| D i c i o n á r i o H i p e r - T u d o |
HIPER-CHATO _ Chato é aquele sujeito talentoso, capaz de falar apaixonadamente durante três horas seguidas, até conseguir levar seu interlocutor à conclusão de que a água é úmida, ou que o gelo é gelado... O anedotário popular é rico em definições e assertivas. Algumas delas:
Até aí nada demais; definições são apenas palavras, não fazem mal a ninguém.. Desde que esteja bem longe, o chato, por mais maçante que seja, continua sendo apenas "o chato", ou seja, aquela figura docemente folclórica, que nos alegra e diverte por molestar fulano e beltrano _ não a nós. Como dizia Tina Turner, pimenta no olho dos outros é uma beleza!..
Mas eis que, um lindo dia, um chato se instala em sua vida. Até então você se achava o filho do Sol, o xodó da Lua, o bibelô das estrelas; acalentava, como todo mundo, a ilusão da juventude eterna e achava que desgraça só acontecia com indivíduos de segunda categoria, ou seja, com os outros. Como o azar haveria de bater justo à sua porta? _ justo você... capricho mais fofo da natureza.
Sim, o pior aconteceu: ei-lo transformado de voyeur em vítima, de filho do Destino em brinquedo da loucura humana. Sua estrela escafedeu-se, meu nego! Um abatimento súbito, uma perda de fé, uma sombra, o milenar mistério da inhaca se revelando em sualma. É isto aí! O mundo ficou mais mórbido e cinzento hoje. Faça um instante de silêncio, feche os olhos, faça o sinal da cruz... e você poderá ouvir um grito surdo e louco perpassando o seio natureza, de um lado a outro (aquele mesmo gritinho que inspirou Munch). _ O fato é que foste premiado com a proverbial "cagada de urubu"... Sua vida jamais será a mesma!
Saiba, antes de mais nada, que o "hiper-chato" pertence às força negras do Universo. Ele é o instrumento pelo qual os homens se iniciam no conhecimento da morte; é o arcano secreto do tarô e da Cabala, o Flagelo da Babilônia... Alguns autores sustentam mesmo que o h.chato é um ser desprovido de alma, existindo somente em função de sua missão cósmica: jogar areia nas engrenagens. Agora, deixando de lado os aspectos teológicos, concluamos: o atributo que difere o "chato" do "hiper-chato" não é apenas o grau de chatice, mas, necessariamente, a sua condição de proximidade física em relação a nós.
Este lazarento (também conhecido por pentelho, pentelho-encravado-na-virilha, pelinha, péla-saco, pé-no-saco, encrôo, espinho ou praga), sem qualquer motivo compreensível adquiriu uma fixação doentia por você. Ele não pode lhe ver, que dispara no seu encalço, como um lince atrás da lebre indefesa. Ele lhe elegeu seu confidente número 1. Você se sente obrigado a lhe dar atenção, seja por polidez, seja por piedade, por conveniência social, profissional ou por que motivo for; o fato é que ele tá sempre ali, no seu pé, pois cismou que tu és um irmão espiritual... uma alma superior, como ele, capaz de captar o belo existencialismo que flui de seus lábios.
Apesar de rejeitado por todos (e não sem razão, pois a chatice, de fato, faz muito mal à saúde), o hiper-chato sai-se esportivamente, julgando ser a ingratidão do mundo um estigma próprio aos grandes homens... "É histórico!.." Sua sobrevivência deve-se apenas a alguns equívocos, que o livram do suicídio. Primeiro: ele não tem lá muita noção de ridículo. Segundo: ele se considera um filósofo da vida; sua mente está besuntada por uma sopa anestésica de doce demência. Terceiro: ele sabe que sempre haverá no mundo uma criatura mimosa e fofa como você, onde ele poderá se grudar como uma ostra.
O hiper-chato nunca gosta de uma coisa; cisma com ela. Tem uma pretensa afinidade com o clássico, o bucólico, o erudito, e com temas charmosos tais como FBI, guerra biológica, microrrobótica, assuntos de Estado (i.é, teorias conspiratórias), civilizações desaparecidas, OVNIs, aberrações sexuais, profecias cinematográficas sobre a ruína final do planeta etc. Tem o poder de aliar uma aridez mental extrema a um palavratório caudaloso, torrencial _ porém calmo e tranqüilo... como o Araguaia nos braços do entardecer. Sua fala é mansa... lenta... pausada... repetitiva... prolongada... pontuada com aspectos decorativos intelectualóides, e fiel a um procedimento analítico entediante (e rigorosamente onírico).
Três coisas nunca faltam na vida do hiper-chato: uma correspondência assídua (e unilateral) com os orgãos oficiais (todo chato tem um lado cidadão); um caderninho de poemas lavrados em caligrafia preciosa (todo chato tem um lado borboleta); e uma carteirinha de filiação a algum partido político populista _ o PDT, via de regra (pois todo chato tem um lado estadista-de-botequim)... Outra coisa recorrente na vida do estafermo _ se bem que em menor grau _ é o esoterismo. Você já deve ter visto alguma vez, um desses diplominhas de sociedades secretas pendurado numa parede, em algum lugar. Procure se lembrar do dono, do insigne titular, dignatário e plenitudinário daquela excentricidade honorífica. Com certeza lhe virá à mente a imagem de um senhor distinto _ meio circunspecto, meio bobo _ e chato como o diabo! Nos flashs da memória você verá o figura, com aquela cara de aérea satisfação, ao lado de seu cômico diplominha de mestre maçônico, com alguns patéticos dizeres em latim e a assinatura do grão-mestre ao lado da sua.
Pra se despedir do hiper-chato é preciso ser brusco e seco; caso contrário, qualquer "A" a mais será pretexto pra que ele torne a por em pauta o seu ilimitado e palpitante elenco de assuntos, e torne a repisar, rediscutir, recapitular e reprisar velhos temas, tais como aquela infalível questão do seu litígio judicial com a ex-mulher, "aquela piranha perdulária". Outro assunto em que ele sempre se repete são os casos de exploração por parte da filha vagaba ou por parte daquela raça de garotões vadios e malemolentes, que pensam que ele é viado. Uma hora é a filha que lhe faz um rombo no orçamento, comprando no seu crediário uma coleção inteira de lingèries de grife. Outra hora é um rapazola que vai até sua casa, fingindo cultivar como ele a mesma bobeira por cartões telefônicos ou embalagens de manteiga da década de 70; depois, achando que cativou o suposto pederasta com seu frescor juvenil, acaba lhe pedindo um empréstimo. Não conseguindo, dá um jeito de subtrair uma máquina fotográfica, um cinzeiro de prata ou qualquer outro objeto facilmente "ganhável". É sempre assim... O hiper-chato, de um jeito ou de outro, tá sempre arranjando um modo de se chatear desnecessariamente (que é pra depois poder alugar o ouvido de seus confidentes com mais uma historinha interessante).
Um cacoete irritante deste mala-sem-alça é segurar o
seu interlocutor pelo braço pra impedir que ele fuja. Ele fica com
o gancho engatilhado. À primeira menção que você
fizer de ir embora, ele lhe
agarra com
a firmeza de uma torquês; e com isto a seção de tortura
ganhará, tranqüilamente, uma boa meia horinha extra. Mas ele
costuma lançar mão de um outro expediente ainda mais
implacável, às vezes até traumatizante: caso você,
desavisado do perigo, esteja usando uma camisa de botão _ nem que
seja um solitário botãozinho de gola polo _, isto lhe custará
caro numa conversa com o h.chato, pois ele não perderá a
oportunidade de o prender, sutil, porém tenazmente, entre indicador
e o polegar, e aí, sim, você conhecerá, de maneira inusitada,
a incrível capacidade que este sonso possui pra tiranizar uma criatura
humana. Numa situação dessas, não perca tempo; vá
logo rasgando a camisa, porque não haverá argumentos, nem
xingamentos suficientes pra demovê-lo de seu gesto carinhoso... Asfixia,
dor de cabeça, desespero, labirintite, náuseas, pânico,
claustrofobia, desmaio... estes são apenas alguns dos sintomas relatados
por pessoas que passaram por esta experiência. Ser encoxado e praticamente
abusado pelo emplastro até que é o de menos; o foda mesmo é
que o "mala", por força de sua vocação, costuma ter
um bafo do caralho! Além do mais, encontrando-se em posição
privilegiada, ele irá se fazer de bobo e começará a
falar cuspindo, como um retardado, só de sacanagem. Se estiver num
dia inspirado, ele ejetará a dentadura bem no meio do seu rosto.
Conheço um molesto que fisga suas vítimas pelo cumprimento. Ele simplesmente não desfaz o aperto de mãos. Aos primeiros sinais de resistência da presa que tenta se desvencilhar, ele contra-ataca com a manjadíssima cantilena: "Tá ficando metido, né!.. Não conhece mais os velhos amigos! Não quer mais saber dos pobres!" Então, depois de bombardear a mente do sujeito com uma infinidade de coisas vazias e infundadas, sem sal, sem sentido e sem importância, até deixá-lo meio morto, ele trata de reanimá-lo, espertamente, acenando-lhe com uma falsa esperança: "Sin-te-ti-zan-do!" _ ele promete, sibilando. Só que esta alentadora promessa fatalmente acabará encalhando em milhares de pormenores infernais, e ele então prosseguirá, calmo e prolixo, rodeando e esmiuçando, em retrospectivas que irão se estender praticamente até a vida intra-uterina. "... Peraí, que você já já vai ver onde é queu tô querendo chegar... Foi exatamente em outubro do ano retrasado _ minto!, setembro _, que... blá-blá-blá, blá-blá-blá... veja bem ... está seguindo o meu raciocínio?.. eu sei que você está ocupado, mas é só um segundinho... ... ..."
Outra dica muito útil pra se lidar com o hiper-chato no dia a dia é a seguinte: não é necessário prestar atenção ao que ele fala. Basta, mais ou menos a cada 15 minutos, soltar uma interjeição: "Ah, é?!" "Ahã!" "É mesmo?!" "É um absurdo!"... Se ele falar "pipoca", você diz: "Com certeza, esse negócio de pipoca é mesmo um caso sério!.." E ele continuará tranqüilamente o papo, enquanto você aproveita o tempo pra planejar a agenda da semana, ou se lembra dos artigos que tão faltando na geladeira, dos telefonemas que tem a dar, daquele basculante que precisa ser trocado, ou pensa no que fará nas próximas férias, ou fica sonhando com o que faria se ganhasse 50 milhões na loteria, planeja uma vingança, bola uma armadilha pra baratas, inventa um molho pra sanduíche, um recheio pra panqueca, treina sua capacidade de fazer contas de cabeça ou sua capacidade de visualização mental: imagine uma lindo hexaedro luminoso; depois, sem perder a concentração, vá aumentando gradativamente o número de lados até chegar a um sólido geométrico de 200 lados... Pois bem, agora que você já sente o coração aliviado por mais uma boa ação e tá a fim de dar no pé, comece a interrompê-lo a cada dez segundos pra pedir dinheiro emprestado. Você vai ver como o filho-da-puta fica arisco rapidinho!
HIPER-NORMAL _ É aquele sujeito que, após
anos de rebeldia, transgressão comportamental e filosófica,
arroubos artísticos e fúria revolucionária de
ambições cósmicas, queda-se enfim domado a um novo e
grande objetivo: tornar-se um homem honrado. A única coisa que arde
loucamente dentro dele agora é o desejo crucial de provar a todos
que é digno de confiança, ou seja, que os termos do seu acordo
com a ordem estabelecida e com a sanidade mental são óbvios,
imediatos e decorrentes de tudo aquilo que ele naturalmente sente. De minuto
a minuto ele se esforça pra ser a média aritmética perfeita
da espécie humana.
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