O Legado de Callisto - Final
Quem merece uma chance?
Conto ambientado no universo ficcional da série:
Xena - Warrior Princess
As personagens: Hércules, Iolaus, Alcmena, Joxer, Xena, Gabrielle são propriedade da Universal Pictures, não pretendendo o autor infringir os seus direitos autorias.
Autora: Regina Planella
Capítulo I
Uma fila de peregrinos se dirigia ao templo de Delfos. Pessoas de diversas partes da Grécia, de Roma e outras localidades se dirigiam ao oráculo em busca de respostas. Sophia do alto da montanha observava o movimento das pessoas.
Após ter passado quase dois meses hospedada na casa de Hércules, sentia-se novamente senhora de si e de sua vida. A dedicação de Alcmena, que cuidara dela como uma filha, mesmo após ela ter tentado matar o seu filho e o carinho e atenção de Hércules e Iolaus lhe proporcionaram um ambiente saudável e seguro para “lamber as feridas” como dissera Alcmena certa vez.
As lembranças de sua família e de sua cidade, não doíam mais como antes. Havia finalmente se reconciliado com o mundo, embora soubesse que muitas coisas jamais seriam como antes. Seus amigos de outrora, estavam mortos ou presos e ela não tinha nenhum desejo de retornar aquela vida de matança. Graças a Callisto um enorme abismo de mágoas e ressentimentos havia se formado entre ela e Xena, as vezes desejava reencontrá-la, outras não. Não queria mais remexer no passado. Nos últimos meses havia conhecido muitas pessoas, estabelecido alguns laços de amizade, sentia-se relativamente tranqüila quanto ao futuro.
Depois de longos meses na estrada estava pensando em finalmente se estabelecer em algum lugar e recomeçar a vida. Havia considerado a possibilidade de retornar a Briseis e reconstruí-la com a ajuda dos poucos sobreviventes, se é que ainda havia alguém vivendo na cidadela em ruínas, mas mudou de idéia, retornar seria por demais doloroso. Havia conhecido muitas cidades e vilas, mas sempre que pensava em lar, a lembrança da vila onde Hércules vivia com a mãe vinha a sua mente. Esse era seu destino, estava finalmente voltando para casa.
Imaginava uma casinha simples, com muitos objetos coloridos, um pequeno tear, algumas cabras, um pequeno jardim.
Ficou mais um tempo olhando a procissão com um certo desprezo. Após tantos desencontros com os Deuses, não acreditava mais neles. Ela puxou as rédeas do cavalo indicando-lhe a direção e seguiu seu caminho.
Capítulo II
Gabrielle estava encolhida sob o manto ao pé um uma árvore, dormia tranqüilamente apesar do frio e não percebeu quando os homens se aproximaram.
- Mas o que temos aqui? – disse um deles cutucando-a com a ponta da espada.
Gabrielle levantou a cabeça assustada. Sua mão escorregou para o bastão, sem que o homem percebesse.
- Uma garota! – disse surpreso. Os outros homens sorriram.
Gabrielle levantou-se rapidamente e assumiu posição de defesa, segurando o bastão com as duas mãos. Os homens riram dela, sentiam-se seguros, o que uma mocinha poderia fazer contra seis homens armados.
- Não se aproximem! – disse Gabrielle.
- Oras! – disse um dos homens. – Venha conosco, porque dormir no chão frio, neste sereno. Temos uma tenda quentinha e vinho a sua espera.
- Venha conosco, sem causar problemas e a faremos nossa rainha por uma noite. – disse outro homem, olhando-a de cima abaixo, de um modo completamente indecoroso.
Um deles se aproximou por trás de Gabrielle e falou-lhe ao ouvido.
- Uma noite de prazeres!
Gabrielle rapidamente moveu os braços para trás e acertou o homem no estômago, ele caiu gemendo de dor. Os outros homens avançaram sobre ela.
Era uma luta injusta e ela sabia. Estava apavorada e já cansada. Ela mal derrubava um e já havia outro atacando-a, isso quando não eram dois ou três ao mesmo tempo. Em um momento de distração ela foi desarmada.
Um dos homens a jogou no chão, sentando-se sobre ela. Ela virou o rosto e começou a gritar.
Um cavaleiro que por ali passava e já havia ouvido o som de luta correu em seu auxílio.
Envolto em sua capa preta o ser saltou e caiu bem no meio dos homens, e com sua espada atacou-os ferozmente.
O homem saiu de cima de Gabrielle, pegou sua espada e foi em defesa dos companheiros. Dois jaziam mortos no chão.
Gabrielle se arrastou para próximo de um arbusto e ficou observando a luta e tentando controlar suas emoções. De repente uma cabeça voou para próximo dela, que fitou-a horrorizada. Já sabia quem era o misterioso cavaleiro e não se sentiu nem um pouco mais tranqüila.
Um dos homens caiu no chão, de seu pescoço jorrava sangue literalmente. Com um gesto rápido Sophia matou o outro que ia atacá-la pelas costas. O último fugiu apavorado, mas não foi longe, Sophia puxou o punhal da cintura e arremessou contra ele, que caiu com a arma enterrada na nuca.
Sophia olhou ao redor. Limpou a espada na roupa de um dos homens e embainhou-a novamente. Caminhou até o último homem que matara e tirou o punhal de seu pescoço.
Ela se aproximou de Gabrielle.
- Você está bem? – perguntou com genuíno interesse. Ela abaixou-se até Gabrielle, que ainda estava trêmula. Ela colocou a mão sobre o seu ombro e perguntou de novo. – Gabrielle! Tudo bem?
- Está! – disse em voz baixa. – Você chegou bem na hora.
- Onde está Xena! – perguntou levantando-se e estendendo a mão para Gabrielle.
- Ela vai voltar! – disse Gabrielle.
Sophia fitou-a. A pobre mocinha estava apavorada até a alma.
- Vamos sair daqui! – disse.
- Xena mandou esperar aqui. – disse.
- Tudo bem! Mas daqui há pouco os outros guerreiros estarão aqui procurando seus companheiros. – disse caminhando em direção ao seu cavalo, dando a entender que não se importava. – Mas se quiser ficar ...
Gabrielle olhou-a com desdém. Sophia montou em seu cavalo.
- Venha! Quando Xena retornar, logo entenderá o que aconteceu. Marcarei o caminho para que ela nos encontre.
Sem alternativas, Gabrielle segurou a sua mão e montou em Jasão. Elas partiram dali a todo galope.
Após uma hora, Sophia encontrou um local adequado para esconderem-se. Uma caverna.
Ela cobriu a entrada com galhos e algumas pedras. Notou que Gabrielle movia-se como um zumbi. Após ter fechado a entrada, ela acendeu uma pequena fogueira no fundo da caverna.
Ela se aproximou de Gabrielle que estava bem mais silenciosa do que o de costume. Há meses atrás ela teria apreciado muito o silêncio da mocinha, mas não agora. Sabia que ela estava muito assustada e se preocupava com ela.
- O que há com você Grilo Falante? – disse ajoelhando-se ao lado de Gabrielle. – Está ferida?
- Não! – disse Gabrielle. – Sem a Xena ao meu lado não sou nada. – disse em voz baixa. – Não consigo nem me defender.
- Deixe de bobagens! – disse Sophia de modo compreensivo, acariciando seus cabelos. – Eram seis homens armados, poucas mulheres no mundo teriam alguma chance.
- Não a Xena! E nem você! – disse Gabrielle com lágrimas nos olhos.
Sophia fitou-a.
– Não esteja tão certa quanto a isto. Vamos! – disse acariciando seus cabelos. – Já passou, está em segurança agora. Venha.
Sophia conduziu-a até próximo a fogueira. Gabrielle deitou-se no chão e encolheu-se. Ela pegou o seu manto e abaixou-se ao seu lado.
- Fique com ele esta noite! – disse colocando o manto sobre Gabrielle. – Sei que gosta dele! Procure dormir, se sentirá melhor após descansar.
Sophia arrumou sua cama do outro lado da fogueira e deitou-se.
- Quando conheci Xena, achei que vivendo ao seu lado teria um pouco de força e de sua coragem. – disse Gabrielle em voz baixa.
- Você é forte! Ao seu modo. – disse Sophia. – Não desiste, luta pelo que acredita, isso é uma virtude e é preciso muita coragem pra se ir contra todos para defender suas crenças.
- Você não me conhece! – respondeu Gabrielle em voz baixa.
- Talvez não Grilo Falante. Talvez não. – disse Sophia.
- Aconteceu uma coisa na Britânia ... – começou a dizer Gabrielle. – Uma coisa que mudou tudo.
Fez-se um grande silêncio no interior da caverna, Sophia aguardou pacientemente Gabrielle terminar de dizer o que havia começado, mas ela fechou-se como uma concha. O que poderia ter acontecido para que aquela mocinha tão alegre e falante de repente se sentisse tão insegura e perdida?
- As coisas mudam todos os dias. – disse Sophia. – É assim que o mundo cresce, quanto a nós? Só nos resta aprender a viver com as mudanças.
- Como consegue viver com a morte tão próxima? Você mata com tanta facilidade.
- Não bem assim! – disse Sophia. – Foi isso que aconteceu? Você matou? – perguntou Sophia adivinhando o motivo de toda aquela angustia.
Gabrielle não respondeu, mas Sophia percebeu que estava chorando.
- Terá que aprender a viver com isso Gabrielle. – disse Sophia – Infelizmente ninguém pode te ajudar nisso, nem a Xena. Mas se serve de alguma coisa, vou te dizer exatamente o que Cássius me disse a primeira vez que matei. - “Já está no passado e só pode te fazer algum mal se você permitir, terá que aprender a viver com esta lembrança, mas não é necessário que carregue esta dor por toda a sua vida, pois haverá dias em que será necessário matar novamente.”
- Não! – disse Gabrielle com convicção. – Nunca mais.
Sophia sorriu diante de tanta inocência, pensou em retrucar, há alguns meses atrás até teria feito isso, pois em seu intimo havia uma necessidade quase que compulsiva em machucar os outros, principalmente as pessoas de quem gostava, mas agora não era o caso, estava com pena daquela menina, e sentiu raiva de Xena por tê-la envolvido naquilo.
- Nem sempre podemos controlar nosso destino. – disse Sophia. – Agora durma! Já tivemos muitas emoções por uma noite.
Gabrielle ainda choramingou por algum tempo e acabou adormecendo. Sophia ficou algum tempo acordada pensando. Não queria se encontrar com Xena. Destino maldito que entrelaçava vidas e pregava peças.
Capítulo V
Sophia acordou cedo, a fogueira estava quase apagada, ela reavivou as brasas. Em silêncio saiu para pegar mais lenha.
Meia hora depois ela estava sentada próximo entrada da caverna. Afiava sua espada tranqüilamente, seus pensamentos estavam bem longe dali, mas ouviu quando Xena se aproximou com Argo.
Ela desceu de seu cavalo e aproximou-se de Sophia com cara de poucos amigos.
- Devia cuidar melhor de suas coisas! – disse Sophia a título de comprimento.
- O que você fez com Gabrielle? – perguntou.
Sophia sorriu.
- Está lá dentro! – disse – É melhor ir vê-la.
Xena encontrou Gabrielle sentada, brincando distraidamente com o fogo.
- Gabrielle! – chamou aproximando-se.
- Xena! – disse Gabrielle correndo ao seu encontro. As duas se abraçaram.
- Você está bem! – perguntou olhando-a. – O que Sophia fez com você?
- Nada! – disse Gabrielle. – Ela me salvou. Se ela não tivesse aparecido ... não gosto nem de pensar no que teria acontecido.
As duas se sentaram e Gabrielle contou tudo para Xena.
- Está tudo bem agora! – disse para a amiga. - Já passou.
- Descobriu alguma coisa? – perguntou Gabrielle.
- O exército romano está a
dois dias de Cinato, temos de avisá-los.
- Xena eu não quero me envolver em uma batalha. – disse Gabrielle. – Não agora, ainda é tudo tão recente.
Xena olhou-a, pensando se haveria um modo de protegê-la.
![]()
Ao sair da caverna Xena viu Sophia verificando as ferraduras de Jasão.
- Obrigado por ter ajudado Gabrielle. – disse Xena aproximando-se. – Fico lhe devendo.
- Não me devem nada. – disse Sophia sem ao menos levantar a cabeça.
Xena ficou um tempo observando-a. Como queria que as coisas fossem como antes. Já sentia culpa o suficiente por toda uma vida, sem precisar que Sophia se dirigisse a ela sempre com aquela frieza, com aquele olhar de acusação. Ela sabia que no fundo Sophia a culpava por suas desventuras. Ficou ali parada imaginando se havia alguma coisa que pudesse fazer para mudar as coisas.
- Uma vez Gabrielle me disse que o único modo de acabar com esse ciclo de violência é através do amor. – disse Xena aproximando-se dela.
Gabrielle saiu da caverna e viu que as duas conversavam, achou melhor se afastar e deixar que se entendessem.
- Ela tem razão! – disse Sophia, ainda sem olhar para Xena.
- Nunca vai me perdoar não é mesmo? – perguntou Xena.
Sophia ergueu a cabeça, olhando-a pela primeira vez.
- É tão importante assim o meu perdão? - perguntou Sophia.
Ela deu alguns passos em direção a um tronco caído e sentou-se. Xena continuou em pé, em silêncio. Sophia tinha o dom de desarmá-la, as vezes parecia enxergar sua alma.
- Só queria que as coisas fossem como antes. – disse indo sentar-se ao seu lado.
- Eu também gostaria! – disse Sophia, não havia acusação ou qualquer traço de ironia, era apenas uma constatação triste de que muitas coisas haviam mudado.
- Acredite se eu tivesse o poder para desfazer tudo o que fiz, mesmo que para isso tivesse que dar minha vida, eu faria.
- Sei disso! – disse Sophia. – Você é uma pessoa boa Xena e fico feliz que tenha descoberto isso a tempo. Quando ao meu perdão, não há o que perdoar, Callisto fez uma escolha e espero que esteja pagando por ela em algum lugar. Eu é que peço que me perdoe pelas bobagens que andei fazendo e agradecer por nunca ter desistido de mim, mesmo quando eu já havia desistido.
- Os amigos fazem isso. – disse Xena apertando a mão da moça.
As duas se olharam e sorriram.
Gabrielle retornou de seu passeio e se aproximou das duas. Percebeu que haviam finalmente se entendido. Talvez dali em diante pudesse haver algum tipo de amizade entre Sophia e ela.
- Agora que sua preciosa Xena está de volta, está mais tranqüila Grilo Falante? – perguntou Sophia ao vê-la.
Gabrielle fez uma careta para Sophia e sentou-se ao lado de Xena. Não tinha jeito Sophia definitivamente não gostava dela.
– Xena você ainda não disse o que vamos fazer com os romanos? – disse Gabrielle.
- Temos que avisar o Rei de Cinato. – disse Xena. – Será um massacre se não tentarmos impedir.
- César está na Britânia. – disse Sophia. – Se as notícias estão corretas você e Boadicéia acabaram com a brincadeira dele. O que faz um exército romano aqui, então? – perguntou Sophia.
- Sabe como eles são. – disse Xena - Estão sempre conquistando.
- Lá vamos nós de novo. – disse Gabrielle.
- Minha espada está ao seu serviço. – disse Sophia para Xena.
- Não acredito que a Deusa do Egoísmo vai nos ajudar? – disse Gabrielle surpresa.
Sophia virou-se para ela demonstrando uma certa irritação.
- Sinceramente não entendo você criança, uma hora tenta me salvar, no momento seguinte diz que não se importa, me chama de egoísta e insensível e quando tento ajudar reclama...
- Não confio em você. – disse Gabrielle.
Sophia fitou-a por um instante, não podia recriminá-la por isso, mas também não pretendia ficar adulando aquela mocinha.
Capítulo VI
Após uma longa cavalgada as três caminhavam pela estrada para que os animais descansassem um pouco.
Gabrielle ia a frente com Argo. Jasão seguia ao seu lado, sem precisar de um guia.
Xena e Sophia caminhavam um pouco atrás.
- Quando isso acabar, passe alguns dias longe de confusão. – disse Sophia. – Acho que Gabrielle está precisando de um pouco de paz.
- Ela lhe contou? – perguntou Xena, meio surpresa. Não imaginava Gabrielle fazendo confidencias para Sophia, as duas viviam se alfinetando.
- Não! – respondeu Sophia. – Adivinhei. Você não deveria ter permitido que isso acontecesse. – completou em tom de censura.
Xena ficou algum tempo em silêncio.
- Ela não teve culpa! – disse. – Estava apenas de defendendo.
- Tenho certeza que sim! – disse Sophia. – Mas isso não muda o fato que ela tirou uma vida, não interessa se o sujeito merecia ou não. Isso está acabando com ela, porque ela sente que não tinha esse direito.
- Ela ficará bem! – disse Xena. – É bem mais forte do que imagina.
- Porque vocês não vêm comigo depois que acabarmos aqui? – disse Sophia. – Será bom passar alguns dias longe de confusão e divertido também.
- O que pretende fazer? – perguntou Xena curiosa.
- O povoado onde Hércules vive com a mãe é um lugar bem agradável. – disse Sophia. – Chega de desventuras ... – ela sorriu – e de aventuras também. Há uma casinha bem simpática lá, com um pequeno jardim, espaço para algumas cabras e um bom pasto para Jasão. Acho que ele vai gostar de lá. Algumas mantas coloridas, almofadas ... uma criada. Será um bom lugar para viver.
Xena sorriu!
- Vamos! – disse Sophia sorrindo. Ela deu alguns passos a frente andando meio de costas. – Será divertido arrumarmos tudo isso.
- É bom vê-la assim. – disse Xena com sinceridade. – Não sabia que conhece Hércules.
- Foi há alguns meses. – disse Sophia. – Mas não é o que está pensando.
- Não estou pensando nada. – respondeu Xena com ar de pouco caso, mas estava curiosa.
Sophia contou-lhe rapidamente o que havia acontecido. Xena notou que ela parecia um pouco constrangida ao revelar o papel ridículo que havia desempenhado.
- Devia estar muito mal para acreditar em Ares e pensar que poderia matar o Hércules! – disse Xena após ouvir o relato.
- Estava! Mas não quero mais falar disso. – respondeu Sophia. – Prometa que vai pensar? – disse mudando de assunto. – Será bom para Gabrielle passar alguns dias longe de toda esta confusão.
- Talvez! – disse Xena com um sorriso. Tentou se imaginar levando uma vida simples, mas não conseguiu. Mas por alguns dias ... talvez fosse o que Gabrielle precisasse, um porto seguro e tranqüilo para absorver os últimos acontecimentos.
Caminharam por mais algum tempo. E já era quase noite quando resolveram acampar.
– Amanhã ao alvorecer seguiremos. - disse Xena tirando a cela de Argo. – É melhor descansarmos.
- Deve haver alguns coelhos por aqui. – disse Sophia pegando o arco e um alforje de flechas que estavam presos na cela de Jasão. – Vocês providenciam o fogo e o resto.
Xena olhou-a meio contrariada, odiava cozinhar.
Ela se afastou por uma trilha.
Xena se aproximou de Gabrielle.
- Você está bem? – perguntou colocando a mão sobre seu ombro.
- Estou! – respondeu Gabrielle.
- Gabrielle! – disse Xena, não acreditando nela. – Pensei que fôssemos amigas.
- Estou confusa, apenas isso. – disse Gabrielle encostando-se em uma árvore. – Estou pensando em voltar para casa, você ficará bem, principalmente se Sophia ficar com você.
Xena olhou-a sem acreditar no que estava ouvindo.
- Então é isso? Ciúmes? – perguntou Xena quase rindo.
- Não! Não estou com ciúmes. – disse Gabrielle se defendendo. – Só me meto em confusão e não consigo esquecer o que aconteceu no templo de Dahak. Sou um peso para você. – completou com lágrimas nos olhos.
- Gabrielle! Gabrielle! – disse Xena aproximando-se dela e abraçando-a. – Você nunca foi um peso para mim. Sei que esta sendo difícil para você, mas não precisa ser assim. Eu estou aqui.
- Eu sei... – disse Gabrielle.
- Se quiser ir para casa não vou impedi-la, mas que seja pelo motivo certo. – disse Xena acariciando seus cabelos.
Capítulo VII
Ao chegarem em Cinato, Xena acompanhada por Gabrielle foi avisar ao Rei sobre a aproximação do exército Romano. Sophia foi dar uma volta pela cidade, para checar as defesas.
Mesmo sem acreditar muito o Rei ordenou ao seu Comandante que tomasse as providências cabíveis.
Em algumas horas toda a cidade já estava sabendo do provável ataque dos Romanos, Xena e Sophia verificavam pessoalmente as defesas, enquanto Gabrielle cuidava do hospital, providenciando tudo o que fosse necessário para um pronto atendimento dos feridos.
Os cidadãos andavam apressados de um lado para o outro, tomando também suas providências.
A noite as três estavam em um celeiro, preparando-se para dormir.
- Odeio esse clima de expectativa. – disse Sophia sentando-se sobre as peles.
- Eu gosto! – disse Xena com um sorriso maroto.
- É o seu lado negro que está falando! – disse Gabrielle, sentando-se com um caneco na mão.
Sophia sorriu.
- Não tenho culpa se isso me atrai Gabrielle, sou uma guerreira. – disse Xena defendendo-se.
- O que você sugere? – perguntou Sophia. – Ficamos todos sentados a espera do exército romano, depois seguimos pacificamente para o cativeiro, para a cruz e sabe qual outro tipo de tortura.
- Claro que não! – disse Gabrielle. – Um acordo de paz, por exemplo.
Xena riu.
- Não há acordo com os Romanos. – disse enfaticamente.
Elas se deitaram e ficaram um longo tempo em silêncio.
- Xena? – chamou Gabrielle em voz baixa ao perceber que Sophia havia dormido. – Está dormindo?
- Hum! – disse Xena.
- Confia em Sophia? – perguntou Gabrielle. – Será que essa batalha não é mais uma desculpa para morrer?
- Isso já passou Gabrielle. – disse Xena. – Agora vamos dormir.
Já era noite alta quando Sophia acordou. Ficou algum tempo deitada, estava incomodada com alguma coisa que não sabia identificar, sentia uma angustia, uma ansiedade.
Ela levantou-se e foi para fora do celeiro. A cidade dormia, tranqüila. Nas ruas havia alguns soldados e também nos muros da cidade, todos em prontidão.
Ela caminhou lentamente e subiu as escadas, passando por um dos soldados.
- Algum problema senhora? – perguntou o rapaz solicito.
Ela fitou o homem, era tão jovem.
- Não! Apenas estou sem sono. – disse. – Se quiser descansar ficarei aqui em seu lugar.
- Não precisa senhora! – disse o rapaz.
Ela deu de ombros e seguiu para o muro leste. Sentou-se ali observando as estrelas, as nuvens e escutando os sons da noite. Pensava em sua família, sua cidade.
Um mau pressentimento atravessou sua mente, causando um ligeiro calafrio, alguma coisa ruim iria acontecer, tinha certeza disso.
Percebeu quando Xena aproximou-se dela e debruçou-se no muro, ficaram em silêncio por um tempo, cada uma com seus próprios pensamentos.
- Você está bem! – perguntou Xena após um longo tempo.
- Estou! – respondeu simplesmente e em voz baixa.
Após uma outra longa pausa Xena perguntou:
- Você alguma vez pensa nas coisas que fez?
Sophia sorriu e demorou um pouco para responder.
- As vezes, mas não do mesmo modo que você. – disse por fim.
- Não sente culpa? – perguntou Xena.
- As vezes. – disse Sophia.
O sol começava a despontar por trás das montanhas, em breve os romanos começariam a atacar.
- Pare de olhar para trás, o que está feito não poder ser mudado, mas você tem o futuro todo pela frente. – disse Sophia.
- Não consigo esquecer. – disse Xena em voz baixa. – As vezes é como se todos os mortos me cobrassem alguma coisa.
- Se ficar pensando em tudo o que poderia ter sido nunca vai encontrar paz. Deixe o passado no lugar dele, e viva o presente.
- É assim que consegue viver com tudo o que fez? – perguntou Xena curiosa.
Sophia virou-se para Xena e olhou-a diretamente nos olhos.
- Você não é má Xena, apenas pensa que é. – disse. – Para falar a verdade é uma pessoa bem melhor do que eu.
- Isso não é verdade. – disse Xena.
Sophia desceu do muro e encostou-se na parede oposta ficando a trás de Xena.
- Não estou nisso porque me importo com estas pessoas Xena, estou nisso porque me importo com você, com Gabrielle e porque é divertido. Não luto por uma causa, nunca tive uma.
Xena não gostou do tom em que aquilo havia sido dito.
- São pessoas inocentes, acha que não merecem uma chance? – perguntou Xena.
- E as pessoas que matamos? Também não mereciam? Quantos foram
Xena? Você pode contá-los? – Xena havia virado-se para Sophia, estava encostada no muro e olhava fixamente para sua interlocutora. – Lembro-me de alguns. – ela fez uma pequena pausa e olhou para o chão. – Não! Estou mentindo. Lembro-me de todos, de todas as vilas, de todas as aldeias incendiadas, saqueadas, da expressão de medo no semblante das pessoas, sobretudo das mulheres, crianças e idosos. Não tenho vocação para o sofrimento, para angustia. Quero ser feliz e se ficar pensando no passado ...
- Vai acabar como eu! – disse Xena.
- Não a condeno por tentar consertar as bobagens que fez! – disse Sophia. – Mas isso não vai trazê-los de volta, nada do que façamos vai mudar o que fizemos, onde quer que esteja, Callisto irá continuar odiando-a. Onde quer que eu vá, nesta ou em outra vida, a dor que você, mesmo que indiretamente causou, ainda estará comigo. E vivendo por aí, existem muitos órfãs, viúvas e viúvos que ainda choram pelas pessoas que matei.
- Faz com que as coisas não tenham importância! – disse Xena.
- Tudo isso é muito grande para nós, meros mortais. Só tem importância aquilo que damos valor. – disse Sophia. - Faço o que acho que devo Xena, não cabe a mim dar uma chance, isso é função dos Deuses. – disse Sophia. – Uma boa parte destes romanos, tem uma família que esperam seu retorno, também tem sonhos e angustias, neste exato momento alguns deles estão pensando se regressarão, pensando em seus filhos, esposas. Eles também merecem uma chance. E se depender de nós não terão nenhuma.
Sem dizer mais nada Sophia retirou-se, deixando Xena sozinha com seus pensamentos.
CAPÍTULO VIII
Aos poucos começavam a surgir pessoas nas ruas, caminhavam em silêncio, conversavam aos sussurros.
Pela manhã o exército Romano se aproximou dos portões da cidade. Por incrível que pareça houve um pedido de rendição, mas o Rei de Cinato confiava em seu exército e mandou um emissário com uma mensagem para que o exército Romano se retirasse.
A resposta foi imediata. O cavalo retornou a cidade com seu cavaleiro preso pelo estribo, sua garganta havia sido cortada.
Então a batalha teve início.
A cidade resistiu do jeito que pode, mas estavam perdendo terreno.
- Temos que atacar! – disse Xena. – Se não fizermos isso eles vão derrubar os muros e invadir a cidade.
- As catapultas estão cada vez mais próximas! – disse um dos soldados que participavam da reunião.
- Parte da cidade está em chamas, já há muitos inocentes feridos. – disse Gabrielle.
Xena observava o mapa com atenção.
- Vamos dividir os esforços. – disse. – Uma frente de batalha, uma defensiva direta! Enquanto isso um grupo menor se aproxima das catapultas para destruí-las.
- Perigoso! – disse o Comandante. – Mas pode funcionar.
Xena olhou-o de modo pensativo.
Todos ficaram em silêncio avaliando a situação e as sugestões.
- Vou dar as ordens. – disse o Comandante se retirando.
Nesse momento um soldado entrou apavorado.
- Eles destruíram o muro da ala sul! Estão entrando.
Xena correu para fora acompanhada do Comandante e de Gabrielle. Quando chegaram ao local a batalha era acirrada. Sophia ao meio lutava como um demônio ensandecido.
Sem pensar Xena empunhou sua espada e foi ajudá-la, o Comandante seguiu-a logo após enviar um soldado para buscar alguns reforços.
Os gritos de guerra de Xena eram ouvidos por toda a cidade. Gabrielle ficou algum tempo observando tudo aquilo e por fim pegou seu cajado e entrou na batalha.
Mais soldados apareceram e os romanos começavam a ser derrotados. Com seu chakran Xena derrubou um enorme caldeirão de óleo quente, ateando fogo logo em seguida. A passagem aberta pelos romanos foi bloqueada pelas chamas. Muitos soldados romanos morreram queimados.
Em meio a luta, Xena viu quando um soldado romano atirava uma flecha em direção a Gabrielle.
- Gabrielle – gritou. Ela levou a mão a cintura para lançar o chakran mas foi detida por dois soldados romanos.
No momento em que Sophia ouviu o grito de Xena ela lançou-se na frente de Gabrielle, protegendo-a com seu próprio corpo.
Gabrielle ergueu Sophia de cima de si, segurando-a de modo que a flecha não penetrasse mais em seu corpo.
- Porque você fez isso? – perguntou Gabrielle com lágrimas nos olhos. – Você nem gosta de mim.
A flecha havia atingido o pulmão, bem próximo ao coração, não o suficiente para matá-la, mas o bastante para que agonizasse durante horas, de sua boca saia um filete de sangue e respirava com certa dificuldade.
Ela tentou dar um sorriso, mas a dor transformou-o em uma careta.
- É isso que os amigos fazem! – sussurrou.
Gabrielle tirou-lhe o cabelo do rosto, de sua boca.
- Me salvou duas vezes! – disse chorando. – E eu sempre te maltratei.
Sophia fechou os olhos e respirou algumas vezes devagar, tentando controlar a dor.
- Pare de bobagens! – disse. – Sempre dei motivos.
Ela segurou a mão de Gabrielle, apertando-a.
- Xena sempre disse que seriamos boas amigas! – disse Gabrielle tentando controlar o choro.
- E somos! – disse Sophia em voz baixa.
Nesse momento Xena se aproximou. Havia medo em seus olhos. Ela tateou as costas de Sophia vendo a altura em que ela havia sido atingida.
Sophia procurou segurar sua mão. As duas se olharam por uns instantes. Milhares de palavras não ditas passaram por suas mentes, mas com aquele olhar finalmente haviam se entendido, sem mágoas e rancores, apenas a amizade.
Xena enxugou as lagrimas em seu rosto.
- Cuidem uma da outra. – disse Sophia.
- Sempre! – disse Xena, olhando para Gabrielle e estendendo a mão para ela.
Sophia fechou os olhos e engoliu em seco, ela sabia que o ferimento era fatal.
- É maior do que nós. Não lamente. – disse Sophia. Ela tentou tossir, uma dor aguda atravessou seus pulmões. - Acabe logo com isso. – pediu com dificuldade.
Xena com lágrimas nos olhos acenou levemente. Ela trouxe o corpo de Sophia para junto de si, abraçando-a. Acariciou seus cabelos e enterrou com força a flecha em seu corpo. Sophia retesou-se com a dor e morreu em seguida.
Nunca Xena havia sentido a morte de forma tão intensa em um campo de batalha, ao seu redor via os soldados se moverem em câmera lenta, caindo feridos ou mortos, gregos e romanos derramando na terra não só o seu sangue, mas suas alegrias e esperanças e não apenas suas, mas também das pessoas que os amavam. De repente tudo pareceu tão banal, sem finalidade.
Ficaram ali, paradas, enquanto os soldados de Cinato lutavam com os poucos soldados romanos que ainda restavam.
Ao fim da noite a batalha havia acabado. E o exército romano sem as catapultas e um grande número de baixas havia se retirado.
O corpo de Sophia jazia sobre um altar no templo, suas feições tão suaves e tranqüilas davam a impressão que apenas dormia e que a qualquer momento abriria os olhos e um sorriso surgiria em seus lábios.
Xena estava sentada em um canto com a cabeça jogada para trás, de olhos fechados, perdida em seus próprios pensamentos e lembranças quando Gabrielle entrou no templo.
Ela dirigiu-se para onde a amiga estava a passos lentos e sentou –se ao seu lado.
- O Rei enviou dois mensageiros para avisarem Hércules e sua mãe da morte de Sophia. – disse, mas Xena não lhe respondeu. – Você está bem? – perguntou preocupada.
- Estou – respondeu em voz baixa.
Gabrielle olhou em direção ao corpo.
- Ela está bem! – disse em voz baixa. – Deve estar nos Campos Elisios com sua família.
- Assim espero! – disse Xena.
– Ouvi quando você e ela conversavam na estrada, sobre levar uma vida simples, uma casinha aconchegante, com objetos coloridos, alegres ... – disse Gabrielle. - Não parece justo que tenha terminado assim, ela merecia uma chance.
Xena olhou-a e sorriu.
- E ela teve! – disse Xena. – Lutou por aquilo que tinha valor para ela. Nossa amizade! Sua amizade!
- Não entendo! – disse Gabrielle – Parece um pensamento egoísta.
- Talvez seja! – disse Xena.
Ao cair do sol os soldados levaram o corpo de Sophia para pira funerária. O cortejo foi acompanhado por alguns soldados e moradores da cidade.
Com respeito e cuidado eles depositaram o corpo sobre a pira. Gabrielle pegou a tocha e caminhou em direção ao corpo, enquanto Xena cantava.
FIM
Clique no Sapinho para voltar no índice.