S U R U C U C U   C O M   I N H A M E                   




                             




    D i c i o n á r i o  H i p e r - T u d o                                   




HIPER-SONSO_ Todo mundo conhece ou já conheceu pelo menos um hiper-sonso em sua vida. O biotipo é característico, procure se lembrar: aquele sujeito desengonçado, magricela, com aquele modo de andar todo solto, cheio de vadiagem. _ É ele!.. O estilo e o comportamento também denunciam prontamente um hiper-sonso: sabe aquele sujeitinho abusado, que fala pelo nariz?.. aquele tipo debochado, totalmente desprovido de "se-mancol"... aquele vacilão que pisa na bola com todo mundo, mesmo sem querer... Pois então. É ele mesmo!

Apesar de se apresentar, via de regra, na forma um sujeitinho raquítico, o h.sonso não tem medo de nada nem de ninguém, pois lhe falta o mais elementar senso de perigo. Aliás, falta-lhe senso de quase tudo _ o que o leva, vira-e-mexe, a cometer algum gênero de gracinha temerária, tipo queimar a bunda de alguém com o cigarro (sem mais nem porquê), ou jogar uma lagartixa morta no prato de comida de um sujeito de 3 metros de altura que ele nunca viu na vida, ou derramar feijoada no colo de uma senhora de 80 anos de idade... tudo por pura e simples babaquice. Este é o hiper-sonso! Mas não pense que ele se garante quando a coisa engrossa. De modo algum! Ele não tem o mínimo constrangimento em correr do pau, em peidar bem alto na hora que sente o aperto. Cê acha que ele tem vergonha de alguma coisa? Cê acha que ele leva a sério essas invenções livrescas do século XVI, como brio, hombridade, vergonha na cara, etc? _ Que o quê! Sujou, ele sai batido. E vai dar risada lá na frente, numa boa!

Conheço uma boa dúzia desses; mas o capitão do escrete, o campeão absoluto da sonsice era um cara lá de Imbiracucuia, que tinha o apelido de Caolho, mesmo sem ser caolho. Só a cara dele já dava raiva de olhar!.. O molesto dava a impressão de ter tomado algum tipo de injeção que o fazia rir o tempo todo (da cara dos outros, bem explicado, e geralmente apontando o dedão bem na frente do nariz do sujeito)...

Um dia (ele tinha então 21 anos), ao ver passar pela avenida um ônibus da prestigiosa viação Cometa, de linha interestadual, ele levanta displicentemente o braço e abana o dedinho. O motorista estaciona e abre a porta. Caôi põe um pé sobre o primeiro degrau, mas fica por ali mesmo, encostado malemolentemente, sem nenhuma pressa. O motorista, fumando seu cigarro (naquela época podia), com a fisionomia estressada do profissional, lhe apressa, coçando o bigodão: "Você tem passagem, meu filho?" E ele, muito tranqüilo, com um cigarro apagado dependurado no canto da boca, responde, indolente: "Não, ô chegado, eu só tô querendo o fósforo..."

O motorista era daqueles mineirões enjoados, ignorantes, todo cheio de prerrogativas de machão intocável... Imagine a afronta, o tapa, o peido na cara que aquilo não foi pra ele! Injuriado até o fundo da alma, o mineirão bronco se contém por um momento, duvidando do que estava vendo. Mas ao reparar bem o jeito insolente do rapaz, encostado ali na porta, todo molinho e donairoso (e aí, cumpadi? vai liberá a brasa ou num vai?), ele não teve mais dúvida: passou a mão em seu inseparável porrete de guatambu e partiu pra cima.

Atônito, mas sem pestanejar, Caôi disparou pela calçada, despencando rua abaixo com suas pernas de saracura, especialmente projetadas para fugas em alta velocidade. Porque, como é de se adivinhar, ele é o tipo de cara que só atrai confusão; pode ficar quietinho, parado num canto, que só a cara dele, por si só, já chama encrenca. Felizmente, "Deus tira os dentes, mas abre a goela" _ por isso, esta adaptação evolutiva geralmente presente no bicho "hiper-sonso": as pernas de "papa-léguas".

Com seu impecável uniforme azul, crachá e gravatinha, porém deformado pela ira, o motorista lhe segue no encalço, superando com garra o excesso de peso... Em um segundo apenas, como num passe de mágica, aquele homem sólido e equilibrado, em cujas mãos se depositava a responsabilidade pela vida de dezenas de passageiros, viu-se transformado num maluco fora de controle... E lá vão os dois no galope: Caôi deslizando no vento, e o chofer soltando fogo pelas ventas, estrebuchando, espumando, bufando, em transe _ uma figuraça! "Passa aqui, moleque! Passa aqui, moleque!" _ ele implora, brandindo seu tacape enfeitado com fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim. Sua indignação chega ao clímax quando Caôi, pra piorar ainda mais a coisa, começa a lhe dar uns olés muito loucos, desconcertantes, extremamente desrespeitosos levando-se em conta a diferença de idades.

Que carreira! Não fosse bom de perna, Caôi teria virado omelete naquele dia. Até hoje ele não entendeu por quê o motorista ficou puto daquele jeito... assim, sem mais nem menos.

  

HIPER-LIBERAL _ É o empresário ricaço que, como presente pro aniversário de 15 anos de sua filha, contrata o mais badalado galã televisivo do momento pra passar uma noitada com ela, num motel de luxo. E ainda oferece 3000 dólares de prêmio por cada trepada extra que o lindinho consiga proporcionar a sua pupila.


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