Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar
CURSO DE BIOLOGIA MARINHA E PESCAS
Relatório de Aulas Práticas
Anatomia dos Moluscos Bivalves
Incluindo aspectos da obtenção de alevinos de Crassostrea gigas para a Aquacultura (Uni. Fed. de Santa Catarina - Brasil)
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
*Biologia
*Taxonomia
*Classe Bivalvia
*Género Crassostrea
*Crassostrea gigas (Thunberg, 1793)
*Alimentação e Digestão
*Reprodução
*Ciclo de Vida
*Habitat e Características Distintivas
*Pesca e Utilização
*Limites de Tolerância
*Obtenção de Alevinos para a Aquacultura (Uni. Fed. de Santa Catarina - Brasil)
*MATERIAIS E METODOS
*RESULTADOS
*CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
*Agradecimentos
*BIBLIOGRAFIA
*
INTRODUÇÃO
A aula tem o objectivo de conhecer a anatomia dos moluscos bivalves, com uma especial atenção á anatomia interna, e observar ao microscópio óptico: gâmetas e brânquias. As espécies usadas nesta prática foram o mexilhão Mytilus smaragdinus e a ostra Crassostrea gigas. São espécies que foram introduzidas em Cabo Verde em 1998 por técnicos Chineses trabalhando em parceria com os técnicos biólogos do INDP (Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas). A aula prática foi realizada no dia 17 de Novembro, ás 15:00 horas no Laboratório de Aquacultura do INDP (Instituto Nacional de Desenvolvimento das Pescas), na zona da cova de inglesa em Mindelo, na ilha de S. Vicente. Nesta prática o exemplar com que eu trabalhei foi da espécie de ostra Crassostrea gigas, logo neste relatório a será dado uma atenção especial em termos de analises e informações. Havia também outros indivíduos de ostras e mexilhão Mytilus smaragdinus usadas por outros alunos na prática. Estando a biologia dessas espécies de moluscos bivalves, devidamente estudada, adquirem uma certa importância económica na aquacultura actual. Sendo espécies filtradores do meio, a qualidade do produto é questionável em relação á poluição actual dos litorais e baias, ou seja, a qualidade da água. Nesta óptica, pensa-se que a aquacultura é meio de cultivo mais adequado, e quando semi-intensivo pode ser rentável a um mercado cada vez mais exigente. Pensa-se que o crescimento das espécies de C. gigas aqui na baia do Mindelo não respeita um padrão normal ao o que já é conhecido e estudado actualmente. Isso deve-se á poluição química e orgânica desta zona, o que faz com que cresçam muito pouco em comprimento "comercial".
São animais de: Simetria Bilateral. Triploblásticos. Celomados. Esquizocélicos. Protostómios.
Palavras chaves.
Resumo sistematizado das ostras e mexilhões:
As ostras do Pacífico, como os demais bivalves, caracterizam-se essencialmente por possuírem um corpo envolvido por duas conchas ou valvas, articuladas em sua porção dorsal por um ligamento córneo.
O corpo pode ser dividido nas seguintes estruturas e sistemas:
A borda do manto é responsável pelo controle do fluxo de água que passa pelo interior do organismo.
Concha muito variável, usualmente alongada; valva inferior ou esquerda em forma de colher, funda e encaixada sob a articulação; valva superior ou direita plana, opércular; cicatriz muscular deslocada em direcção dorso - lateral. Comparativamente as conchas são espessas, calcárias e frágeis. Habitat em zonas de relativa baixa salinidade.
(Thunberg, 1793)
Sinónimo : Crassostrea angulata (Lamarck, 1818)
Nomes Vernáculos : FAO: An - Giant cupped oyster; Es - Ostión; Fr - Huître creuse; Pt - Ostra do Pacifico
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Valva interior esquerda
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Valva exterior direita
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A ostra é um animal filtrador, capaz de ingerir partículas em suspensão na coluna d'água, como materiais orgânicos, inorgânicos e principalmente fitoplâncton.
Os cílios branquiais produzem uma corrente de água até o interior do animal, enviando as partículas em suspensão até os filamentos branquiais, onde são retidas e levadas por batimentos ciliares até os palpos labiais.
Nos palpos labiais ocorre a primeira selecção alimentar. É aí que partículas de tamanho inadequado ou materiais inertes e excesso de alimento são agregados com um muco, sendo eliminados na forma de pseudofezes.
Dos palpos labiais, as partículas seleccionadas são encaminhadas até a boca. A boca é ligada ao estômago por um curto esófago
O estômago encontra-se conectado a uma série de túbulos denominados divertículos digestivos. Essa área é visível em ambos os lados do corpo da ostra e toma uma coloração verde-escuro ou quase preta quando o alimento é abundante e uma coloração acastanhado-clara, quando o alimento é escasso.
Após o estômago vem o intestino. Em seu início encontra-se uma pequena estrutura em forma de túbulo de consistência gelatinosa e coloração amarelada denominada estilete cristalino. Em uma ostra de tamanho médio o estilete pode ter de 2 a 3 cm e alguns acreditam erroneamente que se trata de um verme infectando a ostra. Esta estrutura tem a função de auxiliar na digestão e pode se dissolver após a ostra ser retirada da água. O intestino termina no ânus, o qual localiza-se na câmara cloacal, próximo ao músculo adutor.
Ao final desse processo, o material não absorvido é eliminado na forma de fezes através do ânus.
As ostras da espécie Crassostrea gigas, apresentam sexos separados, as fêmeas produzem ovócitos e os machos espermatozóides. Porém, em cada estação de desova, os organismos podem mudar de sexo, sendo então denominados hermafroditas sequenciais. Portanto, um mesmo indivíduo pode desovar como macho em uma estação e como fêmea na seguinte desova, e assim sucessivamente.
O processo de formação de gametas envolve uma série de etapas e é denominado gametogênese (oogênese para os ovócitos e espermatogênese para os espermatozóides).
Nas espécies do género Crassostrea, os gametas são liberados directamente para o meio externo, onde ocorre a fecundação. Já no género Ostrea, a fecundação ocorre no interior da cavidade palial das fêmeas.
Depois que se dá a fecundação, ocorre o desenvolvimento embrionário. As células vão se dividindo e depois de 12 a 18 horas, há a formação de uma larva livre-natante, denominada trocófora. Passadas 24hs da fecundação a larva assume o formato de "D", chamando-se larva D ou véliger. Essa larva já possui a capacidade de se alimentar, com o auxílio do vélum, que também serve para natação. Quando completam 14 a 18 dias, as larvas começam a deixar de ser planctônicas e sofrem modificações morfológicas, como o aparecimento de uma mancha ocular e do pé. Agora denominam-se pedivéliger e começam a procurar um substrato ideal para se fixarem. Assim que se fixam, sofrem uma metamorfose, assumindo a forma definitiva de uma ostra, tendo porém, um pequeno tamanho. Neste substrato elas crescem até atingirem o tamanho comercial.
Habitat e Características Distintivas
Concha alongada, valva esquerda côncava, valva direita plana, lamelosa. 15 cm de comprimento. Cor Branca Amarelada, com manchas violáceas. Sobre os fundos vasosos com substracto (madeira, ferro, barcos naufragados...) ou rochosos na zona infra-medio-litoral entre 5 a 15 m de profundidade, e nas lagunas litorais; prefere águas salgadas do mar. Ovíparo e Hermafrodita com desova essencialmente em julho. Distribuído no Atlântico, encontrando-se das ilhas britânico a Marrocos e no Pacífico.
Espécie introduziu na Europa Atlântica e no Japão, para substituir outras ostras planas (mais exigente e de crescimento mais lento). Populações naturais são raros (Gironde na França, estuário do Tejo em Portugal, e no mar Adriático). Colheita feita por dragas de fundo. Ostreacultura está em expansão (Espanha, França, Itália, Marrocos Atlântico, Tunísia), atravez da aquacultura especialmente (já foi testado em mar) em terra, em cestos fechados e suspensos. Presença regular em vários mercados mundiais. Comercializado fresco ou em conservas. Estatísticas: 13 t/ano (a Espanha); 3 200 t/ano (a França); 4 000 t/ano (basicamente a Ostrea edulis).
A ostra do Pacífico Crassostrea gigas desenvolve-se bem nos mais variados ambientes costeiros. Porém, para um investimento seguro neste sector, factores ambientais limitantes ao seu crescimento devem ser considerados na escolha do local para cultivo. Entre outros, além da poluição, clima e geografia do local, factores como salinidade e temperatura da água, e certamente sócio - económicos são de extrema importância e merecem atenção especial.
Os melhores desempenhos em termos de crescimento de C. gigas foram registrados em salinidade de 18 a 32 ‰ . O cultivo desta espécie também pode ser realizado em salinidade inferior ou superior, porém, seu crescimento em comprimento é prejudicado.
Em ambientes costeiros, regimes de chuvas e marés podem provocar variações diárias na salinidade. Contudo, maiores cuidados devem ser tomados nas proximidades de rios e em mangais (não o nosso caso), onde a salinidade pode ser mantida a valores próximos de zero por longos períodos.
A ostra do Pacífico Crassostrea gigas é uma espécie de clima temperado, desenvolvendo-se melhor em temperaturas semelhantes às do ambiente de origem. Em nossas águas, esta temperatura é encontradas em média em 25.º C, mas quando a temperatura está mais alto, as ostras parecem interromper o crescimento.
A temperatura elevada em ambientes que apresentam alta produtividade primária e fundo lodoso, poderá ocasionar mortalidade em massa, fenómeno também conhecido como mortalidade de verão. Nestes locais, recomenda-se que a colheita seja feita anteriormente a este período.
Obtenção de Alevinos para a Aquacultura (Uni. Fed. de Santa Catarina - Brasil)
Geralmente, alevinos podem ser obtidas de duas maneiras: através de captação em ambiente natural ou de produção em laboratórios, denominados "hatcheries".
A produção de alevinos em "hatcheries" é considerada um processo caro, exigindo altos investimentos em equipamentos, instalações e mão de obra especializada e qualificada, além dos gastos de operação e manutenção. Essa produção em laboratório é justificada quando a captação em ambiente natural é insuficiente, quando se trata de uma espécie exótica, como é o caso da Crassostrea gigas, ou quando a espécie a ser cultivada possui alto valor comercial.
Quando se trabalha com uma espécie exótica, que não se reproduz naturalmente na região em questão, há a necessidade de realizar a desova induzida artificialmente, para a obtenção de alevinos.
De maneira geral, podemos dividir o processo de produção de alevinos de ostras em 8 etapas:
1. Produção de fitoplâncton marinho em escala massiva:
O fitoplâncton produzido será utilizado como alimento tanto para reprodutores, como para larvas e pré-alevinos.
2. Manejo e acondicionamento de reprodutores:
Manutenção de um estoque de ostras adultas, que permanecem em estruturas de cultivo no mar, ou em alguns períodos, sob condições controladas em laboratório. Esses reprodutores, quando sexualmente maduros, são utilizados para desova.
3. Indução à desova:
É o processo pelo qual os reprodutores são induzidos a liberar gametas. Existem variados métodos de indução, mas os mais frequentemente usados são o choque térmico, exposição ao ar, adição de peróxido de hidrogénio (H2O2 ), ou combinações destes.
Quando os indivíduos começam a desovar, verifica-se o sexo de cada um, para separar machos de fêmeas em recipientes distintos. Ao final da desova, realiza-se a união dos gametas masculinos e femininos em proporções adequadas, para que ocorra a fecundação.
4. Cultivo larval ou Larvicultura:
Essa etapa tem a duração de 20 a 21 dias, podendo variar um pouco. Nessa fase ocorre o desenvolvimento larval. Os organismos permanecem em tanques com água marinha e são alimentados com fitoplâncton diariamente.
5. Assentamento larval:
As larvas estão prontas para fixação alguns dias após entrarem na fase de pedivéliger. São retiradas dos tanques de cultivo larval e colocadas nos tanques de fixação, permitindo que as larvas sofram o processo de assentamento e metamorfose. Há diferentes técnicas empregadas, mas geralmente utiliza-se o pó de concha ou conchas de ostras inteiras como substrato para assentamento.
6. Cultivo de pré-alevinos em laboratório:
As pequenas ostras recém fixadas são denominadas pré-alevinos ou "spats", e continuam sendo cultivadas em laboratório por mais ou menos 2 a 4 semanas, sendo seleccionadas através de peneiramento.
7. Cultivo de pré-alevinos no mar:
Os pré-alevinos permanecem em estruturas no mar, sendo manejadas para limpeza, retirada de predadores e separação das maiores. São levadas para caixas maiores até atingirem 5 cm, quando são consideradas alevinos ou 'seeds".
8. Manejo de alevinos:
De acordo com a necessidade dos produtores, os alevinos são retiradas do mar, peneiradas e seleccionadas por tamanho. Passam por uma contagem através de sub amostras e são embaladas para serem entregues aos cultivadores.
MATERIAIS E METODOS
Cada aluno trabalhou com um indivíduo de mexilhão ou de ostra. Os bivalves foram obtidos no meio da baia do porto grande, na zona de cultivo do INDP, (em longlines com cestos suspensos) no próprio dia da aula. No laboratório, os moluscos encontravam-se vivos, mas sem a presença de água (humidade), logo e naturalmente devido ao perigo de desidratação, encontravam-se fortemente fechados ou encerados dentro da concha bivalve. Apresentavam uma cor exterior ligeiramente esverdeada, devido possivelmente a presença de algas. Primeiro o animal teria que ser morto, e para isso abrir e separar as valvas. Assim com o molusco ainda vivo, tenta-se com a ajuda duma agulha grande localizar uma brecha (difícil e pouco definido para C. gigas) entre as valvas. Vai-se pressionando a agulha em vários pontos possíveis na zona de separação entre as valvas, até que a agulha entre com facilidade para dentro do animal. Neste momento com a ajuda duma navalha ou faca vai-se forçar a abertura do bivalve a partir da fissura encontrada. Materiais de dissecção em material inox, como: agulha grande, pinças grandes e pequenas, bisturis, tesouras e entre outras, foram utilizadas em várias etapas desta aula prática. Ao conseguir uma boa abertura do bivalve (o animal começará a morrer), vai-se com a ajuda de um bisturi, soltando (cortando) a parte do músculo adutor na valva interior esquerda, pressionando sucessivamente a abertura, mais os cortes dos músculos e do manto do bivalve em caso acabarão por soltar-se por completo e teremos o animal assente numa só valva. Aqui vai-se iniciar a identificação em relação á morfologia interna. Com a ajuda de fichas de identificação, vários órgãos foram identificados. Os indivíduos encontravam-se com um cheiro a algas marinha, ou seja com um bom grau de frescura.
Das preparações microscópicas (X 400), chegamos a ver numa mesma preparação, a presença de óvulos e espermatezóides, a partir de um fragmento das gônadas do indivíduo M. smaragdinus: logo pelo espanto este era um hermafrodita, situação possível a qualquer momento em moluscos bivalves. Poderão mudar ou ter os dois sexos, de estação para estação. Das branquias, observou-se vários filamentos juntos e longos e deparamos a presença de um microrganismo, um possível protozoário em estádio larvar.
A aula foi realizada dentro dos propósitos e objectivos a comprir. Mas no geral chegamos a identificar os órgãos internos mais importantes e conhecer mais sobre a anatomia dos moluscos bivalves. Embora não tenha dado muita atenção ao Mytilus smaragdinus, poderá ver digitalizado em anexo, um corte sagital mediano de um mexilhão endurecido em formol. Em relação á conclusão da presença de um microrganismo ou um possível protozoário em estádio larvar nas branquias, só foi possível devido uma analise da ampliação de momento do microscópio em relação ao tamanho médio dos microrganismos ou de Protistas, e também porque apresentava um certo movimento repetitivo. Das gônadas do hermafrodita, reparamos que os óvulos são extremamente maiores do que os espermátezoides. Sendo um filtrador, podia-se fazer um estudo mais pormenorizado em relação aos parasitas sempre presentes e também dos vários planctôns e matéria orgânica filtrada. Os moluscos bivalves são relativamente primitivos de morfologia interna e identificação de órgãos relativamente simples. Com um estereoscópio podia-se possivelmente ver órgãos estruturais não identificadas na aula, como: glândula digestiva, anus, gânglio cerebral e visceral, poro genital, recto e entre outros. Tinha-se acesso a uma boa documentação sobre os bivalves, logo podia-se fazer uma aula prática mais rica e organizada pelo grupo de trabalho, distribuindo tarefas sucessivas. Para terminar e como curiosidade, o biocatalisador Glutathione Peroxidase e um bio-indicador do stress do molusco bivalve Mytilus edulis. Este é devidamente quantificado e identificado em laboratórios especializados para estudos em aquacultura actual.
À Professora Sônia Merino pela atenção e paciência que tem tido, para realizar uma aula prática nas condições minimamente decentes dum curso maioritariamente prático, funcionando actualmente em condições obsoletas e vergonhosas. Também devido á cedência das infrastuturas do Lab. de aquacultura do INDP. Ao Júlio Cerqueira pela atenção que tem vindo a dar ás aulas práticas do curso de BMP do ISECMAR e de ter estado a deslocar ao local de cultivo dos moluscos bivalves do INDP, na baia do porto grande, para trazer ao laboratório e consequentemente á turma, um material vivo e válido para trabalho em certas aulas práticas.
BIBLIOGRAFIA