A Visão do Conhecimento
Diversas pessoas
me contaram que ,durante seus encontros com a "morte " , tiveram rápidos
relances de uma esfera de existencia totalmente separada , na qual todo
conhecimento --- passado , presente ou futuro
--- parecia coexistir numa espécie de estado intemporal
. Alternativamente , isto foi descrito como um momento de iluminação
no qual o individuo parecia possuir conhecimento total.
Ao tentar conversar sobre o aspecto de suas experiencias,
todas as referidas pessoas comentaram que , em ultima analise , era
impossivel expressa-las . Além disso , todas concordam em que tal
sensação de conhecimento total não persistiu após
seu retorno à vida terrena ; em que não trouxeram de volta
consigo qualquer espécie de onisciencia . Sào unanimes em
afirmar que tal visão não as desencorajou quanto a
tentarem aprender nesta vida , mas , pelo contrário , estimulou-as
a fazê-lo.
Em vários
relatos a experiencia foi comparada a um relance , um lampejo de compreensão
universal , a instituiçòes de alrta erudição
, a uma "escola" e a uma "biblioteca" . Todos enfatizam , porém
, que as palavras empregadas para descrever tal experiencia nào
passam , na melhor das hipóteses , de pálidos reflexos da
realidade que tentam expressar . Sinto que talvez exista um estado subjacente
de consciencia que seja raiz de todos esses diferentes relatos.
Uma mulher que "morreu"
fez as seguintes declarações durante uma prolongada entrevista:
A senhora mencionou anteriormente a impressão
de ter "uma visão do conhecimento ", se assim se pode dizer . Gostaria
de falar-me a respeito?
"Parece ter ocorrido depois que vi a vida passar-me
diante dos olhos . tive a impressão de que , de repente , todo o
conhecimento --- tudo o que começou
, desde o príncipio , e continuará infinitamente
. . . tive a impressão de que , por um segundo , conheci todos
os segredos de todas as épocas, todo o significado do universo ,
das estrelas , da lua . . . de tudo . Todavia , depois que optei
por voltar , todo esse conhecimento me fugiu . Não me consigo lembrar
de coisa alguma dele. parece que quando tomei a decisão ( de voltar
) disseram-me que não seria capaz de reter o conhecimento . Mas
meus filhos insistiam enm chamar-me de volta . . .
"Aquele conhecimento todo-poderoso abriu-se diante
de mim . Parecia que alguem me dizia que eu permaneceria enferma
durante bastante tempo e que sofreria outras crises graves . E isto
de fato aconteceu . Disseram que parte disso seria para apagar aquele conhecimento
total que eu adquirira . . . que me haviam sido confiados segredos universais
e eu levaria tempo para esquece-los. Mas lembro-me de, a certa altura ,
saber tudo , de que aquilo realmente aconteceu , mas não era
um dom que eu pudesse conservar caso resolvesse voltar . Decidi , porém
, retornar aos meus filhos . . . A lembrança de todas aquelas
coisas que aconteceram permanece nitida , à exceção
daquele passageiro momento de conhecimento. E aquela sensação
de conhecimento total desapareceu quando retornei ao meu corpo.
"Parece tolice! Bem, parece mesmo , quando
a gente diz em voz alta . . . ou , pelo menos , tenho essa impressão
, porque nunca fui capaz de sentar-me para conversar com alguém
a respeito ."não sei como explicar , mas eu possuí o conhecimento
. . . como diz a Biblia : "A vós tudo será revelado".
Por um instante , não houve pergunta que não tivesse
resposta . nào sei dizer quanto tempo isso durou . De qualquer maneira
, não era tempo terreno."
Sob que forma esse conhecimento pareceu apresentar-se
à senhora? Em palavras ou figuras ?
"Sob todas as formas de comunicação
: visuais , auditivas , mentais . Tudo e qualquer coisa . Era como se não
existisse nada que não fosse conhecido. Todo o conhecimento estava
ali --- não apenas um setor , mas tudo .
"
Uma coisa me intriga. Passei grande parte da
vida buscando conhecimento , cultura . Se isso acontece , não torna
as coisas um tanto sem sentido?
"Não ! A gente continua a querer adquirir
conhecimentos , mesmo depois de voltar para cá . Eu ainda busco
aprender . . . não é tolice tentar obter
respostas aqui . Sempre achei que isto fizesse parte de nosso objetivo
na vida . . . mas não apenas para um unico individuo , como
também para ahumanidade inteira . Estamos sempre tentando ajudar
os outros com aquilo que sabemos ."
Há algo que desejo ressaltar aqui, com
relação a essa narrativa. A mulher em questão tinha
evidentemente a impressão de que parte dos objetivos de sua convalescença
letárgica foi faze-la esquecer quase todo o conhecimento que lhe
fora revelado. Isto sugere a operação de algum mecanismo
cuja função fosse bloquear o conhecimento adquirido naquele
estado de existencia , de modo que não pudesse ser transportado
para o estado de existencia fisica.
Sinto-me impressionado com a similaridade deste
conceito com o expresso por Platão --- de
uma maneira admitidamente metafórica e poética
--- ao narrar a história de Er , um guerreiro que voltou
à vida quando se encontrava na pira fúnebre , após
ter sido considerado morto. Diz-se que Er viu muita coisa da vida depois
da vida , mas recebeu ordens de voltar à vida fisica para relatar
aos outros como é a morte . Pouco antes de regressar , ele viu almas
que estavam sendo preparadas para nascerem para a vida :
"Todas elas viajavam pela Planice do Esquecimento,
sob um calor terrivel e sufocante , pois não havia arvores ou plantas
; ali acampavam ao anoitecer , à margem do Rio do Olvido ,
cujas águas nenhum recepiente é capaz de conter . tinham
que beber um pouco da água e, aqueles que não eram salvos
pelo bom senso, bebiam além da medida. E, ao beber , cada uma se
esquecia de todas as coisas Depois que adormeciam e a noite avançavam
, soava o estrondo de um trovão e a terra tremia. então ,
elas eram levadas pelo ar , cada uma em direção diferente
, como as estrelas cadentes , até seu local de nascimento . Er disse
que não lhe permitiram beber daquela água. Não obstante,
declarou-se incapaz de explicar como e de que forma retornara ao seu corpo
, mas , repentinamente , recuperou a visão e viu-se deitado na pira
funebre."( Edith Hamilton e Huntinngton Cairns , Editores The Colected
Dialogues of Plato , Bolligen Series 71 - Nova York - Pantheon Books ,
1961 , p. 844 )
Universidades Etéreas
O tema básico aqui apresentado
--- antes de vltar à vida deve ter lugar um certo tipo
de "esquecimento" do conhecimento que se adquiriu no estado etéreo
--- é similar em ambos os casos . Durante uma outra
entrevista , um jovem me disse:
"Bem , eu estava numa escola . .
. e era real. Não era imáginaria. Se não tivesse
absoluta certeza, eu diria : "Bem , existe a possibilidade de que eu estivesse
em tal lugar". Mas era real . Era como uma escola , mas não havia
ninguem e, não obstante , havia um bocado de gente lá. Porque
, se eu olhasse em volta , não via ninguem . . . mas
, se prestasse atenção , sentia a presença de outros
entes em redor . . . Era como se lições viessem em minha
direção , interminavelmente . . . "
Interessante . outra pessoa me contou ter entrado
no que chamou de "bibliotecas" e "instituições de elevada
erudiçào". Terá isto alguma semelhança com
o que voc6e está querendo dizer ?
"Exatamente ! Entenda , escutar o senhor dizer
o que ele disse a respeito é como saber exatamente o que ele quiz
dizer . Mas , ainda assim . . . as palavras que eu empregaria são
diferentes, porque realmente não existem palavras . . . eu
não consigo descrever . É impossivel comparar com qualquer
coisa existente aqui. Os termos que uso para descrever estão muito
distantes da realidade, mas são os melhores que consigo encontrar
. . . Porque trata-se de um lugar em que o proprio lugar é o conhecimento
. . . Conhecimento e informação estão prontamente
disponiveis --- todo o conhecimento . . . Absorve-se
o conhecimento . . . De repente , conhecemos todas as respostas .
. . É como focalizar mentalmente um local daquela escola e
--- zum ! --- o conhecimento flui daquele
local para nós , automaticamente . É exatamente como possuir
uma duzia de leitura dinamica .
"E eu sei literalmente a respeito do que o tal
homem lhe falou , mas . . . entenda , estou simplesmente expressando essa
consciencia com minhas próprias palavras , que são diferentes
. . .
"Continuo a buscar conhecimentos. 'Procura e
encontrarás.' Podemos adquirir conhecimentos por nós mesmos
. Mas eu rezo por sabedoria , sabedoria acima de tudo . . . "
Uma senhora de meia idade descreveu o fenomeno
da seguinte maneira :
"Houve um momento ---
bem , é impossivel descrever --- mas foi
como se eu soubesse tudo . . . Por um instante , foi
como se a comunicação fosse desnecessária . Pensei
que qualquer coisa que eu quisesse saber poderia ser sabida."
Declarei em Vida Depois da Vida não ter
encontrado um unico caso em que fosse descrito um "céu "
--- pelo menos sob a forma de alguma apresentação
tradicional de tal lugar . Entretanto , desde então tenho conversado
com inumeros individuos que falam , com notável consistencia, de
terem visto relances de outros campos de existencia que bem poderiam ser
chamados de "celestiais". Julgo interessante a ocorrencia , em diversos
desses relatos , de uma mesma expressão : "uma cidade de luz" .
Neste , e em vários outros aspectos, as imagens com as quais são
descritas as cenas parecem lembrar trchos da Biblia.
Cidades de Luz
Um homem de idade madura , que sofreu uma
parada cardíaca , relatou::
"Tive uma parada cardiaca e fiquei clinicamente
morto . . . De repente , senti-me de tudo com perfeita nitidez .
. . De repente , senti-me dormente . Os sons começaram a parecer
um tanto distantes . . . Durante todo o tempo eu estava perfeitamente consciente
de tudo que se passava . Escutei o monitor cardiaco parar de funcionar
. Via enfermeira entrar no quarto , falar ao telefone e logo enfermeiras
, médicos e assistentes começaram a chegar.
"Quando as coisas passaram a tornar-se indistintas
, ouvi um som que não consigo descrever : era como o rufar de um
tambor, um ruido muito rápido , como o de uma torrente passando
por uma garganta de pedra . Ergui-me e parei no ar , olhando para
meu corpo . Pessoas trabalhavam para reanima-lo . Não senti medo
. Nem dor . Apenas paz . Após o tempo de apenas um dou dois segundos
, tive a impressào de virar-me e subir . Estava escuro
--- pode-se dizer que era um tunel , ou buraco
--- e, na outra extremeidade , uma luz brilhante , que se tornava
mais forte à medida que eu parecia atravessar o túnel em
direção a ela.
"De repente , era um lugar totalmente diverso
. Havia uma luz dourada por toda a parte. Linda . Não consegui localizar
a fonte da luz . E havia música , também . Tive a impressão
de estar num panorama com riachos , prados , árvores e montanhas
. Mas quando olhei em volta --- se é que
se pode dizer assim --- não se tratava de
arvores e coisas como a conhecemos. Para mim , o mais estranho em tudo
aquilo era a existencia de pessoas no local. Não sob qualquer
forma ou corpo como estavamos acostumados a ver ; simplesmente estavam
lá.
"Havia uma sensação de perfeita
paz e contentamento . De amor . E eu parecia fazer parte daquilo . A experiencia
pode ter durado a noite inteira , ou apenas um segundo . . . não
sei dizer."
Eis como uma mulher descreveu o fenomeno :
"Havia uma espécie de vibração.
Uma vibração que me cercava , envolvendo-me o corpo . Era
como se o corpo vibrasse e não pude identificar a origem da vibração.
Mas quando o corpo vibrava , eu me separava dele. Então , podia
vê-lo de fora . . . Fiquei por dentro durante algum tempo, observando
os médicos e enfermeiras trabalharem no meu corpo , e tentando
imaginar qual seria o resultado . . . Fiquei à cabeceira da cama
, olhando para eles e para o meu corpo . A certa altura , uma enfremeira
estendeu a mão para a parede atrás da cama , a fim de pegar
a áscara de oxigenio que ali estava , e , ao faze-lo , passou o
braço através de meu pescoço . . .
"Em seguida , flutuei , atravessando um túnel
escuro . . . Penetrei no tunel negro e emergi numa luz brilhante . . .
Um pouco mais tarde , eu estava com meus avós , meu pai e meu irmão
, que já tinham morrido . . . A luz mais linda e brilhante
nos inundava . E o lugar era lindo . Havia cores ---
cores vivas --- não como as daqui da Terra , mas
simplesmente indescritiveis . E pessoas --- pessoas
felizes ... Pessoas por todos os lados , algumas
reunidas em grupos . Algumas estavam aprendendo . . .
"À distancia . . . pude avistar
uma cidade . Prédios . . . prédios , separados
uns dos outros. Eram polidos , brilhantes . As pessoas eram felizes ali
. Água limpida, que refletia a luz , repuxos . . . creio que o melhor
meio de descrever seria dizer 'uma cidade de luz' . . . Esplendorosa
. Tudo brilhava , uma maravilha . . . Mas se eu entrasse nela , creio que
jamais teria voltado . . . Disseram-me que, se eu entrasse ali, não
poderia regressar . . . que a opção era exclusivamente minha."
Um homem idoso declarou :
"Eu estava sentado na cadeira . Comecei a levantar-me
e algo me atingiu em pleno peito . . . Apoiei-me na parede . Tornei a sentar-me
. Então , fui novamente atingido: algo como uma marreta golpeou-me
o peito . . . Estive no hospital . . . e disseram que eu soufrera uma parada
cardíaca. O médico estava ao meu lado."
E o que se recorda a respeito de sua parada cardíaca?
"Bem , de um lugar . . . realmente lindo , mas
impossivel de descrever . Não obstante , existe . seria impossivel
imagina-lo Quando se chega ao outro lado , há um rio. Exatamente
como na Biblia : 'Existe um rio . . . ' Tinha a superfice lisa como uma
lamina de vidro . . . Sim , atravessa-se um rio . E eu o atravessei . .
. "
Como sentiu que atravessou o rio ?
"A pé. Simplesmente caminhei . Mas era
tão bonito! lindo! Não existe modo de descreve-lo . temos
belez aqui , sem dúvida , com todas as flores e coisas bonitas ,
mas não há comparação. Lá é tudo
tão silencioso , tão tranquilo . Dá vontade de repousar
. Não existe escuridão ."
Espiritos Confusos
Diversas pessoas contaram-me que, a certa altura
, viram de relance outros entes que pareciam estar "presos" num estado
de existencia aparentemente muito infeliz . Os individuos que descreveram
estes entes confusos concordaram em vários pontos. Em primeiro
lugar , declaram que tais entes pareciam , com efeito , incapazes de abrir
mão de seus apegos ao mundo físico. Um homem afirmou que
os espiritos por ele avistados pareciam "não conseguirem progredir
no outro lado porque o seu Deus ainda continua a viver no lado de cá".
isto é , pareciam ligados a um determinado objeto , pessoa ou habito
. Em segundo lugar , todos comentam que os referidos entes pareciam "embotados",
que sua consciencia dava a impressão de estar , de algum modo ,
limitada em comparação com a dos demais . Em terceiro lugar
, dizem que tais "espiritos embotados " pareciam destinados a permanecer
ali apenas até que conseguissem solucionar o problema ou dificuldade
que os mantinha naquele estado de perplexidade.
Esses pontos de concordancia são ressaltados
no seguinte trecho de uma entrevista com uma mulher que foi considerada
"morta" durante cerca de quinze minutos:
A senhora mencionou ter visto essas pessoas
--- esses espiritos que pareciam muito confusos . Poderia dizer
mais a respeito deles?
"Aquelas pessoas confusas ? Não sei exatamente
onde as vi . . . Mas , quando eu estava passando , deparei com uma área
que parecia embaçada em contraste com toda aquela luz brilhante
. As entidades eram mais humanizadas que as outras, se nos detivermos na
observação deste detalhe , mas não chegavam
a possuir a mesma forma humana que nós .
"Tinha-se a impressão de que andavam de
cabeça baixa ; tinham aparencia triste, deprimida; pareciam andar
arrastando os pés , como prisioneiros condenados a trabalhos forçados.
Não sei por que digo isto, pois não me recordo de ter notado
pés. Não sei o que eram , mas pareciam esgotadas, embotadas,
cinzentas . E davam a impressão de estarem sempre arrastando os
pés de um lado para outro , sem saber a quem seguir ou o que
procurar.
"Quando passei por perto , nem mesmo levamtaram
a cabeça para ver o que acontecia . Davam a impressão de
pensar : 'Bem , tudo acabou. O que estou fazendo ? O que há, afinal
? ' Apenas aquela atitude absoluta , esmagada , desesperançada:
não saber o que fazer , aonde ir , ou qualquer outra coisa.
"Pareciam estar sempre em movimento, em vez de
sentar-se , mas não tinham rumo definido. Partiam em linha reta
e logo se desviavam para a esquerda , davam alguns passos e tornavam a
desviar-se para a direita. Em busca de alguma coisa, mas não consegui
perceber o que buscavam."
Pareciam conscientes do mundo físico?
"Pareciam não ter consciencia de coisa
nenhuma --- nem do mundo físico , nem do
espiritual . Pareciam estagnados em algum ponto entre os dois
--- ou, pelo menos , assim me pareceu . Talvez tenham algum
contato com o mundo físico. Algo os amarra ali, talvez para o mundo
físico . . . talvez observando alguma coisa que não devessem
ter feito ou que deveriam fazer. Eram incapazes de tomar uma decisão
quanto ao modo de agir , pois tinham todos as expessões mais desoladas
; não havia a cor da vida.
Portanto, pareciam confusos?
"Muito confusos; sem saber quem são ou
o que são. Parece que perderam todo o conhecimento de quem
são e do que são --- não tem
a mínima identidade."
A senhora diria que eles estavam entre
o mundo físico e aquele em que a senhora se encontrava?.
"Ao que me lembre , eu os vi após ter
deixado o hospital . Como já disse , senti-me flutuar para o alto
e foi então que os vi : antes de entrar no tal túnel
--- como descrevi --- e antes
de chegar ao mundo espiritual onde existe a tão brilhante luz do
sol . . . bem , não a luz do sol , mas a luz brilhante que
inundava tudo , brilhando mais que a do sol , mas não feria os olhos
, como acontece com a luz solar . Entretanto , naquele determinado lugar
, era tudo embaçado , cinzento . Ora , tenho um amigo que não
enxerga as cores e escutei-o dizer que , para ele , o mundo
não passa de uma série de tonalidades e variações
do cinzento . Mas para mim , que enxergo muito bem as cores , aquele lugar
foi , talvez , como um filme em preto e branco . Simplesmente variações
de tons cinzentos --- pálido , esmacecido.
"Eles nem repararam em mim . Não deram
o menor sinal de percepção da minha presença . Foi
deveras deprimente.
"Pareciam estar tentando decidir alguma coisa
; olhavam o passado ; não sabiam se deveriam prosseguir em frente
ou regressar aos corpos que ocupavam anteriormente. Davam a impressão
de hesitar ; mantinham-se olhando para baixo , nunca para cima . Não
queriam prosseguir para ver o que os aguardava. Lembravam-me também
as descrições que li de fantasmas ; pareciam transparentes
. E tive a impressão de que existia um grande número deles
por ali. "
Algumas das pessoas que viram tal fenomeno notaram
que certos desses seres aparentemente procuravam , em vão , comunicar-se
com pessoas que ainda continuavam vivas . Um homem relatou-me ter visto
muito desses casos enquanto esteve "morto" por um prolongado período
de tempo. Por exemplo : contou-me ter visto um homem normal caminhando
pela rua sem perceber que um desses espiritos embotados pairava acima dele
. Revelou-me ter a sensação de que aquele espirito
era, quando vivo , a mãe do homem e, ainda incapaz de abrir mão
de seu papel terreno , tentava dizer ao filho o que este devia fazer. O
seguinte trecho de uma entrvista com uma mulher nos proporciona outro exemplo:
A senhora conseguiu ver algum deles tentando
falar com outras pessoas ( físicas) ?
"Sim . Foi-me possível vê-los tentando
estabelecer contato, mas ninguem percebia que estavam por perto; as pessoas
simplesmente os ignoravam . . . Eles tentavam comunicar-se, mas não
encontravam meios de romper a barreira . As pessoas pareciam completamente
alheias a ele."
A senhora conseguiu perceber alguma coisa que
eles tentavam dizer?
"Um deles pareceu-me ser uma mulher que tentava
desesperadamente entrar em contato com as crianças e com uma mulher
mais idosa em casa. Tentei adivinhar se, de algum modo , era a mãe
das crianças ou, então , filha da senhora mais velha, e etnatva
comunicar-se com elas . Pareceu-me que procurava falar com as crianças
, mas estas continuavam a brincar e não lhe davam atenção;
a mulher mais velha estava trabalhando na cozinha, sem perceber que aquele
espírito se achava por perto."
Havia algo em particular que o espirito desejasse
dizer a elas ?
"Bem , pareceu-me até certo ponto que
tentava comunicar-se com elas , querendo aparentemente dizer-lhes para
fazerem coisas de modo diferente do que faziam , para mudarem , para alterarem
seu estilo de vida. Ora , isto talvez pareça invencionice , mas
a mulher tentava levá-las a proceder corretamente , a mudar de modo
que , posteriormente , não ficassem na mesma situação
que ela . 'Não procedam como eu, para que isto não lhes aconteça.
façam coisas em favor dos outros, para que não fiquem nestas
condições'.
"Não pretendo fazer sermões ou
dar lições de moral , mas essa me pareceu ser a mensagem
que ela tentava transmitir . . . Parece que naquela casa não existia
amor , se o senhor prefere dizer assim . . . Parece que ela tentava
redimir-se de algo errado que cometera . . . Foi uma experiencia
da qual jamais me esquecerei ."
O Ser de Luz
O que é talvez o mais incrível
elemento comum dos relatos que estudei, e é certamente o elemento
que tem o mais profundo efeito sobre o individuo, é o encontro com
uma luz muito brilhante. Tipicamente , em sua primeira aparição
a luz é tenue, mas rapidamente fica cada vez mais brilhante,
até que alcança um brilho extraterreno. Contudo, ainda
que esta luz ( dita branca ou 'clara') seja de um brilho indescritivel
, muitos fizeram questão de acrescentar que de modo algum dói
nos olhos ou ofusca, nem que impede de ver outras coisas ao redor ( talvez
porque a esta altura não tenham "olhos " fisicos para serem ofuscados)
.
Apesar da manifestação inusitada
da luz , ninguem expressou qualquer dúvida de que se trata-se de
um ser , um ser de luz . Não apenas isso , é um ser pessoal
. Tem uma personalidade bem estabelecida . O amor e o calor que emanam
deste ser para as pessoas que estão morrendo estão completamente
além das palavras, e elas se sentem completamente rodeadas por eles
, completamente à vontade e aceitas na presença deste
ser. Sentem uma atração magnética irresistivel para
esta luz. Uma atração inelutável .
É interessante que, enquanto a descrição
acima, do ser de luz, é totalmente invariavel, a identificação
do ser varia de individuo a individuo e parece estar muito em função
dos antecedentes religiosos , da educação ou das crenças
da pessoa em questão. Assim , a maioria dos que foram educados
como cristão , ou que têm esta crença , identificam
a luz com o Cristo e algumas vezes traçam paralelos bíblicos
em defesa de sua interpretação. Um homem e uma mulher judeus
identificaram a luz como um "anjo" . Estava claro , entretanto , em ambos
os casos , que as pessoas não queriam com isso significar que o
ser tivesse asas, tocasse uma harpa ou mesmo que tivesse aparência
ou forma humana. Havia apenas a luz . O que cada qual estava tentando comunicar
era que tomavam o ser como um emissário , ou um guia. um homem
que não tinha qualquer crença ou educação religiosa
anterior à experiencia simplesmente identificou o que viu como "um
ser de luz" . o mesmo rótulo foi usado por uma senhora de fé
cristã , que aparentemente não sentia nenhuma compulsào
em chamar a luz de "Cristo".
Pouco depois da sua aparição, o
ser começa a se comunicar com a pessoa que está morrendo.
Notadamente, esta comunicação é da mesma espécie
direta que já encontramos em descrições anteriores
de como a pessoa no corpo espiritual pode "apreender os pensamentos " daqueles
que estão em volta. Pois , aqui também , as pessoas declaram
que não ouviram nenhum som ou voz física vindos do ser, nem
responderam ao ser usando sons audiveis. Em vez disso, relatam que ocorre
uma transferencia direta e desimpedida de pensamentos, e de modo
tão claro que não há qualquer possibilidade , quer
de desentendimento , quer de mentir para a luz.
Além disso , esta troca desimpedida nem
mesmo ocorre na linguagem nativa da pessoa. No entanto, ela entende perfeitamente
e fica cônscia instantaneamente. Não pode nem mesmo traduzir
os pensamentos e intercâmbios que tiveram lugar enquanto estava próxima
da morte, na linguagem humana que precisa falar agora, depois de sua ressurreição.
O passo seguinte da experiencia ilustra claramente
a dificuldade em traduzir esta linguagem não-falada . O ser quase
imediatamente dirige um certo pensmaneto à pessoa a cuja presença
chegou tào dramaticamente. Em geral as pessoas com quem conversei
tentaram formular o pensmaneto como se fosse uma pergunta. Entre as traduções
que ouvi, estão : "Você está preparado para morrer
? ", "Você está pronto para morrer? " , "O que
é que você fez de sua vida que possa mostrar? " e "O que você
fez com a sua vida já é suficiente ? ". As duas primeiras
fórmulas , que acentuam "preparação" , podem de inicio
parecer ter um sentido diferente das outras duas, que acentuam "realizações".
No entanto, alguma base para a minha suposição de que todos
estào tentando expressar o mesmo pensmaneto vem da narrativa de
uma mulher que colocou a questào assim :
"A primeira coisa que ele me disse , que ele
como que perguntou , foi se eu estava pronta para morrer , ou que é
que eu tinha feito com minha vida que desejaria lhe mostrar."
Além disso , mesmo no caso mais comum
em que a "questào" é fraseada , parce , depois de algum esclarecimento
, que leva a mesma força . Por exemplo, um homem contou-me que durante
a sua "morte",
"A voz me fez uma pergunta : ' Vale a pena? '.
E o que ela queria dizer era se tinha valido a pena levar a vida que eu
estava levando até aquele ponto, sabendo o que eu agora sabia."
Incidentalmente , devo insistir que a questão
, a pergunta , profunda e final como parece ser no seu impacto
emocional , nào é feita como uma condenação
. O ser , todos parecem concordar , não faz a pergunta para acusar
ou para ameaçar , pois sentem todos o total amor e aceitação
vindos da luz , qualquer que seja a resposta . No entanto , o ponto em
questão parece ser o de faze-los pensar sobre suas vidas
, refletir. É , se quiserem , uma pergunta socrática , feita
não para se obter informação , mas para ajudar a pessoa
que está sendo inquirida a prosseguir por sí própria
no caminho da verdade. vejamos alguns relatos de primeira mão sobre
este ser fantástico:
1) "Ouvi os médicos
dizerem que eu estava morto e foi aí que senti como se estivesse
vagando , mais como se estivesse flutuando por essa escuridão ,
que era uma espécie de lugar fechado. Não há na verdade
palavras que descrevam isso. Tudo era bem negro , exceto que, bem longe
de mim , eu podia ver esta luz. Era uma luz bem , bem brilhante , mas no
inicio não muito grande . Foi crescendo à medida que eu ia
chegando mais perto. Eu estava tentando chegar até aquela luz no
fundo , porque achava que era o Cristo, e eu estava tentando alcançar
aquele ponto . Não foi uma experiencia assustadora. Foi mais como
uma coisa agradável . Pois , sendo cristão , imediatamente
liguei a luz com Cristo , que disse : 'Eu sou a luz do mundo.' . E eu disse
a mim mesmo : 'Se chegou a hora , se vou morrer, então já
sei quem é que espera por mim lá no fundo, lá naquela
luz."
2) "Eu me levantei e fui até
o vestibulo beber água , e foi então , como eles descobriram
mais tarde , que meu apendice supurou. Fiquei muito fraco e caí
. Comecei a me sentir como que vagando , um movimento do meu ser real para
dentro e para fora do meu corpo , e a ouvir uma linda música
. Flutuei pelo hall e para fora da porta até a varanda . Lá
começou a juntar uma névoa cor-de-rosa , parecia quase como
nuvem, em volta de mim, e aí flutuei através da cerca como
se ela não existisse e fui subindo até esta luz pura e clara
como cristal, uma luz branca que iluminava . Era linda e brilhante , tào
radiante , mas nào ofuscava meus olhos. Não é uma
espécie de lua que se possa descrever na Terra . Não cheguei
própriamente a ver ninguem nesta luz e, no entanto , ela possuia
certa identidade, mesmo. é uma luz de perfeito amro e prefeita compreensão.
Me veia à mente o pensamento : Vós me amais? Não era
bem na forma de uma pergunta, mas acho que a conotação
do que a luz disse era: 'Se você me ama , volte e complete o que
você começou na vida.' E durante todo este tempo eu me sentia
como se estivesse rodeado de uma plenitude de amor e compaixão."
3) "Eu sabia que estava morrendo
e que não havia nada que eu pudesse fazer, porque ninguem me ouvia
. . . Eu estava fora do meu corpo , nào há duvida sobre isso,
por que eu podia ver o meu corpo lá na mesa de operação.
Minha alma estava fora! Tudo isso me fez sentir muito mal no inicio, mas
depois veio esta luz bem brilhante . Parecia inicialmente uma tanto frouxa;
depois, era um feixe enorme. Era só uma quantidade enorme
de luz , não tinha nada de parecido com o facho de luz de uma lanterna,
era só luz, luz demais. E me dava calor ; eu sentia uma sensação
de quentura. Era uma luz brilhante, branco-amarelada, mais para o branco.
Tinha um brilho imenso; mas não dá para descreve-la. Parecia
que ela cobria tudo, embora não me impedisse de ver ao redor de
mim --- a sala de operação
os médicos e enfermeiras, tudo. Dava para ver claramente e
a luz não ofuscava. No começo , quando veio a luz ,
eu nào sabia bem o que estava acontecendo , mas aí ela perguntou
--- me perguntou assim --- se eu estava
pronto para morrer. Estava falando como se fosse uma pessoa, mas não
havia pessoa alguma. Era a luz que estava falando , mas só
uma voz. Agora, acho que a voz que estava falando comigo sabia mesmo
que eu não ia morrer. Sabe, ela estava mais me testando do que qualquer
outra coisa. Mas, no momento em que a luz falou comigo, me senti realmente
bem --- segura e amada. O amor que vinha dela é
inimaginável , indescritivel . Era uma pessoa agradável para
ter junto ! E que tinha também senso de humor, se tinha! "
A Recapitulação
A aparição do ser de luz
e suas perguntas não-verbais e de sondagem são o preludio
de um momento de intensidade surpreendemte durante o qual o ser apresenta
à pessoa uma recapitulação panoramica de sua vida.
É muitas vezes óbvio que o ser pode ver toda a vida
do individuo e que ele próprio não necessita dessa informação
Sua unica intenção é a de provocar a reflexão
.
A recapitulação só
pode se descrita em termos de memória , uma vez que este é
o fenomeno familiar mais próximo dela , mas aqui também existem
caracteristicas que a colocam longe de qualquer tipo normal de lembrança.
Em primeiro lugar , é extraordináriamente rápida
. as memórias , quando são descritas em termos temporais
, seguem-se rapidamente umas às outras , como se em ordem
cronológica .Outros não tem consciencia nenhuma de uma ordem
temporal . A lembrança era instantanea ; tudo aparecia de
uma vez , e podia abranger todas as coisas só com um relance mental.
Como quer que seja expressa, todos parecem concordar que a experiencia
se passa em um só instante do tempo terreno.
Mas , a despeito
de sua rapidez , meus informantes concordam que a recapitulação
, quase sempre descrita como uma exibição de imagens visuais,
é incrivelmente vívida e real . Em alguns casos , conta-se
que as imagens são vistas em cores vibrantes , tridimensionais
e até em novimento. e mesmo que estejam perpassando rápidamente
, cada imagem é percebida e reconhecida . Até mesmo as emoções
e sentimentos associados com a imagem podem ser novamente experimentados.
Alguns dos que entrevistei
declaram que, embora não o possam explicar adequadamente ,
tudo o que fizeram lá estava nesta recapitulação
--- do mais insignificante ao mais significativo. Outros explicam
que o que viram foi, principalmente , os pontos principais de suas vidas
.Alguns declaram que, mesmo depois de um periodo de tempo posterior
a suas experiencias de recapitulação , ainda podem se lembrar
de eventos de suas vidas com pormenores incriveis.
Algumas pessoas caracterizam
isso como um esforço educacional por parte do ser de luz .
Quando estào testemunhando a exibição , o ser parece
acentuar a importancia de duas coisas na vida : aprender a amar outras
pessoas e adquirir conhecimento.
Extraido do livro Reflexões sobre a
Vida depois da Vida de Raymond A. Moody Jr. - Ed. Nórdica
- 1977