Você já parou alguma vez pra dar uma folheada nessas revistas antigas que costumam ter nos sebos? Cê abre uma e tá lá um perua esnobe e decrépita, parecendo um abajur dentro do seu modelito do ano (1960) _ um escândalo de chique pra época. Trata-se de uma requisitada vigarista da alta-sociedade, a típica madame presunçosa e podre. Na foto ela aparece exibindo a nova decoração de sua sala de visitas _ medonha, levando-se em conta as modernas tendências internacionais... Numa revista de fotonovelas, uma estrela do cinema (ainda em preto-e-branco), usando uma touca de borracha, aparece como se estivesse tendo um orgasmo, acariciada pela rica espuma do sabonete Starlight (hoje em dia, nem uma drag queen faria uma cara dessas, pra fazer apologia de um mero sabonete!). Noutra revista aparece o escrete canarinho embarcando pra Copa de 82. Enfileirados na escada do avião, confiantes, os jogadores e a comissão técnica brandem os punhos cerrados, num gesto de bravata. Em letras garrafais a manchete: "ESSA JÁ É NOSSA!". Numa revista de cinema, o outrora inflado galã Clark Gable, com seu bigodinho de gigolô latino, faz pose de intelectual gostosão, exibindo toda a astúcia de seu olhar e seus mais requintados trejeitos de levar um cigarro à boca (coisa bonita na época)... Por distração, você erra de prateleira e pega uma Playboy seminova. Nas páginas centrais, uma beldade de rostinho angelical realiza o sonho maior de toda moça-de-família brasileira: escancarar a xoxota para as lentes do grande artista, o mago, J. Duran.
Os tempos realmente mudaram. Os rebeldes e malditos que assustavam
a sociedade de outras épocas, inspirariam gargalhadas aos jovens de
hoje... Nos anos 50, rapazes ainda virgens aos 18 anos faziam de tudo pra
se parecerem gangsters, em seções de tabagismo grupal pelas
esquinas da vida. Um rapaz, quando queria mostrar que era aventureiro e
contestador, fazia o seguinte: escorava-se à sombra de um poste, amolecia
o corpo, pendia a cabeça prum lado... e acendia soturnamente um cigarro,
como faziam os vagabundos e os agentes secretos nos filmes do cinema. E isto
era tudo... No início dos anos 60 _ quando até mascar chiclé
era sinal de rebeldia _ frangotes punheteiros trajando jaquetas de couro
achavam-se a encarnação do capeta, em suas nostálgicas
lambretas. Nos anos 60/70, a malucada do Power Flower trepava e babava de
doideira o tempo todo, enquanto a grande massa da humanidade ainda curtia
coisas do tipo "Boa Noite, Cinderela". Nos 70/80, os punks, numa guinada
histórica, elevaram o ato de vomitar ao status de expressão
político-filosófico-existencial digna de constar no mural
sociológico oficial da
humanidade.
Foi nessa época que a palavra "FUCK", pela primeira vez na história,
foi transmitida em cadeia nacional de TV, proferida por um roqueiro drogado,
em pleno horário nobre. Naquela noite memorável, uma verdadeira
onda de quebra-quebras de aparelhos de televisão assolou o Reino Unido.
Quase um milhão de pais de família britânicos fizeram
suas TVs voarem janela afora... E enfim, os cabulosos anos 90. Década
da excelência & reengenharia de sistemas &
racionalização de processos. Década dos sabichões
palestrantes que nos ensinaram a gerir uma empresa de maneira metafísica
e a gerir nossa alma de maneira empresarial. Década em que a mídia
enfim domou e estilizou os impulsos escatológicos da humanidade.
Década da conciliação: filhinho e filhinha, papai e
mamãe, vovô e vovó, todos se divertindo, de boa
consciência, com baixarias que deixariam vexado o próprio
Marquês de Sade. Atingiu-se então um tal controle da mente humana,
que conseguiram até emplacar uma adoradora de Satanás como
"Rainha dos Baixinhos".
É gozado ver a disparidade entre as estéticas de cada época. Roupas, penteados, gestos, reações, gírias, olhares, atitudes, opiniões, discursos... Observados de longe (e do alto de nossa pujante modernidade) tudo isto adquire um colorido humorístico e nos faz enxergar os eternos ingênuos que fatalmente somos... Tenho guardada no meio dos meus trastes velhos, uma fotografia encardida e corroída pelo tempo, em que o avô do meu compadre Zeca Simplício, vestido com um uniforme de major da banda, aparece montado num burrico zarolho "ricamente ajaezado", ostentando ares de grande senhor da guerra; o senhoril bigodão deixando apenas entrever a boca severa e desdentada. Pois eu afirmo solenemente que os mais palpitantes modismos da atualidade são tão cafonas e melancólicos quanto aquele miserável retrato. E passa a mão no toco!
1972 _ aqui começa a história de Charliton.
Naqueles floridos anos 70, auge da Guerra Fria, todo menino sonhava
em ser um super-herói
quando crescer
_ jamais, jamais mesmo, um pagodeiro rebolativo, que é o ideal dourado
dos meninos de hoje. O personagem desta pequena biografia era então
um simples garotinho e seu projeto de futuro era juntar-se a Space Ghost
na luta pela ordem no Universo (num outro quadrante do espaço
interestelar, a púbere filhinha dos "Herculoyds" já lhe despertava
uma cálida e insipiente cobiça carnal). Como toda criança
de sua idade, Charliton tinha certeza de que era o mais forte, o mais belo,
o mais veloz, o mais interessante menino de todo o planeta. A vida lhe parecia
um pomar repleto de frutos misteriosos, lendas, prodígios,
poções mágicas, reinos desconhecidos e aventuras inauditas
_ e todos estes tesouros eram não menos que um direito natural seu,
obviamente. As mais geniais maravilhas do universo aguardavam-lhe por
detrás de um portal mágico, onde ele haveria de chegar após
vencer sete provas de fogo!.. As crianças de hoje, muito naturalmente,
vêem o futuro sob uma perspectiva bem mais cínica e vulgar.
Charliton, no entanto, estava certo de que era credor de todo o amor e de
toda a magia do Universo.
E ele crescia e a cada dia ficava mais bonito, mais forte e mais sabido. Aos 12 anos já ejaculava como um rapazinho.
Cena 1_ Em frente ao quadro negro, a professora marca o ritmo de suas palavras, batendo com o giz embaixo de uma letra S: "Consoante alveolar, constritiva, fricativa, surda, homozigótica, gonadotrófica e tal-tal-tal..." Enquanto isto, Charliton, alheio àqueles preciosos ensinamentos, vai enchendo seu caderno com esboços de mulheres nuas. Ondas de cócegas e latejamentos percorrem seu corpinho a cada curva harmoniosa que consegue traçar no branco do papel. Cutuca seu coleguinha ao lado: "Dá uma espiada, aqui, por debaixo da carteira. Ói só... já tá mais grosso que um cabo de vassoura!"
Cena 2_ Domingo. Sobre a pequena Quindim do Paracatu- MG, a tarde vai caindo mansamente, ao som do canto do pintassilgo seresteiro da serra. Nos rádios, a rodada do futebol. Ao longe, o barulho do trem chacoalhando por entre os vales. (Ah!.. quisera eu ser uma vaquinha leiteira... a pastar no verde dessas colinas... a desferir mugidos domingueiros nessas tardes lassas... a sentir as mãos jeitosas do caboclo bombeando o leite de minhas tetas intumescidas!..)
Mas a cada 10 ou 15 minutos esta sagrada melancolia dominical é quebrada pela música e pelo ronco do motor de algum automóvel que passa, embucetado, cheio de gente alcolizada.
Charliton chega em casa, exausto, pois nadou e jogou bola o dia inteiro. São seis e meia da tarde. Ninguém em casa. Papá e mamã tão na missa. Sua sedosa irmãzinha provavelmente está rolando em algum capinzal das redondezas, dando de mamar a algum exasperado jequinha de dentes estragados... Ele liga a TV. Surge a imagem de um sujeito bonitão e carismático, gritando e gesticulando, andando de um lado pro outro com uma Bíblia aberta sobre a palma da mão. Parece estar sob o efeito de uma overdose de Sucrilhos Kelogs. "Jesus foi um grande homem de sucesso! E Ele quer fazer de você também um vencedor, filho!" É o pastor Willy Grahan _ a perfeita imagem da plenitude humana; a madureza e a auto-confiança em sua expressão mais irrefutável! Um homem verdadeiramente instigante... Charliton sentiu naquele momento que estava diante de um mestre! Aquele homem havia lhe tocado o coração ao falar de maneira tão inspirada sobre santidade e espírito empreendedor... Lágrimas sinceras passeiam no jardim de suas bochechas. E ei-lo de joelhos diante da telinha, de mãos postas, em adoração... arrebatado pelas palavras daquele belo e corado evangelista. Ele fora convertido!, como um silvícola que acolhe as luzes do branco sabichão...
Durante os próximos três anos ele será um cabritinho festivo da ala jovem da Igreja Católica, viciado em Churrascos de Louvor, Piqueniques de Renovação de Votos, Encontros de Jovens, retiros espirituais e outras bichezas. Willy Grahan havia lhe aberto as portas de uma saltitante fase em sua vida... Só mais tarde ele verá que era tudo vento, brisa e boiolice. Vexado, ele constatará que o excesso de mansidão e de "boas intenções" o impediram de comer muitas femeazinhas adoráveis e de meter porrada em muito machinho metido a babaca!
Cena 3_ O Heavy Metal dos anos 70 fundiu os miolos do nosso amigo Charliton... Aqueles cabeludões discípulos do capeta fizeram um seríssimo estrago na juventude de duas décadas inteiras (estamos aqui já nos primeiros anos da década de 80). "Sexo, drogas e Rockn Roll" _ este era o fanatismo de Charliton e sua turminha. Era o dia inteiro falando de maconha _ coisa impressionante! Aos 18 anos, Charlie está no auge da inconseqüência; completamente despirocado, sem rumo e sem culpa.
Pinga com limão, erva, chá de cogumelo/LSD e cola de sapateiro eram as drogas da época. A cocaína, embora existisse, não dava viagem e por isso não combinava com o espírito mais arrojado da malucada daqueles tempos, que rendia um verdadeiro culto à "loucura". Passeios radicais no Além, cavalos voadores, magos sumerianos combatendo-se em globos de luz eletrônica, metamorfoses plásticas do espaço, alucinações psicotrônicas, escultura plasmática na 4a.dimensão, vôos rasantes pela noite, miragens peregrinas em vagões de trem _ é nessa nave que Charlie tá voando.
_ Meu filho!.. Eu e sua mãe andamos pensando muito, e decidimos que vamos montar uma padaria ali na esquina pra você. Vamos acabar com a horta, cortar a mangueira e o abacateiro; vou vender a geladeira velha e vamos montar uma padaria pra você, meu filho!
_ Mas por que vocês...
_ Por que nós nos preocupamos muito com você! E precisamos cortar todos esses rumores de que você não é um cara bacana...
_ Mas pai, eu...
_ Eu sei, meu filho! O seu sonho era ser guitarrista de uma banda de rock...
_ E espião da KGB.
_ Eu sei, filhão! Na sua idade, eu também tinha dessas coisas. Eu queria ser lutador de box... dos bons! Mas e daí?! Acabei enfurnado por 35 anos num maldito emprego que detestava! E mesmo assim eu fui feliz! Foi naquela porra de emprego filho-da-puta que consegui tudo que tenho... criei você, sua irmã, e ainda comprei nossa casinha de praia em Marataízes...
_ Sabe pai, eu tenho sido um belíssimo pateta todo esse tempo!
Mas ontem, o destino pôs em
minhas
mãos uma revistinha com várias traduções de letras
de rock paulêra. Por coincidência, eram justamente as músicas
que eu mais curtia... as que me punham mais alucinado... Vi que aquilo não
passava de um monte de babaquice! Era uma letra mais idiota que a outra!
"Back to Hell", um som da pesada que me deixava muito irado... falava de
amor, porra!.. Mas hoje a vida sorriu para mim!.. Sinceramente, estou exultante
com este novo projeto de vida que o senhor descortinou
aos meus olhos! Céus!, eu jamais poderia esperar tanto da vida... Estou comovido e até meio sem graça com esta atitude bonita de sua parte! Mas uma coisa eu lhe prometo, papai: produzirei o melhor pão da cidade! Espero conquistar 30 porcento da clientela local e, quem sabe, daqui a uns cinco anos já não terei firmado uma reputação e um capital suficientes para me casar com uma jovem de boa família, pra me ajudar nos salgadinhos e, quem sabe, formar uma vigorosa prole, estabelecida com brilho e honestidade na nobre arte do forno! Ah, já me vejo no balcão, sorrindo para meus fregueses e deles recebendo elogios sobre a limpeza de minha padaria e a simpatia de meus empregados! Com o esforço metódico e o domínio da técnica, ainda hei de realizar o meu sonho maior: produzir o meu próprio panetone, ao qual darei o nome de meu velho e sábio pai _ Epaminondas Vidigal _, o qual, com sua mente aberta e previdente, me despertou para um modo tão bonito de ascender na vida! Agora sim, amadurecido, compreendo as suas razões, papai!, que muito prudentemente procurava me desencorajar daquele deslumbramento doentio e fantasioso pelo violão e pelos estilos de música pouco convencionais. Ainda posso ouvir claramente a sua voz autoritária, mas cheia de razão e senso da verdadeira realidade: "Charliton Francisco! Pare com esses barulhos malucos no raio desse violão e vai varrer o quintal e consertar o poleiro do galinheiro!" Obrigado, papai, por todos os teus esforços para tornar-me homem! Daqui a alguns meses, se Deus quiser, estaremos cortando a fita inaugural, juntamente com o prefeito e outras autoridades locais, descerrando assim as portas da Virgem Imaculada do Pão! Aí, sim, poderei dizer de peito aberto que sou um proprietário! e que não devo um só tijolo do meu estabelecimento a filho-da-puta nenhum!, sendo até mesmo digno e almejar uma cadeira de vereador na câmara municipal, respaldado num conceito emérito de cidadão valoroso para o desenvolvimento da cidade..."
Os gritos de um companheiro, que está vendo coisas do além, interrompe a viagem de Charliton (os dois malucos estão cheirando cola de sapateiro no meio de uma plantação de eucaliptos, nas adjacências da cidade). Charlie volta momentaneamente a si... blasfema contra a Virgem Imaculada do Pão... despeja mais Covufix no saquinho de leite e recomeça a cheirar. Mas a Virgem Imaculada do Pão lhe perseguiu até as 4 da manhã. _ Me dá dois li de leite! _ Pega um chicré desse aqui ó! _ Me vê 20 grama de fermento, dois Qui-Suco de uva e 5 pão doce... Era um freguês atrás do outro, um atrás do outro.
Cena 4_ Seu Epaminondas e dona Catita comeram o pão que o diabo amassou com aquele menino! Mas hoje, aos 27 anos, Charliton é nada mais, nada menos, que o campeão de vendas da D. Tremens do Brasil, uma das maiores empresas atacadistas de bebidas do país. Considerando apenas as vendas do conhaque Cabra-Retado e da capitosa branquinha Mi Sigura!, ele supera a venda total de qualquer outro vendedor da empresa. Como se isto já não bastasse, ele ainda estuda canto lírico, com o único objetivo de aprimorar sua impostação de voz frente os clientes _ um exemplo modelar do profissional dos novos tempos! Além disto, está construindo uma casa jeitosinha, que pretende habitar brevemente, com sua futura esposa, Divinete, sargenta da PM.
Hoje ele chegou mais cedo do serviço e foi direto pro quarto... Sentado na cama, ele avalia o quanto fora sistematicamente ríspido e implicante com sua jovem irmã, Bulcinete, tragicamente morta a poucos dias, entalada com mandioca na hortinha de casa... "Bulcinha, querida!, onde você estiver, me mande um sinal, pelo amor de Deus!" Mal acabou de falar, Flufi, o poodle da família começa a uivar, como um lobo. Charlie se arrepia dos pés à cabeça, arregalando os olhos pro bichinho que não pára de estrebuchar! Só pode ser um sinal... "Se você estiver bem... e se me perdoou por ter sido tão pelinha com você todos esses anos, mande-me mais um sinal!" E a porta do guarda-roupas entreabriu-se com um rangido choroso...
Cena 5_ Faz cinco minutos que Charlie se olha fixamente no espelho. Aquele rapaz de incomum beleza transformou-se num cinqüentão feio, balofo e careca. Ele sente que alguma coisa vai mal dentro dele; desconfia seriamente que a qualquer momento vai ter um piripaque qualquer... Constata, com tristeza, que se tornou uma ilustração viva daquele dito popular: "No velho tudo escorre pra baixo: a roupa, a pele, a barriga, o pinto _ tudo!" Sente um leve desespero... mas precisa manter a linha; precisa honrar as calças que veste e fazer valer suas preciosas convicções espiritualistas... Com um sorriso calculado, ele diz a si mesmo: "Fica frio, mané: o espírito nunca envelhece!" E repete isto umas 50 vezes, em diferentes entonações...
É que, desde aquele dia em que sua irmã lhe enviou sinais
do além, ele abraçou a crença na imortalidade da alma.
Em sua incursão pelo mundo das seitas reencarnacionistas, aderiu
primeiramente a um treco chamado "Fraternidade Branca", seita de malucos
esotéricos, onde passou alguns meses adorando os "Sete Raios" e rendendo
culto à "Chama Violeta". Depois, pulou pra Gnose, outra seita de
malucóides, que consiste numa verdadeira colcha de retalhos de
orientalismos
e viagens lisérgicas _ invenção, talvez, de algum hippie
que um belo dia resolveu ganhar dinheiro com todo aquele papo furado de
espíritos estelares, Cristo Vishnu, patriarcas divinais, avatares,
Avalokiteswara, dhyan-choans... Charlie começou a desconfiar que os
únicos que não eram alucinados ou retardados ali, eram os
cabeças da seita _ uns espertinhos mansos que queriam depenar e comer
todo mundo. Foi parar então na Seicho-No-Ie e, enfim, no Kardecismo,
onde encontrou a razão de seu ser.
... Ele continua a se olhar no espelho, avaliando o processo de decrepitude. Coça a cabeça, lamentando-se... Então se lembra de que, como kardecista, deve crer que um dia irá se reencarnar num corpinho zero-bala, novinho em folha. Que maravilha! Ele continua a se olhar no espelho e a matutar: "Estimo _ sem querer puxar a brasa pra minha sardinha _ que devo estar num estágio de evolução espiritual mais avançado que 99% dos habitantes deste planeta; donde se deduz, estatisticamente, que devo reencarnar-me na pele de um pupilo da elite mundial _ quem sabe, um principezinho... talvez na Dinamarca... talvez num castelo da Baviera... numa mansão em Beverly Hills, vá lá... Talvez me transforme mesmo numa potestade mirífica da natureza... talvez atinja o Orgasmo Cósmico e me funda ao ser-do-Universo...
Cena 6_ Não teve jeito mesmo. Depois da crise, quando os médicos abriram seu bucho, o câncer já tinha tomado conta de tudo; não havia o que fazer a não ser fechá-lo e dizer que tava tudo bem _ eram só umas pedrinhas na vesícula _, apenas doeria um pouco nos próximos dias. Mas Charlie durou só 6 dias depois disto. Há 15 anos ele seguia uma dieta naturalista de um pseudo-japonês iluminado, que morreu com a mesma merda que ele, também aos 50 e poucos anos de idade.
Cena 7_ Ascensão & Urucubaca.
Os espíritas estão prenhes de razão ao professar a doutrina da transmigração da alma, mas erram num ponto crucial: o fenômeno da reencarnação não é regido por qualquer ética "divina", mas sim por uma vasta e intrincada rede de urucubaca humana! Reduzindo a coisa a termos bem simples, podemos dizer que o ódio histérico de um/uma ex-amante ou, digamos, um forte sentimento de inveja por parte de um bando de cretinos quaisquer, podem perfeitamente fazer com que você se reencarne na forma de um porco, um gambá, uma ratazana ou qualquer outra criatura danada, ou renasça débil mental ou com uma deformidade física etc... Já um crápula que praticou o mal a vida inteira, mas que caprichou no seu marketing pessoal e soube, hipocritamente, vender uma boa imagem de si, este ascenderá aos céus, leve e iluminado, desimpedido de urucubacas e maus-olhados... e certamente irá se reencarnar num corpo geneticamente triunfal! Por isso, um alerta: quando o finado não tiver conquistado, em vida, a perfeita simpatia da sociedade, é imprescindível em seu velório, a presença de pelo menos uma beata empedernida _ dessas que gostam de comandar rodadas intermináveis de rezadeiras (dessas ladainhas mórbidas que fazem qualquer criança de 6 anos sentir-se uma velha desconsolada... mas que fazem o defunto gritar uma "aleluia" vibrante, lá do meio da escuridão)... Charlie porém não teve este privilégio e, além disto, os parentes não divulgaram sua morte à patota do grupo espírita, que poderia estabelecer bons contatos para ele no Além. Assim, as poucas preces que seu espírito recebeu não foram suficientes pra quebrar as correntes magnéticas da urucubaca humana: sua alma foi vertiginosamente arrastada aos planos inferiores do mundo espiritual. Mas podia ter sido pior...
Cena 8_ Charlie reencarnou-se no corpo de uma vaca leiteira, na fazenda do seu Constantino, ali mesmo em Quindim do Paracatu... Neste momento, ela (Charlie agora tem uma xota, uma xotona) está lambendo sal no cocho. Um ventinho providencial sopra por detrás, refrescando sua vulva e suas nádegas, ligeiramente magoadas por um impetuoso tourinho zebu apaixonado. "Pois é, né!" _ é o que parece dizer o seu olhar pachorrento. Em cima do mourão da cerca, doutor Flammarion Fonseca _ ex-médico e compositor de hinos maçônicos _ cacareja e esbate as asas, parecendo se recuperar de algum susto... O trem vem descendo a serra, carregado de minério e ferro-velho... Charlie olha o rio que corre lá embaixo... sente vontade de ir ver mais de perto, mas... "suspiro de vaca não arranca estaca"... Solta um mugido preguiçoso... olha pruma moita de capim... se esquece do rio... abocanha a moita...
E aí? Cê acha que o nosso amigo se deu mal por ter virado vaca?.. Eu não diria. Acho que Charlie tá é cagando e andando!.. Cest la vie. Foda-se!
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