Amigo suicida, em primeiro lugar quero lhe dar os parabéns por teres chegado ao fundo do poço com dignidade e hombridade, sem se entregar como um cordeirinho a nenhuma dessas máfias religiosas que ficam latindo sem parar na TV. Com certeza, é preferível perder a vida do que perder a alma nas mãos desses loucos.
Sei que é inútil dizer-te que a vida é linda; que Deus está dentro de ti; que olhes a lição daquele cara que não tem pernas e que leva a vida sorrindo... Quero apenas que leves em conta uma ligeira ponderação: já que chegaste a um ponto de não achar mais graça na vida e vais mesmo pular de cima do viaduto, por que não arrancar na marra esta graça perdida? _ Não há nada a perder! Você é o cara mais livre do mundo. Antes de se matar...
1- Que tal explodir uma fileira inteira de carros estacionados na avenida principal, em dia de festa? (uns dez bibis, pelo menos). É fácil, não tem mistério. O material e as técnicas necessárias pra se explodir um quarteirão inteiro são, cá pra nós, coisa de criança. É só querer! Uma noite festiva de sábado seria boa ocasião pra compartilhar este espetáculo artístico com o resto da sociedade.
2 - Estupre o máximo de mulheres que puder. Pode começar
por aquela médica
gostosona.
Marque uma consulta e compareça levando no bolso um lenço
encharcado de clorofórmio (lacrado num saquinho plástico).
Na primeira oportunidade em que ela lhe virar as costas, voe sobre ela, agarre-a
e dope-a. Quando sentir que o corpo da vadia começou a ficar molinho
em seus braços, comece a libertinagem.
3 - Levante-se da mesa no meio do jantar (na casa daqueles seus parentes esnobes) e urine em cima da leitoa.
4 - Cuspa na cara do atendente do guichê do INPS e fique sorrindo pra ele, como um retardado, esperando pra ver se ele também vai achar graça.
5 - Entre pelado numa missa solene (a Missa do Galo ou uma missa de sétimo dia, por exemplo), correndo pra lá e pra cá _ saltitante e festivo como um esquizofrênico em êxtase _ cheio de pulinhos e gritinhos deslumbrados, sacudindo os genitais.
6 - Quebre um taco de sinuca na cabeça da mulher do dono do bar, só pra ver o que acontece.
7 - Pregue umas peças surrealistas. Por exemplo: saia a altas
horas da noite, vestido com uma capa
ou casacão
comprido, com um chapéu caído sobre a cara. Escolha uma rua
de pouco movimento e esconda-se numa sombra. Espere até que passe
por ali alguma mulher (não muito jovem, nem velha)... A qualquer momento
a vítima ideal haverá de aparecer... No momento em que ela
estiver passando por você, saia da sombra... dê três lentas
passadas a frente e pare, todo esquisitão _ faça-o no bom estilo
hollywoodiano: você é o psicopata frio, sexualmente traumatizado
e que adora mulher (empacotada em pedaços no frizer). Quando ela tiver
se distanciado uns 10 metros, comece a acompanhá-la, mantendo a
distância por algum tempo. Sussurre algumas frases delirantes (não
é necessário que ela ouça com clareza o que você
estará dizendo; sugiro apenas que seja moderadamente alto e claro
ao pronuciar as palavras-chave, tais como _ também sugestão
"vaca maldita", "beber seu sangue" e "safada ordinária"). Ela
entenderá perfeitamente que está na presença de um
perturbado mental convulsionado por lembranças misóginas e
fantasias de vingança... Mantenha o controle do tempo cênico,
a pulsação dramática
do enredo...
Você está em estado alucinatório avançado... Rua
deserta/ noite sem lua. O "ritmo" é primordial na criação
de um estado psicológico gótico _ ou dark, como queira... Aperte
o passo, pouco a pouco, aproximando-se cada vez mais... Você estará
usando um sapato de solado duro, que produza aquele eco sinistro no
silêncio da noite _ aquele "toc-toc" que começa estranhamente
lento e vai se acelerando à medida em que a vítima vai se dando
conta de que o que tá acontecendo ali é, realmente, uma
caçada humana... Quando ela se virar pra ver qual é,
saque do casaco um facão encharcado de molho de tomate e branda-o
no ar. Grite com uma voz disforme e enfurecida: "Eu vim buscar a sua alma,
vagabunda!!!" E solte uma gargalhada podre... Mulher não é
um bicho feito pra correr; mas você controlará o riso e a fará
correr até cagar sangue. Isto se ela não estragar a brincadeira,
desmaiando logo no primeiro momento.
8 - Teste a sua inteligência e sagacidade com atos de terrorismo e sabotagem pra ver até quando consegue debochar da polícia. Jogue LSD no reservatório de água da cidade (um copinho do produto puro dá pra deixar trezentas mil pessoas alucinadas!)... A eletricidade _ incompreensivelmente negligenciada até hoje pelos terroristas mais talentosos _ é, sem dúvida, um recurso poderosíssimo, disponível a qualquer levadinho que queira extravasar a sua revolta com a vida. Após a leitura de um ou dois manuais, você estará apto a criar as mais inusitadas armadilhas elétricas... Mesmo pra fins de pura gozação, é possível, através de montagens bem simples, criar-se efeitos e sons aterrorizantes, que você poderá instalar pelas ruas (em latas de lixo, arbustos, bueiros etc.). É claro que quanto mais dinheiro você tiver pra investir no material, mais espetaculares serão os efeitos.
Bole e execute assassinatos engenhosos com descarga elétrica (use capacitores de alta tensão ao invés de tomadas). Seria divertido começar com alguns políticos da cidade; depois, vá elegendo as próximas vítimas arbitrariamente, segundo o clima do momento. Mate aquele babaca que não te passava a bola de jeito nenhum nas peladas de quinta a noite. Mate aquele seu colega de trabalho mais experiente que sempre te escondeu jogo e jamais te deu uma boa dica no serviço. Mate aquele médico do INPS que te tratou como um pedinte inoportuno. Mate aquele seu vizinho que soltou um foguetório quando o seu time perdeu a taça... Caso você venha a tomar gosto pela brincadeira _ o que eu acho muito provável _, aproveite então pra prestar um imenso serviço a sua pátria: eletrocute o presidente da república _ leve o F.H.C. pro inferno junto com você, quebra esse galho!.. Enfim, mostre o seu refinamento, seu gênio estratégico, sua capacidade de surpreender. Mate, roube, assalte, dê golpes, divirta-se!
9 - Vá à exposição de algum sagrado babaca da pintura, munido de um estilete. Memorize bem a posição das obras que mais marcaram o século; estabeleça o roteiro e então parta pro ataque, gritando e retalhando os quadros, com o frenesi histérico de um endemoninhado... Depois, justifique-se na delegacia dizendo que aquele estrago incalculável que você acabou de causar era... "uma performance artística" _ um "lance muito show" _ e exponha filosoficamente os fundamentos teóricos do seu ato, usando vocabulário de bicho-grilo, cheio de intimidade com o "seu delega". Diga-lhe, vibrando: "Foi uma experiência OR-GÁS-MI-CA, maluco!.. um lance de-mais mesmo, sacô mano véi?!!", e pergunte se também ele nunca experimentou esse mesmo tipo de transe, "essa osmose psicodélica com a essência primordial da Ira", espancando marginais ali na DP. Assevere-lhe, cheio daquelas gesticulações teatrais de carinha libertário: "É uma catarse muiiinto looôca, caaara!!"
10 - Faça uma experiência de Sociologia Aplicada sobre
o pânico e a histeria de massa: entre numa grande loja de departamentos
lotada e comece a atirar com um revólver de espoleta, rosnando, de
olhos
esbugalhados, movimentando-se como um bicho confuso e acuado; louco, incoerente;
chorando e gargalhando ao mesmo tempo; dando ataques, como naqueles surtos
terminais de desatino que você já viu no cinema, quando o cabra
alopra de vez e parte pro tudo ou nada, sem se importar com as
conseqüências. Mastigue algum produto que faça a boca espumar
e saia em perseguição à turba desarvorada, babando como
um cachorro doido. Pra que a sua atuação seja realista ao
máximo, concentre-se profundamente antes de entrar em cena. Use o
método dos grandes atores da teledramaturgia mexicana. _ Feche os
olhos e respire fundo. Imagine-se invadido por uma idílica luz azul.
Imagine que o revólver é de verdade e que você realmente
tá ali pra fazer um massacre _ ponha o seu coração nisso!
Relaxe profundamente. Imagine-se num gramado verdejante que se estende a
perder de vista, enfeitado por lindas sebes e canteiros. É manhã;
a paisagem está inundada de luz e o ar, cheio de música divinal
_ mais precisamente, o concerto no.22 de "As Quatro Estações",
de Vivaldi (aquela: "tantan-tararan-tantan-tan"). Ponha-se na pele de um
daqueles maníacos retardados made in USA. Traga à mente
tudo quanto é tipo de paranóia que você já viu
na vida e no cinema, e tente absorvêlas, incorporá-las _ todas
ao mesmo tempo _ com todas as mínimas e complexas sutilezas dalma.
Mentalize:
A - "Sou um comunista rancoroso e complexado. Eu almejava ser um novo Lenin, um condutor dos povos, mas fui obrigado pelo "Sistema" a acabar num mísero empreguinho, lustrando chão de rodoviária. Às vezes me flagro orgulhoso em ver o pavilhão número 6 (o meu preferido) limpinho e brilhoso, como se isso fosse uma realização digna de um homem. Do jeito que a coisa vai, qualquer hora vou me flagrar lustrando o chão com a bunda, e sorrindo... Mas a Revolução não morreu dentro de mim. Ah, isto não! Desse jeito é que eu não fico mais... tão mansinho e submisso ao destino mesquinho que me infligiram. É melhor morrer de pé do que viver encurvado, chupando o cabo do esfregão! Minha família que vá pra casa do caralho; não vim ao mundo pra sustentar ninguém, nem pra ficar procriando que nem cachorro, vaca e barata e acabar meus dias como um patético mártir doméstico! Vou aprontar um banzé do caralho agora! Não vai sobrar nada no lugar, e ninguém vai sair inteiro desse maldito templo de consumismo burguês!"
B - Mantenha a respiração profunda: "Sou um ex-fuzileiro de meia-tigela; a autêntica e melancólica figurinha do herói de faz-de-conta; do bobão marombeiro, intoxicado por balelas militaristas. Sempre me vi como um guerreiro... até outro dia, quando caí na besteira de tomar o tal do LSD, que fudeu a minha cabeça e me fez cair na real. Pude então ver claramente que não passo de um bundão iludido... um soldadinho de enfeite. Todo esse tempo!.. toda essa ilusão!.. toda uma vida! _ tudo uma grande farofa ao vento!! Mas hoje o bicho vai pegar pra valer! Tudo ao vivo e a cores; com pólvora, chumbo e sangue de verdade. Quero morrer como um bravo; não como um bravo soldado teleguiado, mas sim, literalmente, como um animal bravo e intratável, atirando e cuspindo fogo pra todo lado _ é assim que me vejo!, barbarizando e fazendo neguinho tombar que nem pino de boliche, numa seqüência alucinante. Daqui a dez séculos as pessoas ainda se lembrarão de mim e de meu feito imbatível, ao folhearem o Guiness Book."
D - Concentre-se: "Há dois dias que este inferno começou: uma orquestra muintdoida e um coral de vozes macabras que grita sem parar dentro da minha cabeça. Turibulosus zigomaticum!, turibulosus zigomaticum!..., ou seja: Destruição total!, destruição total!.. Isto já está me deixando pi-ra-do, caaara!!!
E - "Papai não quer me dar uma Harley Davidson!"
Imerso neste clima dramatúrgico de denso lirismo e ludicidade...
alimentado por esta exótica salada de nóias e neuras... pronto!
é só partir pra esculhambação. Atue com arrojo
e perversidade _ não deixe por menos! Seja descabido, exacerbado,
escandaloso. Uma boa dose de irreverência
é
fundamental pra que a farra aconteça em grande estilo. Goze até
as últimas conseqüências esta sacanagem genial que é
deixar mil e quinhentos babacas em estado de choque, afrontados com a morte
pelas mãos de um relés débil mental, dodói dos
nervos. Saia quebrando vitrines, derrubando prateleiras, decapitando manequins,
rosnando e uivando, com aquela fisionomia característica, consagrada
nos filmes, que é um misto de fúria, volúpia e
confusão total das idéias. De vez em quando grite alguns
clichês de neurose de guerra, tipo: "Os vietcongs estão
chegando!!!", ou então: "Bem vindo ao inferno, Jack!" ou ainda: "Elvis
Presley não morreu!" ... "God Save the Queen!" ...
11 - Faça um buraco redondo na calça, de 15 centímetros de diâmetro, bem na região que taparia o ânus. Afixe-se com esparadrapo uma argola entre as nádegas, de modo a arreganhá-las bem, de modo que aquele mal afamado buraco fique livre pra tomar ventinho. Coma o que agüentar de feijoada batida com repolho, batata doce e ovos. Chupe umas laranjas e beba cachaça. Tome uma dose cavalar de algum laxante poderoso. Saia então pelas ruas, passeando contente e faceiro, como quem acha a vida muito linda. Abaixe-se pra amarrar o sapato e escancare despudoradamente o cu sempre que algum grupo de marmanjos começar a mexer com você. Quando o laxante já tiver surtido efeito, eleja um transeunte que se mostre vestido muito caprichosamente ou que ostente ares de importância; então vire-se repentinamente e lhe dê um beijo de cu acompanhado de uma cagada nas pernas. O sujeito terá naturalmente o reflexo de se afastar aos pulos, mas continue a perseguição a qualquer custo, de ré, peidando e cagando.
Vá até uma praça e observe os velhos sentados nos bancos. Escolha um com cara de quem foi mau no passado; chegue por detrás e solte uma vigorosa rajada em sua nuca. Quando passar por perto algum carrinho de bebê, aprochegue-se com aquele sorriso de ternurinha abobada e diga: "Ai meu Deus, mas que dendém mais bussessudo!" A mãe certamente lhe retribuirá o mesmo sorrizinho besta. Como não tem visão de raio-X, ela nem imagina que o seu cu tá escancarado e latejando como um monstro repulsivo science-fiction... Pergunte: "O dendém qué tocolate, qué?.. Intão ispélaí...". Olhe subitamente pra mulher com um olhar arregalado, como quem sentiu um treco doido por dentro ou engoliu um caco de vidro. Coloque as mãos na cabeça. Ponha-se a gemer loucamente, fazendo tudo quanto é tipo de cara _ de desespero, de envenenamento, de alegria, de assombro, de quem tá virando monstro, de bicha deslumbrada, de mongolismo alcoólico, de torturado-sorridente-trincado-de-xarope... sempre gemendo. Então desabafe a sua agonia com um gritinho agudo de alívio e afogue o monstrinho em chocolate quente. Se o velho ou a mãe da criança acharem ruim, cague na mão e ameace jogar na cara: "Ooóia, qui eu tô cum gonorréia no duodeno!!"
Vá a um bar moderninho e badalado. Escolha um casal com aquela cintilante fisionomia de "acabamos de nos conhecer" e acabe com o deslumbre: poste-se à beira da mesa com aquele charme felino da Miss Bumbum de Ipanema e metralhe o chope dos meninos com um vendaval de caganeira. Cague em quem puder, inclusive na cara do primeiro vira-latas que vier cheirar o seu rabo.
12 - Estrague uma solenidade de formatura dando um ataque de bicha-louquice demencial em grande estilo. O negócio é se divertir: espere calmamente o desenrolar da cerimônia; saboreie pacientemente toda a comédia, os sorrisos, o papo furado, que, enfim, culminarão num momento de inefável embriaguez sentimental, quando todos se sentirão envolvidos numa só maré de fraternidade celestial, a ponto de serem _ todos os presentes, sem exceção _ capazes de verter lágrimas de sangue caso lhes seja lembrado o mal que praticaram, sistematicamente, durante toda a vida, contra as nossas irmãs moscas, baratas e formigas. Nesta parte da cerimônia, você (que é a única pessoa inteligente no recinto) precisará de um estômago forte pra não ter enjôos com a insólita mistura de mimos e insanidades que serão declamadas ao microfone da maneira mais descarada. O momento é de vitória... e tudo será feito pra se exagerar as dificuldades e percalços quase que intransponíveis que tiveram que ser vencidos pra se chegar até aqui; os méritos e qualidades desses moços e moças; a posição superior sobre o restante dos mortais a que estes estão sendo alçados pela posse do canudo universitário (e as graves responsabilidades humanísticas que daí advêm)... Ficções, ficções, ficções. E lá está um dos felizardos, extasiado dentro de um camisolão medieval... Ele discursa, embargado pela bobice. É a hora da "gratidão" dentro do cronograma, de se tecer loas à abnegação dos papais, ao fervor dos mestres, ao capricho das faxineiras... até pro capeta é possível se achar palavras comoventes neste momento. Tudo é permitido! E lá vem outro jovem universotário, sentindo-se um pássaro robusto, pra alugar o seu ouvido novamente com outra xaropada ainda mais melosa. Levante-se então do meio da platéia, dando ataques, e saia atropelando as cabeças, truculentamente, gritando, caindo, tropeçando, batendo com a testa, pulando de fileira em fileira, até chegar ao palco. Então redobre os chiliques. Agrida o orador, os padrinhos, as cortinas, arranjos de flores... Grite no microfone, em falsete: "Paulão, eu não posso viver sem você!!" Mostre-se a todos um autêntico pobre-diabo, louco e bicha. E depois de fazer muito escândalo e estrebuchar bastante gritando pelo Paulão, deixe-se carregar, babando, com um sorriso de Hebe Camargo na cara. Este é o verdadeiro sabor da liberdade.
13 - Depois de tanta diversão, será muito improvável que você ainda queira levar adiante a sua idéia de suicídio. Você terá descoberto o sentido de comédia da vida; terá descoberto que atos dramáticos não fazem o menor sentido, pois a vida "é um peido fugaz perdido na imensidão sideral da grande chanchada cósmica" . Debaixo do Sol, não há nada de novo que possa ser levado à sério. Sua alma estará deliciosamente leve... Faço votos de que estas conclusões libertadoras lhe sejam úteis quando terminar de puxar trinta anos de cana por de ter feito tanta merda.
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