.] Eu me entrego!.. Queria que o senhor me respondesse com toda sinceridade, sem tentar se aproveitar de mim: a mulher... [ela titubeia por alguns instantes]... tem os mesmos direitos que o homem?
Dr._ Prezada Juliane, vamos lá! Em primeiro lugar, pare de mascar este chiclete e sossegue nessa cadeira! Muito bem. Ao me fazer esta pergunta você automaticamente demonstrou ter aí dentro deste peito as sementes sagradas da virtude doméstica _ pré-requisito essencial para a moça casadoira, trabalhadoira e fudedoira. [Galante:] Uma dama na mesa, uma louca na cama...
Agora, tente acompanhar atentamente o meu raciocínio... Você acredita em Deus? _ Que bom!, assim fica mais fácil. Não tem bicho de sete cabeças; a coisa é muito simples. É o seguinte: não é porque o açúcar se parece com o sal que tu vai jogar açúcar na batata frita nem adoçar sua limonada com sal, né mesmo? E aí fim de papo! Matei ou não matei a cobra cuma cajadada só?! Captou a mensagem? _ Deus criou cada coisa de um jeito, minha fofa, e cada uma no seu lugar. De dia, o Sol; de noite, a Lua; a jaqueira dando jacas e o coqueiro dando cocos... Ali vemos a águia a deslizar feliz no azul do céu... mais à frente vemos a cobra rastejando contente por entre o pedregulho. Assim também é o homem e a mulher! Eles até que se parecem, se olhados à distância, mas são tão diferentes entre si como a águia da serpente. E esta diferença de naturezas implica necessariamente numa diferença de direitos _ é escandalosamente óbvio! Deus por acaso colocou cabaço no homem?.. responde! E se Ele o colocou na mulher, foi assim por um lapso, um erro bobo? _ Lógico que não! Só por aí nós já vemos uma nítida diferença de direitos entre os sexos _ estipulada não por uma ética humana sujeita a todo tipo de distorção, mas pela própria mão do Criador... E por falar em cabaço, você porventura vai se casar na igreja?, minha flor de maracujá...
Cons._ É o sonho de toda mulher, né?.. Aquela música... as luzes... as amigas morrendo de inveja... o vestido maravilhoso... aquele monte de gente chique, de banho tomadinho... as palavras bonitas... aquele climinha de sacanagem...
Dr._ Neste caso, tome aqui o cartãozinho do meu borracheiro... O cara é fera!..
Cons._ Mas quê que tem isso a ver?
Dr._ É pra recauchutar o seu cabaço, oras! Eu acho um absurdo uma noiva entrar na igreja assim, já desfolhada e despetalada, na cara de pau, toooda sorridente e extasiada... e vestida de branco, santo cristo!, como se nada tivesse acontecido!.. e o padre fazendo papel de trouxa, se esmerando no brilho da cerimônia, coitado, só pra satisfazer os caprichos de cinderela de uma descabaçada que nem freqüenta uma porra duma missa. E agora? _ eu te pergunto _ valeu a pena tanta galinhagem?
Cons._ Ah, mestre!, é que eu tava tão faminta que nem pude esperar a benção do sacerdote!
Dr._
Vá lá... fazer o quê? Saiba que, apesar de tudo, estou
orgulhoso de você, pois a pergunta que me fizeste é, realmente,
a de uma mulher que começa a se encontrar, a se tornar responsável
e diferente daquelas amiguinhas mais animadas dos velhos tempos.
Cons._ E o homem, doutor... deve ter a mesma conduta decente e modesta que convém a uma mulher de bem?
Dr._ Ah, vai pentear macaco, minha filha! Tá gozando da minha cara? _ É lógico que não! O mentiroso que te disse isso deve ter batido a sua carteira! No meu livro "Reverenciando-o como Mestre; Honrando-o como Marido" eu deixo isto muito claro. O homem é como o colibri. Seja então como a flor rara do bosque_ não como o capim, que dá em qualquer lugar. [Cheio de carinho na voz:] O corpo feminino, querida, é um templo sagrado. A mulher é a imagem viva da Igreja. Guardou bem minhas palavras?.. Às telespectadoras que sentirem injustiçadas e podadas pelo que digo, eu peço que não se entristeçam à toa, pois eu ainda não terminei de falar: as putas _ ouçam-me bem _ as vagabundas... têm os mesmos direitos que os homens! Tudo bem? Aliviadas?
Compreenda bem Juliane adorada, que o homem, casado ou não, tem o direito natural de fornicar e piranhar à vontade _ tá prestando atenção? _ pois se Deus não quisesse isso, tê-lo-ia selado também com um cabaço. Já a vocação natural da mulher é o lar...
Cons._ Como assim? Lar...
Dr._ Ora essa! Lar, porra! _Vassoura, bucha, fogão, ferro de passar... Tu não sabe o que é isso não, ô pamonha?!
Cons._ Desculpa, doutor... É que às vezes o senhor me deixa um pouco confusa... Paciência, né!
Dr._
Paciência é o nome de uma vaca velha!! E emende-se desde já:
mulher que é mulher não se intromete nos assuntos do marido.
O simples fato de ter sido aceita em casamento já deve ser considerado
por ela como uma dádiva suficiente: é um favor e mesmo o
sacrifício de um homem abnegado que lhe dará um nome e um rumo
na vida. Mas não nos excedamos, Juju querida: a abnegação
do homem deve ir somente até aí, pois já salvou mais
uma de ficar pra titia e já tá bom demais! A partir de então
ele deve ser deixado em paz pra fazer o que bem entender, dentro e fora de
casa, entendeu?
A vocação natural do homem é a aventura, não a mesmice. Se não, relembremos as palavras do filósofo e estadista romano, o mestre Calígula: "O mundo é a casa do homem, e a casa é o mundo da mulher." Esses caprichos tolos de fidelidade são uma grande palhaçada por parte de certas mulheres estragadas que não mereciam nem ter nascido, incapazes que são do sentimento de gratidão! Quanto a ti, o que desejas, Julinha meu doce: um homem ou um cãozinho na coleira?, todo murchinho e obediente... Só à guisa de ilustração: o New England Research Institute concluiu uma pesquisa que provou que os homens submissos às esposas têm um índice de brochagem 80 % maior do que aqueles que se mantêm fiéis ao velho estilo linha-dura.
Você deve compreender, desde já, que quando o seu futuro esposo sair transando com um monte de vagabundas por aí, isso não significa de modo algum que ele terá deixado de te amar... Muito pelo contrário!.. Seja carinhosa. Mantenha o capricho em seus afazeres! Mostre a ele que você é uma mulher de verdade!..
Outra coisa que deve ser muito preservada na relação amorosa são os sensibilíssimos ouvidos de seu esposo. É errônea essa noção de que o homem, pra se mostrar dedicado, tem que ser atencioso à tagarelice da mulher. Nada disso! No magnífico tratado sociológico "Vinhos, Canções e Mulheres", de minha autoria, eu abordo este assunto de maneira definitiva. Falação é um treco foda! Trate então de aprender a ficar na sua e a ocupar o tempo livre com coisas realmente úteis, falei?! A tocha do amor se acende é na cozinha, não com papo-furado!.. E por falar nisso, você já sabe fazer tricô e crochê?.. Não?! Puta-merda! Pois trate de aprender e bem rápido, antes que o seu noivo descubra...
Outra dica fundamental: jamais alugue o ouvido do seu futuro esposo com fofocas ou com reclamações sobre a arrumação da casa. Talvez você não saiba, mas a mente masculina se encontra permanentemente imersa em temas de alta gravidade e relevância... o destino da humanidade lhe atormenta o ser, dia e noite! É óbvio que ele não tem tempo de se preocupar se o pote de biscoitos tá fora do lugar ou se aquela calça suja que ele jogou pra cima tá amassando a sua violeta, entendeu?.. ou se o espelho do banheiro tá todo respingado, ou se a lâmpada da varanda queimou, ou se tamanquinhos vermelhos tão "super na moda", ou se o chiquinho brigou com a chiquinha e essas coisas todas: isto pra ele tanto faz, como tanto fez, entendeu bem?!..
Cons._ E quanto à divisão de tarefas no lar, seu Pelópas?.. Eu acho o maior barato o Alaor, marido da minha amiga, a Josikeila. Ele é o maior astral, é super-alegre... e lava todas as louças em casa e também varre e passa pano...
Dr._ Eu sei cumé que é: você acha o cara
muito moderninho, muito democrático, muito
cabeça-aberta,
né? _ Pois você está redondamente enganada, minha
criança de deus! Este seu amigo não passa de um pobre imbecil
pedindo pra ser corno. A mulher pode até gostar dessas mordomias no
começo, mas lá no fundo, o instinto de fêmea acaba percebendo
que está lidando com um maricas. Este babaca de nome Alaor, ao invés
de gratidão, está plantando apenas o desprezo e o deboche...
Isto é mais velho do que andar pra frente!.. Agora, imagina se isso
vira moda! Seria o fim da civilização! Renegar nossas
tradições milenares, desprezar as palavras de Salomão,
Jacó, Ezequiel, Salatiel, Zorobabel, Yoganandha Prabâypuajpha,
Paulo Coelho, bispo Macedo... Seria o fim! Um povo desmemoriado é
como uma planta arrancada da terra, meu raio de luzzz!.. [Ele passeia
o olhar sobre o corpo da moça, passando a mão no queixo,
desmilingüindo-se.] Você é uma moça bonita... E
inteligente! _ Deve ter lá uma noçãozinha das
coisas...
Cons._ Claro!
Dr._ Então raciocina comigo. Há quantos anos você acha que o homem existe neste planeta?
Cons._ Ah, mais de uns mil!
Dr._ Um pouco mais, meu chuchu. Levando em conta somente os últimos 6 mil anos, o que constatamos é que a maioria das sociedades viveu do cultivo da terra. Até o lamentável episódio da Revolução Industrial. No decorrer desses milênios de prática e experimentação incansável, o ser humano chegou enfim à melhor forma de divisão do trabalho entre os sexos. O homem dava a sua contribuição à agricultura tacando fogo na mata. Com uma fértil clareira recoberta de cinzas orgânicas à sua disposição, cabia às mulheres o trabalho de plantio e colheita, assim como a criação de filhos e porcos, e o preparo das refeições. E sempre que havia cargas pesadas a transportar _ feixes de palha, lenha, cestos de mandioca, batata doce e inhame _ as mulheres, e não os homens é que eram consideradas as bestas de carga apropriadas.
Cons._ Se for pensar bem, hoje em dia nós pegamos uma mamata danada, né?!
Dr._ Pra você ver! E ainda tem escrota que reclama! Falta do que fazer! Falta de piru! No auge do movimento feminista, teve até uma ala mais radical de barangas que queria que o governo baixasse uma lei obrigando os homens a mijarem sentados _ vê se pode!! Mas a natureza mais cedo ou mais tarde trata de desmascarar certas imposturas. Há alguns anos temos acompanhado pelo noticiário uma verdadeira debandada de mulheres nórdicas que estão abandonando seus maridos moderninhos, cabecísticos, igualitaristas _ o ideal feminista! _, pra virem pro Brasil se jogarem nos braços de boiadeiros e caboclos ribeirinhos do pantanal _ indivíduos asselvajados e analfabetos, mas que preservaram um tanto da sabedoria dos seus antepassados caximbiras, kraxinauás, yorugangas e xupaholas. Nessas antigas sociedades, guerreiras por excelência, 60% dos bebês do sexo feminino eram estrangulados logo depois de nascer...
Cons._ Que animais! Eram uns monstros!
Dr._ Não blasfeme contra seus ancestrais, Júlia Cristina!! Eles precisavam de homens pra guerrear; não fazia sentido ficar alimentando por anos a fio um bando de desajeitadas ineptas pro manejo de tacape e da borduna. E repare bem: não eram os pais, mas as próprias mamães _ calculistas como sempre _ que eliminavam suas meninas, de livre e espontânea vontade. Mulher é um bicho que não muda... impressionante!
Cons._ E as meninas que sobreviviam?
Dr._ Naqueles tempos áureos, eles não falavam de ecologia; eles a praticavam. Os 40% restantes de meninas que escapavam ao processo seletivo inicial, eram destinadas a dois objetivos principais: trabalhar _ é lógico _ e servir sexualmente aos marmanjões da tribo, que tinham de 3 a 7 esposas, cada um.
Cons._ Mas não faltava mulher?
Dr._ Faltava. Os mais bobos e, principalmente, os mais novos ficavam no osso. Mas havia nisto uma função social expressa: frustrados pela falta de mulher, os adolescentes da tribo se tornavam altamente bravios e beligerantes. Devido à intensa agonia, esses rapazes se comportavam como verdadeiras máquinas de morte nos campos de batalha _ de olho nas mulheres da tribo inimiga! De fato, esses potrinhos exaltados eram a melhor garantia de vitória contra os adversários.
Cons._ Eu só não entendi uma coisa... Se eles não assassinassem as meninas recém-nascidas, não precisariam "ficar na saudade" mais tarde, chupando dedo que nem idiotas, e daí começarem a se matar por falta de mulher. Burrice, mesmo!
Dr._ Burrice, o seu cu! Era através desses mecanismos ecológicos que o homem e a mulher geriam os limitados recursos de seu habitat e também davam vazão à sua verdadeira essência. A mulher nasceu pra dar; quanto ao homem, a grande verdade é que ele não nasceu pra trabalhar! A verdadeira função social do homem é a cópula. É ridícula essa apologia que se faz do homem trabalhador!.. é um embuste descarado pra enganar o populacho! O homem nasceu é pra escrachar, pilhar, roubar, incendiar, estuprar, matar, farrear e botar pra fuder, sacô?! Tá nos genes! Só assim ele é feliz realmente!.. E além do mais _ ainda falando de nossos ancestrais _ capturar uma fêmea de outra tribo, já mocinha feita, era muito mais racional do que criá-la desde pirralha, concorda comigo?
Cons._ É cruel! É horrível!.. mas confesso que fiquei excitada!
Dr._ Eu também. Imagine: arrancar uma femeazinha libidinosa do inimigo na base da bordoada! Não deve haver na face da Terra emoção mais gratificante! _ a não ser aquele 8 x 0 que o Botafogo enfiou no Flamengo aquela vez... Mas chega de antropologia, voltemos aos dias atuais. Você já viu, Julinha, o papai pedir pra mamãe trocar o pneu do carro, cavar uma vala, serrar um dormente? Já viu? _ Então eu vou te pedir só uma coisinha, tá bom? Seja lúcida e não dê ouvido às assim ditas "moderninhas", que na verdade não passam de mulheres frustradas e desequilibradas.
Cons._ Eu prometo sim, doutor! Tem só mais uma perguntinha... pooode?
Dr._ Deve, meu amor!
Cons._ [Com um trejeito infantil e malicioso, dedinho na boca:] Sexo oral é anti-higieeênico?
Dr._ [Doutor leva um tempo pra se recompor dessa declaração tão lindinha.] Se você visita regularmente seu dentista, escova bem os dentes e usa fio-dental após as refeições, eu acho pouco provável que transmita alguma infecção pro pênis do seu parceiro. Mas como o perfeito domínio das faculdades orais, hoje em dia, é um dos requisitos mais importantes pra mulher ter sucesso na vida, sugiro que você passe no meu consultório segunda-feira próxima, pra começarmos um trabalho de psicodrama reichiano em cima desta problemática... E outra coisa: quem pensa que mulher é só buraco está redondamente enganado. Mulher é, acima de tudo, língua! Vamo lá, fale um número de um a cem!
Cons._ Vinte!
Dr._ Puxa-vida, que menina de sorte! Você acertou em cheio... as consultas vão sair de graça pra você, valeu?..
Cons._ Obrigada, mestre, o senhor é demais mesmo! Agora só mais umazinha que eu lembrei agora, tá bom fessozinho... pode?!.. É que eu deixei a minha calcinha de molho na bacia, junto com a cueca do meu namorado. Será que posso engravidar se a usar?
Dr._ Não há com que se preocupar Júlia brejeira, desde que você não esteja no período fértil e use um sabão em pó com o novo MCTP _ o Maxi Cloro Triativado Plus, do nosso patrocinador, o sabão FOFURA. Por via das dúvidas, antes de vestir, passe a sua calcinha por quarenta e cinco minutos com ferro bem quente e, no vai-e-vem do ferro, vá repetindo a seguinte simpatia, em voz alta: "Escarmenta, São Cipriano: tira a inhaca desse pano! / Aferróia, Santa Jandira: me amarra o taio com embira!"
Cons._ Pô, valeu, títcher! Obrigadão, hem!
Dr._ Ai, meu amor, quê isso! Disponha!.. Me vira do avesso!.. Me faz de gaveta!.. Me tampa na parede!.. Me chama de lagartixa! ... ....
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