UM TRAÇO CULTURAL MUITO IMPORTANTE: TERNO DE REIS EM CONQUISTA.
Ruy Medeiros.
Dezembro se aproxima. Trata-se de um mes relevante para a cultura popular conquistense. A arte dos presépios, a religiosidade popular e as cantorias de reis modificam o dia-a-dia dos bairros periféricod da cidade.
O reisado, em Vitória da Conquista, é uma das manifestações de lazer popular, incluída nas condições de cultura religiosa e musical, na forma como o povo entende e pratica a religião e a música. Efetivamente, a temática de suas cantigas, é religiosa. Lembra também a religião o rito desenvolvido pelos ternos de reis.
Desde o dia 25 de dezembro, à noite, até o dia 6 de janeiro, diversos grupos saem em visita a várias residências a fim de "cantarem o reis". Estes grupos, cujos componentes usam chapéus enfeitados de espelhos e fitas, tocam diversos instrumentos musicais. De início, seus participantes entoam música à porta da casa fechada, que deve manter suas luzes apagadas, após o que, ainda cantando, pedem os "reiseiros" que se acendam as luzes de que o terno de reis possa entrar. Entoam, à porta, a seguinte cantiga, com acompanhamento de instrumentos musicais: (coro) - Nós somos de longe/ queremos lhe ver/ nós somos de longe, queremos lhe ver. - Deus lhe dê alegre noite/alegremente cantando/ são despedidas de festas/ entrada de novo ano/ (repete o coro: Nós somos de longe, etc.) - Porta aberta/ luz acesa/ recebei com alegria/ recebendo o Santo Rei/ filho da Virgem Maria/ (coro: Nós somos...) - Foi chegado nesta/ quem havera de chhegar/ os três reis do oriente/que aqui vem lhe visitar/ (coro, idem) - Quando foi pro oriente/ visitando o deus Menino/ que é o deus Onipotente (coro, idem) - É deus Onipotente/ todo cheio de resplendor/ a melhora deste dia\ quero ver, Nosso Senhor (coro, idem) - Quero ver Nosso Senhor/ agradecendo no altar/ que aqui está meu Deus Menino/ santificado sejá - (coro, idem). Santificado sejá/ e os anjos digam amém/ que no céu os anjos cantam/ em louvor às três marias (coro, idem). Em louvor às três marias/ que nasceu a divindade/ é uma das três pessoas/ da Santíssima trindade - (coro, idem) - À Santíssima Trindade/ bateu asa e canta o galo/ é uma visita que tenho/ que esta noite é de Natal - (coro, idem) Esta noite é de Natal/ Não se dorme em colchão/ pois nasceu o deus menino/ entre as palhinhas do chão/ - (coro, idem). Entre as palhinhas do chão/ nasceu naquela montanha/ naquela fina montanha/ entre noite e solidão 9coro, idem). Entre noite e solidão/ bateu asa e canta o galo/ dizendo cristo Nasceu/ Cantam os anjos nas alturas/ quem louva Jesus sou eu - (coro, idem) santos reis já se despedem/ com prazer e alegria/ quem tiver saudade/ vai na festa do seu dia- (coro, idem). Deus lhe pague pela esmola/ dada de bom coração/ neste mundo ganha o prêmio/ lá de Deus a salvação - (coro, idem). Vamos dar outro viva/ como nós costuma dar/ quanto mais viva nós damos/ mais viva merece dar- (coro, idem) Mais viva merece dar/ àa sua família também/ vamos dar louvor a deus/ para todo sempre amém - (coro, idem).
E dizem, ao final da cantiga: Viva o Santo Reis! Viva todos que acompanham! Vivaa!
Logo que a porta é aberta o "terno de reis" (na verdade um grupo) penetra na residência e entrega a "lapinha"ao dono da casa. A lapinha é uma espécie de presépio em miniatura, um nicho em que deus menino está presente "entre palhinhas do chão".
Segue-se à entrega do nicho ou lapinha, a cantiga do agradecimento, se possível diante do presépio da residência.
(coro: Nós somos as pastorinhas/ que vêm do oriente/ acordai quem está dormindo/ consolai quem está doente) - deus te salve oratório/ onde deus fez a morada/ onde mora o cálix bento/ e a hóstia consagrada - (coro, idem) deus te salve oratório/ deus te salve com alegria/ Deus te salve mangedoura/ onde os dois entrou de dia (coro, idem) Aqui está Senhor Menino/ bem vestido no altar/ com cálix d'ouro na mão/ missa nova vem cantar (coro, idem) Aqui está Senhor Menino/ sentadinho rm bom lugar/ olhando todos aqueles/ que é prá seu nome chamar (coro, idem) Santo reis já se despede/ com prazer e alegria/ quem tiver saudade dele/ vai na festa no seu dia (coro) Vinte e cinco de dezembro/ a Virgem Santa deu à luz/ no dia seis de janeiro/ tinha o menino Jesus (coro, idem) Ora e viva/ Viva o Nosso Santo rei/ Viva no céu e na Terra/ e a morada que Deus fez (coro: idem) E a morada que deus fez/ e o Menino também/ viva o nosso Santo Rei/ para todo santo amém (coro, idem).
Findam o agradecimento, gritando em coro: Viva o senhor menino! Viva o amor e piedade! Viva o dono da casa! Viva o Novo Ano!
Nem sempre os versos cantados e a música são os mesmos. Há diferença, no particular, entre os diversos ternos de reis de Conquista (Brasil vencedor, cruzeiro do Sul, estrela Dalva, Flores de Boa Nova, etc, etc,).
Os versos acima são cantados pelo "Flores de Boa Nova".
CONTEÚDO RELIGIOSO
O ritual acima descrito deve ser fielmente observado. Sua estrutura é religiosa, apesar da alegria ínsita nos fenômenos de lazer. Assim é que o "agradecimento" deve ser feito reverentemente diante do presépio da resid6encia quando esta o possui. Já se presenciou inclusive um terno - o "Brasil Vencedor) - que, diante da existência de presépio na casa, se sentiu na obrigatoriedade de repetir toda a cantiga entoada à porta do visitado para, só depois disso, cantar o "agradecimento".
O terno de reis lembra o nascimento de Jesus Cristo; os versos de alguns falam de sua perseguição por Herodes; falam da missão salvadora do Filho de José. Por outro lado, entre algumas famílias humildes, persiste a noção de que a visita do rei com a lapinha traz sorte para a família visitada. Ainda persiste, portanto, o aspecto religioso, um dos componentes de sua origem, nos ternos de reis de Vitória da Conquista.
CONTEÚDO LÚDICO
Além daquele envolvente conteúdo religioso, o fato possui nítida função ( e conteúdo) lúdico. Isto é visível, sobretudo, após o "agradecimento". Só após esta fase é que os componentes do grupo bebem e sambam. Os próprios integrantes classificam esta parte de brincadeira. Assim o reisafo poderia ser decomposto: Romaria(alguns suprimiramn esta parte, de conteúdo religioso), cantata diante da porta, agradecimento e brincadeira. Nesta última parte os instrumentistas dão tudo o que possuem no sentido de melhor fazerem funcionar seus instrumentos musicais.
ASPECTO ECONÔMICO
Embora não seja feito com esta finalidade, o reisado apresenta aspecto de ganho. Persistência das velhas contribuições medievais à Igreja, hoje transferidas para particulares. Todas as cantigas de reis falam de "esmola" (Deus lhe pague a santa esmola/ dada de bom coração). Aquele que está disposto a receber "o reis"sabe que terá de arcar com certa quantia.
Foi observado, em certo ano, a divisão do dinheiro recolhido pelo "Flores de Boa Nova" e as palavras de um de seus membros: "não faço muita questão. Só faço questão do que dá prá o imediato - o da farinha e o do café....açúcar. O dinheiro arrecadado pelo "cabeça" ou "dono" do terno é dividido entre todos os participantes do grupo.
TRANSMISSIBILIDADE
O reisado representa exemplo digno de nota de transmissibilidade cultural em seus dois aspectos: vestical e horizontal, ou seja, a transmissibilidade através de gerações e a transmissibilidade de um lugar para outro. Não só exemplo de transmissibilidade, mas também de sobrevivência e de fusão culturais. Sobrevivência, porque as origens do reisado estão na Idade Média da península Ibérica, possivelmente. Fusão porque, hoje, alguns ternos apresentam dados de culturas (portuguesa, negra e indígena).
SOBREVIVERÁ O REISADO?
Com o que foi dito acima, uma pergunta se impõe: Diante da invasão de técnica e, consequentemente, de novos traços, objetos e padrões culturais, ditados pela sociedade industrial, o reisado, entre nós, tem condições de sobreviver?
- Não resta dúvida de que muitas de nossas tradições estão sendo sepultadas; entre estas estão os folguedos de reis. Estes não têm mais a pompa de antigamente: desfile de "pastorinhas" com vistosas roupas (de tafetá ou de papel, lanternas, alegorias, enfeites, etc. Quem da década de 1940 para cá, não se lembra? Entretanto, o desaparecimento dos reis não será imediato. Por várias razões.
LAZER OPERÁRIO
É crítico o problema do laser operário em Vitória da Conquista. O reisado é um raro momento de lazer não pago, de lazer democrático, de lazer ao alcance do povo. Um povo sem divertimentos, tende a conservar suas formas elementares de lazer, quando estas formas não se incompatibilizam com o trabalho e com seu estilo de vida. Os ternos de reis saem à noite, horário que - salvo exceção - não é de trabalho. EEste aspecto de lazer popular, aliás, tende a acentuar-se à medida que a secularização da cultura desgasta a religião católica tradicional. Talvez, por ironia, os ternos que incorporaram aspectos umbandistas sejam os que tenham mais condições de consevarem o caráter religioso do reisado, tendo em vista a aceitação pelo povo dos componentes tão heterogêneos da Umbanda. Assim, o lazer, ou melhor, a falta de lazer no meio do povo e o quase caráter de rito de passagem do reisado, contribuirão para a sobrevivência, durante certo tempo, do reisado.
Além disso, pode preponderar neste fato folclórico o aspecto econômico. Já se falou que o dinheiro arrecadado é dividido, que os ternos recebem um pouco de dinheiro em cada casa. Ocorre, igualmente, oportunidade de beber "de graça". Ora, as duras condições de sobrevivência dos habitantes dos bairros periféricos podem induzir a que se superestime a "santa esmola" em detrimento do conteúdo religioso do reisado.
OUTROS FATORES DE SOBREVIVÊNCIA
Outro aspecto psiquico-cultural pode contribuir para o processo de sobrevivência do reisado: o saudosismo. Muitos, na fuga deste presente tão difícil, tentam a felicidade momentânea, fugindo do cotidiano, mudando de idade, retornando às origens rurais. Neste processo, promovem o reisado. O saudosismo (evasão do presente e do cotidiano difícil), associado ao aspecto de lazer democrático, pode contribuir para a sobrevivência do reisado.
É que andou muito certo aquele baiano que disse: "Minha gente era triste, amargurada/ inventou a batucada prá deixar de padecer".
Assinale-se que a presença de crianças, ao lado de jovens e velhos, nos grupos de reis constitui dado positivo para criar condições de sobrevivência ao reisado.
FATORES DE PERECIMENTO
Se existem fatores que podem determinar a sobrevivência do reisado, em Vitória da Conquista, há outros que contribuem fortemente para seu perecimento: a introdução de novos traços e valores culturais, a substituição da cultura tradicional pela nova cultura com estilo de vida específico, o lazer industrializado, etc. A isso soma-se a migração, responsável pela dissolução de grupos de ternos de reis. Vitória da Conquista, apesar da absorção de mão-de-obra pela cultura do café, ainda é um laboratório de migração. "Vuo prá São paulo caçar sorte"é expressão usada em demasia.
SOBREVIVE A CLASSE, MORRE SUA CULTURA
O reisado é um componente da cultura popular conquistense que, apesar de reunir condições de sobrevivência, vive na adversidade, como os próprios grupos que o promovem. É o exemplo vivo de como uma sociedade pode fazer subsistir uma classe social (ampliando-a, inclusive), condenando, entretanto, à morte componentes seculares de sua cultura. É que a cultura é fenômeno importante nos embates das classes sociais. É esta uma conclusão possível para todos aqueles que, de fins de dezembro a inícios de janeiro, queiram deixar as baboseiras que a televisão transmite e partam para os bairros periféricos em busca de uma aula de bom gosto na concepção popular.
Vitória da Conquista, 29 de novembro de 1977 - FIFÓ - 5