Aspecto Urbano de Conquista

Através da História

 

CONQUISTA PRIMITIVA

 

Maximiliano, Príncipe de Wied von Neuwied, nos legou uma descricão do Arraial da Conquista a qual se encontra em seu livro, publicado em 1820,  Viagem ao Brasil nos Anos de 1815 a 1817. O viajante-naturalista descreve Conquista primitiva da seguinte maneira:  " Arraial da Conquista, principal localidade do distrito, é quase tão importante como qualquer vila do litoral. Contam-se aí umas quarenta casas baixas e uma igreja em construção. Os moradores sao pobres; daí a razão porque os ricos proprietários das redondezas, as famílias do "coronel" João Gonçalves da Costa, do Capitão-mór Miranda e algumas outras empreenderam a construção da Igreja às suas expensas. Independentemente dos recursos que a cultura dos campos fornece para a subsistência dos habitantes, a venda do algodão e a passagem das "boiadas" , que vão para a Baia, lhes proporcionam outros meios de vida; as boiadas que vêm do Rio São Francisco passam também por essa localidade: algumas vêzes vêem-se chegar, numa semana, para mais de mil bois, que se destinam à capital. (…). Grande parte dos moradores do arraial compõe-se de trabalhadores e de rapazes desocupados, que ocasionam muitos distúrbios, pois não há polícia nesta localidade. A malandrice e uma inclinação imoderada para as berbidas fortes são traços distintivos do caráter desses homens; daí resultam disputas e excessos frequentes, que tornam detestável esse lugar, de má fama para as pessoas mais sérias e consideradas, que vivem em suas fazendas espalhadas em torno".

 

 

A VILA PLANEJA SUAS RUAS

 

O tempo passa, o arraial, por lei provincial de n. 124, de 19 de maio de 1840, é elevado à categoria de Vila, Imperial Vila de Vitória. Pode-se deduzir o perfil urbano de Conquista, nesta época, através de parecer de comissão nomeada para  "anunciar"  os lugares próprios para becos, ruas e travessas, que devem haver na Villa". E, portanto, de interesse histórico o conhecimento do referido parecer, apresentado pelo Vereador Soares, em 18 de julho de 1841.

            Ei-lo:   "A comissão encarregada de anunciar os lugares próprios para becos, ruas e travessas, que devem haver nesta Villa, procedendo escrupolosamente acerca do exame dos objetos referidos, he de parecer que devem haver tres becos, a saber um junto a casa do Sr. Moreira dos Santos da parte de cima com duas braças de largura, outro acima da casa de Anna Victoria da Conceição, em direitura a fonte, lugar indispensavel para o tranzito dos que vâo buscar agoas, contendo tão bem duas braças de largura, e outro na rua nova do Espinheiro entre a caza de Manoel Lino Mares, e Leandro Luis França com quatro e meia braças por ser a embocadura da Estrada Geral que se segue para deferentes lugares; quatro ruas travessas, e uma direita além das existentes, a saber, huma rua travessa junto a caza dos herdeiros da finada Faustina da parte de cima, outra junto a casa do Reverendo José de Barros Cavalcante, e a de Cordata Maria de Carvalho, uma rua direita entre a caza onde mora Cesario da Silva Mello, e a de Constança de Souza do Espírito Sancto, outra rua travessa entre a caza de Justina Gomes Freita, e Teles Costa Rodrigues de Oliveira, e outra dita junto a caza que esta fazendo Francisco Felis de Souza Faria da parte de baixo, todos com quatro e meia braças de largura, menos o que segue para a Estrada da Choça, entre a dita caza de Cesario da Silva e Mello, e Constança de Souza do Espírito Sancto, porque esta não pode ter mais que tres e meia braças de largura; ora a comissão leva ao conhecimento da camara que na rua travessa junto a caza do Padre José de Barros Cavalcante se achão quatro esteios fincados, e para que ahi fique uma rua, he indispensavel que sejam arrancados, bem como outros quatro que se achão tão bem fincados na de entre as ditas casas de Justina, e Felisberto; portanto a comissão submette a camara o seo parecer, o qual sendo lido e posto em discussão foi aprovado (…)"  Como vê o leitor, o parecer opina pela existência de tres becos, quatro ruas travessas e uma rua direita, além das existentes. Percebe-se certa preocupação em ordenar o crescimento urbano, dotando a vila de artérias que variavam, em medida atual, entre 4,4 e 9,9m.

A CIDADE EM FINS DO SÉCULO PASSADO

Em 1888, o Coronel Durval Vieira de Aguiar, após dissertar sobre a história do Município, fornece alguns elementos que interessam ao presente estudo. Diz ele em seu raro e precioso livro  "Descrições Práticas da Província da Bahia":  "A Villa está edificada em terrenos accidentados ao pé da serra denominada Periperi. As casas são terreas e a maior parte de telhas. A praça é quadrilonga e de ladeira; ficando no centro a Matriz. A cadeia é perfeitamente pessima, tendo por maior segurança o tronco; allojando-se na mesma casa, o mais incommodante possivel, o pequeno destacamento de policia.  "A eschola de meninos funccionava n' um  commodo terreo, parecido com um corredor, de 3 metros de largura e 10 de comprimento, todo enfumaçado e desprovido de utensílios; pelo que se assentavão os meninos em taboas, pedras e caixões collocados em roda de uma velha mesa mandada fornecer com dos ex-bancos pela municipalidade. A matrícula d'essa eschola era de 35 e a frequencia de 20 (…)" .

            " A eschola de meninas, com frequencia de 22, era o reverso da medalha; pois que alem do zelo e habilitações da professora funccionava com regularidade e decencia.

            " O commercio é pequeno e também o mercado da feira; e conquanto figure no movimento commercial a compra e venda de café, fumo e assucar, farinha, etc, tudo isso não tem desenvolvimento pela falta de meios de exportação (...).

            MM. de Freitas, que visitara a Vila um ano antes da publicação do livro de Durval Vieira de Aguiar, depôs:

            "A distante Vila de Conquista progredia assustadoramente e constituia um dos mais belos e florescentes povoados do sertão baiano".

            Em obra publicada no ano de 1893, Francisco Vicente Viana e José Carlos Ferreira assim dissertam sobre o aspecto urbano de Conquista: "A cidade, edificada em terreno acidentado é formada de casas terreas e envidraçadas na sua maioria, e de poucos sobrados, caiados a tabatinga ou cal, formando onze ruas e duas praças. Na praça maior e mais central, chamada de Matriz, acham-se a egreja parochial de N. S. da Victoria, a única da cidade, e o passo do Conselho, propriedade particular.

            "N'essa mesma praça há aos sabados uma feira bastante concorrida, onde a municipalidade possui um grande e bem proporcionado edifício. A cidade tem um cemiterio bem collocado, com capella, e duas escolas publicas, além de seis particulares. Seu comercio é assás importante e estende suas relações à Capital do Estado, às Cidades e Villas do centro e aos municipios do Rio Pardo e outros do N. de Minas, com cujo Estado limita-se".

            TEMPO DE MUDANÇA

 

            Outras descrições podiam ser citadas.

            Passando largo período, chega-se à década de 1940.

            Em 1944, o professor Everardo Públio de Castro em artigo publicado no jornal "A Conquista", entusiasma-se com a transformação da cidade. É ele quem diz:

            "A Conquista de ontem é a cidade que conheci há cinco anos. Cidade parecida com todas as outras sertanejas.

            "Suas casas de fisionomias arquitetônica moldada no velho estilo colonial de frente muito grande, tinham geralmente uma porta ao centro comandando, ao que parece uma formação de janelas.

            "Uma praça enorme, diferente de todas as praças que conheci era a característica de Conquista, cidade sem jardins e sem flores.

            "Conquista era assim uma cidade apática e sonolenta.

            "Por esse tempo existiam dois grandes salões de bilhar, onde sempre havia gente junta. Esses bilhares constituiam, pobremente, a diversão burguesa da cidade.

            "As casas comerciais da Conquista desse tempo eram modestas e simples. Não havia, por aquela época, bares modernos.

            "Só a feira era, entretanto, como é farta e rica.

            "Um fatalismo, porém, que talvez preside as causas e os acontecimentos, de modo violento e tumultuário como um vulcão, despertou essa cidade sonolenta para transformá-la, hoje, a cidade mais próspera do interior da Bahia.

            "Para ela veio um ginásio que lhe trouxe vida nova e nova mentalidade.

            "Foram assim surgindo, nas meias tintas desse amanhecer da cidade, suas grandes inovações.

            "Apareceu seu primeiro bar - o moderno Salão Azul - modificou o aspecto da Praça da Piedade, o sorriso do seu primeiro jardim que, embora pequeno e modesto, deu graça, vida e movimento àquela praça.

            "Uma após outra foram surgindo as novidades. Vieram as primeiras casas comerciais dignas desse nome. E com elas as vitrines, as exposições noturnas, o aspecto de conforto para o trabalho de sedução para os olhos e um provocar para o desejos.

            "A praça feia, esburacada, enorme e irregular sofreu a pressa renovadora da modernidade. Foi revolvida para ter aspecto geométrico. Nela transformada, apareceram habitações nobres, elegantes e modernas (...)

            "Para coroar toda essa transformação, está na extremidade dessa praça o elegante, luxuoso emoderníssimo Cine Lux que, para nós de Conquista é motivo de orgulho e também para os nossos olhos motivo de atração, conforto e deslumbramento.

            "... A renovação da cidade não ficou aí, circunscrita a essa praça. Estendeu-se pela cidade toda, denominou-a, envolveu-a e a cidade se espalha, cresce e surpreende.

            "Seu Banco do Brasil com um movimento absoluto, o Banco Econômico, a Caixa Econômica, as Casas de Saude, a Santa Casa de Misericórdia são etapas de sua caminhada. A Granja Cruzeiro do Sul, o Parque Teopompo de Almeida, são outros tantos marcos realizados que, como bandeiras de anunciação, chamam a cidade para eles, a fim de que sejam envolvidos e absolvidos pela cidade que marcha no zumbido de seu trabalho e na ansia de sua luta.

            "... Nada resistiu ao sopro de modernidade que ativou a urbs privilegiada que venho focalizando. Só foi rebelde, refratária e teimosa essa magia de renovação a nossa luz que continua fraquinha e tão anêmica, que precisamos a revitalizar muito para que ela não sucumba."

            Com razão o Professor. A cidade como que transmudava de noite para dia.

            A década de 1940 é ponto de referência explicativo para o desenvolvimento urbano ulterior. É naquela década que se vão acumulando condições propícias ao desenvolvimento de novas atividades econômicas e, porisso mesmo, de expansão urbana. Vale lembrar que, em 1940, a população urbana era de 8.644 habitantes, o que significava 25,7% de toda população do município. Em 1950, entretanto, a população urbana mais que duplicou ( 19.463 habitantes), aumentanto seu percentual para 41,6% de toda população municipal  (a população rural, em 1950, era de 26.993 habitantes).

            Necessariamente, a pressão  populacional, dentro de um quadro econômico diferenciado do antigo quadro meramente agrícola, ensejou a ampliação do quadro urbano. Essa amplia;cão persistiu nas décadas seguintes (50/60) . A solução de loteamentos urbanos se impôs e novos bairros surgiram. A cidade modernizou-se.

 

            EIXOS DO CRESCIMENTO

 

            A equipe encarregada de elaborar o  Plano Diretor Urbano de Vitória da Conquista, no capítuloi expositivo de sua investigação e análise, assim resume o crescimento urbano a partir de 1944:

            "O crescimento urbano se dá basicamente a partir de tres conjuntos importantes de ocupação:

            "- Até 1944 existia uma malha central de tecido contínuo coincidentemente melhor servida pela infra-estrutura de serviços básicos, com expansão no sentido Sudeste.

"- Até 1955 a expansão se dá em direção à rodovia que já naquela época constituia um dos mais importantes fatores de atração urbana. A malha urbana se estende ao longo dessa rodovia envolvendo inclusive a ligação rodoviária BA-262-Conquista-Brumado. Outro prolongamento se dirigiu para Sudeste graças à  topografia e a rodovia BA-265-Conquista-Barra do Choça. A cidade passou a se expandir seguindo a direção das rodovias, identificadas como vetores do crescimento urbano.

            -" de 1955 até 1974 - observa-se um processo de expansão similar verificado no período anterior, manifestando-se inicialmente tímidas penetrações transversais dos eixos de crescimento da cidade. Em seguida foram preenchidos os espaços vazios que se formavam entre os eixos de crescimento. Os fatores de atração foram a construção do aeroporto, a implantação de novos loteamentos a sudeste e o saneamento dos terrenos alagadiços a Sudeste. Nesta direção surgiram loteamentos entre os quais o núcleo habitacional da URBIS."

 

            O ASPECTO DEMOGRÁFICO

 

            O crescimento populacional foi igualmente incrível. A população do município que, em 1872, era de 11.408 habitantes e, em 1892, era de 13.383, hoje está por volta de 150.000 habitantes ( Manoel Jesuino Ferreira, para o ano de 1975, fornece os seguintes números: Total 18.836 habitantes- homens: 9.744; Mulheres: 9.092; Escravos: 1.817; Nacionais: 18.635; Estrangeiros: 201. Tais dados perece que se referem a Conquista e Poções conjuntamente).

            Vale a pena ressaltar o aspecto da distribuição demográfica. A população, outrora predominantemente rural, hoje é predominantemente urbana. O quadro abaixo demonstra a impressionante mudança na distribuição da população:

 

Anos

Pop. Rural

%

Pop. Urbana

%

Total

1940

1950

1960

1970

24.910

26.993

31.401

41.569

74,3%

58,4%

39,3%

32,5%

8.644

19.463

48.712

85.959

25,7%

41,6%

60,7%

67,5%

33.554

46.456

80.113

   127.528

 

            A cidade modificou-se também para, dentro de seu espaço físico, separar suas classes sociais. Assim, o aglomerado urbano como que desenha fisicamente sua realidade social. Está se fixando definitivamente a separação entre ruas e bairros ricos e ruas e bairros pobres e a cidade mostra sua verdadeira face de, encoberta pelo movimento do comércio e de seu setor de serviços, sua euforia econômica, suas corridas de jegue no Primeiro de Maio, centro urbano onde a justiça social é muito desejada porque é carente.

 

OBSERVAÇÃO: As fontes citadas foram transcritas conservando-se a ortografia em que estão vazadas.

 

BIBLIOGRAFIA

Maximiliano, Princípe de Wied Neuwied - "Viagem ao Brasil", tradução portuguesa de Edgar Sussekind de Mendonça e Flávio Pope de Figueredo, refundida e anotada por Oliverio Pinto, Coleção Brasiliana, 1a. Edição, Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940.

Ferreira, Manoel Jesuino - "Apontamentos da Província da Bahia", sem indicação de editora, Salvador, 1875.

De Freitas, M.M. - "Estradas e Cardos", Editora Biblioteca Militar, Rio de Janeiro, 1947.

Viana, Francisco Vicente e Ferreira, José Carlos - "Memória Sobre o Estado da Bahia, sem indicação de editora, 1a.  Edição, Salvador, 1893.

Vieira de Aguiar, Cel. Durval - "Descripções Práticas da Província da Bahia, publicação oficial, Salvador, 1888.

Públio de Castro, Everardo - "A Conquista de Ontem e a de Hoje", artigo publicado no Jornal "A Conquista", edição do dia 16 de julho de 1944, página 2.

Serviço de Assessoria em Arquitetura e Urbanismo (SAAU), da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e Prefeitura Municipal de Conquista - "Plano Diretor", edição da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, 1975/1976.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE) - Censo Demográfico do Brasil, anos de 1960 e 1970.

 

            Vitória da Conquista, 11 de outubro de 1977 - FIFÓ - 9

 

 

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