A CULTURA POPULAR DE FIM-DE-ANO EM CONQUISTA - O PRESÉPIO

 

 

Ruy Medeiros

 

A edição n. 7 deste semanário disse que o Mês de dezembro é relevante para a cultura popular conquistense. Realmente o é.

Naquele número do "FIFÓ" foi analisado e descrito o "terno de reis". Mas o aspecto cultural das festividades natalinas, que se prolongam até o dia 6 de janeiro, não se esgota naquela manifestação. Dentro do ciclo natalino, avulta-se o Presépio.

 

O QUE É

 

No dicionário de Cândido Figueredo, encontra-se: "Presépio, m. Lugar onde se recolhe gado. Curral; estábulo. Representação das figuras que, segundo o Evangelho, assistiram ao nascimento de Cristo. O mesmo ou melhor que creche prov. Minh. Qualquer armação de madeira; tenda, barraca. (Lat. Praesepium)".

Transposto o significado vocabular para o cultural, não há, aparentemente, choque. Culturalmente o presepe, ou presépio é a "representação das figuras que, segundo o Evangelho, assistiram ao nascimento do Cristo". Entretanto, se assim é, como toda definição (ou quase toda) aquela oferecida pelo dicionarista não oferece o dinamismo que caracteriza o fato presépio enquanto traço cultural.

Não se deve esquecer que o fenômeno integra um sub-sistema de cultura religiosa e porisso não está imune a todo um ritual, praticado às vezes sem que conscientemente as pessoas se dêem conta de que estão seguindo um rito.

 

ORIGEM

 

Embora suas raízes sejam ibéricas e sua persistência possa ser explicada pelos critérios que informam as condições da transmissão da cultura em geral, não se sabe quando foram armados os primeiros presépios em Vitória da Conquista, Velhos moradores já o indicam como traço cultural antigo na região. Não é demais supor que tenha sido trazido pelos primeiros colonizadores, todos eles dotados de uma cultura e ideologia de conteúdo religioso.

 

DINAMISMO - RITO  E  ADAPTAÇÃO

 

Se acima se disse que o presépio é algo dinâmico do ponto de vista cultural, mister se faz esclarecer em que consiste esse dinamismo.

O aspecto dinâmico decorre, fundamentalmente, das adaptações sofridas pelo presepe em relação ao meio e do ritual que o informa.

Com efeito, o presepe tem um dia para sua armação: geralmente uma semana antes do dia 25 de dezembro (podendo ser antecipado). Desde o dia 13 desse mês (dia de Santa Luzia), entretanto, se cultiva o arroz que, uma vez nascido, será, mais tarde, colocado ao canto ou no centro do pequeno "lago" constante no presépio. Costuma-se jogar grãos de arroz dentro de um copo ou vasilhame no qual se encontra algodão embebido em água. Aí germina e nasce o arroz.

Armado o presépio, não se colocam, de imediato, alguns componentes do mesmo. Os três reis magos (antes fabricados de barro e algodão, ou madeira, hoje feitos de louça ou cartolina) devem estar distante da "gruta" do presépio. A estrela d'alva deve estar, de início, ausente ou igualmente distante. À medida que os dias passam movimentam-se os reis magos e a estrela d'alva. Também Maria e José ir-se aproximando da gruta. Afinal, o presépio conta uma história. A história do nascimento de Cristo.

Somente no dia 25 de dezembro é que o Menino Jesus é colocado no berço ("entre palhinhas do chão", como diz a cantiga de reis). Na  "gruta", no dia 6 de janeiro, rodeando-o estão Maria, José, os três reis magos e alguns animais, dentre os quais a figura do jegue é essencial para o presepe mais puro. A estrela, no dia 25 de dezembro, deve estar num ponto da estrada da gruta.

Somente no dia 1 de janeiro, ano bom, o "Menino" é colocado de pé. Finalmente, no dia 6 (7, para outros) o presépio é desmontado.

Como se vê, o rito do reisado de certa forma se repete no presépio. Seu período - 25 de dezembro a 6 de janeiro - é o mesmo. Se no terno de reis se encontra a caminhada ou peregrinação (fase suprimida hoje na maioria de ternos), no presepe o movimento das "imagens" indicam-na; se no terno de reis os  "reiseiros" se aproximam do presépio para  "fazerem o agradecimento", no presépio os reis magos penetram na gruta ("oratório onde Deus fez a morada").

O presépio, analisado sob esse aspecto dinâmico é um teatro de movimentação lenta (embora muita gente já esteja desprezando o rito). Não é por acaso, portanto, que a palavra presepe tem também o significado de mamulengos (teatro de bonecos títeres).

 

ADAPTAÇÃO

 

Mas o dinamismo não se esgota no que acima se disse. Na realidade, o presépio encontrou neste "Sertão de Ressaca" meio propício a seu desenvolvimento e sobrevivência.

A economia pecuária prestava-se muito para que nela se assentasse o presépio. A religiosidade e a história falam em manjedoura, em local de confinamento de animais. Este dado indicativo de um meio de nascimento de Cristo junto ou próximo ao gado, inclusive gado asinino, é fator de identificação da economia regional com aspecto que envolve o nascimento do "Menino Jesus". Isso, por certo, facilitou a aceitação do presépio pela sociedade regional conquistense. Não houve choque ao nível da religião trazida pelos colonizadores e seus sucessores com os traços culturais que envolviam a economia implantada neste recanto sertanejo. O próprio fato de tratar-se de área de atração humana faz com que persista a comparação entre a migração para este pedaço de terra e a jornada realizada pelo casal em busca de Belém. O sofrimento humano induz comparações, sobretudo quando estas encontram correlação ao mundo cultural no qual estão integrados os homens que a fazem.

Por outro lado, observam-se as construções do presépio a utilização de elementos regionais: os gravatás, "lodos" e cabeças-de-frade, vegetação xerófita da região, são presença obrigatória no presepe. A malacacheta, outrora abundante na área, hoje ainda existente, igualmente faz parte do presépio. A chamada  "areia da serra fina" (areia fina, quanto mais clara melhor) também é material de utilização compulsória no presepe.

Com isso, percebe-se que o presépio adaptou-se às condições da região, utilizando material encontradiço na mesma.

Não faltam presépios que retratam - com vegetação e terreno - o ambiente da caatinga próxima. Outros tentam retratar uma cidade cercada de serras (Belém, na imagem popular ou Conquista?). Houve mesmo um presépio famoso que retratava Vitória da Conquista.

Ainda como traço dinâmico era divulgada a crença segundo a qual quem armou o presépio uma vez teria que armá-lo sempre, sob pena de morrer. Esta crença tem função específica: impõe a perpetuidade do presépio e a fidelidade ao "espírito" do mesmo.

 

MATERIAL E DIVISÃO

 

Ficaram já anotados alguns materiais utilizados no presépio: areia, gravatás, cabeças de frade e "lodos"( estes são tipos de vegetação pequena e rasteira). O elemento vegetal, com exceção do arroz, é vendido em grandes balaios, sob encomenda, oferecidos em porta de casa ou na feira-livre, antigamente em maior quantidade que hoje. Utiliza-se a  "areia prateada" ou malacacheta diluida em pequenas migalhas que deve estar misturada à areia da serra, cobrindo a estrela d'alva ou colada sob papéis embolados que formam ou revestem os morros e gruta. Estes papéis geralmente são folhas de jornal pintado com óxido de ferro (rôxo-terra) ao que se adicionam porções de malacacheta diluída ou areia prateada. Costuma-se preparar o rôxo-terra com goma de mandioca a fim de engrossar o papel, permitindo melhores contornos para a formação dos morros e dar condições para a fixação da malacacheta quebrada em grãos. Alguns, para preparo de tinta do papel, utilizam junto ao rôxo-terra a borra de café (pó de café utilizado), o que permite uma coloração mais escura e mais adequada para as serras e morros feitos de papel.

Existe uma disposição ou divisão do presépio em partes, não importando, nada obstante, em lugares fixos. Os presépios possuem uma área plana coberta de areia da serra (areia fina). Essa areia em alguns representam a praia  (sobre a mesma se encontram conchas), para outros é como parte de deserto. Possuem, igualmente, pequena lagoa (cacimba, lago) cercado de "lodos" e com tufos de arroz de tenra idade. Alguns enfeitam o lago com figuras de ganso, patos, etc. Alguns presépios mais complexos trazem um casario feito de compensado ou papel cartolina.

Além da área plana, lago e serras, existe a gruta, verdadeira representação de caverna cavada na montanha feita de papel. Ocorre uma transposição: Ao invés de parte coberta de curral, Cristo nasceu numa gruta. A história religiosa foi reescrita: os donos da vila ( ou das fazendas?) não deram aos migrantes Maria e José nem o abrigo do curral. Eles tiveram de buscar uma gruta na serra que circunda a vila. Pessoas mais idosas lembram do abrigo de Maria e José feito de uma madeira fácil de talhar: o barriguda, hoje só existente muito distante da cidade.

 

OUTRO NATAL, OUTRA CULTURA

 

O natal de árvores verdes cobertas de lantejoulas e flocos de algodão                     (neve...neve... na caatinga seca)  em que se trocam presentes como incentivo ao comércio e para criar laços de solidariedade no seio de uma comunidade onde estão cada vez mais frouxos, não é o natal da caatinga. É o natal dos novos colonizadores culturais.

A chegada de Maria e José na gruta do presépio não lembra, leitor, a chegada do migrante desamparado fugido da seca para este "sertão de Ressaca"? Sim, porque casais desamparados assemelham-se àquele par e àquela história ou lenda que o presepe conta. Talvez por isso os presepes estejam fugindo dos lares abastados para se perpetuarem nas casas pobres. Problema de identificação cultural? E a árvore estranha e nevada não já estará bastante poluída pelos inseticidas dos cafezáis? O presépio resiste.

 

Vitória da Conquista, 27 de dezembro de 1977 - FIFÓ - 5

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