SEMENTES DO FUTURO
Conto baseado no Universo Star Trek: The Next Generation
As personagens: Capitão Jean Luc Picard, Comandante Willian T. Riker, Conselheira Deanna Troi, Dra. Beverly Crusher, Alferes Wesley Crusher, Tenente Worf, Tenente Comandante Data, Tenente George La Forge, pertencem a Paramount Pictures, não pretendendo o autor infringir seus direitos autorais.
... E por não terem encontrado em toda a galáxia nada mais precioso que a mente, estimulavam dela o alvorecer.
Tornaram-se fazendeiros das estrelas, as vezes plantavam, as vezes colhiam...
... E outras vezes desapaixonados capinavam...
“2010 - Uma Odisséia no Espaço”
Arthur C. Clark
Capítulo I
O Capitão Jean Luc Picard encontrava-se em seu alojamento, sentado confortavelmente em sua cadeira preferida. Lia atentamente uma obra de ficção cientifica, de um grande escritor da terra do século XX, Arthur C. Clark. A medida que devorava as letras e palavras sua mente divagava nas asas da imaginação. Vez por outra fazia uma pequena pausa para fitar as estrelas, momentos estes em que sua mente voava mais alto dando vida a cada personagem da história.
Ele começou a sentir-se cansado, mas o desejo de chegar logo ao fim da aventura fez com que continuasse a leitura. Em determinado momento seu corpo cansado venceu sua vontade férrea e o Capitão adormeceu com a mente povoada de imagens e sonhos.
Capítulo II
A ponte de comando da USS-Enterprise operava no momento com poucos oficiais. O Comandante Riker ocupava a cadeira do Capitão, enquanto este repousava. Não muito raro nestas ocasiões, a tripulação permitia-se um pequeno relaxamento e conversas amenas apareciam em um canto ou outro da sala. Riker não se incomodava muito com isso, sabia que era stressante trabalhar o tempo todo tendo Picard as costas, como uma grande águia a observá-los.
Seus pensamentos voltaram-se para o Capitão ausente, admirava aquele homem, como jamais pensaria que poderia admirar alguém, muitas vezes pensava que ao longo desses anos em que trabalhavam juntos, o tipo de amizade que se desenvolvera entre eles era o tipo de amizade que gostaria que ter tido com seu pai.
- Varredura com sondas de profundidade indicam um objeto movendo-se a cinco anos-luz de nossa posição senhor. - trovejou o Tenente Worf a suas costas.
- Senhor Data consegue detectar alguma coisa? - perguntou Riker.
- Não senhor. Ainda estamos fora de alcance. - respondeu o Andróide analisando rapidamente as informações de seu console.
- O objeto mudou de curso senhor - informou o Klingon. - Está em rota de intercepção conosco.
- Tempo de chegada? - perguntou o Imediatoo.
- Se manter a mesma velocidade, uma hora e quarenta e cinco minutos. - informou novamente.
Riker alisou sua barba distraidamente, pensava se devia ou não chamar o Capitão Picard imediatamente. Decidiu esperar mais trinta minutos, ele retirara-se para um merecido descanso não tinha nem duas horas. Até lá já teriam mais informações sobre o objeto.
- Continuem sondando e coletando todas as informações possíveis. - disse por fim aos oficiais.
Capítulo III
- Relatório! - disse Picard entrando na poonte de comando com passos rápidos e uma aparência descansada.
- Trata-se de uma nave pequena senhor. - disse Data. - Detectamos duas formas de vida a bordo. Poder de fogo muito pequeno.
- Já tentaram se comunicar? - perguntou sentando-se.
- Não senhor. - respondeu Worf, sua voz soando estranhamente suave.
- Na tela - disse Picard, voltando-se para seu Imediato. - Deveria ter-me chamado antes Número Um.
- O senhor tem trabalhado muito! - respondeu o rapaz, sem dar maiores explicações. Deanna Troi sentada ao lado esquerdo do Capitão deu um breve sorriso, sentindo os cuidados quase que filiais de Riker em relação ao Cap. Jean Luc Picard.
- Magnificar - disse Picard, ignorando o comentário de Riker.
Na tela aparecia uma pequena nave em forma de disco. Possuía as dimensões de uma nave auxiliar. Assemelhava-se muito aos antigos “discos voadores” da Terra, pensou Picard.
- Estão se comunicando senhor. - disse Worf, manipulando habilmente seus controles para que recebessem a imagem dos alienígenas.
Na tela surgiu a imagem de um ancião com cabelos muito brancos, vestindo uma túnica azul turquesa amarrada na cintura por uma tira de tecido dourado. Seus olhos negros como pedras de carvão examinaram detidamente as figuras humanas presentes na ponte.
- Sou Anovich, sacerdote da Ordem de Carth. - disse com voz suave.
- Capitão Jean Luc, representando a Federaação Unida de Planetas. - respondeu levantando-se.
- Detectamos a presença de sua nave. Fomos enviados para dar-lhe boas vindas. - disse o homem em tom gentil e com um esboço de sorriso a brincar-lhe nos lábios.
- Senhor! - sussurrou Data ao lado do Capitão, que imediatamente solicitou que cortassem a ligação de áudio com a outra nave. - Nossos sensores não detectam nenhum planeta habitado nas proximidades, ou mesmo uma nave mãe.
- Estamos em missão de exploração, nossos sensores não indicam vida nas proximidades, se importaria em nos dizer de onde vem? - perguntou Picard, no momento em que uma outra criatura surgia ao lado de Anovich.
- Verificamos seus registros Capitão... - interrompeu a moça com voz melodiosa e serena, contrastando com sua pele áspera e ligeiramente arroxeada, seus olhos eram enormes e facetados como os de um réptil e quando moveu suas mãos pareceu aos tripulantes da ponte da Enterprise que ela tinha membranas entre os dedos. Seus cabelos negros como ébano caiam em grandes cachos sobre os ombros, contrastando com a túnica turquesa igual a do ancião. - ... estão a tempo suficiente viajando no espaço para saberem que nem tudo pode ser explicado em um primeiro contato.
- Isso me parece um pedido de permissão para abordagem. - disse Picard cautelosamente.
- Desenvolvemos um tipo de tecnologiia que não pode ser detectada por seus sensores Capitão Picard. Nossa nave se encontra ha alguns parsecs daqui.
- Conselheira! - disse voltando-se para Troi que permaneccia sentada em sua cadeira. - Alguma impressão?
- Não consigo senti-los senhor. - respondeu a moça quase que desculpando-se. - Mas analisando a postura corporal de ambos eu diria que estão falando a verdade.
Neste momento os dois alienígenas materializaram-se em meio a ponte de comando.
Worf mais que depressa desceu de seu posto ficando próximo ao Capitão, pronto para agir se necessário.
- Não tema meu filho. - disse o velho com sua voz suave de sacerdote. - Garanto-lhes que não lhes desejamos mal, estamos aqui motivados simplesmente pela curiosidade. - disse levantando a mão para Worf como se lhe oferecesse um abraço e a seguir virando-se para Picard e Riker. - Odeio estas máquinas, prefiro o contato pessoal.
- Senhor! - chamou Wesley de seu posto. - Não detectei nenhum indício de atividade energética na nave.
- Invadir nossa nave não me parece uma atitude de quem quer dar cordiais boas vindas. - disse Riker aproximando-se do velho.
- O que desejam de nós? - perguntou Picard.
- Este é o Gran-Sacerdote Anovich e eu sou Medina, somos missionários da Ordem de Carth. - respondeu a moça dirigindo-se a Riker e Picard. - Fomos atraídos pela grandeza e beleza de sua nave.
- Procuramos por criaturas capazes de reconhecer o belo, admirar a grande criação de Deus, criaturas cuja curiosidade e coragem lhes permite ir além de si mesmos em busca do conhecimento.
- E quando as encontram, qual o procedimento? - perguntou Picard desconfiado.
- Nós as incentivamos a prosseguirem em sua jornada, mostrando-lhes as belezas do Universo. Impulsionando-as a irem mais longe. - respondeu o velho com seus pequenos olhos brilhando como pequenas pedras de diamante negro.
- E o que acontece quando estas criaturas não correspondem aos seus propósitos. - perguntou Picard sentindo-se pouco a vontade diante do olhar vidrado de Medina.
- Isto depende dos propósitos delas Comandante. - respondeu Anovich. - As vezes são como crianças, é necessário que esperemos que cresçam para podermos colher os frutos de suas mentes, outras são como ervas daninhas que invadem nosso jardim destruindo toda sua beleza, enfraquecendo as raízes de belas flores... neste caso ...
- As exterminam. - disse Riker antecipando o velho Sacerdote.
- E um mal necessário. - respondeu simplesmente, desaparecendo logo a seguir com sua acompanhante.
- Senhor! - chamou Wesley alarmado. - A nave sumiu!!!
- Como sumiu? - perguntou Riker, dando-se conta de que eestava sendo retórico.
- Não está mais lá. - confirmou Worf que já havia voltado para seu posto.
Capítulo IV
Várias horas já haviam se passado, mas nada acontecera desde então. A USS-Enterprise seguia seu curso calmamente.
O Cap. Picard convocara uma reunião e conversaram exaustivamente sobre o ocorrido, levantaram hipóteses e as descartaram. Reconhecendo a inutilidade de tudo aquilo, o Capitão dispensou seus oficiais e ficou aguardando pelos próximos acontecimentos.
Data caminhava calmamente pelo corredor, pensando em como iria ocupar suas horas de folga. Pensou em procurar La Forge, apreciava a companhia do Engenheiro-Chefe, que sempre estava disposto a conversar e ensinar-lhe mais sobre o comportamento humano, mas ele havia trocado de turno em virtude das checagens de rotina dos motores e sistemas de anti-matéria. Pensou então em Wesley Crusher, mas lembrou-se que o jovem alferes estava envolvido em um projeto para a escola, no qual Data tentara solicitamente ajudar, mas conforme o próprio Wesley disse, não teria mérito se ele tivesse ajuda, principalmente a ajuda de Data. Resolveu então ir ao Ten-Forward. Dirigiu-se ao turbo elevador e informou ao computador o seu destino.
Para seu espanto quando a porta se abriu ele estava em um lindo bosque, com sua visão de andróide reconheceu o lugar como sendo uma ilusão projetada pelo holodeck, mas ele não tinha solicitado isso ao computador e mesmo que assim o fosse, a disposição física da nave tornava impossível que o turboelevador acabasse dentro do holodeck. Ele levou a mão ao comunicador e chamou a ponte, mas não obteve resposta. No momento em que saiu para o bosque as portas fecharam-se atrás de si e integrando-se a paisagem.
- Portal! - disse indicando ao computador para acessar o painel de controle do holodeck. Mas nada aconteceu.
Foi quando ele a viu sentada sobre uma pedra. Medina sorria-lhe gentilmente, pelo menos foi assim que ele interpretou sua expressão.
- Não tenha medo. - disse com sua voz melodiosa. - Quero apenas conversar.
- Como já deve ter percebido senhora, sou um andróide. Não posso sentir medo. - disse Data aproximando-se. - Onde estou?
- Em sua nave. - respondeu a moça sem se mover. - No lugaar que chamam de holodeck. Sente-se.
Data obedientemente sentou-se, sabendo que uma vez que estava incomunicável com o resto da nave e que não corria perigo, só lhe restava descobrir o objetivo de tudo aquilo.
- Foram os humanos que o construíram? - perguntou a mulher.
- Sim senhora. Fui construído em Omicron TTheta pelo Dr. Noonian Soong. - respondeu Data examinando-a atentamente. - Senhora! Estou intrigado, sendo uma máquina não sou o melhor representante a bordo da Enterprise para o estudo da mente humana. Porque quis conversar comigo?
Medina sorriu-lhe. - Enquanto estávamos na ponte de comando senti que minha aparência causa uma certa aversão aos humanos, em alguns até mesmo nojo. Com você achei que a conversa fluiria mais abertamente.
- Tem lógica. Talvez por seus olhos assemelharem-se aos de um réptil, tenho observado que os humanos não gostam muito desta forma de vida, principalmente as fêmeas.
- Ou talvez porque não sejam como espelhos da “alma” - respondeu a jovem.
- Isso não posso confirmar. - respondeu após uma pequena pausa. - “Alma” é um termo subjetivo que eles utilizam para descrevem suas essências.
- Não pode sentir absolutamente nada? - Data notou que seus olhos mudavam de cor quando sua cabeça se inclinava em direção a luz, produzindo um estranho efeito furta-cor.
- Não senhora. - respondeu simplesmente.
- Mas consegue fazer amigos. Se relacionar com eles de igual para igual.
- Fui programado para imitar-lhes o comportamento. Meus atos nada mais são do que reflexos do comportamento humano.
- Não! - disse a alienígena de forma veemente. - Há algo mais. Eles apreciam sua companhia, alguns até mesmo o procuram, você conseguiu romper uma barreira importante no relacionamento.
- Trocaria tudo neste Universo para sentir como eles sentem, mas tenho consciência de que não passo de uma máquina. Eles sim, esquecem-se o que sou e tratam-me como humano.
- Isso o incomoda? - perguntou Medina.
- De forma alguma. Faz parecer que estou mais próximo de meu objetivo. - respondeu Data com sua voz suave e bem modulada.
Medina ficou longo tempo olhando-o. O Andróide não percebia que tinha mais características humanas que muitos humanos. Pensou qual seria sua tolerância se o colocasse frente a frente com sua dualidade.
- “Fazer as coisas parecerem” é uma característica de criaturas que possuem “alma” Data. Interpretam a realidade de forma que o real parece-lhe mais agradável, é um modo de interagiram com o meio ambiente. - disse observando atentamente a reação do andróide.
- Quer dizer que estou tornando-me humano? - perguntou Data.
- Quando entrou no turboelevador ia para um lugar onde as criaturas desta nave se reúnem para passar o tempo. Por que?
- É o que eles fazem quando não tem nada para fazer. - disse Data, que a esta altura esquecera-se por completo do propósito daquele encontro. Era o tipo de conversa que tentava ter com seus colegas de trabalho.
- Nem todos! Alguns recolhem-se em seus aposentos e aproveitam para refletir, descansar. Você não poderia estar sentindo-se sozinho?
- “Sentir-se sozinho” é um estado emocional... - disse Data olhando para dentro de si, buscando os motivos que o conduziam ao Ten-Forward. - Talvez tenha razão, a caminho pensava em alguns amigos com quem me relaciono muito bem.
- Então admite que possui sentimentos... - disse a moça. - pelo menos em algum nível.
- Não! - respondeu o andróide convicto. - É de meu conhecimento que os humanos possuem esta emoção, eu apenas os estava imitando. Parece-me inútil ficar sozinho em meus aposentos enquanto poderia ocupar o tempo aprendendo.
- O que aconteceria se lhe dissesse que neste exato momento todos estão mortos abordo da Enterprise? - disse Medina suavemente.
- Diria que está mentindo! É um teste para obter uma resposta emocional de minha parte. - respondeu simplesmente.
De repente o bosque desapareceu. Data viu-se em pé no meio de um dos corredores da Enterprise, que estava estranhamente silenciosa.
Se ele tivesse um coração ou uma alma como dissera Medina, talvez o desespero tivesse tomado conta de si, mas como era apenas um andróide limitou-se a andar pelo corredor indo em direção a ponte de comando. Durante o caminho tentou comunicar-se com os outros oficiais, mas o seu comunicador não respondia.
Ele chegou a ponte de comando que estava vazia e a meia luz. Aproximou-se de seu console e acessou o computador verificando que a nave estava a deriva. E que já havia se passado muito tempo deste que encontraram-se com os alienígenas missionários.
- Computador! O que aconteceu com os tripulantes da nave?
- Data Estelar 52956.2 - Uma raça alienígena exterminou-os. Foram considerados daninhos a outras espécies da galáxia.
- Não restou ninguém? - perguntou Data.
- Foram todos exterminados, com exceção do Comandante Data.
Data sentou-se em seu lugar habitual e fitou a cadeira vazia de comando, e por um instante foi como se visse a figura austera de Picard ocupando-a. Em fração de segundos os rostos de todos seus amigos passaram por sua memória positrônica, aqueles sorrisos indulgentes que sempre davam quando ele fazia alguma pergunta tola, ou carrancas quando cometia alguma gafe. As aventuras pelas quais passaram e sobreviveram. Lançou um olhar amplo pela ponte de comando e deteu-se no lugar onde o Klingon ocupava seu posto, desejou com todos os seus ships ouvir sua voz trovejante chamando Picard.
Pela primeira vez em sua existência entendeu porque os humanos temiam tanto a solidão. Seus pensamentos voltaram-se para si, lembrou-se da morte de Tasha. Sim, a sensação que sentia era semelhante, a diferença era que agora não haviam outros para distrair-lhe os pensamentos, preencher-lhe a... - algo em seu interior sussurrou-lhe - ... a alma.
Capítulo V
O Tenente Worf havia acabado seus exercícios, a porta do holodeck abriu-se e ele se viu em pleno deserto. Imediatamente ele acessou seu comunicador descobrindo que estava sem comunicação com o resto da nave. Neste momento ele escutou um grito, uma voz familiar.
Ele correu em direção ao som, chegando no momento em que um Klingon jogava Deanna Troi no chão, com toda a brutalidade típica de sua espécie
- Pare! - vociferou o guerreiro precipitando-se contra o algoz da conselheira, no momento em que esta tinha seu pescoço quebrado por um simples par de botas.
Estarrecido Worf parou, não apenas pelo ato brutal e sem sentido de seus irmãos, mas também porque percebeu que o Capitão Picard, a Dra. Beverly Crusher e seu filho Wesley e o Tenente La Forge estavam presentes e sobre a mira de disruptores.
- Aah! Você finalmente chegou irmão. - disse um dos homens presentes. - Estávamos apenas a sua espera.
- O que está acontecendo aqui? - perguntou o tenente tentando conter sua raiva.
- Nada irmão. - disse outro Klingon cinicamente. - Queremos apenas que admita que é um traidor tão grande quanto foi seu pai e que renegue sua herança humana.
O que se seguiu só podia fazer parte de um terrível pesadelo. Contido por outros klingons e sob a mira dos disruptores Worf assistiu a morte de cada um de seus amigos e durante todo o tempo não sabia o que era pior, se o seu conflito ou os fatos que desenrolavam-se diante de seus olhos.
Ainda atordoado por suas emoções ele viu Wesley ser atirado contra o chão. Wesley virou o rosto para o tenente, de sua testa corria um filete de sangue, mas Worf não via os detalhes de seu rosto, enxergava apenas o terror estampado em seus olhos. Em toda a sua vida somente uma vez havia sentido tanto desamparo e medo. Foi quando os romulanos atacaram a colonia matando seus pais.
Com os olhos fixos em Wesley, e preso a suas próprias emoções Worf não se deu conta de que não era mais mantido preso pelas mãos fortes de seus irmãos de sangue. Sua mente era um turbilhão de lembranças e reflexões quase que insanas. A única coisa que tinha certeza era que Wesley não era apenas o último a morrer de seus amigos, era também sua última chance de admitir para si mesmo que também era humano e que orgulhava-se de seus valores. Mas pesava contra, o fato que desde que ele fora exilado de Klinzai para salvar o seu irmão, assumindo a culpa de uma traição que o seu pai jamais cometera, Worf tornou-se definitivamente um pária de seu povo. Tudo que lhe restava era sua honra e dignidade de Klingon.
Agora para salvar o garoto de ter o mesmo destino brutal de seus companheiros ele teria de sacrificar até isso !
O klingon colocou o pé no pescoço de Wesley e apontou o disruptor para sua cabeça. O jovem soltou um soluço esganiçado sem conseguir dizer nada.
- Se quer salvar essa cria humana, Worf, hhumilhe-se, rasteje, e mostre que jamais correu sangue Klingon nas suas veias de traidor!
Worf gruniu como um animal, enquanto os outros Klingons abriam um círculo a sua volta, deixando que ele olhasse os corpos de seus companheiros mortos, espalhados pela areia onde o tom vermelho conferido pelo sol escaldante, sugeria sangue. O sangue do Cap. Jean Luc Picard, da Dra. Crusher, da Conselheira e de La Forge.
- Admita Worf que você é um fraco e covarde e nós pouparemos a vida dessa cria! - vociferou o Klingon que parecia divertir-se com aquela situação insana.
Ele deixou seus olhos pousarem em cada um dos corpos estirados no chão. Quando seus pais morreram, foram os humanos que o salvaram e cuidaram dele, foram sua família e seu povo, mas o seu sangue Klingon fervia, lembrando-o sempre de suas origens. O medo de ser repudiado pelo seu próprio povo sempre o perseguia. Mas o que era essa aceitação diante daqueles que sempre lhe estenderam a mão?
Como em um filme Worf viu a vida abandonar os olhos em súplica de Wesley Crusher sem nada dizer, o nó em sua garganta se desfez em um urro de dor, ódio e vergonha.
De repente os Klingons desapareceram e Worf se viu cercado por seus amigos, que a instantes jaziam em terra.
Nos olhos de Picard viu apenas a acusação e decepção. O Capitão virou-lhe as costas e seguiu em frente carregando o corpo do jovem alferes, sendo seguido pelos demais oficiais.
O vento começou a soprar trazendo partículas de areia que batiam-lhe contra o rosto, e junto com o som do vento uma voz lhe perguntava; Vale a honra e dignidade a vida de um irmão? E irmão, não é aquele que lhe estendeu a mão por toda a tua vida? Vale mais então o irmão de sangue que nunca te viu do que aquele que te apoiou em todos os momentos bons ou ruins?
Pela primeira vez Worf soube o que era chorar, mesmo sendo incapaz de verter uma lágrima sequer.
Capítulo VI
O Comandante Riker havia acabado de tomar um banho. Sentou-se na beira da cama para vestir as meias, pensando se colocava o pijama para dormir ou roupas civis para dar uma volta pela nave.
Optou pelas roupas civis. Iria até o Ten-Forward, continuou a vestir-se deixando de lado as preocupações e concentrando-se nas horas agradáveis que viriam pela frente de bate-papos informais. Olhou-se no espelho e pensou consigo mesmo que estava com uma ótima aparência.
No momento em que a porta de seu alojamento abriu-se ele deu de cara com uma linda praia. Por alguns instantes ficou aturdido. Instintivamente procurou entrar em contato com o Cap. Picard, mas o seu comunicador estava mudo.
Há uns trinta metros, na orla do mar viu o ancião andar com os pés descalços na água. Ele parou e acenou para Riker, que caminhou cautelosamente em sua direção.
- Onde estou? - perguntou aproximando-se do Sacerdote./span>
- Não se preocupe! - disse o velho com uma voz quase angelical. - Está em sua nave, em plena e total segurança.
- Na Enterprise??? - perguntou incrédulo.
- Sim! - respondeu com uma certa impaciência, típica das pessoas de idade. - Suas próprias máquinas criam estes cenários. Ou você não sabe de que são capazes?
Por alguns instantes Riker fitou o velho, perguntando-se se seria possível estarem em um dos holodecks da nave. Ele tentou acessar o portal, mas não obteve resposta. Aproximou-se da água procurando não molhar os pés.
- Quero que acabe com isso agora? - disse em tom de ordem. O velho continuou sua caminhada, como se não o tivesse escutado e sorriu ao vê-lo pular com os sapatos todo molhado.
Riker amaldiçoou o ancião, rapidamente tirou o sapato e as meias molhadas, arregaçou as calças e correu atrás do velho que já estava há uns cinqüenta metros de distância.
- Poderia me dizer a razão de tudo isso? -- perguntou meio ofegante ao aproximar-se.
- Porque tem medo de mim? - perguntou Anovich.
- Não tenho medo de você. - disse Riker convicto. O ancião sorriu de modo compreensivo.
- Mas tem medo do que sou capaz. - afirmou olhando para o céu casualmente.
- Está bem. - disse Riker admitindo para si mesmo que temia o alienígena. - Receio o que possa fazer.
- Recear é diferente de ter medo. - disse o homem idoso como se explicasse a uma criança a sutil diferença que havia entre as duas palavras.
- O que quer de nós? - perguntou Riker impaciente. - O que quer de mim?
- Quero que olhe para si mesmo e admita que tem medo. - disse o Sacerdote. - Quero que admita que seu primeiro impulso é matar-me porque de alguma forma represento uma ameaça para sua pessoa, para seu Capitão e para sua nave.
- Já disse que não tenho medo de você - diisse Riker.
Com um gesto quase teatral o Sacerdote parou e levantou os braços em direção ao mar, que tornou-se violento. Ondas enormes começaram a surgir, o céu de repente tornou-se negro e raios riscavam-no sem piedade, junto com as ondas ventos fortíssimos começaram a soprar.
Antes que Will pudesse afastar-se uma enorme onda carregou-o para dentro do mar, apesar de ser bom nadador, por mais que se esforçasse não conseguia manter-se na superfície, já havia bebido toda a água que julgava ser capaz, sentia-se asfixiado. Quando estava quase sem consciência sentiu o mar acalmar-se e mãos fortes segurá-lo. Meio tonto ele reconheceu a figura do Sacerdote levando-o para a praia. Passados alguns minutos ele abriu os olhos e viu o céu límpido como antes.
- Admita que tem medo Comandante. - sussurrou-lhe o velho.
Riker sentou-se, seu coração batia fora de compasso. Sim, ele estava com medo, mas não era do Sacerdote.
- Está bem. - disse dando-se por vencido. - Tenho medo, mas não de você propriamente dito, tenho medo de morrer, tenho medo que mate meus amigos. Tenho medo de seu julgamento.
- Agora sim podemos conversar. - disse o homem sentando-se ao seu lado, observando as pequenas ondas que quebravam aos seus pés. - Se vocês tem medo do fim de sua existência, porque expõem-se voluntariamente ao perigo?
Riker riu, não sabia se da pergunta ou se da situação. Aquele homem acabara de tentar matá-lo e agora estava sentado calmamente tentando filosofar. Sentiu-se relaxar, em algum ponto de sua mente percebeu que não corria perigo. Passou vários minutos pensando na pergunta de Anovich.
- Acho que a curiosidade entorpece nossos sentidos. - respondeu após algum tempo.- Talvez um excesso de autoconfiança.
- Cultuam algum deus? - perguntou o homem olhando-o fixamente. Riker percebeu que era impossível mentir quando fitava aqueles olhos negros.
- O que devo responder? - perguntou Riker.
- Nada, se não o desejar fazer. - disse com simplicidade.
- Isso é um jogo não é? - perguntou Riker, sentindo-se pouco a vontade.
- Em todo jogo há sempre um vencedor e um perdedor. - disse Anovich que fitava atentamente o homem ao seu lado. Podia sentir-lhe a tensão provocada pela indecisão as respostas que dava, algo típico de alguém que não estava acostumado a falhar.
Riker fitou o mar infinito, deixando-se por um momento embalar pelo murmúrio das ondas.
- Sim! Isto é um jogo. - continuou Anovich após alguns minutos. - Só que você o está jogando sozinho.
- Não posso perder de mim mesmo. - disse Riker com um breve sorriso.
- Será que não Willian? - o tom utilizado pelo Sacerdote, a profundidade com que fitava o Comandante acrescido do uso de seu nome próprio com tanta familiaridade produziram o efeito esperado.
Willian T. Riker finalmente parou de fugir de Anovich e olhou para si mesmo, ele sabia que podia perder de si mesmo, com um simples gesto, uma palavra na hora inadequada,... deu-se conta que isso já havia acontecido algumas vezes. Ele mergulhou em suas próprias lembranças e esqueceu-se completamente da presença do Sacerdote. A sua frente via Deanna Troi sorrindo-lhe, personificando toda a felicidade que um homem poderia desejar no Universo. Seu pai... em que momento haviam se distanciado ...
Anovich desapareceu do seu lado, deixando Riker consigo mesmo.
Capítulo VII
Neste momento Anovich e Medina não tinham um corpo ou mesmo uma forma, não ocupavam espaço, mas em algum lugar do Universo estavam vivos e conversando sobre tripulantes da USS-Enterprise.
- Quanto tempo pretende deixá-lo na praia? - perguntou a moça
- Não sei! Depende do quanto ele pode suportar de si mesmo. Suas falhas. - respondeu o velho. - E você como está se saindo?
- Encontrei-me com algumas crianças. Suas mentes são tão abertas. - respondeu a moça. - Eles são especiais Anovich, eles ousam encarar suas fraquezas, se isso lhes trouxer algum benefício.
- Esteve com o andróide? - perguntou o homem
- Sim. - disse - Neste momento ele está em uma Enterprisee vazia, acredita que nós matamos a todos.
- Porque fez isso? - perguntou o homem surpreso.
- Ele foi muito além do esperado. Não se ddeu conta disso. Apesar de ser uma máquina ele tem reações típicas de criaturas sencientes. - respondeu Medina. - Anovich, atreveria-me a dizer que ele esta desenvolvendo uma “alma”. - ela ouviu o som de sua risada irônica . - É verdade!
- Estive com outros tripulantes. Acho que já temos material o suficiente para avaliá-los. - respondeu o ancião. - E o Capitão Picard?
- Irei vê-lo agora! - disse a moça. - Mas antes gostaria de falar-lhe sobre o Klingon, ele ainda não está pronto para aceitar suas fraquezas, esta experiencia pode deixar marcas em sua alma, abalando-lhe a auto-confiança.
- Irei ter com ele. - disse o velho. - Nos encontraremos em breve.
Capítulo VIII
Worf estava sentado em uma saliência. Tinha a sua frente um enorme precipício e lá embaixo o deserto estendia-se até o infinito, banhado pelo sol vermelho Sentia um dor profunda dentro de si, algo tão difícil de suportar que já começava a pensar bobagens do tipo atirar-se ribanceira abaixo.
Anovich materializou-se ao seu lado.
- Tenente! - chamou em voz baixa, mas o Klingon não moveu um músculo. - Esta tudo bem. - o ancião observou-o e pensou consigo mesmo se não havia ido longe demais com aquela criatura.
- Esta tudo bem meu filho - disse novamente para Worf. - Desculpe tê-lo feito passar por tudo isso. - sua voz era gentil e Worf sentiu a veracidade de suas palavras.
Com a voz tomada pela emoção o Tenente perguntou - Por que?
- Sentir medo ou afeição não é algo de que deva envergonhar-se. Estes sentimentos e outros são a herança de seus pais humanos. ... - Anovich tentou procurar as palavras adequadas... - quer goste ou não fazem parte de você, aceitá-los é aceitar a si mesmo.
- Sou um guerreiro Klingon! - respondeu coom sua voz grave.
- Sim! Mas também é um homem Worf. - disse Anovich utilizando-se do mesmo tom que usara com Willian Riker.
- Ainda não me respondeu o por que de tudo isso. - disse Worf.
- Tudo a seu tempo. - respondeu o velho Sacerdote. - Em breve irá juntar-se a seus amigos e tudo isso será passado.
Anovich desapareceu em meio a areia soprada pelo vento. Por mais que pensasse, racionalizasse, Worf chegava sempre a mesma conclusão. Cenário ou não, o que havia sentido era real. Para sempre haveria aquela nódua indelével em sua honra.
Capítulo IX
Picard estava em seu gabinete analisando alguns relatórios, mas não conseguia concentrar-se, seus pensamentos voltavam-se sempre para a ameaça que pairava sobre suas cabeças. Não saber se os alienígenas iriam voltar ou não deixavam-no ansioso. O computador anunciou que alguém desejava falar-lhe, com apenas um toque suave no painel da mesa a porta se abriu.
Medina materializou-se em um canto da sala no momento em que Deanna Troi entrava no gabinete do Capitão. Ao ouvir a interjeição de espanto da Conselheira Troi ele imediatamente olhou para o lado esquerdo e levantou-se. A alienígena permaneceu parada como se nada estivesse acontecendo. As portas se fecharam atrás de Troi, isolando-os do resto da nave.
- O que deseja? - perguntou Picard, notando que Troi aproximava-se dele.
- Apenas conversar - respondeu a moça sentindo o medo que vinha dos dois humanos.
Picard momentaneamente ficou sem ação, pensou seriamente em permanecer onde estava, pois assim não poderia ver aqueles olhos vítreos e facetados. Estava sendo preconceituoso, pensou consigo mesmo, mas não podia evitar a sensação de repulsa.
Troi também não se sentia a vontade, além da aparência da alienígena ser desagradável, ela não conseguia senti-la, não sabia o que esperar daquela criatura.
Picard tentou contato com o resto da tripulação sem obter sucesso. Medina aguardava pacientemente aproveitando aqueles minutos para observá-los.
- Parece que lhe incomodo mais que aos outros Conselheira. - disse a moça. - Alguma razão especial?
- Pode sentir-me? - perguntou Troi olhando para aqueles olhos facetados sem a mínima idéia do que ia por trás deles. Pela primeira vez deu-se conta do quanto utilizava-se de sua herança materna para guiar-lhe o comportamento.
- Completamente. - respondeu com suavidade.
- O que desejam de nós? - perguntou novamente o Capitão demonstrando impaciência e vencendo sua limitação sentou-se a frente da criatura.
- Tudo a seu tempo Capitão. No momento quero apenas conversar... conhece-los.
- Para depois nos julgar. - disse Troi.
- Já fomos julgados uma vez por uma entidaade denominada Q(1), e fomos absolvidos - completou Picard.
- Estou ciente se suas realizações coletivas Capitão Picard. - respondeu a moça dando entender que já lera os diários da nave. - Estou interessada em vocês individualmente.
- Individualmente como? - perguntou Picard, desviando o olhar.
Medina sorriu ao perceber que ele a encarava por apenas alguns segundos. - Data disse-me que meus olhos os incomodam. Por que?
- Ãh ... - Picard tentou dizer algo, mas foi pego de surpresa com aquela pergunta tão direta. Intuitivamente percebeu que ela queria respostas pessoais, nada de evasivas, ou discursos sobre as realizações humanas. - São frios como os de um reptil. - disse em voz baixa, sentindo o quanto era difícil expressar um preconceito tão abertamente.
- Não conseguir interpretar seus estados emocionais nos perturba. - respondeu a Conselheira.
- Em nossa cultura os répteis são tidos como criaturas frias, asquerosas... - continuou Jean Luc tentando se desculpar...
- Conseguem ver em Data mais que uma máquina, mas não conseguem enxergar em mim mais que um réptil que sabe pensar. - disse a moça olhando-o fixamente.
- Porque está fazendo isto? - perguntou Troi sentindo as emoções conflitantes do Capitão Picard.
Jean Luc sempre se considerara uma pessoa educada. Sentia-se desconfortável quando alguém lhe fazia comentários desagradáveis sobre outras criaturas, julgando-se acima destas futilidades, procurando ser indulgente com os menos privilegiados, tentava manter sua mente aberta não julgando outras criaturas por seus próprios padrões de beleza. Ele mesmo não se considerava um homem bonito, talvez razoável.
Pois bem, ela queria que lhe dissesse de forma nua e crua o que o incomodava, não eram apenas aqueles enormes olhos de lagarto, era o conjunto todo, seus dentes pontiagudos, aquela pele áspera que dava a impressão de ser fria e grudenta, o contexto de ameaça em que aquela criatura estava inserida.
- Feia! - disse em voz baixa. Medina nada disse, tampouco esboçou alguma reação.
Troi notou que Picard relaxara um pouco após expressar-se, compreendendo que Medina os estava forçando a olharem para si mesmos. Algo muito semelhante ao seu trabalho terapêutico. Eles mesmos deveriam julgar-se.
- Você não tem esta aparência. - afirmou para a alienígena. - Tudo isso faz parte de um jogo para nos mostrar-nos como somos.
- Eu sei como vocês são. - disse a moça coom convicção. - Você é uma das poucas privilegiadas, a natureza de seu trabalho, assim como sua própria origem exigem que esteja sempre atenta para seus sentimentos e emoções, permitem que conheça seus limites.
- O que espera conseguir com isto? - perguntou Picard.
- Já temos todas as respostas de que precisamos. - Medina levantou-se e desapareceu da sala.
Capítulo X
Como se tivessem saído de um sonho ou pesadelo, Riker, Worf e Data se materializaram no gabinete do Capitão Picard. Que não escondeu sua surpresa ao ver a aparência de seus comandados, que demostravam em suas faces não só confusão por terem aparecido repentinamente, mas emoções diversas.
- Capitão! - disse Data efusivamente, demoonstrando grande alívio ao vê-lo e aos outros.
Worf parecia constrangido, como se tivesse feito algo de muito errado e Riker tinha um brilho nos olhos, como se tivesse ganho algo muito especial. Troi podia percebe-los individualmente, sentiu a calma que emanava de Will e ficou muito curiosa para saber qual havia sido sua experiência, preocupou-se com Worf, mas sabia que o Klingon jamais se abriria com ela.
Passados os primeiros momentos Jean Luc sugeriu que todos se sentassem e conversassem sobre suas experiências, Deanna solicitamente levantou-se e serviu a todos de café. O Cap. Picard chamou a Dra. Crusher constatando que ela não havia sido analisada pelos alienígenas, estando mais apta que todos presentes para avaliar a situação de modo objetivo.
- Fisicamente não há nada de errado com vocês. - disse Beverly concluindo seu exame e sentando-se.
- Senhor! - disse Riker - Embora não pareçam ter uma intenção diretamente hostil, não podemos permitir que fiquem andando por ai criando ilusões e assustando os tripulantes.
- Mas como impedi-los? - perguntou Troi. - Parecem ter acesso a tudo.
- Devem ser destruídos - vociferou Worf. Cheio de raiva lembrando-se dos maus momentos que fizeram-no passar. Enquanto vivesse jamais se esqueceria de que eles desnudaram suas fraquezas diante de seus amigos, tirando-lhe toda a dignidade de um guerreiro Klingon. Por mais que pensasse que tudo não passara de uma ilusão, que somente ele em todo o Universo saberia o que tinha acontecido, teria que viver para sempre com aquele sentimento. Por um momento fugaz pensou que queria destruí-los porque eles eram testemunhas vivas de suas fraquezas.
- Acho que estamos de mãos atadas. - disse Picard. - Vamos aguardar. Dispensados.
Picard viu um a um de seus oficiais retirarem-se. Sabia que todos iriam para seus aposentos refletir sobre suas experiências pessoais, como ele também desejava fazê-lo. Notou que Data ficou propositadamente para trás.
- Você está bem Data? - perguntou gentilmente, no momento em que ficaram a sós.
- Completamente operacional senhor. - respondeu o andróide fitando-o com seus olhos amarelos como se estivesse em duvida do que diria s seguir. - É bom estar de volta Senhor. - disse por fim e retirou-se do gabinete
Capítulo XI
A tripulação seguia sua rotina, Picard, Riker e Troi pareciam muito distantes da ponte de comando. Na verdade estavam, seus pensamentos estavam voltados para as estranhas criaturas com que haviam se encontrado. Mesmo após algumas horas de reflexão e descanso, ainda podiam ser notados os efeitos das experiências pelas quais os oficiais haviam passado.
Picard havia constatado que outros tripulantes também haviam sido “seqüestrados” e induzidos a encararem suas fraquezas.
- Senhor! - chamou Worf de seu posto. - Sensores indicam disturbios a frente.
- Que tipo de distúrbios? - perguntou o Capitão inclinando-se para frente.
- É como se houvesse um buraco no espaço senhor. - disse Wesley, remexendo-se em seu posto. - Não consigo entender estas leituras.
- Na tela. - disse Riker.
A imagem que apareceu tirou a respiração de todos. Uma circunferência de névoa azulada com quilômetros de diâmetro estava bem a frente da nave, em seu centro não havia uma única estrela.
- O que diabos é isto? - perguntou Picard levantando-se. - Data?
No momento em que o andróide ia responder as luzes da Enterprise piscaram e apagaram-se, simultaneamente sentiram um leve tranco, o Capitão e outros oficiais que estavam de pé quase caíram.
- Estamos parados - disse Wesley. - O leme não responde.
- Engenharia! Informe - solicitou Riker através de seu comunicador.
- Está tudo em ordem aqui Comandante. - disse La Forge, cujo tom de voz indicava surpresa e ao mesmo tempo ansiedade. - Mas não podemos nos mover.
- Não há motivo algum para temer Capitão Picard. - disse a voz já conhecida de Medina. O som não provinha dos sistemas de comunicação, estava em todo lugar, inclusive em suas mentes. - Sua nave não sofrerá nenhum dano, e suas existências serão preservadas.
- Estamos impressionados com suas realizaçções coletivas, assim como a disposição individual de cada membro desta nave. - disse a voz de Anovich - Mostraram-se merecedores de nossa dádiva.
Todos sentiram-se arremessados para algum lugar desconhecido, Picard ainda pode ouvir gritos de medo, ou interjeições de surpresa. De repente eles não tinham corpos ou forma, faziam parte de um todo, envoltos em um caleidocópio foram enviados para os confins do Universo, não podiam ver, pois não tinham olhos, e nem ouvir, mas mesmo assim sabiam estarem presenciando a criação do universo, luzes explodiam por todos os lados e os tripulantes da Enterprise deslizavam em velocidade vertiginosa, como se estivessem no rabo de um cometa. No instante seguinte tudo passou. Pairaram no Universo e experimentaram uma calma e leveza que até então só podia ser imaginada, a vida surgia ao seu redor em suaves cores e sons. E eles não eram meros expectadores, de alguma forma participavam de todo o processo de criação, gritavam de dor ou puro extase, outros choravam de alegria ou tristeza, integravam a força mais poderosa do universo, uma força única que combinava o antagonismo de um modo incrivelmente harmônico.
Tudo ficou estranhamente calmo e aos poucos a luz caleidoscópica retornou, devolvendo-os a sua dimensão e a sua individualidade.
Capítulo XII
Picard sentiu seu rosto molhado e percebeu que havia chorado, demorou alguns segundos para situar-se e perceber que estava em seu alojamento.
A voz feminina do computador informou-o que faltavam duas horas para chegarem a Hadá VI. Quando se moveu o livro caiu no chão com as páginas abertas. Ele abaixou-se para pegá-lo. Ainda meio sonolento e confuso deu-se conta de que havia sonhado.
Ao ler a página aberta sorriu para si mesmo. Espreguiçou-se e parou diante da vigia. Sua expressão tornando-se vaga, seus olhos voltando-se para seu interior. Para suas lembranças.
Voltou alguns anos atrás quando se iniciara a missão da Enterprise, como um filme passado exclusivamente para ele viu um a um se seus oficiais e a ele mesmo. Sentiu-se satisfeito ao perceber que todos haviam crescido, amadurecido. Olhou para o futuro, sabendo que a seu modo cada um deles estava se aperfeiçoando, rompendo seus limites.
Espreguiçou-se mais uma vez, sentindo o corpo dolorido por ter dormido sentado. Com uma expressão de felicidade dirigiu-se ao chuveiro. Infelizmente não havia ninguém para ouvir uma coisa muito rara, Jean Luc Picard estava cantarolando.
FIM
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