O negócio aconteceu em janeiro de 1988. Guabiré contava então com aproximadamente 160 mil habitantes. Cidade do interior, de forte colonização italiana, competia então em pé de igualdade com Ibitinga pelo título nacional de "Capital do Bordado". Embora tenha, de lá pra cá, diversificado bastante a sua atividade industrial e modernizado a pecuária, nos dias de hoje o símbolo oficial e orgulho de Guabiré é, sem dúvida, o quiabo! Quem é que nunca ouviu falar dos quiabais de Guabiré?.. Entretanto, um dado notável e pouco conhecido do grande público é que aqui se encontra a nascente do famoso rio Taquaropeba, o mais piscoso do quadrilátero do quiabo. Poucos sabem também que é aqui, entre as matas virgens de capoatés, que se encontram os últimos exemplares da choronguinha de papo amarelo. Só a título de ilustração: "Guabiré" é um nome indígena que significa "terra dos Pinto Viana" (uma opulenta família da região, das primeiras a civilizar essas plagas).
O calçadão da rua Wivaldi Bittencourt (com área total equivalente a seis campos de futebol) é o local mais movimentado da cidade. Ali se encontram os principais bancos, lojas, cinemas, lanchonetes, óticas, drogarias, prédios de consultórios, advocacia, câmbio etc., e, nas galerias, uma infinidade de barzinhos pra todo tipo de aficcionado. No meio da rua existem também as instituições informais do tráfico de drogas, da agiotagem, do golpe, do trambique, da boa e da má malandragem, além da paquera inocente e das rodinhas de desocupados. Há as reuniões dos velhos que adoram de falar de dinheiro e política, onde ninguém ouve ninguém, nem convence ninguém, nem negocia nem um palito de fósforo. Outra presença certa ali é a daquela raça de raposas vorazes e semi-analfabetas _ os "self-made-men" tupiniquins _ que pensam em grana 25 horas por dia, e que rondam sempre cheias de sorrisos e tapinhas nas costas, à espreita do primeiro otário que tope fechar algum negócio (qualquer um que lhes garanta ao menos uns 300 porcentinho de lucro). Os corretores de imóveis também manobram pela área... Enfim, o calçadão da Bittencourt é o coração, a vitrine da cidade _ especialmente no aspecto cultural: é o lugar onde nascem, ou melhor, onde se passa o aval pras novas modas, estilos e gírias importados da cidade grande... e onde os homens que fazem profícua esta terra confabulam as idéias que serão a esperança de um futuro com melhores e mais promissores propósitos...
É então que surge por ali um rapagão bonito e musculoso, com os cabelos tingidos de verde-abacate, tendo como traje apenas uma minúscula tanguinha. Parece que nunca viu sol na vida, de tão branco. Com certeza trata-se de algum gringo amalucado... Traz um tamborzinho na mão, e seu corpo é todo tatuado com símbolos coloridos de esoterismo pop. O impacto visual é bombástico e (deixando de lado aquela reservinha acanhada e mal-intencionada que temos frente às coisas escrachadas) muito bonito. A cena é assim: o pacato cidadão vem pela rua, mascando o velho chiclete da impotência ancestral, enquanto pensa na morte da bezerra. Quando se depara com o figuraça, leva aquele tapa!.. dá uma brecada e deixa cair o queixo, sem saber se deve rir ou sair correndo.
Com a maior desenvoltura, o transadão vai desfilando até a altura da agência do Sangh & Suggha, "o banco que ama você". Parando ali, se assenta em posição de ioga, bem no meio do movimento. Depois de alguns gestos preparatórios e uns gritinhos exóticos, põe-se a tabucar um tipo de atabaque. Uma pequena multidão de curiosos já o circula, mas o zunzunzum e as piadinhas não o perturbam. Ele continua batucando, sacudindo as madeixas coloridas, cantando numa língua desconhecida, feia de dar arrepios (imagino alguma horrível etnia malásia... industânica... sabe-se lá...) Pros populares, tudo que soe diferente do brasileiro e do paraguaio, é inglês...
A julgar pelas caras e bocas do rapaz, a canção deve contar alguma história barbaramente sentimental, pois seu semblante afeta emoções que vão desde o patético tormento até a luminosidade mais desvairadamente inebriante e arrebatadora. Ele se comove com cada nuance da peça, meticulosamente. Às vezes o ritmo frenético vai se acalmando, lentamente, até se estabilizar num compasso simples e contido, muito lento, quando a voz passa a predominar... saborosa, com uma melíflua riqueza de modulações (rapazes de cabelos longos realmente parecem ser mais artísticos do que a média)... E o marmanjão seminu começa a trinar docemente, como um passarinho ao cair do crepúsculo. Desmelingüindo-se em arquejos líricos, ele contempla a platéia com franqueza, pessoa por pessoa, com um sorrizinho beatífico de ternura, todo molinho e desfalecido, piscando preguiçosamente os olhinhos úmidos. E assim fica por uns cinco minutos... gorjeando. Os homens da platéia entreolham-se, encabulados, sentindo-se molestados pelo viadão. De repente, o cara dá um breque no atabaque e encara a todos novamente... Aquele lado mimoso que ele acabara de revelar neste último interlúdio se desvanecera... Sua expressão se transforma agora em algo furioso e desafiador... "Esse cara já tá enfeitando demais!"_ protesta alguém... Suspense... Ele entra então de cacete no batuque, desenbestadamente, sacudindo-se e cantando num ritmo enlouquecido, cheio de gritinhos roucos... "Huuuum, a boneca tá rebelde!.. Temperamental ela, meu-deus-do-céu!" _ sacaneia um outro... De fato, o maluquete tá caprichando tanto em suas emoções interpretativas que, apesar de querer parecer selvagem, já tá é fazendo papel de bicha... A multidão se diverte, cabreira, mantendo uma certa distância, como se ele pudesse resolver morder alguém de uma hora pra outra .
_ Acho que ele quer fazer propaganda de alguma coisa...
_ Se eu fosse prefeito ou delegado, tacava esse palhaço dentro de um camburão agora mesmo, e despejava ele bem na frente lá da prefeitura de Itacunucú [cidade vizinha]. Só que, antes, ele ia levá aquela seçãozinha de massagem bem esperta... E ia dá um jeito naquele cabelão tamém!
_ Sei não... Pra mim foi ele quem matou o seu Juventino do boteco, semana passada.
_ Deve ser de alguma seita de malucos. Agorinha mesmo começa a pedir dinheiro... pode escrever.
_ Trata-se de uma manifestação sintomática da esquizofrenia cultural que é a própria essência do pós-moderno...
_ Tem futuro esse moço! Que artista! Tem alma esse menino...
_ Se não me engano, esta é uma passagem do Baghavad Gita, que narra o momento em que o exército de Vishnu chega às portas do Gonghala... Sinta bem este quê de terrível e obscuro... a ilógica e imemorial smelesqüência que jaz nesta expressão típica da psique indiana. _ blefa o professor barbudo, enquanto acende seu cachimbo. A loirinha a seu lado, sua aluna e amante, quase tem um orgasmo, engrupida mais uma vez com as demonstações de charme literário do velhaco.
_ Esse cara tá precisando mesmo é de muita porrada nas fuça!
_ Ele não é de se jogar fora, hem?
Esporadicamente ouve-se uma gargalhada mais ruidosa no meio da platéia, motivada por algum gracejo mais picante.
_ Esses caras da capital acham que podem chegar aqui fazendo qualquer
palhaçada que os idiotas
vão
aplaudir... Babacas!
_ Mitidim ele, hem! _ comenta o estudante, bom-menino, com inveja, segurando seus caderninhos.
_ Se esse otário começar com gracinha pra cima das mina da cidade, nóis atropela ele, falô?!
_ Puta-merda! É de um cara desse que eu tô precisando lá na boate. Vou fazer uma proposta pra ele. Imagina só... vai ser um estouro! "Mr. Thunderbird, o Homem das Galáxias" _ que tal, hem?! Se o negócio fizer sucesso do jeito que eu imagino, vou empresariá-lo a nível nacional e, quem sabe, até... in-ter-na-cio-nal! O cara é di-mais!
_ Né viado não, boba; é só meio doidinho mesmo... E por sinal, um doidinho muito gato, né não?! Eu fico imaginando... cumé que deve ser uma cara desse na cama?.. Aaai! _ estremelica a moça, revirando os olhos, ao mesmo tempo em que tenta apaziguar seus fervores fazendo o sinal da cruz e perseguinando-se três vezes.
_ Um homem desse tamanho!.. Vagabundo! Tem sujeito que é capaz de tudo pra não arranjar um serviço!
Todos se enganaram. Bem no auge da performance, quando a emoção e o deslumbramento do moço chegavam às raias do frenesi mais despirocado, ele se engasga e corta o barato da moçada. Com a bocarra escancarada e a língua pra fora, ele parece querer gritar, sem conseguir. Alguma coisa aconteceu... "Ele-não-está-bem!"... O tatuadão se levanta... Endurece o corpo, tremendo, paralisado. O tamborzinho lhe cai das mãos. Os olhos se arregalam e a baba começa a descer. "Acho que ele tá entrando em transe."_ palpita um sujeito com cara de maluco... Mas o drama continua... Silêncio completo no calçadão da Bittencourt... só se ouve o barulho cibernético de umas máquinas de fliper, a vinte metros dali, na Number One Games. O tremor do rapagão aos poucos vai se transformando em convulsão... mas, estranhamente, é só a cabeca e o braço esquerdo que se sacodem (no braço direito, apenas a munheca fica abanando histericamente, como se tivesse vida própria); o resto do corpo permanece petrificado numa rigidez mórbida e alucinada. Apesar de localizada, a convulsão é tão violenta e estrambolética, que um sujeito normal já teria quebrado pescoço e munheca logo de início... e no entanto o cara continua a se descabelar como um possuído, dando a impressão de que a cabeça vai saltar dos ombros e sair quicando pelo chão a qualquer momento. Parece algum tipo de psicopatologia inédita e espetacular... uma múmia histriônica, ressuscitada com uma overdose de cocaína...
O dito cujo, que há um segundo atrás só sabia tremer e babar, no final acaba traindo todas as expectativas da platéia. A maioria do pessoal, no fundo, tava adorando a cena. Com efeito, eles iriam sair dali saciados de tragédia e doideira por um bom tempo. Mas, inesperadamente, o efebo resolve dar uma de desmancha-prazeres. Com um salto de onça _ e dando um grito que só alguém que tá muito longe de Deus pode dar _ ele se precipita sobre algumas pessoas, no meio da platéia. Foi tudo muito rápido e brutal... Se a polícia fosse menos hospitaleira com esses tipos estranhos que de vez em quando aparecem, vadiando como quem não quer nada, toda essa tragédia poderia ter sido evitada... talvez. Mas acho que os próprios policiais se intimidaram com a incrível esquisitice e desfaçatez do forasteiro.
Como eu disse, todos se enganaram. De repente: BUUUUUUUUUM! O sujeito era apenas uma moderníssima bomba acionada por controle remoto. Isto mesmo! _ um andróide-bomba. Foi um holocausto! Mais de 200 pessoas mortas, sem contar os sérios estragos em outras tantas. O inacreditável pulo que ele dera em direção ao centro da aglomeração foi justamente pra estourar o maior número possível de curiosos.
Apenas 20 segundos após a explosão (percebam bem: 20 segundos), vários furgões brancos pintados com uma cruz semelhante ao símbolo da Cruz Vermelha, começam a chegar ao local, sirenes ligadas, em alta velocidade, passando por cima de vivos e mortos. Eles recolhem rapidamente os mortos _ somente estes _ deixando os feridos gemendo e implorando no chão. Catam também todo pedaço de corpo que encontram pela frente: antebraços, cabeças, pernas, orelhas etc. Os caras são ultra-rápidos, tipo aqueles japinhas frenéticos de filme de karatê... Terminado o serviço, as viaturas partem a toda, cantando pneus e atropelando mais alguns... Ouvem-se gritos pavorosos. Une scène dantesque!!!
Prezados amigos, não é todo dia que se ouve uma revelação como esta que estou prestes a fazer!.. Tentem me responder: _ Por que um andróide tão cheio de firulas? Como poderia ter o socorro chegado assim tão rápido? Por que se socorreu apenas os mortos? E por que justamente uma cidade caipira e de porte médio como Guabiré?.. Não adivinhou ainda? _ Vou dar mais umas dicas. Um dos motivos da pressa dos furgões era transferir rapidamente os corpos pra helicópteros com tanques-frigoríficos (taxeados num campo de futebol ali perto): devido ao fim a que se destinam, os cadáveres devem ir pro gelo em, no máximo, 20 minutos e meio. Nessa transferência, aconteceu de alguns infelizes ainda mostrarem sinais de vida. "Who said you should be alive, hillbilly?!" _ debochava o falso enfermeiro, estrangulando um por um.
Pois bem. O trágico acontecimento que acabamos de narrar foi
promovido pela SCAR, um dos braços de uma indústria
petroquímica canadense. Esta gigante transnacional, que atua também
na área de fertilizantes, tecnologia laser, refino de pasta de
cocaína e telefonia celular, de uns tempos pra cá descobriu
no tráfico de órgãos mais um formidável filão
pra engordar sua receita. De fato,
este novo
ramo de empreendimento (a "antropólise") entrou com 17 porcento da
receita bruta da empresa no ano passado (com uma expectativa de crescimento
projetada em 36,3 porcento pra este ano). É por isto que os caras
saem por aí explodindo pessoas pra catar os pedaços. Rins,
baço, pâncreas, vesícula, coração,
gânglios, hormônios, cartilagens, ossos frescos, tendões,
artérias, olhos, culhões, plasma de cerebelo, pleuroblastos
sinuviais, retículos parassimpáticos vagais... tudo isso vale
uma grana incalculável! Quando é que um cientista vai conseguir
sintetizar em laboratório uma mísera molécula de
adropsodeína humana? _ Jamé! O único jeito então
é estripar alguém. Aí explodem um zé-mané
no meio da rua, em alguma cidade do terceiro-mundo, e retiram dele,
gratuitamente, a matéria-prima valiosa. Nessa hora eles não
são racistas...
Há indícios de que na Índia, o próprio governo tá dando a maior força pra essa máfia, visando combater a superpopulação. O Ministério da Saúde daquele país preparou um projeto chamado "Racionalização dos Vetores Demográficos"... Descobriu-se mais tarde que o projeto, debatido e aprovado pelos ilustres parlamentares nativos, era nada mais do que uma pastinha com duas folhas de papel em branco: como aquela gente tem uma incapacidade inata pra planejar qualquer coisa racional, acharam mais fácil chamar a SCAR, pra que esta atuasse com carta branca no país, com seu método característico _ o mesmo usado no Brasil_, só que, neste caso, de forma realmente assoladora! Contra a explosão demográfica, a explosão de populares a céu aberto, usando como chamariz andróides e ginóides exóticos: pregadores escandalosos, palhaços, dançarinas, malabaristas, etc... Só que, apesar de toda a boa intenção do governo, também este projeto está fadado ao insucesso, pois estamos falando de Índia... e ali nada funciona, definitivamente! Aquela horda de gente atrasada, que vive nas trevas desde que o mundo é mundo, se tombam mil, nascem 10 mil. São como aqueles super-seres gelatinosos e indestrutíveis da ficção científica: corta-se um tentáculo e o côto se transforma em um novo ser, ainda mais temível. Explodir ou ser explodido _ tanto faz _, pra eles isso é puro entretenimento, como o é pra nós uma boa partida de futebol.
A SCAR deve sua existência aos novos métodos de excelência gerencial e operacional que estão sendo implantados nas grandes empresas _ mais conhecidos como táticas da "Qualidade Total". A competitividade no mundo dos grandes negócios chegou a um tal ponto que, quem vacilar, é atropelado no ato... e aí, até se recompor, a empresa já terá perdido alguns pontinhos preciosos. Isto é doloroso pra um capitalista. Do mesmo modo que um mendigo caga só de pensar em perder sua garrafa de cana, assim também os grandes empresários cagam só de pensar em perder dinheiro ou posição. Devido a isto, a "Qualidade Total" acabou sendo aprimorada numa técnica mais agressiva que os empreendedores orgulhosamente chamam de "Neurose Total com Qualidade" ou "Neurose Total Cientificamente Assistida" (eu diria: "Cagaço de Milionários Caipiras"). É assim que as coisas funcionam hoje em dia, quando há muito dinheiro envolvido... Se é fato consumado que dinheiro demais deixa o sujeito pirado, o que resta a esses dementes do dinheiro é ampararem a sua loucura com o filé da ciência e da tecnologia de ponta... Sim, nós estamos falando aqui de capitalistas loucos! Estes são os personagens notáveis desta história.
Só um detalhe: quando a chinesada (com o seu notório espírito atacadista) resolver entrar sério no ramo, vai ser uma hecatombe!! E haverá uma revolução nesta ainda discreta atividade econômica. Um rim canadense está custando a bagatela de 25 mil dólares; rins de grife _ franceses e italianos _ chegam a valer até cinco vezes mais (até nas tripas esses frescos são metidos à besta!). Mas quando a produção chinesa invadir o mercado, aí sim, esta festa vai acabar! Creio que até em bancas de camelôs poderemos adquirir "presuntos" fresquinhos, a preço de banana.
Existem partes e caldos naturais do organismo humano de que nós, leigos, nunca ouvimos nem ouviremos sequer falar, mas que são usados em tratamentos avançadíssimos, principalmente na área dos tratamentos de beleza _ seja na cosmética superficial, seja no rejuvenescimento dos órgãos internos. ¿Você ainda não reparou que desde meados da década de oitenta, os grandes capitalistas, a cada vez que aparecem na televisão ou nas revistas, se mostram sempre mais garbosos e remoçados. O milionário octogenário de dez anos atrás tem hoje noventa anos, porém aparenta sessenta; e daqui a dez anos, com um século de idade, o pilantra parecerá um quarentão bem conservado, com saúde de 30 e potência sexual de 20. Transmutados em vigorosos rapagões, esses vampiros forjam a notícia de suas mortes e saem de circulação. Logicamente, isto é um segredo muito bem guardado, porque além do mais, eles não querem compartilhar este privilégio divino com a ralé, senão a coisa perderia metade da graça. A verdade é que estão se operando verdadeiros milagres fisiológicos... na surdina (só lá entre eles, os sumos sacerdotes do planeta). Mas tenho a certeza de que mais cedo ou mais tarde estas práticas monstruosas hão de vazar e mobilizar a opinião pública, e então o mundo civilizado se levantará contra este monopólio absurdo dos avanços científicos por parte de um pequeno número de pessoas.
É preciso estendermos os benefícios das novas tecnologias a todos os irmãos do mundo ocidental! Vamos, minha gente, todos juntos, redirecionar nossos alvos e explodir corpos em países do Extremo Oriente e do Oriente Médio. Aí sim, poderemos dizer que somos uma sociedade democrática... usufruindo irmamente os frutos da antropólise...
Guabiré _ uma terra de gente que se orgulha em bater no peito e dizer em alto e bom som: "EU SOU DA TERRA DO QUIABO!" Esta mesma terra que se fez grandiosa ao longo de uma história repleta de obstinação e bravura, ainda hoje se lembra, vexada, da peça que lhe pregaram. Hoje resolvi revelar o como e o porquê desse logro humilhante. Não revelei o nome dos responsáveis, mas, aos dirigentes da referida indústria, deixo um lembrete: tenho em minhas mãos documentos incontestáveis que comprovam minhas afirmações. São papéis que encontrei acidentalmente debaixo da estátua do general Trestlepton, numa pracinha em Hines Creek, costa leste do Canadá (eu trabalhava então no ramo de impermeabilização de superfícies e controle de fungos, naquele país). Reitero agora a vocês, canalhas dolicocéfalos, o mesmo aviso que lhes dei naquela ocasião: se qualquer coisa ou pessoa, visível ou invisível, material ou abstrata, direta ou indiretamente, súbita ou gradualmente, atentar contra a minha vida ou a de meus familiares, estas provas serão enviadas a jornais e revistas do mundo todo. Portanto fiquem quietinhos e tratem de depositar em minha conta bancária o valor que estipularei em ocasião mais oportuna. Ademais, não creio que vocês queiram ser alvo de uma violenta retaliação por parte da Força Aérea Brasileira, com seus invencíveis AMX... E outra coisa: vão explodir pessoas lá na Iugoslávia, na Indonésia, no Iraque, ou, só pra variar, lá na Suíça! Aqui não!.. Vocês humilharam toda uma geração de guabirébas!..
Em suma, é isto aí meus amigos. Aquele dia foi um dia
tão fodidamente negro, tão cruel e tão azarento para
o povo desta cidade que, pra completar a humilhação, aconteceu
que até mesmo a
estátua
monumental do Quiabão (obra arrojada da arte moderna e cartão
postal da cidade) foi demolida pela explosão... Mas, por outro lado
_ agora que já revelei a história toda _, vocês,
guabirébas, podem ter ao menos o consolo altruístico de saber
que há um pedacinho de vocês no corpo de centenas de dondocas
e milionários, pelos quatro cantos do planeta. E é em nome
deles que eu digo: Obrigado, Guabiré! Eu me orgulho de ti! Pois,
também eu, tenho a força do quiabo correndo em minhas
veias!
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