Dentre as controvérsias na Ciência Política, uma é persistente: aquela entre
o foco na "base social" e um nas instituições — o tema da "autonomia da
esfera política".
Essa controvérsia repercute no campo de estudos sobre partidos e sistemas
partidários: o "paradigma" sociológico (ex.: Lipset & Rokkan, com sua ênfase
em clivagens sociais) versus o das conseqüências das leis eleitorais
(ex.: Rae).
Não se trata apenas de uma discussão metodológica a respeito de qual seja a
variável independente (p.ex., que fator determina o formato dos sistemas
partidários), mas de uma questão conceitual de maior alcance: qual(is) o(s)
problema(s) substantivo(s) que define(m) a ciência política como uma
disciplina com identidade própria? Pois tal definição depende de problemas,
e não de hipóteses explicativas (variáveis independentes).
A postulação da "autonomia da política" apresenta pelo menos quatro
equívocos conceituais, interrelacionados:
- Definição inconsistente de "política";
- Incapacidade de explicar as instituições – mas a esse respeito
surge a ressalva da divisão do trabalho acadêmico (Sartori), o que
leva a pensar no caráter da disciplina e seus subcampos;
- A isso, responder que o problema teórico central do estudo da
política ("ciência política") é a democracia, e a sua
institucionalização, as quais por si próprias implicam pensar a
relação entre a "base social" e as instituições;
- O "paradigma" institucionalista, ao não explorar o problema da
institucionalização democrática, tende a uma prática ritualista de
pesquisa.
Daí, há que pensar a disciplina e seus subcampos: buscar parâmetros para uma
ciência política capaz de pensar a política, afinal de contas (isto
é, pensar a democracia); e especificar como tais parâmetros devem ser
aplicados em cada campo de estudos.
Alternativas analíticas para uma ciência consistente da política (possíveis
fontes na busca dos parâmetros, acima mencionada): escolha racional, novo
institucionalismo, desenvolvimento político/institucionalização.
A alternativa adequada é a do desenvolvimento político: uma abordagem capaz
de tematizar o processo histórico-sociológico de institucionalização
política.
Mas é preciso superar a fragilidade da literatura das décadas de 1960 e 70
sobre desenvolvimento político. Daí, há que construir um "modelo" mais
robusto de desenvolvimento político.
Tal modelo será "aplicado" ao campo do estudo de sistemas partidários
através da noção da institucionalização desses sistemas.
Para operacionalizar o estudo empírico da institucionalização, para além dos
traços sugeridos por Mainwaring – estabilidade eleitoral, enraizamento dos
partidos na sociedade, legitimidade e autonomia das organizações partidárias
frente aos líderes –, serão centrais os conceitos de volatilidade inter- e
intrablocos (Bartolini & Mair).
Para ilustrar o modelo e sua aplicação, será tomado o caso do sistema
partidário goiano.