O Legado de Callisto - Parte I

Conto ambientado no universo ficcional da série:

  Xena – Warrior Princess

  

As personagens: Xena, Gabrielle são propriedade da Universal Pictures, não pretendendo o autor infringir os seus direitos autorias.

 Autora: Regina Planella

 

CAPÍTULO I

 

Xena e Gabrielle caminhavam calmamente pela estrada:

 - Mais meia hora e chegaremos a Briseis. – disse Xena, segurando as rédeas de Argo, Gabrielle ao seu lado usava seu bastão como se fosse um cajado, seus passos denotavam visível cansaço.

 - Já não era sem tempo, parece que não tenho mais pernas. – respondeu desanimada. – Fale-me de Sophia. – pediu Gabrielle.

 Por longos minutos caminharam em silêncio, Xena estava pensativa, perdida em suas próprias lembranças, não parecia muito disposta a conversar sobre aquele assunto.

 - Ela se parece muito com você. – disse quando Gabrielle já pensava que havia esquecido.

 - É!? Parece como? – perguntou Gabrielle curiosa.

 - O mesmo entusiasmo, a mesma alegria em viver. – disse Xena com um leve sorriso – E tem uma linda história ...

 - Ah! Conta! – pediu Gabrielle que adorava ouvir e contar histórias.

 - Nem sempre ela foi uma rainha. – Xena começou a contar. – Cássius e seus homens a seqüestraram junto com outras jovenzinhas, após saquear e queimar sua aldeia. Uma noite os homens resolveram se divertir com as garotas, Cássius interferiu, não queria que eles estragassem a mercadoria.

 - Xena! – repreendeu Gabrielle. – Que jeito horrível de falar.

 - Você quer ouvir ou não? – perguntou Xena impaciente.

 - Continue. – disse Gabrielle.

 - No momento em que ele a viu se apaixonou por ela.  – continuou a contar enquanto caminhavam. – As outras moças foram vendidas e Sophia se tornou sua protegida, ele lhe ensinou tudo o que sabia, juntos conquistaram vilas e cidades, mas ela nunca gostou daquela vida, e Cássius sabia, então um dia eles chegaram a este vale e ela ficou encantada com o lugar, a cidadela era governada por um Rei corrupto e impiedoso, Cássius e seu exército invadiram a cidadela e depuseram o Rei, no início a população teve medo, acharam que a vida iria ficar bem mais difícil, mas ao contrário do que esperavam, Cássius e Sophia eram justos e trouxeram progresso para a cidadela, não cobravam altos impostos, guardavam bem a cidade e em pouco tempo esqueceram quem eles eram.  Eles se casaram e deixaram a vida de conquistas e guerras para trás.

 - É uma bonita história! – disse Gabrielle. – Sophia o transformou com seu amor. Agora entendo porque gosta tanto dela.

 - Hum! São boas pessoas, só isso. – disse Xena.

 

 Quando se aproximaram dos muros da cidadela, Xena imediatamente percebeu que havia algo de errado, o local parecia completamente  deserto e abandonado. Os portões estavam quebrados.

 Xena e Gabrielle cruzaram a entrada e o único som que ouviam era o som dos cascos de Argo contra o chão de pedras.

 As casas estavam queimadas, abandonadas! Em volta, tudo o que se via era destruição.

 - Não parece tão lindo e aconchegante como você disse. – falou Gabrielle, foi então que percebeu a expressão de Xena.

 Ela não conseguia acreditar no que via, as imagens de sua lembrança contrastavam terrivelmente com a realidade. A cidade outrora viva, alegre e colorida estava reduzida a um monte de escombros. Sentiu como se uma parte de si tivesse sido destruída também.

 Andaram mais um pouco, Xena andava cautelosamente, olhava tudo  como se quisesse absorver cada detalhe, foi então que ouviram um barulho. Xena virou-se rapidamente sacando a espada e Gabrielle ao seu lado também ficou em posição de ataque com seu cajado.

 Um grupo maltrapilho aproximou-se, eram liderados por um homem perneta e uma horrível cicatriz no rosto, mas mesmo assim Xena reconhceu-o.

 - Dionísio? – perguntou incrédula.

 - O que veio fazer aqui Xena? – perguntou de modo agressivo. – Ver o quanto restou de seus atos? Ou terminar o serviço?

 - Do que está falando? – perguntou Xena sem entender.

 - Onde está seu exército? – perguntou novamente, olhando ao redor.

 - O que aconteceu aqui Dionísio? – perguntou Xena abaixando a arma, Gabrielle seguiu-lhe o movimento, mas não estavam de todo tranqüilas.

 - Termine logo com o que começou! – disse Dionísio aproximando-se. – Não ofereceremos resistência alguma, como vê só restaram velhos e aleijados. – havia ressentimento em sua voz. – Acho que isso deve satisfazer seu desejo brutal de causar dor e sofrimento.

 - Não tenho a menor idéia do que está falando. – disse Xena dando um passo a frente.

 - Cínica! Traidora! – disse Dionísio com escárnio. – Por todos os deuses, como pode ser tão dissimulada, a recebemos aqui como a uma irmã, salvamos sua vida. Como pode? – era possível ver o ódio nos olhos de Dionísio, e sua frustração também.  - Quisera poder pegar uma espada e juro que a mataria aí mesmo. – disse Dionísio.

 - Xena está falando a verdade! – disse Gabrielle. – Ela não ataca mais pessoas inocentes.

 Incrédula, Xena não disse mais uma palavra, conhecia aquela expressão. Sabia que qualquer argumento era inútil.

 - Vamos Gabrielle! – disse Xena virando as costas para o grupo e caminhando em direção ao que era antigamente um pequeno palácio.

Dionísio e os outros ficaram um tempo observando-as.

 Não havia sobrado muita coisa do palácio. Portas e janelas quebradas, pedaços de móveis espalhados por todos os lados, cortinas rasgadas. Xena andou por todos os lados lembrando-se dos dias felizes que havia passado ali. Gabrielle se afastou da amiga, entendia que ela queria ficar sozinha com suas lembranças. Resolveu procurar alguma coisa para comerem e descobrir o que havia acontecido.

 Muitas horas haviam se passado e já era quase noite quando Gabrielle retornou. Havia encontrado algumas frutas, pensou em conseguir um pedaço de pão, mas não teve coragem de pedir ou mesmo comprar, depois de descobrir o que acontecera ao povoado, que agora estava resumido há umas vinte pessoas, todas idosas, aleijadas, doentes e vivendo em extrema pobreza.

 Ela procurou Xena pelo palácio. Encontrou-a debruçada na sacada de um dos quartos. Ela olhou ao redor, não havia nada a não ser escombros de incêndio.

 - Tudo bem? – perguntou aproximando-se de Xena. – Quer conversar?

 - Callisto conseguiu! – disse em voz baixa.

 - Como sabe que foi ela? – perguntou Gabrielle, não tão surpresa.

 – Foi o que ela disse. Antes de matar-me iria destruir minha alma. – disse Xena. – Como poderia fazer isso, a não ser destruindo tudo o que prezo.  

 - Porque gostava tanto daqui? – perguntou  Gabrielle.

 - As pessoas que habitavam este palácio, eram pessoas boas, salvaram minha vida, sem pedir nada em troca. Passei quase dois meses aqui, neste mesmo quarto, nunca houve uma palavra de censura, um olhar de ódio, medo ou raiva, ao contrário a impressão que dava era que tudo e todos estavam aqui apenas para que me sentisse bem e feliz. Não era uma coisa forçada, gostavam de mim como eu era. Foi como encontrar o paraíso no meio do inferno. As pessoas que habitavam esta casa, esta cidade, eram felizes Gabrielle, riam, brincavam, dançavam. – ela fez uma pausa lembrando-se das noites em que se reuniam na praça principal. As crianças correndo, comida farta. Uma noite em particular em que ela entrara na roda de dança com Dionísio. O sorriso tranqüilo e acolhedor de Cassius e Sophia.

 - Foi aqui que começou a perceber que o que fazia antes era errado? – perguntou Gabrielle.

 - Não exatamente. – respondeu Xena.

 - O que pretende fazer? – perguntou Gabrielle.

 - Descobrir o que aconteceu. – disse Xena.

 - Isso eu já sei. – respondeu Gabrielle. – Callisto invadiu a cidadela, queimando e matando todos. Houve uma grande batalha, Callisto matou Cassius e seu pequeno herdeiro.

 - Herdeiro? – perguntou Xena surpresa.

 - Um garotinho de três anos. – disse Gabrielle. – Todos que tinham condições de empunhar uma espada ou defender-se de algum modo participaram. Cassius percebeu quando você, quero dizer Callisto foi em direção ao palácio, ele seguiu-a e ela o matou e ao bebê. O palácio foi o único lugar que eles pouparam. Quando partiram em retirada, toda a cidade estava destruída, houve poucos sobreviventes.– Gabrielle fez uma pausa, pensando se não seria melhor poupar a amiga dos detalhes.

 - Sophia? – perguntou Xena.

 - Xena ...-  começou a dizer Gabrielle.

 - O que aconteceu com ela? – perguntou novamente.

 - Foi encontrada junto ao corpo do marido e do filho. Ela não disse uma palavra, parecia em choque. Haviam muitas pessoas feridas e precisando de ajuda e não lhe deram a devida atenção. Ao amanhecer ela ateou fogo ao castelo e partiu. Não disse uma palavra com ninguém, não olhou para trás, simplesmente partiu. 

 Após um longo silêncio, Xena atirou uma pedra contra a parede com toda força. Gabrielle viu raiva em seus olhos, mais do que raiva, algo que beirava a fúria.

 Com passos rápidos saiu do cômodo deixando Gabrielle sozinha.

 Xena estava na torre do palácio. Seus pensamentos estavam muito longe, há anos atrás.

 Ela havia sido ferida em batalha, mal se lembrava de como havia acontecido, capturada ela conseguiu fugir, mas não foi longe por causa dos vários ferimentos.

 Quando se deu conta estava deitada em um quarto estranho, sentia muitas dores e frio.

 - Daqui a pouco se sentirá melhor! – disse uma moça de cabelos castanhos escuros e olhos azuis como as águas do oceano.

 - Onde estou? – perguntou com dificuldade.

 - Briseis! – disse a moça. – Sou Sophia. Agora procure descansar, já cuidamos dos machucados. Uma das flechas foi embebida em veneno.

 - Como vim parar aqui? – perguntou com dificuldade.

 - Nossos caçadores a encontraram. – disse – Xena, procure descansar, perdeu muito sangue e está muito fraca.

 Por dias ela lutou contra a morte, dormia um sono agitado entrecortado por dores e delírios de morte causados pela febre alta. Mas lembrava-se de que sempre  havia uma moça cuidando dela.

 Uma manhã ela acordou se sentindo fraca, mas lúcida. A febre que consumira seu corpo durante dias finalmente havia cedido.

 - Bom dia! – disse Sophia entrando no quarto com um sorriso.

 Xena olhou-a meio desconfiada e tentou levantar-se, mas sentiu uma dor horrível na altura das costelas e no abdômen.

 - Calma! – disse Sophia aproximando-se e ajudando-a.

 - Já estou bem para partir. – disse Xena.

 - Está sim! – disse com ironia e colocando a mão sobre sua testa para certificar-se de que não havia mais febre. – Daqui a pouco a criada virá ajudar-lhe com o  banho e trocar as roupas de cama.

 - Posso me cuidar sozinha. – disse Xena. Há muito tempo ela aprendera a não depender de ninguém.

 - Admiro muita sua independência Xena, mas as vezes é bom deixar que alguém cuide da gente. – disse Sophia.

 - Sabe quem eu sou? – perguntou surpresa.

 - Xena! A Princesa Guerreira. – respondeu Sophia examinando os ferimentos.

 - Porque me salvou? Muita gente teria aproveitado esta oportunidade. – disse Xena.

 - Grande honra! – disse de modo irônico. - Abatê-la quando estava a beira da morte. Não seria divertido. – completou com um sorriso. Ela segurou a mão de Xena e falou-lhe de modo sério. – O que faz além dos muros desta cidade não nos interessa. Estava ferida, precisando de ajuda e nós a demos e não queremos nada em troca, a não ser que se restabeleça.

 - Não serei submetida a nenhum tipo de julgamento? – perguntou Xena incrédula.

 - Não cometeu nenhum crime nesta cidade. É nossa hóspede e se quiser nossa amiga também. Isso vai depender de você. – disse Sophia.

 Xena caminhou até o que restara da cama e sentou-se. Ela teve sua atenção para um objeto de metal chamuscado. Ela abaixou-se e pegou a jóia, não restava mais nada de sua beleza. Ficou ali segurando o objeto, perdida em lembranças.

 Ela estava sentada em um divã. Ainda sentia-se muito fraca e precisava de ajuda para se locomover, pois os efeitos do veneno ainda se faziam presentes em seu corpo. Quase nada parava em seu estômago. Sophia penteava seus cabelos.

 - Pronto! – disse prendendo os cabelos de Xena com uma fivela delicada. – Bem melhor.

 - Porque me trata com tanto carinho? – perguntou Xena curiosa. Estava acostumada com a bajulação, o respeito e até mesmo o medo de seus homens. E das outras pessoas nada havia além de medo e ódio.

 -Não é privilégio! – disse Sophia. – É minha hóspede.

 - Só duas pessoas me trataram assim. – disse Xena. – Minha mãe e Lao Ma.

 Sophia sentou-se ao lado de Xena e perguntou.

 - Quem é Lao Ma?

 - Uma pessoa que conheci...ela me ensinou tanta coisa ... eu a traí. – disse Xena sentindo-se culpada.

 - Talvez ela tenha visto a mulher extraordinária que você é. – disse Sophia simplesmente.

 - E você o que vê? – perguntou Xena.

 Sophia ficou algum tempo olhando-a, um sorriso brincava nos cantos de seus lábios, Xena baixou os olhos.

 Sophia ergueu sua cabeça, segurando-a delicadamente pelo queixo.

 - Vejo uma linda mulher, com capacidade para ter o mundo aos seus pés, através do amor. – disse. – Sei que não acredita, mas não cabe a mim conduzi-la neste caminho. Um dia encontrará alguém para quem abrirá seu coração, então compreenderá.

 Xena não sabia porque, mas ficara comovida com aquelas palavras.

 – Não sabe quem eu sou. – disse Xena.

 - Sei sim! – disse Sophia. – Também já fui uma guerreira Xena, matei, enganei  e humilhei  inocentes. Mas isso é passado.

 - Não sente culpa? Remorso? – perguntou Xena curiosa.

 - O bom da vida é que sempre podemos recomeçar. – disse Sophia. – Não acredito em redenção, um dia pagarei pelos meus crimes, se minha conduta atual servir como um fator atenuante, melhor. Se não paciência.

 Sophia levantou-se, indicando que a conversa chegara ao fim.

 - Procure descansar. – disse. Ela arrumou as cobertas de Xena, deu-lhe um beijo na testa e saiu.

 

CAPÌTULO II

 Gabrielle encontrou uma área parcialmente limpa e arejada, arrumou ali as cobertas para dormirem e acendeu uma fogueira.

 Após algum tempo Xena retornou, se reparou na arrumação de Gabrielle, não fez nenhum comentário. Sentou-se próximo ao fogo. O reflexo das chamas conferiam um estranho brilho ao seu olhar. Gabrielle sabia que amiga estava se deixando levar pela raiva.

 - Não temos muita coisa para o jantar – disse pegando uma maçã e oferecendo a Xena. – Apenas frutas. – completou em tom desanimado.

 Xena pegou a fruta, mas não comeu, ficou olhando-a enquanto rodava-a em sua mão.

 - Raiva de Callisto? – perguntou Gabrielle.

 - Não! – disse após algum tempo. – Culpa! Eu sou responsável por isto, Pérdicas e por Callisto.

 - Xena você não é responsável pelos atos de Callisto. – disse Gabrielle aproximando-se. – Ela escolheu o caminho dela.

 - Grabrielle você não entende. – disse Xena, deixando transparecer na voz um pouco de seu tormento. – Se eu não tivesse atacado Cirra, Callisto teria tido uma chance e as pessoas daqui também.

 - Quantos vilarejos você atacou, quantos sobreviveram? Nem todos cederam ao mal. – disse Gabrielle. – Ela deixou-se levar pelo mal, alimentou a raiva, dos sentimentos de vingança.

 - Não sou como Sophia. Não consigo deixar para trás tudo de errado que fiz. Obrigado por tentar Gabrielle – disse Xena segurando a mão de Gabrielle, como se a confortasse. Ela se levantou, jogou a fruta para a amiga e foi deitar-se.

 Gabrielle seguiu seu exemplo. Mas não dormiu de imediato, ficou deitada observando as sombras no teto e pensando.

 Virada para o outro lado Xena escondia suas lágrimas e sua dor. Gabrielle sabia, mas nada podia fazer, não conseguia perdoar Callisto pela morte de Pérdicas e muito menos responsabilizar Xena pelas coisas ruins que aconteciam.

 

CAPÍTULO III

 Semanas depois.

 As duas se encontravam atrás de um arbusto ouvindo os planos de Maceus para invadir e saquear a próxima aldeia.

 Xena fez um gesto suave para Gabrielle e as duas se afastaram silenciosamente do local.

 Já na estrada.

 - Se nos apressarmos poderemos prevenir a aldeia. – disse Xena.

 - Certo! Mas Xena eles são muitos – disse Gabrielle. – Deve haver uns cinqüenta homens bem armados.

 - Isso faz diferença? – perguntou Xena com um sorriso matreiro. Ela estendeu a mão para que Gabrielle também montasse na garupa.

 Partiram a todo galope. Quase não descansaram e conseguiram chegar a aldeia com quase um dia de dianteira.

 - Onde está o líder de vocês? – perguntou Xena descendo do cavalo para um homem que passava.

 -   É o dono da taberna. – respondeu. – Chama-se Alceu.

 Com um gesto Xena agradeceu e seguiu para o local indicado, sendo seguida por Gabrielle.

 O local era escuro e mal ventilado. Havia alguns homens sentados em algumas mesas, bebendo. Uma jovem vestida humildemente servia as mesas.

 - Se veio procurar encrenca, deve ir embora. – disse um homem de aproximadamente sessenta anos. Ele parou a meio caminho e olhou Xena de alto abaixo.

 - Não venho trazer problemas. – disse Xena. – Estou aqui para ajudá-los. O bando de renegados de Maceus prepara-se para saquear esta aldeia. Devem chegar aqui amanhã ao anoitecer.

 - E quem é você? – perguntou outro homem levantando-se. Neste momento Xena percebeu um vulto em uma mesa ao fundo, todo vestido de preto e com capuz, não parecia ser um homem forte, mas tinha uma espada.

 Outras pessoas que estavam no recinto reuniram-se ao redor do segundo homem que havia falado.

 - Meu nome é Xena! – disse.

 As pessoas no recinto agitaram-se ao ouvir seu nome.

 - Conhecemos sua fama Princesa Guerreira. – disse Alceu.

 Neste instante um barulho surdo de madeira arrastando-se no chão preencheu o ambiente e os homens abriram passagem para o vulto que Xena havia visto de relance.

 - Não acredito que os Deuses estão sendo tão generosos comigo. – disse a jovem jogando o manto no chão e sacando a espada.

 Xena observou-a surpresa. Os cabelos estavam soltos e revoltos, vestia roupas semelhantes às de Xena, em couro preto, mas não possuía armadura. Sem adornos ou outras cores. Ainda era a mesma Sophia que ela havia conhecido, porém havia uma diferença. Seus olhos. Não brilhavam do mesmo modo e em sua voz não havia mais nenhuma melodia.

 - Sophia! – disse abaixando a espada.

 A mulher de preto atacou com força e Xena imediatamente amparou o golpe. As pessoas afastaram-se dando mais espaço para elas. Gabrielle ficou por ali imaginando se poderia de algum modo ajudar sua amiga.

 - Sophia para com isso! – disse Xena se esquivando. – Não quero machucá-la. Eu não tive nada a ver com o ataque a cidadela, foi Callisto.

 Mas Sophia, não deu atenção a suas palavras. Ao contrário o som da voz de Xena fazia com que sua raiva aumentasse. Queria o sangue de Xena.

 As duas continuaram lutando, Xena pedia a todo momento para que ela parasse, mas era inútil. Gabrielle percebeu que o ataque era cada vez mais violento e sentia que tinha de fazer alguma coisa. Ela não ouvia a voz de Xena, mas talvez se ela tentasse.

 - Ela está falando a verdade. – disse aproximando-se da zona de combate.

 - Saia daqui Gabrielle! – ordenou Xena.

 - Xena agora defende as pessoas, é por isso que estamos aqui. – disse desesperada, sem dar atenção a ordem de Xena. – Viemos avisar estas pessoas de que correm perigo.

 A luta se aproximou perigosamente de Gabrielle e Xena empurrou-a temendo que se machucasse. Mesmo no chão Gabrielle continuou falando e tentando trazer Sophia a razão, um dos homens ajudou Gabrielle levantar-se.

 As espadas se cruzaram e as duas combatentes ficaram cara a cara. Xena nunca havia visto Sophia em combate, já haviam lutado uma vez, mas de brincadeira e nenhuma das duas havia vencido. Os olhos de Sophia eram frios como pedra, aquilo iria acabar mal se não fizesse alguma coisa. Ao se afastarem a ponta da espada de Sophia cortou o braço de Xena e Sophia sorriu com prazer.

 - Isso foi só o começo! – disse para Xena.

 - Pare com isso Sophia. – disse Xena. – Não quero lutar com você.

 - Ao menos escute o que Xena tem a dizer! – disse Gabrielle. – Depois podem se matar.

 Xena saltou por cima de Sophia na esperança de surpreendê-la, mas ao tocar os pés no chão sua oponente já havia se virado e golpeava novamente.

 Xena tentou tomar-lhe a espada com uma corda, mas Sophia cortou-a antes que atingisse seu pulso.

 - Você não viu Xena lá. – disse Gabrielle. – Vai matá-la sem ao menos dar-lhe uma chance de defender-se.

 As espadas se cruzaram novamente. Xena empurrou-a com toda sua força, Sophia caiu de costas  ainda com a espada na mão.

 Xena parou em pé a sua frente com as pernas abertas e jogou a espada no chão, próximo a Sophia.

 - Se minha morte vai lhe trazer algum alívio, faça-o. – disse. – Não vou mais resistir.

 Sophia continuou no chão, apoiada nos cotovelos e a espada na mão. Xena conhecia sua destreza, em segundos ela poderia levantar-se e decepar-lhe a cabeça. Por alguns segundos ela ficou olhando para Xena, Gabrielle estava logo atrás da amiga, com o cajado pronto para entrar em ação.

 Pela primeira vez ela olhou de fato para Xena, sua raiva começava a diminuir.

 - Quem é o grilo falante? – perguntou olhando para Gabrielle que estava um pouco atrás de Xena.

 - Gabrielle – respondeu Xena relaxando um pouco. Ela deu um passo a frente e estendeu a mão para ajudá-la a se levantar.

 Sophia olhou para a mão estendida e depois para o rosto de Xena. Recusou o gesto e levantou-se sozinha. Ela caminhou até a espada de Xena e pegou-a. Todos na sala retesaram-se em expectativa.

 - Ouvirei o que tem a dizer. – disse jogando a espada para Xena. – Depois continuamos. Acabou o espetáculo! - disse para as pessoas que observavam enquanto caminhava em direção a mesa que ocupava quando Xena chegou.

 As pessoas voltaram aos seus afazeres.

 O velho dono do estabelecimento aproximou-se da mesa.

 - Quero que vocês vão embora daqui. – disse.

 - Quem vai me obrigar? Você? – perguntou Sophia em tom de ironia. – Traga mais vinho e refresco para a menina.

 Gabrielle olhou-a indignada, “grilo falante”, “menina”. Quem ela pensava que era?

 - Não quero, obrigado. – disse com raiva. – Vou deixar vocês sozinhas. Vai ficar bem? – perguntou colocando a mão sobre o ombro de Xena. Xena colocou a mão sobre a sua e acenou com a cabeça.

 Gabrielle foi para fora da taberna.

 A criada de Alceu aproximou-se da mesa cautelosamente e serviu os copos de vinho, deixando a jarra sobre a mesa. E afastou-se rapidamente.

 Xena tomou um pequeno gole de seu copo e observou Sophia esvaziar o seu de uma só vez. De modo displicente ela encheu-o de novo e encostou-se no espaldar da cadeira.

 - Comece! – ordenou.

 - Sinto muito o que aconteceu... – disse Xena com sincero pesar.

 - Não quero suas desculpas. – disse Sophia interrompendo de modo seco.  

 Xena não reconhecia aquela mulher. Não era a mesma Sophia doce e alegre que havia conhecido. Sentiu um aperto no peito. Ali a sua frente estava mais uma de “suas criações”.

 Ela começou a contar tudo o que acontecera, desde que conhecera Callisto.

 Sophia escutava-a atentamente, com os olhos fixos em Xena.

 Após o breve relato de Xena houve um longo silêncio entre as duas. Sophia pegou o seu copo e esvaziou novamente.

 Ela se levantou e Xena ficou olhando-a. Pronta para defender-se.

 - Vá cuidar de seus negócios. – disse afastando-se. – Isso não é assunto para se discutir com a cabeça cheia de vinho.

 Xena observou-a afastar-se. Com passos precisos ela saiu da taberna. Ela ainda permaneceu um tempo olhando para o conteúdo de seu copo.

 

CAPÍTULO IV

 Xena saiu da taberna e encontrou-se com Gabrielle e algumas pessoas.

 - E então? – perguntou Gabrielle.

 - Depois falamos sobre isso. – disse de modo desanimado.

 - Conversei com Alceu e os outros, eles não acreditam em nós. – disse Gabrielle. – Na verdade, querem que nos ver bem longe daqui. E Sophia também.

 - Depois do que aconteceu lá dentro, não me espanto com a reação deles.

 - O que vamos fazer? – perguntou Gabrielle.

 - Esperar.

 Passaram o resto do dia perambulando pela aldeia, conversando com um e com outro na tentativa de convencê-los de que estavam em perigo, mas ninguém queria saber. A notícia do encontro de Sophia e Xena havia-se espalhado como lastro de pólvora e todos queriam vê-las bem longe dali.

 Era quase noite e Xena decidiu procurar Sophia e resolver logo aquela pendência.

 - É aqui! – disse Xena parando em frente a uma cabana.

 - Não vai querer entrar aí, não é? – perguntou Gabrielle, preocupada com a segurança de ambas. – Olha Xena, você viu o que ela fez lá na taberna.

 - Não precisa vir se não quiser. – disse Xena virando-se para Gabrielle. – Tudo bem, entenderei. Isso é um problema meu e preciso resolvê-lo.

 Gabrielle deu um suspiro e seguiu a amiga. Xena bateu duas vezes na porta e uma mulher de meia idade veio atender.

 - Entrem! – disse dando passagem para as duas. O interior da casa era tão pobre como seu exterior. Sobre a mesa havia três pratos, uma cesta com pães e um outro prato com queijo. – Minha senhora pediu que arrumasse o quarto. Disse que estariam cansadas.

 - Obrigado! – disse Xena, meio desconfiada, olhando a sua volta.

 - Estou faminta! – disse Gabrielle ao ver a mesa posta, esquecendo-se momentaneamente dos problemas.

 A senhora sorriu.

 - Então sirva-se. – disse mostrando a mesa. – Mas deixe espaço para a sopa.

 Gabrielle olhou para Xena como se pedisse seu consentimento.

 - Bem, vamos aproveitar a hospitalidade. – disse sentando-se e servindo-se de um pedaço de pão.

 Gabrielle olhou ao redor enquanto mastigava. Preso na parede ela viu o cinto de Sophia com sua espada, ao lado uma capa de pele preta. Sobre uma mesinha havia um elmo também.

 O resto da casa era simples, sem tapetes, enfeites, nada.

 - Sua amiga é muito estranha Xena. – disse por fim.

 - Ela não era assim. – respondeu Xena. – Vocês seriam boas amigas. – ela fez uma pequena pausa – Talvez ainda haja tempo. -  completou com um meio sorriso.

 - Esse é o legado de Callisto.  – disse Gabrielle de modo triste.  

 - Sabia que viria. – disse Sophia entrando na sala e interrompendo a conversa. – Peço desculpas pela  simplicidade da refeição.

Xena olhou para sua anfitriã, ela havia trocado de roupa. Usava um vestido de tecido leve, preto. Sem nenhum adorno, os cabelos soltos caiam como cascatas sobre seus ombros. Se houvesse um sorriso naqueles lábios ... seria a mesma pessoa que Xena conhecera anos atrás. Mas não, sua expressão era séria, seu olhar duro e frio.

- Está tudo perfeito! – disse Gabrielle tentando um sorriso amistoso.

A senhora entrou na sala e colocou uma terrina de sopa sobre a mesa.

- Já vou senhora! – disse a mulher saindo. – Amanhã cedo trarei o pão.

Sophia acenou para a mulher.

- Tudo bem! Vamos por uma pedra sobre este assunto. – disse Sophia após a mulher ter saído e sentando-se.

- Não quer mais matar a Xena? – perguntou Gabrielle esperançosa.

- Se quisesse realmente, já o teria feito há muito tempo. – disse Sophia servindo-se.

- Ah! Não teria mesmo! – disse Gabrielle sorrindo enquanto servia os pratos com a sopa.

- Gabrielle! – disse Xena sorrindo.

- Mas é verdade. – disse entusiasmada. – Você precisava ver quando Xena lutou contra os soldados de ...

Sentindo-se segura, Gabrielle começou a contar suas aventuras com Xena. A refeição transcorria calmamente ao som da voz de Gabrielle. Xena pensou em interferir, vez por outra recriminava Gabrielle por estar exagerando, mas Sophia não dizia uma única palavra. Por umas três vezes Xena viu um esboço de sorriso formar-se nos lábios de Sophia, mas ele logo desaparecia.

Ainda permaneceram sentadas algum tempo após a refeição. Então Sophia resolveu parar com a tagarelice de Gabrielle.

- Está certo “grilo falante”! – disse Sophia. – Já entendi! Xena é o máximo! – completou. – Agora vá deitar-se e dê alívio aos meus ouvidos.

- Você não sabe ser gentil? – perguntou Gabrielle ligeiramente irritada por estar sendo tratada como uma criança. Xena olhou-a meio aborrecida. 

Sophia parou a meio caminho da cozinha com a louça na mão e olhou para Gabrielle. Teve vontade de rir.

- Olha aqui se você está pensando ... – Gabrielle realmente se irritou, mas Xena segurou-a pelo braço.

- Gabrielle! Ela tem razão, amanhã teremos um dia cheio precisa estar descansada.

Gabrielle olhou para Xena aborrecida.

- Tudo bem! – disse saindo. – Boa noite! – completou deixando transparecer um pouco de sua irritação.

- Não devia provocá-la. - disse Xena guardando o resto das coisas que estavam sobre a mesa. – Ela é boa com o bastão.

- Tenho certeza que sim. – respondeu a moça enquanto lavava os pratos. – Vá deitar-se também, você mesma disse que amanhã terão um dia atribulado.

Xena pensou em dizer alguma coisa, mas mudou de idéia.

- Boa noite.

Em poucos minutos a pequena casa estava em silêncio.

CAPÌTULO V

No meio da madrugada Xena acordou com o barulho de passos, ouviu a porta se abrindo e uma brisa fria atravessou o quarto. Xena aguardou por vários minutos então levantou-se também.

Ela encontrou Sophia sentada no batente da porta do lado de fora. Sentou-se ao seu lado.

- Você está bem? – perguntou.

- Não! – disse Sophia em voz baixa. Xena observou que havia lágrimas em seus olhos, ela estendeu a mão em direção a Sophia, mas esta se afastou.

- Não há uma noite em que não reviva aquele dia. – começou a dizer em voz baixa. – A luta, os gritos, o fogo. Reconheci alguns de seus homens, podia ouvir seus gritos de guerra do outro lado da cidade. Não conseguia acreditar que você estava nos atacando.

- Sei como se sente. – disse Xena.

- Não! Não sabe. – disse de modo brusco. – Cassius e meu filho mortos. Ele tentou protegê-lo. Se eu estivesse lá ....

Sophia parou de falar sufocada pelas emoções.

- Não teria adiantado nada. – disse Xena. – Callisto não queria apenas destruir a cidade, queria atingir-me. De alguma forma ela descobriu que Briseis e sua família eram importantes para mim.

- Você não entende! – disse Sophia limpando as lágrimas. – Não há mais nada em mim. Só dor, uma dor que não passa, que só pode ser apaziguada com mais dor e sofrimento. Sinto raiva de tudo e de todos. Não! Raiva, não. É fúria, tenho medo de pegar uma espada, medo do que posso fazer. Sua amiga tagarela salvou-nos hoje. Eu teria continuado até matá-la ou que você me matasse.

- Já passou! – disse Xena em voz baixa e de modo compreensivo. -  Gabrielle tem razão, é como uma bola de neve, atacaram minha aldeia, meu irmão morreu, transformei-me em uma assassina, criei Callisto, ela matou Pérdicas e você está há um passo e fazer a mesma coisa. Não acaba. – disse Xena desanimada.

- Não! Não acaba. – disse Sophia. – As vezes sinto-me no limiar da loucura. Todas as manhãs quando acordo, desejo que seja o último dia de minha vida. No fundo nunca desejei te matar, ao contrário queria que você me matasse. – ela sorriu de modo irônico.

- Sophia... – Xena começou a dizer. No fundo estava assustada com Sophia, ela estava caminhando através das trevas.  – Tem que lutar contra estes sentimentos, Callisto se tornou nesse monstro porque passou a vida se alimentando de raiva e ódio.

- É a nossa diferença! Meu alimento é a dor e o sofrimento. – disse em voz baixa. As lágrimas brincavam em seus olhos. Xena fez nova tentativa de tocá-la, mas ela afastou-se.

- Não quero sua piedade. – disse levantando-se.

Houve um longo silêncio entre as duas.

- É verdade? Não tem mais exército, não vive mais de pilhagens? – perguntou Sophia mudando de assunto.

- Isso é passado! Um passado que tento todos os dias esquecer. – disse Xena.

- Então resolveu defender os inocentes para apaziguar seus demônios? – perguntou.

- Não sei se para apaziguá-los. Tento apenas consertar as coisas que fiz.  – disse Xena.

- Não acredito em redenção! – disse simplesmente. – Porque envolveu Gabrielle neste inferno. Ela parece tão inocente, tão pura.

 - Lembra-se quando disse que um dia eu encontraria alguém que me mostraria o caminho? – perguntou Xena. - Gabrielle é meu porto seguro, estava perdida e sem esperança quando a encontrei.

- Ela te admira muito. – disse Sophia.

- Tento não decepcioná-la. – disse Xena. – Talvez deva arranjar um “grilo falante” também. – completou tentando amenizar a conversa. – São boa companhia.

- Já disse! Não acredito em redenção. – respondeu de modo sério. – Não quero apaziguar meus demônios. Quero senti-los em toda sua plenitude, enquanto sentir alguma coisa estarei viva.

- Eles não vão voltar Sophia. – disse Xena. – Mas há pessoas neste mundo que precisam de você. Dionísio e os sobreviventes de Briseis, por exemplo.

- Não quero voltar Xena! Jamais colocarei meus pés em Briseis nesta vida ou em outra.  – disse Sophia. – Vá se deitar, já é tarde.

- Sophia! – disse Xena. – Se continuar por esse caminho, não restará mais nada para você. Callisto terá vencido.

Sophia abaixou a cabeça ficou um tempo olhando para a caneca que tinha nas mãos.

- Não! – disse por fim. - Dizem que a raiva e o ódio são forças poderosas que movem o mundo e agitam o coração dos homens. Mas não é verdade. Estes sentimentos não são eternos. A força do amor e da amizade reside em sua temporalidade. Você não morrerá pelas minhas mãos, ou através de meus atos.  

Xena fitou-a por momento e foi deitar-se.  No momento em que se aproximava da porta Sophia perguntou?

- Você a matou?

Xena parou a meio caminho e respondeu com voz baixa.

- Não! – Sophia levantou a cabeça espantada. – A deixei morrer. Fui seu juiz e carrasco.

- Parece se incomodar com isso. – disse Sophia olhando-a.

- Fico pensando que se ela tivesse tido uma chance ... – disse Xena – Talvez ... – ela não terminou a frase.

- Vejo que se sente culpada, por tê-la criado, por tê-la matado. Não lamente, ela não merecia sua piedade. – disse Sophia. Ela virou as costas para Xena e saiu caminhando devagar em direção a noite.

 

 CAPITULO VI

Quando Xena e Gabrielle levantaram-se, Sophia não estava em casa. A mulher que cuidava do desjejum nada sabia sobre seu paradeiro.

O dia se passou sem grandes novidades. Xena e Gabrielle andaram por todos os lados, tentando encontrar um modo de proteger aquela gente. Não conseguiram ajuda com nenhum deles. Muitas vezes foram tratadas com hostilidade.

- Xena é loucura ficar aqui. – disse Gabrielle desanimada. – Eles são muitos, não há nenhum modo de defesa neste lugar.

- E o que devemos fazer? – perguntou Xena. – Deixar Maceus entrar aqui com seus homens e matar todos?

- Dessa vez não tem como impedir. – disse Gabrielle tentando trazer Xena a realidade. 

- Darei um jeito. – disse Xena. – Gabrielle, quando eles chegarem haverá muito pânico. Quero que conduza os aldeões para a estrada ao norte, há algumas cavernas próximo ao penhasco, lá estarão em segurança.

- E você? – perguntou preocupada.

- Tentarei atrasá-los.

- Isso é muito perigoso! – disse Gabrielle. – Não vai dar certo.

- Tem que dar. – disse Xena.

Quando retornaram para casa de Sophia ela já havia chegado.

- Sentimos sua falta. – disse Gabrielle, tentando iniciar uma conversa.

- Sei! – disse Sophia com ironia, sem se mover da janela e com o olhar fixo lá fora.

- Em algumas horas o sol vai se por e eles estarão aqui. – disse Xena. – Vai nos ajudar?

- Não! – respondeu simplesmente. – Não tenho nada a ver com isso.

- Como não? – perguntou Gabrielle incrédula. – Você vive aqui!

- Estou de passagem, os problemas dessa gente não me dizem respeito. – disse Sophia.

- Olhe aqui ... – disse Xena extremamente irritada caminhando a passos precisos em direção a Sophia.

 - Chega! – disse Sophia erguendo a voz. – Já disse não tenho nada a ver com isso. E se fosse vocês dava o fora rapidinho. Eles estão há uma hora daqui, são cerca de setenta homens fortes e bem armados. Conseguirá detê-los Xena? – perguntou com irônia – Tenho certeza que Gabrielle acha que sim.

- Morrerei tentando! – disse Xena com raiva.

- Por estas pessoas? Ou não quer desapontar a menina? – perguntou. Havia algo de maldoso naquelas perguntas, como se Sophia quisesse deliberadamente feri-la. 

- Como pode ser tão insensível – disse Gabrielle. – Dentro de algumas horas vai acontecer aqui o mesmo que aconteceu em Briseis. Será que não sente nada? Se você ajudar talvez haja esperança para estas pessoas.

- Gabrielle! – disse Sophia – Como dar esperança para alguém, se já não possuo nenhuma?

- Eu também perdi alguém que amava para Callisto! – disse quase chorando. – Também estou triste, com raiva. Mas estou aqui, viva e se for preciso darei minha vida por esta aldeia.

- Lamento não ficar para o funeral de ambas. – disse – Mas providenciarei moedas de ouro para o barqueiro.

Dizendo isto ela dirigiu-se ao outro lado da sala para pegar suas armas.  No momento em que passou por Gabrielle ela segurou-lhe o braço.

- Solte-me. – disse Sophia em voz baixa. Gabrielle viu ódio em seus olhos, mas não se intimidou.

Xena observava a cena pronta para intervir se fosse necessário.

Gabrielle soltou o braço da moça, notando que havia ficado a marca de sua mão. Sophia saiu.

Xena sentou-se e ficou observando o fogo. Gabrielle sentou-se ao seu lado.

Não demorou muito alguém bateu na porta. Era um homem apavorado, dizendo que um enorme exército se aproximava da cidade.

Xena e Gabrielle olharam-se pegaram suas armas e saíram.

Quando chegaram ao centro da aldeia, Xena instruiu-os para saírem da cidade e irem para as cavernas. Por mais que insistisse Xena não conseguiu que Gabrielle fosse com eles.

Invadiram a cidade sem mais delongas, em seus cavalos, aos gritos, matando impiedosamente tudo que se movia e ateando fogo nas casas. Xena e Gabrielle defendiam-se como podiam. Alguns aldeões mais corajosos ficaram para lutar, mas não demorou muito estavam mortos, os demais fugiam apavorados, sem ao menos dar-se conta da direção que tomavam.

Sophia ao longe ouvia os gritos de terror dos aldeões, o som das espadas, dos cavalos, o cheiro de fumaça. Era como se estivesse novamente em Briseis, na noite em que sua família fora assassinada.

Sabia que Xena e Gabrielle estavam lá, sozinhas, tentando dar esperança para aquela gente. Casas queimavam, mulheres gritavam, tentando proteger seus filhos.

Então Sophia mudou de idéia, puxou as rédeas do cavalo e dirigiu-se a aldeia a todo galope.

Entrou na aldeia montada no garanhão preto, branindo sua espada, golpeando impiedosamente. Era tão fácil matá-los. Chegou sem dificuldades ao local onde a batalha era mais acirrada. Ouvia os gritos de guerra de Xena. Ela desceu da montaria de espada em punho, atacando os homens de Maceus. Não muito longe dela Gabrielle lutava com seu cajado.

Ela girou a espada na mão e com um único golpe decapitou um homem que preparava-se para atacar Xena. Foi então que eles a viram, três avançaram em sua direção, brutamontes desengonçados Sophia se desviava facilmente de seus golpes, pois era pequena e mais ágil, em breve estavam mortos.

Lutava com uma fúria indescritível, agora empunhava uma espada em cada mão. Havia prazer naquilo. Cada homem que matava era como se matasse Callisto, era o seu sangue que derramava. E quanto mais matava, mais queria matar. Era como tomar o primeiro copo de vinho.

Xena usou seu chakram e derrubou quatro dos homens de uma única vez. Aos poucos eles começaram a fugir. Xena e Sophia pareciam dois demônios ensandecidos.

Gabrielle lutava com três homens, Xena estava tentando se livrar de seus atacantes para ajudá-la, mas eles não davam trégua. Sophia então aproximou-se de Gabrielle, tocou no ombro de dos homens que a atacavam  e quando este se virou teve seu corpo perfurado pela espada, até que a ponta desta saísse do outro lado. No momento que o homem caía, Sophia tirou-lhe a espada da mão e decapitou o outro homem que lutava com Gabrielle.

- Me deve uma! – disse ela com um sorriso para Gabrielle.

Aos poucos elas foram deixadas sozinhas, no centro da aldeia. Estavam suadas e sentiam os músculos do corpo. Ao redor dezenas de cadáveres, uma grande quantidade deles decapitados.

- Você realmente precisa decapitá-los? – perguntou Gabrielle aproximando-se de Sophia.

- Assim tenho certeza que não se levantarão novamente. – respondeu com um sorriso.

- Acho que estou passando mal! – disse Gabrielle afastando-se um tanto nauseada.

- Obrigado! – disse Xena. – Não teríamos conseguido sem você.

- Já disse Xena! Não morrerá pelas minhas mãos, ou através de meus atos. – disse Sophia limpando o sangue de sua espada em um corpo e afastando-se.

- Você está bem? – perguntou Xena para Gabrielle.

- Vou passar meses sonhando com estas cabeças. – respondeu desviando os olhos do chão.

Os aldeões começaram a retornar. Estavam assustados, olhavam Xena com respeito e medo.

- Obrigado! – disse Alceu aproximando-se das duas.

- Não por isso! – disse Xena com um sorriso e colocando a mão no ombro de Alceu.

– Pedimos desculpas por nosso comportamento, serão sempre bem vindas aqui.

CAPÍTULO VII

Retornaram a casa de Sophia quase ao amanhecer, ficaram ajudando os feridos. Sophia havia desaparecido.

Alguém bateu na porta e Gabrielle foi abrir.

- Entre! – disse para Alice.

A mulher entrou e se dirigiu para onde Xena estava.

- Minha senhora pediu que lhe entregasse isso. – disse entregando uma pequena bolsa de couro para Xena. – O aluguel da casa assim como os meus serviços estão pagos. Ela disse para aproveitar a hospitalidade.

Quando a mulher se retirou ela abriu a bolsa. Dentro havia um bilhete e um delicado anel. Xena lembrava-se dele. Ela o havia achado bonito, Sophia quis dar-lhe na ocasião, mas ela não aceitou, já haviam feito muito por ela, não seria justo aceitar a delicada jóia, mesmo que fosse o presente de uma amiga.

- “Diga ao grilo falante para continuar falando.” – leu Xena em voz alta, terminando a frase bom um ligeiro sorriso. – “Sophia”.

-  O que vai acontecer com ela? – perguntou Gabrielle aproximando-se.

- Não sei! – respondeu Xena de modo pensativo.

- Gostaria que ela parasse com esta história de “grilo falante”. - disse Gabrielle. – Xena! Eu me pareço com um grilo?

Xena sorriu. Ela sentou-se e colocou os pés sobre a mesa de modo descansado.

- O que acha de passarmos alguns dias por aqui? – perguntou.

- Será bom dormir em uma cama e ter um teto por uns dias só para variar.

 

 

FIM

 

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