RECOMENDAÇÃO AO BANDEIRANTE

 

Ruy Medeiros

 

DOCUMENTO E HISTÓRIA

 

 

Langlois e Seignobos  em sua "Introdução aos Estudos Históricos" afirmam que "a História se faz com documentos. Documentos são os traços que deixaram os pensamentos e os atos dos homens do passado". Claro está que o conceito moderno de história repele a assertiva dos dois insígenes mestres, pois mesmo sem documentos existe história. Entretanto, certa razão lhes cabe quando ensinam que "entre os pensamentos e os atos dos homens, poucos há que deixam traços visíveis e estes, quando se produzem, raramente perduram: basta um acidente para os apagar".

 

CONQUISTA DO RIO PARDO E DOCUMENTAÇÃO

 

Felizmente, alguns fatos da história conquistense deixaram  "traços visíveis" que não foram destruídos.

É o caso da Conquista do rio Pardo. Deste fato, o próprio conquistador, João Gonçalves da Costa, deixou um documento, "Memória Sumária e Compendiosa da Conquista do Rio Pardo". Dentre outros eventos, o sertanista flaviense a certa altura de seu relato diz que  "os bárbaros botocudos e feroses, sem temor do estrondo das armas e belicoso tambor, e valerosos fizerão a mais consideravel resistencia, e postos por detrás dos páos se defendião de alguns tiros que quase ao montão se davão: elles com as mulheres a seus lados, a carregadas de flexas, hião distribuindo-as aos homens, para que com maior presteza fizessem seus tiros, de sorte que, com a grande multidão de flexas ficarão 3 soldados feridos; o que visto pelo intrepido Capitão Raymundo, puxando a espada, investio temerariamente aos inimigos para os passar ao fio da mesma espada, mas os barbaros não esperarão, antes abandonando seus ranxos e pouzadas, se pozerão em fugida: com este acontecimento foi o mesmo Capitão, Sargento Mór, e alguns soldados de igoal valor, tratando de amarrar os pequenos, que apanharão 8, entre elles huma mulher, de meia idade com cria ao peito: herão os pequenos 3 maxos e 3 femeas. Ficarão no campo mortos 21".

 

 

DESTINO DOS PRISIONEIROS

 

 

Sabe-se que os índios aprisionados, tempo depois morreriam em Salvador, para onde foram levados, e que o método de tratamento deferido por João Gonçalves da Costa aos índios foi objeto de desaprovação de autoridade. Com efeito, o Conde da Ponte, em ofício de 31 de maio de 1807, remeteu a memória de João Gonçalves da Costa ao Visconde de Anadia e este, em 28 de agosto do mesmo ano, responde ao referido Visconde, condenando a forma de tratamento que o bandeirante dispensou aos imborés. É o que se vê no documento abaixo transcrito, como colaboração ao estudo de história regional.

 

OFÍCIO DO VISCONDE DE ANADIA

 

IIm. e Exm. Sr. Foi presente ao Principe Regente N. Senhor o officios de V. Ex. N. 76, com a Memoria que acompanhava daviagem e descubertas do Capitão Mor João Gonçalves da Costa; e S. A. R.  aprova que V. Ex. Faça continuar estas explorações, das quaes, sendo feitas com zelo, e inteligencia, podem resultar utilidades maiores, e quando menos, sempre se consegue o conhecimento geographico daquella parte do certão. Na sobredita Memoria do Capitão Mor se encontrão algumas passagens, que mostrão não estar elle bem instruido no sistema  que S.A.R. quer que se observe inviolavelmente a respeito dos índios bárbaros, como já foi ordenado a esse  governo em aviso de 29 de agosto de 1798. Portanto, determina o mesmo Senhor que V. Ex. Dê as mais positivas ordens aos que foram encarregados destas explorações, para que em caso nenhum usem de força, senão em sua propria e actual defensa, pois o unico modo de atrahirmos a amizade daquelles indios hé convencellos por huma continuada serie de bons tratamentos, de que lhes não queremos fazer mal algum, nem emprehendemos sobre a sua liberdade e independencia. Se o dito Capitão Mor estivesse instruido neste sistema, teria reprimido o mal entendido ardor dos seus soldados em quererem vingar a morte do seu Camarada, hindo em seguimento dos índios Botecudos, que fugião, e muito menos terão tomado as oito crianças e mulher com seu filho para os trazerem presos, e virem depois morrer na Bahia, fazendo por este modo que aquelles Barbaros se persuadão que nosso fim hé exterminallos, ou reduzillos à escravidão, quando o que o Comandante da Partida deveria ter feito naquelas circunstancias era restituir a dita mulher, com todos os rapazes, carregados de presentes, fazendo-lhes assim entender as nossas amigáveis intenções a respeito de sua Nação. - Deos guarde a V. Ex. - Palacio de Mafra, em 28 de agosto de 11807.- Visconde de Anadia. - Sr. Conde da Ponte".

 

HISTÓRIA E MITO

 

O documento acima reeditado encontra-se na secção de Manuscritos da Biblioteca Nacional, cód. I - 31, 28, 3. Foi localizado pelo historiador pátrio Rodolfo Garcia e publicado em anotação à secção XLIX da História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo Varnhagen.

Juntamente com outros, este documento ajuda a entender o quadro de selvageria em que se desenvolveu a conquista do município e região.

A versão oficial dos fatos, inclusive a história oral, passada de geração em geração, seriam deturpadas. Elas foram construídas de forma a induzir pessoas a acreditarem numa guerra leal ( que inexistiu) entre primitivos habitantes e explorador e que este teria sido agraciado por uma Santa, que, em verdade, aceitara sua promessa sangrenta e lhe conferira a Vitória. O Bandeirante teria merecido o favor dos céus por seu espírito cristão. Certa vez, Raposo Tavares dissera a um Jesuita que o combate que travava contra os índios era ordem de Deus, pois o  "senhor dissera, em certo livro da Bíblia, ide e combatei as nações pagãs". João Gonçalves da Costa, possivelmente, seguia esta interpretação.

É difícil escrever e contar a história com objetividade, sobretudo quando o peso das tradições, sustentada por interesses de grupos, esfumaça a visão de muitos que a escrevem ou relatam.

 

Vitória da Conquista, 18 de janeiro de 1978 - FIFÓ - 7

 

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