O Legado de Callisto - Parte II

O Menino e o Burrinho

Conto ambientado no universo ficcional da série:

  Xena – Warrior Princess

  

As personagens: Xena, Gabrielle são propriedade da Universal Pictures, não pretendendo o autor infringir os seus direitos autorias.

 Autora: Regina Planella

 

CAPÍTULO I

O sol começava a se pôr. Era final de um aconchegante dia de inverno. Um garoto seguia por uma estrada levando um burrinho, ainda filhote.

O garoto parecia feliz com seu amiguinho, de repente um homem surgiu entre os arbustos.

- Ah! – disse o homem. – Aqui está você.

O menino parou assustado.

- O que o senhor deseja? – perguntou.

- Este burro é meu! – disse o homem aproximando-se do garoto e tentando tomar-lhe as rédeas do animal. O menino escondeu as rédeas atrás de si.

- Dê-me logo este burro moleque. – disse o homem. – Seu pai me deve alguns dinares, ficarei com o animal por conta. Meu filho fará bom uso dele.

- O senhor não pode fazer isso. – disse o garoto. – O Sheik é meu. – o menino tentou passar pelo homem, mas ele o jogou no chão e tomou-lhe as rédeas.

O homem tentou fazer o filhote andar, mas ele não obedeceu, então ele chicoteou o burrinho. Desesperado o menino lançou-se contra o homem tentando defender seu amiguinho. Encolerizado o homem pegou o garoto pelo colarinho e lançou-o novamente ao chão levantando a mão que segurava o chicote.

Neste momento um outro chicote enrolou-se em seu pulso e ele foi puxado para trás, caindo no chão. O menino assustado olhou a figura imponente sobre o cavalo.

- Belo exemplo de coragem. – disse a mulher desconhecida. – Espancando crianças e animais.

A mulher desceu do cavalo a aproximou-se da criança, ficando entre ela e o homem.

- Agora vá. – disse a desconhecida.

O homem levantou-se e puxou sua espada. O menino saiu dali meio que engatinhando e correu para um local seguro.

- Vou enviá-la para Tártaros. – disse.

- Estou ansiosa por isso. – disse a estranha com um sorriso. Ela tirou a espada da bainha que estava em suas costas e com movimentos precisos girou-a na mão.

O homem atacou primeiro e para sua surpresa ela amparou o golpe. Ele investiu novamente, mas ela defendeu-se e ainda deu-lhe um chute no estomago. Ele curvou-se por causa da dor. Ela se afastou, e deu-lhe alguns minutos para que ele se refizesse do golpe.

- Sua filha de uma bacante. Vai pagar caro por isso. – disse o homem avançando, cheio de ódio.

Ela defendeu-se dos diversos golpes que ele tentava lhe desferir.  E no momento mais acirrado da luta, ela girou em torno de si mesma, trocou a espada de mão e decapitou o homem, antes mesmo dele perceber a manobra.

Neste exato momento, chegou uma patrulha e deu ordem de prisão para a mulher. Ela soltou a espada e levantou as mãos. Dirigiu o olhar para onde o garoto estava escondido.

Os guardas a levaram.

Após muito tempo o garoto saiu de seu esconderijo e foi para casa. Estava assustado e não conseguia esquecer a intensidade daquele olhar. Sabia que pelo resto de sua vida aqueles olhos azuis o acompanhariam.  

O burrinho ao seu lado caminhava como se nada tivesse acontecido.

 

CAPITULO II

Alguns dias depois do episódio descrito acima.

Xena e Gabrielle chegaram há um vilarejo.

- Daria qualquer coisa por um banho quente. – disse Gabrielle olhando ao redor. - Será que há alguma estalagem por aqui.

- Todo vilarejo tem uma. – disse Xena. – Vamos procurar.

Elas seguiram em frente, algumas pessoas olhavam-nas curiosas.

- Será mais uma encrenqueira? – disse um homem em voz baixa para seu companheiro observando Xena e Gabrielle passarem.

- Não sei porque, mas não estou gostando muito daqui. – disse Gabrielle.

- É! Não parecem muito amistosos. – respondeu Xena. Elas aproximaram-se de um estabelecimento. Xena amarrou as rédeas de Argo e acariciou-lhe o focinho antes de entrarem na estalagem.

Gabrielle olhou ao redor e escolheu uma mesa próxima, enquanto isso Xena foi até o balcão e pediu a refeição.

Elas estavam comendo tranqüilas sob o olhar inquisidor dos freqüentadores do local.

- Porque nos olham tanto? – perguntou Gabrielle.

- Não sei! Mas está começando a me incomodar. – respondeu Xena devolvendo o olhar de poucos amigos para um homem que a estava encarando.

- Devíamos executá-la logo e acabar com isso. – disse um homem que conversava com outro próximo ao balcão. Ao ouvir a palavra execução Xena interessou-se a começou a prestar a atenção.

- Sem julgamento? – disse o outro. – Não somos bárbaros.

- Não sei para que julgamento. Filius e seus homens viram tudo, ela decapitou Garon, não havia mais ninguém no local.

- Mesmo assim, teremos um julgamento. – disse o homem levando sua taça a boca. – Ao menos servirá de espetáculo para o povo.

Xena levantou-se e aproximou-se dos homens que conversavam. Gabrielle virou-se para acompanhar a conversa.

- Desculpe, mas do que estão falando? – perguntou.

Um dos homens olhou-a de cima abaixo.

- Uma forasteira que apareceu por aqui e matou um de nossos amigos. O pobre homem foi decapitado. – respondeu o homem que segurava a taça. 

- Qual o nome desta forasteira? – perguntou Xena desconfiada de que conhecia a acusada.

- Não nos interessa! – respondeu o outro homem. – Não disse uma palavra desde que foi presa.

Xena afastou-se dos homens após um gesto sutil com a cabeça.

- Vamos! – disse ao passar por Gabrielle

- Ei! Espere, ainda não acabei. – respondeu a jovem levantando-se e saindo atrás de Xena ainda com uma coxa de frango nas mãos. – O que aconteceu? Aonde vamos?

- Quem você conhece que decapita seus adversários e fala tanto quanto uma porta?

Gabrielle parou enquanto Xena prosseguia. Ela pensou por uns instantes e saiu correndo atrás de Xena.

- Sophia? – perguntou, ainda segurando o frango.

- Livre-se disso! – ordenou Xena ao ver o alimento na mão de Gabrielle.

Gabrielle olhou para os lados procurando um lugar para jogar fora a coxa de frango. Havia uns cestos próximos e ela jogou atrás de um deles e limpou a mão na saia.

Elas entraram em um pequeno prédio de dois andares. Em poucos minutos elas souberam de todos os fatos que conduziram a acusada a aquela situação e obtiveram permissão para vê-la.

 

CAPÍTULO III

A cela era escura, iluminada apenas por uma pequena janela que dava para o pátio onde homens preparavam tudo para o julgamento e execução.

Sophia estava sentada próximo a janela, parecia observar o trabalho dos homens, mas na verdade seus pensamentos estavam bem longe dali. A cela era úmida e tinha cheiro de mofo.

- Não demorem muito! – disse o guarda que as acompanhava. Ele afastou-se para dar-lhes um pouco de privacidade.

Sophia não se moveu.

- Toda esta confusão por causa de um burrinho? – perguntou Xena sem entender. – O que pensa que está fazendo?

Sophia virou o rosto em direção a Xena.

- Que agradável surpresa! – disse com um sorriso e levantando-se. – Não pensava em encontrá-la novamente, pelo menos nesta vida.

- Isso não é brincadeira Sophia. Eles vão matá-la. – disse Xena.

- É o que parece. – disse tranqüilamente. - Ah! O Grillo Falante também está aqui. O que houve a Xena finalmente cortou sua língua.

- Não! – respondeu Gabrielle. Não sabia porque, mas Sophia a deixava irritada. – O que aconteceu?

- Vocês já sabem! – disse Sophia afastando-se das grades e sentando-se novamente.

- Isso não é motivo. – disse Xena. – Quero ajudá-la, mas precisa me contar o que aconteceu.

Sophia voltou sua atenção para o trabalho dos homens lá fora e demorou algum tempo para responder.

- Não pedi sua ajuda. – disse por fim.

Xena fitou-a por uns instantes.

- Não vou permitir que faça isso. – disse saindo.

 

CAPÌTULO IV

Xena saiu do prédio e ficou alguns minutos pensando.

- Perdi alguma coisa. – disse Gabrielle. – O que ela quer fazer?

- Está se deixando matar. – disse Xena.

- Eu disse! Essa sua amiga é muito estranha. – Gabrielle andava ao redor de Xena. – Talvez ela esteja protegendo alguém.

Xena olhou-a como se pensasse nesta possibilidade.

- Vamos! – disse.

- Aonde vamos. – perguntou Gabrielle caminhando rápido atrás de Xena.

- Falar com o magistrado.

Em alguns minutos elas estavam na residência do homem que iria pronunciar a execução de Sophia.

- Eu nada posso fazer por sua amiga. – disse o homem. – Ela foi pega em flagrante.  Matou Garon de uma forma brutal por causa de um burrinho.

- Essa é a versão dos homens que há prenderam. – disse Xena. – Conheço essa mulher, ela não mataria sem um motivo.

- Um bom motivo. – enfatizou Gabrielle que estava um pouco atrás de Xena.

- Convença-a a falar! – disse o homem. – Se ela contar sua versão dos fatos, talvez eu possa fazer alguma coisa. Mas veja, sua amiga deixou uma mulher viúva e uma criança aleijada órfã de pai. O povo quer justiça. Mesmo que ela fale alguma coisa, sua punição será severa.

Xena não disse nada. Apenas virou-se a saiu.

- E agora? – perguntou Gabrielle.

- Me espere aqui! – disse montando em Argo.

Xena saiu a todo galope para fora do vilarejo.

- E o que eu faço? – perguntou Gabrielle mais para si.

Ela ficou alguns minutos parada pensando.

- “Convença-a a falar” – disse relembrando a conversa com o magistrado. – É! Acho que isso eu posso fazer. – completou satisfeita consigo mesma.

 

CAPÍTULO V

Xena examinou atentamente o local onde Sophia foi presa.

Já havia passado alguns dias, mas por sorte ninguém havia utilizado aquela estrada e não havia chovido. Ainda havia muitas evidências.

Não demorou muito para ela descobrir que havia outra pessoa na cena do suposto crime, pegadas pequenas, de uma criança.

Xena olhou para frente, a direção que a criança havia tomado, acompanhada pelo burrinho.

Ela montou em Argo e seguiu em frente. Ela viu uma pequena casa ao longe. Atrás da mesma uma pequena e minguada plantação. Alguns animais pastavam um pouco mais longe.

Ela desceu do cavalo e dirigiu-se para casa a pé. Ao aproximar-se da porta viu próximo ao celeiro um garoto de oito ou nove anos acariciando o focinho de um burrinho branco. Ela sorriu para si mesma satisfeita com sua descoberta.

- O que deseja aqui? – perguntou um homem aproximando-se. Ele segurava um ancinho e parecia querer defender-se com ele.

- Vim falar com seu filho. – respondeu Xena.

- O que quer com ele? – perguntou desconfiado.

Uma mulher jovem aproximou-se. Ficando um pouco atrás do homem.

- Meu nome é Xena. – disse. – Minha amiga está prestes a ser executada e eu acredito que seu filho pode ajudá-la.

- Não envolva nosso menino nesta história. – disse a mulher.

- Rumal não tem nada a ver com isso. – disse o homem.

- Aquele é o burrinho não é? – perguntou Xena. Ela percebeu que o garoto os observava.

- Sim é ele. – disse o homem de modo brusco. – Já explicamos isso ao magistrado. O garoto o deixou solto e ele fugiu.

- Há pegadas de seu filho no local, ele estava lá. – disse Xena.

- Ele esteve lá depois.- disse a mulher. – Estava procurando o Sheik.

- Posso falar com ele? – perguntou Xena.

- Não! – disse o homem enfaticamente. – Deixe-nos em paz ou farei uma reclamação ao Magistrado contra você.

- Uma mulher inocente vai ser executada amanhã. – disse Xena.

- Sinto pela sua amiga. – disse a mulher. – Mas não podemos fazer nada.

Xena olhou em direção ao garoto.

- Está certo.

Xena afastou-se da casa e montou em Argo, antes de partir olhou em direção a criança.

 

CAPÍTULO VI

Sophia permanecia sentada observando os homens trabalhando no local onde seria executada, quando Gabrielle chegou trazendo um embrulho.

- Trouxe para você! – disse aproximando-se das grades. Sophia continuou em silêncio. – Tem bolo de milho, frango assado, queijo, maçãs... – disse segurando a fruta e mostrando - ...e vinho! – completou com um breve sorriso. – Trouxe seu manto também. Ele é tão quentinho, macio. – disse encostando a manto no rosto sentindo sua suavidade.

Sophia continuou em silêncio. Gabrielle a observava imaginando como faria para fazê-la falar.

- Bem, se não tem fome eu tenho! – disse pegando a maçã e sentando-se próximo a grade com o prato no colo.

Ela comeu a maçã em silêncio enquanto pensava.

- Está com medo? – perguntou.

Silêncio.

- Xena tem razão! – disse Gabrielle. – Uma porta é bem mais eloqüente. – ela encostou-se na grade tranqüilamente, dando a entender que ficaria ali eternamente se fosse necessário.

 - Foi ela que te mandou aqui? - perguntou Sophia referindo-se a Xena, quando Gabrielle já estava quase dando sua missão por fracassada.

 - Não! – respondeu Gabrielle – Você está protegendo alguém não é?

 - Não! Agora vá! – disse – Leve a comida, mas deixe o manto e o vinho.

 Por longo tempo Gabrielle ficou em silêncio, pensando. Sophia vez por outra a olhava.

 - Quer encontrá-los. – disse Gabrielle em voz baixa. – Quer morrer para encontrar seu marido e seu filho.

 - Menina esperta! – disse Sophia de modo seco.

 - Não seria mais fácil matar-se? – perguntou.

 - Um guerreiro não se mata. Xena não lhe ensinou isso. – perguntou Sophia.

 - E nem se deixa matar. – respondeu Gabrielle ligeiramente mais animada. – Um guerreiro luta bravamente, e morre lutando.  A Xena jamais se deixaria matar.

 - É! Acho que tem razão. – disse Sophia após alguns minutos de reflexão. – Mas isso não muda nada. 

 - Se você contar o que aconteceu, talvez a Xena possa mudar o final dessa história. – disse Gabrielle.

 - Jogue uma maçã! – disse Sophia. Gabrielle jogou a fruta e ela pegou-a sem esforço.

 Sophia começou a comer a maçã. Seu rosto voltado para o pátio. Os homens estavam concluindo seu trabalho, o dia estava chegando ao final.

 - Gostaria de um dia sentir algo assim! – disse Gabrielle como se conversasse consigo mesma. – Um amor tão grande, tão profundo que me tirasse completamente o sentido da vida.

 - Não fale bobagens! – disse Sophia.

 - É uma pena que Cassius tenha morrido sem saber a verdade. – disse Gabrielle amarrando o pano que cobria o prato, como se fosse partir.

 - Do que está falando agora? – perguntou Sophia ligeiramente curiosa.

 Gabrielle se levantou, arrumou sua roupa e olhou diretamente para Sophia.

 - Que você é uma covarde. – disse. – Coitado! Passou anos, casado com uma mulher que ele pensava ser uma grande guerreira, o que diria ele se a visse agora? Acho que não diria nada, estaria muito decepcionado para falar.

 Em fração de segundos Sophia estava junto a grade e segurava Gabrielle pela garganta.

 - Se disser mais uma palavra arranco sua língua! – disse com raiva.  – Agora vá! – completou empurrando a mocinha.

 Gabrielle massageou o pescoço, mas não saiu, no entanto manteve-se longe da grade.

 - E o que foi isso, se não mais um ato covarde. – disse.

 - Queria ver você dizer isso sem essas grades entre nós. – disse Sophia. – E sem Xena por perto para protegê-la.

 - Conte o que aconteceu e quando estiver livre verá se não tenho coragem de repetir tudo o que disse e falar muito mais.

 Sophia riu.

 - Você é boa. Mas não vai funcionar. – disse sentando-se novamente. – Pode falar o que quiser, não vou cair no seu joguinho.

 - Não é um jogo! É o que penso! E quer saber não me importo se você vai morrer ou não. – disse Gabrielle.

 - Ótimo! Então vá embora.

 - A Xena está lá fora tentando salvar sua vida. Será que isso não significa nada? – perguntou Gabrielle.

 - Eu já disse, não pedi ajuda. – disse Sophia. – O que quer de mim Gabrielle? O que espera de mim? Que diga que estava protegendo alguém? Que matei em legitima defesa? Que peça perdão? Estou no caminho inverso da Xena. Não interessa o motivo, eu gostei de matar aquele homem, foi divertido. Você nunca matou não é? Então não sabe como é boa a sensação de saber que por um breve momento você tem o maior poder do mundo nas mãos, o da vida. Quando você olha diretamente nos olhos de seu oponente e vê o medo em seus olhos, o entendimento de que a morte é inevitável. E você, somente você está em condições de mudar este destino.

 - Não acredito no que está dizendo – disse Gabrielle. – A Xena sabe julgar bem as pessoas, ela não seria sua amiga se você fosse realmente esse monstro.

 Sophia riu, novamente. De um modo cínico e enigmático, como se zombasse de Gabrielle e de sua inocência.

 - Acredita mesmo que ela mudou, não é? – perguntou com um sorriso. – Pois eu lhe digo, ela não mudou! Ainda é a mesma Xena de anos atrás, a mesma Xena implacável que conheci. Ela apenas mudou seu objetivo e está se permitindo sentir coisas que não sentia antes, enxergar o mundo com o coração e não apenas vê-lo. Mas a raiva, a dor, ainda continuam lá e se alguém mexer na ferida, que os Deuses tenham piedade.

 Gabrielle olhou-a friamente, tentava aparentar uma calma que não sentia. Estava confusa.

 - Isso não é verdade. – disse Gabrielle, mas não parecia muito convicta.

 Sophia sorriu.

 - Saia daqui! – disse Sophia. Ela retornou ao banco próximo a janela e sentou-se com os joelhos para cima, envolvendo-os com os braços.

 Gabrielle sabia que a conversa estava encerrada.

 Sophia viu quando ela saiu, mas não mexeu um músculo. Já não tinha muita certeza do que estava fazendo ou porque. Aquela menina tinha o dom de falar diretamente a sua alma. Seria tão fácil amá-la, pensou.

 

CAPÍTULO V

 O menino estava distraído no celeiro, estava sobre o feno brincando com um animalzinho de madeira. Xena aproximou-se sem que ele percebesse. Quando ele se seu conta ela estava parada a sua frente.

 - Não! – disse Xena ao perceber que ele queria correr. – Não tenha medo, não vou machucá-lo.

 O garoto olhou em direção a porta, mas não se moveu sabia que não conseguiria passar por ela.

 - Você estava lá não é? - perguntou Xena abaixando-se para ficar frente a frente com o garoto. – Você viu o que aconteceu.

 - Quando cheguei já estava tudo acabado.

 - Eu sei que estava lá. Vi suas pegadas. – disse Xena. – Se você não contar o que aconteceu minha amiga será apedrejada até morte. Você é muito jovem para carregar uma culpa tão grande.

 Ela percebeu a inquietação da criança, suas mãos remexiam o brinquedo junto ao corpo.

 - Nada de mal vai acontecer com você! – disse Xena colocando sua mão sobre a dele. – Eu prometo.

 - Eu não vi nada! Eu não sei de nada. – disse o garoto assustado.

 Xena observou-o por alguns instantes. Depois se levantou.

 - Faça o que é certo agora. – disse Xena quase como se fosse uma ordem. – A culpa é um fardo muito pesado para se carregar, e você já está começando a sentir o seu peso.

 Ela saiu deixando o garoto sozinho com seus pensamentos. Ele fechou os olhos tentando evitar as lágrimas. Colocou a cabeça entre as mãozinhas, queria esquecer aquilo, queria esquecer o modo como aquela mulher o olhou.

 Seu pai encontrou-o naquele estado.

 - O que foi? – perguntou o homem aproximando-se. – O que houve Rumal?

 - Eles vão matá-la e ela estava só me protegendo. – disse o garoto chorando.

 - Se você contar o que aconteceu, eu serei punido. O magistrado cobrará a dívida e eu não tenho como pagá-la. – disse. – Filho eu não posso ser preso. É isso o que quer? Que seu pai acabe na prisão?

 - Não! – disse o menino em voz baixa. – Mas e a mulher?

 - É uma forasteira, já deve ter matado muitas pessoas. – disse. – Não deve se preocupar com ela, estará pagando por outras mortes.

 CAPÍTULO VI

 Gabrielle estava sentada em um banco na frente da taberna quando Xena chegou. Ela sentou-se próximo a Gabrielle, parecia cansada e desanimada.

 - Ela está protegendo um garoto. – disse Xena.

 - Bom! Ele fala a verdade e tudo fica certo. – disse como se não ligasse para o que estava acontecendo. Xena olhou-a, parecia introspectiva, triste.

 - Ele não vai falar, também está protegendo alguém, provavelmente o pai. – disse Xena.

 - E o que vai fazer? – perguntou Gabrielle.

 - Não sei! Mas não pretendo que deixar que a apedrejem. O que há com você? – perguntou finalmente.

 - Estive com sua amiga! – disse Gabrielle, como se aquilo explicasse tudo.

 Xena podia imaginar o que havia acontecido. Gabrielle havia dito o que quis e ouviu o que não queria.

 - Seja lá o que for que Sophia tenha dito, não leve a sério, ela apenas queria magoá-la. – disse Xena de modo conciliador.

 - Porque? Eu não fiz nada contra ela. Ao contrário queria ajudá-la.

 - Gabrielle, Sophia está magoada, sozinha e muito assustada. – disse Xena. – Ela não quer que as pessoas percebam.

 - Ela disse coisas tão horríveis. – disse Gabrielle. – Eu não entendo.

 Xena sorriu e acariciou os cabelos de Gabrielle.

 - Ela disse que você não mudou! – disse Gabrielle olhando diretamente para Xena. – Que é a mesma pessoa que ela conheceu há alguns anos.

 - E não mudei! – disse Xena após alguns minutos de silêncio. – Lembra-se do lago e da pedra, ela ainda está lá. Venha! Vamos procurar um lugar para passar a noite.

 Gabrielle se levantou meio desanimada.

 - Com essa confusão toda acabei ficando seu meu banho! – disse tentando fazer graça.

 - Prometo que quando isso acabar poderá ficar o dia todo dentro de uma tina de água quente.

 - Promessa é dívida, e eu vou cobrar. – disse Gabrielle seguindo-a.

 - Vamos!

 CAPÍTULO VII

 Aquele seria um dia muito agitado. Todas as pessoas se dirigiam para o pátio onde seria realizado o julgamento e a conseqüente execução de Sophia.

 Xena e Gabrielle observavam as pessoas chegando, o modo como se comportavam.

 - Isto está parecendo um circo! – disse Gabrielle. – Ninguém parece se importar.

 O Magistrado subiu alguns degraus, parecia tão imponente, tão senhor de si e da verdade. Xena olhou-o com desprezo.

 - Silêncio! – disse o homem em voz alta. – Isso não é uma festa.

 As pessoas acomodaram-se. Xena olhou ao redor procurando a família do menino. Mas não os viu.

 - Tragam a ré. – ordenou.

 Quatro guardas entraram escoltando Sophia que tinha as mãos amarradas às costas. Um dos homens colocou a mão em seu braço para ajudá-la a subir os lances da escada, mas ela afastou-se.

 - Vamos aos fatos e acabar logo com isso. – disse o Magistrado. – Fílius conte o que viu.

 O soldado subiu o estrado e começou a falar.

 - Estávamos fazendo a patrulha habitual quando ouvimos sons de espada. Nos dirigimos ao local de onde vinha o som, chegamos a tempo de ver a cabeça do pobre Garon rolar ao chão. – Fílius fez uma pequena pausa. – Não havia ninguém no local, não houve roubo, foi uma execução.

 - A acusada tem alguma coisa a dizer em sua defesa? – perguntou o Magistrado dirigindo-se a Sophia.

 Ela olhou para a multidão, Xena percebeu que ela parecia procurar alguém.

 - Alguém tem algo a dizer em defesa desta mulher? – perguntou o Magistrado.

 Houve um grande silêncio entre a multidão.

 - Eu tenho! – disse Gabrielle para surpresa de Xena e Sophia.

 Gabrielle se aproximou do pequeno palanque, mas não subiu.

 - Conheci Sophia há pouco tempo, mas sei que ela é uma pessoa boa, mãe e esposa dedicada, há vi lutando para salvar a vida de pessoas que nem conhecia, ela me ajudou quando eu lutava com dois homens armados com espadas. – disse Gabrielle. – Uma pessoa assim não mata sem um motivo. – ela ficou alguns minutos em silêncio, não sabia mais o que dizer. Procurou dentro de si as palavras corretas, mas o fato era que não tinha mais argumentos que servissem como uma defesa sólida. Então ela olhou para a multidão, depois para o Magistrado e disse simplesmente. – Não a matem, por favor.

 Sophia sentiu as lágrimas aflorarem em seus olhos. Aquelas simples palavras tinham sido sinceras. Gabrielle e Sophia se olharam. Ela acenou discretamente para Gabrielle agradecendo.

 - Foi muito bom! – disse Xena quando Gabrielle retornou para o seu lado.

 - Mas não o suficiente. – disse Gabrielle desanimada.

 Um homem saiu do meio da multidão acompanhado de uma mulher e uma criança. Sophia olhou para o garotinho apoiado em uma tosca muleta, viu sua perna balançando com o pezinho torto.

 - Esta viúva de Garon e seu filho! – disse o homem. – Queremos justiça.

 - Justiça! – gritaram todos.

 Os guardas conduziram Sophia até um poste e amarraram suas mãos e pés.

 - Que assim seja! – disse o Magistrado. Ele saiu do palanque no momento que a primeira pedra atingiu Sophia na cabeça. Ela não emitiu um único som.

 Neste momento Xena correu para frente da multidão.

 - Ninguém vai executar está mulher! – disse desembainhando a  espada. Gabrielle ficou ao seu lado com o seu bastão em posição.

 - Pare com isso Xena! Não vale a pena. – disse Sophia. – Deixe que acabem logo com isso.

 - Prendam estas mulheres. – gritou o Magistrado.

 Os guardas desembainharam suas espadas e aproximaram-se de Xena e Gabrielle. Eram uns dez homens.

 Eles começaram a lutar.

 Gabrielle derrubou dois com seu bastão, enquanto Xena lutava com outros três homens, sem dificuldade ela deixou os três fora de combate.

 Agora com duas espadas ela lutava com os demais.

 Foi quando percebeu um pequeno pelotão passando pelo arco de pedra. Ela e Gabrielle lutavam bravamente. Sophia assistia a tudo sem nada poder fazer. Lembrou-se da promessa que havia feito a Xena, que ela não morreria pelas suas mãos ou pelos seus atos. O que estava fazendo se sua vida? Pensou.

 Quando a situação estava chegando ao limite, um garoto gritou entre a multidão.

 - Parem! – Rumal abriu caminho entre a multidão, seu pai vinha logo atrás, parecia cansado e um pouco assustado.

 O Magistrado ergueu a mão e os homens pararam o ataque. Todos olhavam para a criança. O menino parecia assustado com a multidão.

 - Fale filho! – disse o Magistrado aproximando-se da criança.

 - Ela estava me defendendo. – disse. – Garon queria me tomar o Sheik, ele me jogou no chão e bateu nele. Foi quando ele apareceu, acho que ela não queria lutar, mas ele sacou a espada e ...

 Houve um grande rumor entre os presentes.

 - Porque não contou isso antes? – perguntou o Magistrado.

 O menino olhou para o pai como se pedisse desculpas.

 - Meu pai devia a Garon. Disse que seria preso se não pagasse.

 - Que confusão! – disse Magistrado. – Libertem essa mulher. – um dos homens soltou as cordas que prendiam Sophia, mas ela permaneceu onde estava. – E quanto ao senhor ... – começou a dizer para o pai de Rumal.

 - Senhor espere! – disse Gabrielle aproximando-se do Magistrado e cochichando algo em seu ouvido.

 - Acho que é justo. – disse o homem para ela. – E quanto ao senhor, pelos próximos três anos deverá providenciar o sustento para a viúva e o filho de Garon.

 - Mas senhor! Mal tenho como sustentar minha família. – disse o homem.

 - É isso ou a prisão. – disse o Magistrado.

 - Está certo! – disse o pai de Rumal, mudando de idéia rapidamente. – Cuidarei das necessidades de ambos.

 - Caso encerrado! – disse o Magistrado já saindo. – Que confusão. – completou resmungando.

 

CAPÍTULO VIII

 Um soldado aproximou-se do palanque trazendo o cavalo de Sophia e suas coisas. Ela recebeu seu cinto com a espada e as rédeas do cavalo sem uma única palavra.

 Xena e Gabrielle se aproximaram dela.

 - As duas parecem bem contentinhas. – disse enquanto arrumava a cela do cavalo.

 - Não vai nos agradecer? – perguntou Gabrielle. Xena deu-lhe uma cotovelada.

 - Ai! Doeu! – disse Gabrielle afastando-se.

 - Agora que estou deste lado, você não teria algo para me dizer? – perguntou Sophia para Gabrielle.

 - Acho melhor ficar quieta.  – disse Gabrielle.

 Sophia sorriu de um modo franco e acolhedor, seus olhos brilharam e por um breve instante Gabrielle pôde ver como Sophia era antes de Callisto matar sua família.

 - Obrigado! – disse para Xena.  – A vocês duas. É confortante saber que alguém se importa.                        

 - É para isso que os amigos servem! – disse Xena.

 Garon e a família de Filius passaram próximos a elas. Sophia notou que o garotinho fitou-a intensamente.

 - Espere! – chamou o menino.

 Os três pararam. A viúva olhou Sophia com cara de poucos amigos.

 Ela se aproximou mais e abaixou-se sobre um dos joelhos, ficando da altura do garoto.

 - Pegue! – disse estendendo para ele uma pequena bolsa de moedas. – Não trará seu pai de volta, mas ajudará um pouco nos primeiros meses.

 - Você matou meu pai! – disse o garoto.

 Sophia viu nos olhos da criança a dor que lhe causara, desejou poder voltar no tempo, mas não era possível. Ali estava mais uma pequena vítima da grande tragédia que era o mundo. Não mentira a Gabrielle, havia matado o homem por prazer, ela podia ter evitado aquele desfecho. Sua raiva começava a fazer vítimas.

 - Quando se empunha uma espada, deve-se estar disposto a matar ou morrer. Seu pai sabia disso! – disse olhando diretamente em seus olhos. Ela pegou as mãos do garoto e depositou a bolsa sobre elas, fechando os seus dedinhos.

 Ela levantou-se e montou em seu cavalo.

 - Acho que entendo o que disse sobre “os Grilos Falantes” serem boa companhia. – disse para Xena.

 - Mantém a gente na linha. – disse Xena com um sorriso.

 - É! – disse Sophia. – Peço desculpas por toda essa confusão.

 - Tudo bem! – respondeu Xena. – Só não faça isso de novo.

 Após um breve silêncio. Sophia disse.

 - Serei mais eficiente da próxima vez. – disse Sophia, incitando o cavalo. Ela partiu antes que Xena ou Gabrielle dissessem algo.

 Xena olhou-a de um modo sério.

 - Você também anda me chamando de “Grilo Falante”? – perguntou Gabrielle indignada.

 - Vamos! Acho que lhe devo um banho quente. – disse Xena colocando a mão sobre seu ombro.

 - Odeio esse apelido. – disse Gabrielle.

 Antes de partirem Xena fitou a estrada por onde Sophia seguiu. Desejava de todo coração que ela ficasse bem.

 

 

FIM

 

Clique no Sapinho para voltar no índice.

 

Hosted by www.Geocities.ws

1