Interlúdio
Conto ambientado no universo ficcional de: STar Trek - Clássica
As personagens, Capitão James Tibérios Kirk, Comandante Spock, Dr. Leonard McCoy, Eng. Montgomery Scott, Ten. Uhura, Sr. Sulu, Sr. Checov pertencem a Paramount Pictures, não pretendendo o autor infringir os direitos Copyright.
Autora: Regina Planella
Há um tempo certo para tudo em
nossa vida.
Agora é tempo de Lembrar
Este conto é dedicado a DeForest Kelley
Capítulo I
Tempo! Eis um conceito que jamais entendi. Minha existência é contínua, atemporal. Simplesmente existo. Mas já encontrei formas de vida bastante peculiares, cuja toda sua existência é baseada neste conceito. Tempo.
Materializei-me bem na ponte de uma embarcação estelar. Haviam algumas pessoas presentes, que por suas feições pude perceber que me temiam ou que estavam surpresas. Um homem de cabelos castanhos claros levantou-se da cadeira central e com cautela perguntou quem eu era.
Não respondi. Estava mais interessada pelo ambiente, as portas vermelhas, chão liso, vários consoles com luzes piscantes e diversos botões, não era um lugar propriamente bonito, eu diria funcional.
Continuei caminhando calmamente pela sala, ignorando deliberadamente seus ocupantes, notei que um senhor simpático de olhos azuis penetrantes examinava-me com um aparelho, olhei-o por uns instantes e sorri, querendo dizer com aquilo que não me incomodava, ele retribuiu-me um sorriso meio sem graça. Passei então a examinar cada um dos presentes, podia sentir que minha atitude estava irritando alguns deles. Havia uma jovem de pele marrom sentada em frente a um console com um aparelho em uma das orelhas e dois jovens sentados a frente da cadeira central, um com olhos puxados e o outro com um estranho corte de cabelo. E um homem alto, magro, com orelhas de formas estranhas chamou-me a atenção, pois além de sua aparência, não podia sentir nele a ansiedade e expectativa que emanavam dos outros.
- Quem é você e o que deseja? - perguntou-me novamente o homem de cabelos castanhos. Olhei-o demoradamente, pois não sabia responder a nenhuma das duas perguntas e ao meu ver aquilo não era relevante. Minha atenção voltou-se novamente para o outro homem.
- Jim! - disse o homem de olhos azuis. Olhei-o esperando que dissesse alguma coisa mas ele percebeu que eu o fitava e calou-se.
Caminhei deliberadamente com a maior calma e tranqüilidade do universo, tinha certeza de que minha atitude soberba os estava irritando. E isso era divertido. Parei na frente do homem com orelhas estranhas e pele ligeiramente esverdeada. - Você não é como os outros? - perguntei.
- Não. Sou um vulcano. E você? - perguntou-me.
- Que lugar é este? - perguntei ao homem de cabelos castanhos que estava próximo a mim.
- Você está a bordo da nave USS-Enterprise. Eu sou o Cap. Kirk e este é o Sr. Spock. - respondeu-me.
Neste momento as portas vermelhas se abriram e dois homens portando armas entraram. Aquilo não me intimidou, pois suas armas eram completamente inofensivas a minha pessoa. Podia sentir a tensão aumentando na ponte e resolvi sair dali antes que alguém se machucasse, antes mesmo que percebessem o que estava acontecendo já me encontrava no corredor.
Uma sirene ensurdecedora começou a tocar e luzes vermelhas acenderam-se na parede, logo após foi dado um aviso sobre um ser alienígena, que desconfiava ser eu, passeando pela nave. Não caminhei mais que três metros e vi-me cercada por homens portando armas. Havia um corredor a minha direita e dirigi-me para lá. Gostaria de ter visto suas expressões ao perceberem que eu havia desaparecido.
Capítulo II
- Sensores indicam que ela não se encontra mais a bordo.
- Spock, ninguém pode sumir de uma hora para outra. - disse McCoy irritado.
- Cancelar alerta vermelho. - disse o Cap. Kirk dirigindo-se a sua cadeira de comando. - Sr. Spock, alguma especulação?
- Sem fontes energéticas, ou qualquer tipo de manifestação, a menos que ela apareça de novo, jamais saberemos o que aconteceu aqui.
- Um fantasma a bordo - comentou um dos navegadores com sotaque russo.
- Disse alguma coisa Sr. Checov. - perguntou Kirk
- Nada senhor. - respondeu.
- Senhor Sulu manter curso. Permaneceremos em alerta amarelo por 24 horas.
Capítulo III
Já haviam se passado três dias desde o incidente na ponte com a criatura alienígena. Até o dia seguinte ainda se especulou sobre a estranha aparição, mas a rotina do dia-a-dia fez com que o fato merecesse apenas uma nota no diário de bordo e do Capitão.
Era noite e McCoy se dirigia a enfermaria, queria verificar alguns registros antes de recolher-se aos seus aposentos. No momento em que a porta da enfermaria se abriu ele percebeu que havia alguém em seu escritório. Seu primeiro impulso foi comunicar a ponte de comando, mas talvez ela se fosse novamente e jamais saberiam alguma coisa sobre sua espécie. Aproximou-se com cautela, poderia ser a enfermeira Chappel. Quando chegou a entrada da porta confirmou sua primeira suposição, ela estava em pé próximo a vigia observando as estrelas, se havia percebido sua presença não queria demonstrar. Ele aproveitou para observá-la atentamente. Aproximadamente um metro e sessenta, cabelos longos, castanho escuro, olhos azuis escuros, pele clara, uma jovem muito bonita, trajava um vestido de tecido leve azul escuro, quase preto, infelizmente só poderia imaginar a forma de seu corpo.
Capitulo IV
Já havia percebido sua presença, mas resolvi ficar quieta, quem sabe ele percebesse que não era minha intenção fazer-lhes mal. Após observá-lo por alguns segundos, sorri, foi algo espontâneo, gostei dele desde o momento em que o vi na ponte. Caminhei até uma poltrona e sentei-me. Foi com satisfação que o vi caminhar até o outro lado da mesa e sentar-se.
- Posso ajudá-la em alguma coisa? - perguntou.
Permaneci calada, simplesmente olhando-o
- Você não pode ficar caminhando por ai, vai acabar se machucando. - disse-me.
- Suas armas não podem ferir-me. - respondi-lhe calmamente.
- Eu sou o Dr. Leonard McCoy e você? - perguntou-me
De novo aquela pergunta, era o tipo de coisa que nunca saberia responder. Naquele momento o intercom soou.
- Magro! Spock detectou uma presença alienígena na enfermaria. Tudo bem por aí? - perguntou o Cap. Kirk. O Dr. McCoy olhou-me e com um breve sorriso voltou-se ao seu interlocutor.
- Por enquanto estamos indo muito bem. Mantenha a segurança longe daqui, não creio que ela represente algum perigo para nós ou para a nave.
- Estamos a caminho. - respondeu o Capitão.
Ele reencostou-se na cadeira e aguardou. Eu não me importaria de ficar ali olhando-o eternamente. Porém eu podia sentir-lhe a impaciência.
- Ainda não disse seu nome. - disse-me rompendo o silêncio.
- Talvez não tenha nenhum. - respondi-lhe, pois era a pura verdade.
- Todo mundo tem um nome. Você deve ser conhecida em seu planeta de algum modo.
- Porque é importante ter um nome? - perguntei
- Oras, porque ele define aquilo que você é, ou melhor quem você é. Veja! Quando alguém fala Leonard McCoy, por trás destas duas palavras está minha profissão, minha personalidade, meu caráter, minha história, enfim tudo aquilo que me define como ser humano.
- Talvez então eu não seja humana. - respondi-lhe.
- Não foi isso que meu tricorder registrou na ponte de comando. E então como se chama?
- Já me chamaram de muitos nomes. Se isso é tão importante para sua espécie, pode escolher um nome qualquer.
- Não é assim que funciona. - disse-me de forma impaciente. - Seus pais devem tê-la batizado com um nome que achavam bonito, homenageando alguém, sei lá.
Com um suspiro levantei-me e dirigi-me a vigia. Em todos os lugares era sempre a mesma coisa, queriam saber nomes, origem, propósito. Em minha existência não havia nada daquilo. Isso me deixava triste, pois fazia-me diferente de qualquer criatura daquele universo e a mais solitária.
- Não há nada Dr. McCoy. - respondi-lhe. - Não há nomes, um local de origem. Absolutamente nada. - ele levantou-se e aproximou-se de mim.
- Está bem, não tem um nome, não sabe de onde veio, mas sabe para onde vai?
- Quer dizer. O propósito de minha existência? Simplesmente existo Dr. McCoy, isso deveria ser o suficiente.
- Mas não é!
- O senhor é muito perspicaz. - respondi-lhe com um sorriso irônico.
- O que deseja de nós?
- Acredite, talvez não queira nada - disse enquanto andava pela sala observando os aparelhos e objetos. Era verdade talvez não quisesse nada. Neste momento tudo a minha volta desfez-se e voltei ao nada.
Capítulo V
A porta da enfermaria se abriu e ainda puderam ver a forma humana se dissolvendo no ar em pequenas partículas luminosas.
- Porque demoraram tanto? - perguntou McCoy.
- Acreditaria se lhe dissesse que ficamos presos no elevador? - respondeu-lhe Kirk. - Para onde ela foi?
- Não sei, estávamos conversando e de repente ... ela foi-se. - respondeu-lhe McCoy, enquanto o Sr. Spock analisava o aposento em busca de partículas radioativas, emanações magnéticas, ou qualquer outra anomalia que os ajudasse a interpretar os acontecimentos.
Capítulo VI
Estavam reunidos na sala de reuniões. Todos tomando café e escutando atentamente o relato do Dr. McCoy sobre o estranho encontro.
- Esta é a coisa mais bizarra que já ouvi - comentou Scott.
- Não seja dramático Scotty, já nos encontramos com criaturas bem mais bizarras ou exóticas. - disse McCoy
- Magro alguma indicação do porque ela está aqui? - perguntou o Cap. Kirk.
- Não Jim. - respondeu McCoy. - Como já disse não houve tempo para perguntar-lhe.
- Sr. Spock, algum comentário.
- Sinto muito Capitão, mas os dados ainda são insuficientes para qualquer tipo de análise. Uma criatura sem nome, sem origem, aparentemente imune as nossas armas, sem um aparente propósito. Tudo que posso deduzir com base no relato pouco conciso do Dr. McCoy é que talvez ela não tenha controle sobre seus movimentos. - embora o Sr. Spock tivesse encerrado seu discurso o Cap. Kirk disse.
- Prossiga.
- Esta nave possui cerca de 400 pessoas, porque ela procurou o Dr. McCoy? - perguntou Spock.
- Médicos geralmente são bons ouvintes! - disse McCoy com um sorriso matreiro provocando o Sr. Spock, mas ele frustrou sua tentativa sem dar-lhe atenção.
- Na primeira vez na ponte... - James Kirk começou a falar, com uma expressão de quem quisesse se lembrar de algo. - Magro a estava examinando com o tricorder, se bem me lembro ela sorriu para ele.
- Ora! Vocês estão é com inveja. - disse.
- Sr. Scotty, qual a causa da falha no elevador? - perguntou Kirk.
- Um dos ships queimou. Não podemos atribuir o fato a jovem, estas coisas são muito frágeis.
- Mas é muita coincidência que tenha acontecido justamente quando íamos encontrá-la. - disse Kirk. - A impressão que tenho é que ela não quer conversar comigo e Spock.
- Porque? - perguntou McCoy. Kirk e Spock olharam-no sem saber o que responder.
- Sr. Spock continue suas observações, talvez ela volte a aparecer e quem sabe conseguiremos informações o suficiente para resolver este mistério. Senhores é só.
Capítulo VII
Materializei-me nos aposentos do Dr. McCoy. Podia sentir sua presença no compartimento ao lado, após observar a sala cuidadosamente, sentei-me em uma confortável cadeira.
Enquanto esperava que ele desse conta de minha presença, minha mente divagava sobre as coisas que havia visto a bordo da nave. As coisas sobre as quais conversavam, as atividades que praticavam, eram tão estranhas e sem sentido, mas o que mais me intrigava é que eram cegos-mentais, não podiam detectar minha presença, a não ser com aparelhos e nem sentir-me quando estava presente.
- Ninguém lhe ensinou que deve bater a porta. - disse-me McCoy entrando na sala visivelmente irritado e interrompendo o curso de meus pensamentos. - Onde esteve todos estes dias. - continuou arrumando o roupão, mas seu tom de voz já era mais calmo.
- Lá vem você de novo com esta conversa - respondi-lhe com um sorriso. - Vi alguns homens praticando algum tipo de jogo, havia uma espécie de tabuleiro de três andares e pequenas peças que eles moviam sobre formas geométricas. O que é aquilo?
- Xadrez - respondeu-me sentando-se. - Xadrez tridimensional, o Cap. Kirk e Spock gostam muito de jogá-lo.
- Qual a finalidade? - perguntei-lhe. Estava muito satisfeita por ele não ter insistido em voltar a conversa anterior.
- É um jogo de estratégia, você tem que encontrar o melhor modo de eliminar as peças do adversário respeitando o movimento de cada peça.
- Interessante. Você me ensina? - não sei porque mas através daquela atividade lúdica, achei que poderia compreende-los melhor.
- Tenho certeza de que o Capitão Kirk terá imenso prazer em ensinar-lhe - respondeu McCoy tentando promover um encontro entre nos dois.
- Porque viajam nesta nave? - perguntei-lhe.
- Estamos explorando este setor da galáxia. Faz parte da natureza humana, buscar respostas, conhecimento.
- E o que fazem com esse conhecimento? - perguntei-lhe.
- Ora, desenvolvemos novas tecnologias, melhoramos nossa qualidade de vida, aprendemos.
Aquelas pessoas tinham uma razão para estarem ali, interagiam uma com as outras de alguma modo que ia além de minha compreensão. Eram completamente antagônicos. Iguais, mas diferentes. Cada uma daquelas criaturas representavam novas descobertas, novas aventuras E isso me fascinava.
Ficamos em silêncio, eu não era bem do tipo falador e meu interlocutor não parecia muito inclinado a bombardear-me de perguntas.
- Se importaria de a chamássemos de Helena? - perguntou-me.
- Um nome? - ele assentiu. - Disse-me que por trás do nome há uma história, uma definição do ser. O que sabe a meu respeito, que o faz pensar que pode definir-me?
- A não ser o que me conta, não sei nada, mas talvez possa ajudá-la a saber quem é. - disse-me de modo gentil. - É por isso que está aqui, não é? Procura respostas para sua existência.
- Eu simplesmente existo Leonard. Jamais poderá ajudar-me, pois vivemos em dimensões diferentes. Até mesmo nossa comunicação é truncada. Podemos caminhar pela nave ? Há muitas coisas que não entendo.
- Espere um minuto que vou colocar o uniforme. - disse-me e entrou no aposento ao lado.
Capítulo VIII
James Kirk estava quase deixando-se levar pelo sono quando o intercom sinalizou.
- Kirk! Prossiga. - respondeu ainda meio sonolento.
- Capitão acabo de detecta-la nos aposentos do Dr. McCoy. - comunicou uma voz com sotaque russo, que só poderia pertencer a Checov.
- Avise o Sr. Spock para encontrar-me lá, Sr. Checov. - respondeu Kirk já vestindo o uniforme.
Estava quase saindo de seu alojamento quanto o intercom tocou de novo.
- Jim! - disse McCoy em voz baixa. - Ela está aqui.
- Já sei. Checov acabou de informar-me sobre sua presença. Estou a caminho. - respondeu Kirk.
- Não! Ela pediu-me para dar uma volta pela nave. Poderíamos nos encontrar “casualmente”. - sugeriu McCoy.
- Esta bem. Vou buscar Spock. Onde nos encontramos?
- Na sala de recreações, ela manifestou algum interesse por xadrez.
Capítulo IX
- Vamos disse McCoy saindo do quarto e dirigindo-se porta.
- Com quem estava falando? - perguntei-lhe. Embora já soubesse o que ele estava planejando. Aquilo não me perturbou, já estava na hora de parar de divertir-me as custas do Capitão e sua tripulação.
- Com ninguém. Tenho o terrível hábito de falar sozinho.
Caminhamos calmamente pelos corredores da nave. Vez por outra cruzávamos com algum tripulante que cumprimentava o Dr. McCoy de forma amigável. Percebi que não era apenas eu que me sentia bem com aquele homem. Seus pensamentos eram simples, suas emoções claras, e isso transparecia em seu comportamento, no seu modo de olhar, no tom de sua voz. Durante o trajeto a nossa conversa foi voltada para assuntos superficiais, ao contrário de mim Leonard respondia a todas as minhas perguntas sem reservas, o que interpretei como sendo uma aceitação de minha pessoa e de minha forma de existir. Havíamos rompido a primeira barreira.
Entramos na sala em que eu estivera anteriormente. Porém o Cap. Kirk e o Sr. Spock ocupavam uma das mesas que estava desocupada anteriormente.
- Venha! disse-me McCoy segurando minha mão gentilmente. - Vou mostrar-lhe os melhores jogadores de xadrez da Frota. Ao nos aproximarmos o Cap. Kirk levantou-se e sorriu.
- É um prazer vê-la de novo. Lembra-se do Sr. Spock. - disse dirigindo-se ao Oficial que cumprimentou-me com um gesto de cabeça.
- Leonard chama-me de Helena, creio que este nome seja satisfatório. - respondi-lhe.
- Se lhe agrada... - respondeu-me o Cap. Kirk. - Sente-se.
Como já disse antes não sou uma pessoa muito eloqüente, sentei-me próxima a McCoy e permaneci calada observando o tabuleiro, mas no fundo aguardava um interrogatório. De repente tudo a minha volta escureceu, centenas de imagens cruzaram minha mente, todas mostrando Kirk e Spock juntos, a história de ambos se mesclavam de forma a ser uma só.
- O Dr. McCoy relatou-nos fatos muito interessantes sobre sua forma de existir, gostaria que nos explicasse mais a respeito. - disse Kirk sentando-se.
- O que gostaria de saber? - perguntei-lhe.
- O que quer de nós? - perguntou.
- Eu teria de querer alguma coisa? - perguntei, pensando porque todos achavam que eu queria algo. Eu tinha tudo, até mesmo suas vidas se o desejasse.
- Bom ninguém viaja por aí, sem um propósito. - respondeu-me o Capitão.
- O que é viajar? - perguntei.
- É quando você está em lugar e depois vai para outro bem longe. - respondeu McCoy.
- Um deslocamento que envolve mudança de tempo e espaço. - completou o Sr. Spock.
Conversar com eles era diferente de qualquer experiência que já tivesse tido. Eles não se contentavam com respostas simples, tinham uma sede nata de conhecimento e utilizavam-se de termos completamente estranhos. Lembrei-me que McCoy havia dito que esse sentido de exploração fazia parte de seu modo de ser. Levantei-me e fui até o outro lado da sala. - Isto é viajar? - perguntei.
- Não - disse Kirk. Percebi que McCoy sorria, mas não vi aonde estava a graça. - Você apenas andou até o outro lado da sala.
- Se eu tivesse ido até o outro lado de sua astronave, seria viajar ? - perguntei de novo.
- O que caracteriza “viajar” é o tempo gasto no deslocamento e a mudança completa de ambiente. - respondeu Spock
- Droga! - disse McCoy visivelmente irritado. - Não chegaremos a lugar algum desta forma.
- Estamos indo muito bem. - disse aproximando-me dele. - Verdade! Já passei por isso antes. - disse dirigindo-me aos outros. - Embora seja muito semelhante a vocês, nossos universos são completamente diferentes, isso torna a conversa difícil, principalmente quando envolvem conceitos que não compreendo.
- O que quer dizer com universos diferentes? - perguntou-me Kirk.
- Sua existência é linear, a minha é contínua. Estou aqui desde o início e ainda estarei aqui quando se forem.
- Onde é o início?. - disse o Capitão.
- Na ponte de comando, onde os vi pela primeira vez. - respondi-lhe após alguma hesitação, sem deixar de notar o desapontamento do Cap. Kirk, diante de minha resposta.
- Quer dizer que não existia antes disso. - perguntou McCoy visivelmente surpreso.
- Aqui não. - disse-lhe. - mas em outra seqüência de eventos. - fiz uma pequena pausa, tentando definir em palavras, algo que eu não entendia direito: minha forma de existir. - A existência de vocês é linear, eventos desencadeiam outros eventos, formando uma longa corrente, com diversas ramificações e que por vezes entrelaçam-se com outras correntes, formando suas histórias individuais e de sua espécie. Eu existo aqui. Isso desconsidera qualquer momento antes e depois, mas não impede que eles existam.
- Se eu entendi direito Capitão, ela viaja pela linha temporal de nossas vidas. - disse Spock.
- Conhece nosso futuro? - perguntou Kirk, que pareceu ter lido meeus pensamentos e antes que perguntasse o que era futuro ele completou sua pergunta. - Já conversou com qualquer um de nós em outro lugar.
- Não! - respondi. - E mesmo que tivesse acontecido não lhes contaria. Não sei porque mas isso afeta minha existência.
- Como? - perguntou McCoy.
- Se soubermos como vai ser o futuro, poderemos alterá-lo e com isso a história de nossas vidas, e em maiores proporções a do Universo. - disse Spock. - Lembra-se de quando atravessou o Portal do Tempo e impediu a morte de Edith Keeler, com este ato o senhor mudou toda a história do universo. De alguma forma sua vida está interligada a nossa história, quando você a muda, altera sua forma existir.
Olhei para Spock realmente impressionada com sua capacidade de interpretar meu discurso truncado. Sorri-lhe.
- Isso porque ela era um ponto focal - retrucou McCoy.
- O que é um ponto focal? - perguntei.
- É uma pessoa ou um lugar - começou a responder o Capitão Kirk, cujo o tom de voz tornara-se diferente, pude sentir uma espécie de dor em seu intimo. - onde se desencadeia um... evento, como chama, com proporções grandes o suficiente para alterar toda a história.
Fiquei por alguns instantes em silêncio tentando compreender o que o Cap. Kirk dissera.
- Uma vez, estive em um lugar - comecei a falar - onde haviam criaturas grandes, como nós, que geravam outras menores e que segundo me disserem cresceriam e gerariam outras. Era desta forma que existiam, naquela ocasião aprendi que todas as criaturas vivas tem um propósito, pois todas desencadeiam eventos, algumas servem apenas como um elo de ligação para algo maior, que ainda está por vir.
Ficamos todos em silêncio, eles pareciam pensar em minhas palavras. Quanto a mim só sentia pesar, pois não participava daquele processo.
- E você, onde se encaixa nisso tudo. - perguntou-me Kirk.
- Não desiste não é mesmo. - disse-lhe, pois pensava que o assunto já estivesse encerrado. - Eu existo Capitão, isso é tudo que devemos saber.
- Existem outros como você? - perguntou-me o Sr. Spock.
- Não. - respondi levantando-me e dirigindo-me a uma vigia. Perdi toda a vontade de conversar ou passear. Desejei com cada célula de meu corpo sair dali. Mas era sempre assim. Sentia-me como uma prisioneira, sem a liberdade de escolher onde queria ficar ou para onde queria ir. Condenada a vagar por toda a eternidade, sozinha. Qual a finalidade de tudo aquilo? - Leonard conversava em voz baixa com seus amigos. Cansei-me daquela conversa intelectual.
McCoy aproximou-se de mim e colocou a mão sobre meu ombro, quando virei-me ele sorriu. Ele entendia.
- Você disse que me levaria para ver o Jardim Botânico. - disse, procurando uma desculpa para sair dali. Não que não gostasse de conversar com os outros dois, mas suas perguntas lançavam-se em um estado emocional desagradável, faziam-me sentir tristeza, raiva e principalmente deixavam claro demais que eu era completamente diferente deles.
McCoy olhou para o Capitão como se pedisse seu consentimento. Isso era outra coisa que fugia a minha compreensão, eles submetiam-se a vontade um dos outros de livre e espontânea vontade.
- Podem ir. - disse o Capitão Kirk.
- Não vem conosco? - perguntei ao Cap. Kirk, pois jamais imaginei que fosse me deixar passeando pela nave na companhia de Leonard.
- Não! Mas ficaria encantado de pudéssemos jantar. - disse com um sorriso, quase sedutor.
- Seria um prazer. - respondi-lhe, sabendo que tal evento jamais aconteceria, mesmo porque não sabia ao certo o que era “jantar”.
- Vamos! Tenho certeza que gostará. Há plantas de diversas cores, tamanhos, de vários pontos da galáxia.
Capítulo X
Há muito não me sentia tão bem em companhia de alguém. Embora muitas vezes risse de minhas perguntas, ele não se incomodava em respondê-las, por mais absurdas que parecessem, e ao contrário de seus amigos, as coisas que me perguntava eram simples de responder.
Estávamos sentados em meio a um jardim repleto de pequenas flores. Era tudo tão colorido, alegre, que cheguei a esquecer que estávamos a bordo de uma nave estelar.
- O que você faz aqui? - perguntei-lhe.
- Sou médico, cuido das outras pessoas quando estão doentes ou se machucam. - respondeu-me
- O que é estar doente? - perguntei-lhe.
- É quando o corpo não funciona direito, eu cuido deles, dou-lhes remédios, prescrevo-lhes tratamentos. - respondeu-me
- Hum.... Pode consertar a todos?
- Não! - respondeu-me McCoy com um leve sorriso e senti também algo muito distante parecido com o sentimento de tristeza. - As vezes nem todo o conhecimento é o suficiente e eles morrem.
- O que é morrer?
- É quando o corpo pára de funcionar... - McCoy fez uma pequena pausa e eu sabia que tentava encontrar as palavras certas para explicar-me algo muito complexo. - O corpo deixa de respirar, o coração para de bombear sangue e os pensamentos cessam.
- Deixam de existir. - falei. McCoy assentiu com um gesto. Eu não conseguia imaginar o que era deixar de existir, assim como não entendia sua necessidade de ingerir coisas, ou deitar-se e fechar os olhos para “descansar”.
- Você não é como os outros - disse-lhe. Pelo seu modo de olhar percebi que ele não entendera. - Não se importa com o que eu sou..., não me teme.
- Você não é uma coisa. - disse-me gentilmente. - É alguém tentanndo descobrir mais a respeito de si mesma. Gentil, meiga, as vezes muito dona de si. Mas nem todos somos perfeitos. - ele fez uma pequena pausa, como se proccurasse as palavras certas a dizer - Muitas vezes - continuou - é preciso nos lembrarmos que nada é eterno, pelo que entendi você pode ir embora a qualquer instante e nunca mais voltar. Eclesiástes disse que há um tempo para tudo. Agora é hora de estarmos aqui, conversando, rindo e aprendendo com nossas diferenças.
- Quem é Eclesiastes? perguntei-lhe, tentando não demonstrar o quanto suas palavras bondosas me afetaram.
- Ele morreu a muito tempo, mas deixou algo muito bonito sobre a passagem do tempo. Ele disse ...
Enquanto ele recitava uma parábola interessante sobre a passagem do tempo, minha mente divagava ao som de sua voz, tentando compreender o significado daquelas palavras e principalmente o que ele tentava me dizer.
Quando ele terminou ofereceu-me uma linda flor, estendi a mão para pegá-la e no momento que toquei-a senti a já tão conhecida sensação de desaparecimento.
Capítulo XI
Por muitos dias McCoy esperou que ela aparecesse do nada. Kirk e Spock notaram uma certa tristeza no amigo. Foi apenas uma tarde, mas gostaria que tivesse durado mais, seria bom se ela estivesse sempre ali, para conversarem. Sentia-se atraído por ela, alguma coisa no seu modo de olhar, falar. Ao longo de sua profissão apreendera a interpretar expressões faciais, sentia nela uma espécie de tristeza, algo próximo a melancolia, mas ao mesmo tempo uma vontade intensa de viver. Tudo isso envolto em uma aura de mistério.
Temia também pela sua segurança, apesar dela aparentar segurança e invulnerabilidade, ele sabia que era ingênua, algum dia poderia encontrar alguma criatura de má índole, e não haveria ninguém para protegê-la, e para protegê-los, pois embora ela não tivesse mencionado diretamente, ele percebera que ela detinha um poder muito maior do que eles imaginavam.
Kirk tentara conversar com ele sobre o que o perturbava, mas McCoy era teimoso como uma mula quanto queria, e não disse uma palavra a respeito.
Capítulo XII
Muitos meses haviam se passado e aventuras aconteceram, quando uma noite McCoy ao entrar em seu alojamento encontrou-a lá. Sentada naturalmente em sua cadeira de leitura, como se não houvesse outro lugar do Universo para estar.
- Helena! - McCoy exclamou com visível alegria ao entrar no alojamento.
- Meu bom amigo. - disse-lhe abraçando-lhe.
- Pensei que nunca mais a veria. Onde esteve? - perguntou-me ainda demonstrando agitação.
Sorri-lhe. Se ele soubesse ... era difícil expressar-me através de seus conceitos, tempo/espaço, mas, mais difícil ainda era não contar-lhe certas coisas que aconteceram.
- Leonard ... vi planetas surgirem e desaparecerem, civilizações nascerem e perecerem, procurei por criaturas cujas existências há muito estavam extintas, mas ... esta nave e sua tripulação construirão um nome que por muito tempo será lembrado.
- Como sabe? Já sei, você viu. Estava nos procurando e foi parar em outro tempo. - disse McCoy com intenso entusiasmo.
- Hum! Hum! Infelizmente não posso contar-lhe mais. Em sua maneira de existir o conhecimento de eventos que estão por vir pode alterar as ...creio que o Sr. Spock chamaria de vertentes temporais.
- É uma pena não saber. Mas compreendo o que diz. - disse-me McCoy com um ar pensativo. - Um futuro glorioso... - murmurou.
Tínhamos consciência de que este encontro duraria apenas alguns momentos, portanto sem a necessidade de palavras, dirigimos nossa atenção para aspectos mais simples de nossa existência. Conversamos da mesma forma que da outra vez. Ele falou-me sobre sua vida na frota, sua família em seu planeta natal e mostrou-me uma coisa maravilhosa chamada música.
Capítulo XIII
Soube através dos registros da USS-Enterprise NCC-1701-D, sob o comando do Cap. Jean-Luc Picard, que esse nosso encontro havia sido registrado no diário do Cap. Kirk há cento e doze anos, como um provável sonho do Dr. Leonard McCoy.
Isso não me surpreendeu, pois eu o deixei adormecido em uma cadeira e certifiquei-me para que o Sr. Spock ou o Sr. Checov não me detectassem. Mas o que mais me alegrou foi saber que sua vida ainda não se extinguira. .
Passado os primeiros momentos de desconforto, senti-me bem com Picard, que em sua pronta aceitação do desconhecido lembrara-me muito Leonard. Fiquei pensando que talvez cento e doze anos fossem muito tempo, pois já não era tão difícil comunicar-me com eles, minha peregrinação tornara-se mais clara em minha mente, embora ainda não tivesse um propósito, eu já era capaz de identificar uma pequena seqüência de eventos. Mas ainda sentia muita solidão, e aquilo que McCoy descrevera-me como futuro apresentava-se a minha frente como um infinito abismo pronto a engolfar-me.
O Cap. Jean-Luc falou-me sobre os desígnios de Deus, que nem sempre eram claros em seu propósito, e que nenhuma forma de vida era inútil ou sem sentido. De alguma forma suas palavras acalmaram minha alma atormentada, talvez houvesse um propósito em minha existência, talvez como outras criaturas que conhecera, eu fosse um elo para algo maior.
Capítulo XIV
Caminhando por esta Enterprise de linhas arrojadas, senti falta de meus velhos conhecidos, sobretudo de McCoy, pensei em quantas vezes desejei retornar, sem nunca encontrar o caminho, com o único intuito de conhecê-los melhor.
Entrei na enfermaria e por um instante pensei que fosse ver aquele homem que deixara marcas tão profundas em meu ser, mas ele não estava lá, e de repente entendi que havia passado o nosso momento, naquele instante compreendi em toda sua extensão o que Eclesiástes quis dizer, havia um tempo para tudo. Finalmente compreendi que eu tinha uma história, e poderia contá-la sempre que quisesse, eu tinha um nome, um passado e um futuro.
Fechei os olhos e ouvi a voz de meu amigo Leonard McCoy recitando-me talvez a melhor definição de tempo que ouvi.
Há uma época para cada coisa, e um tempo para cada propósito sob o céu:
Tempo de nascer, e tempo de morrer
Tempo de plantar, e tempo de colher o que foi plantado
Tempo de matar, e tempo de curar
Tempo de destruir, e tempo de construir
Tempo de chorar, e tempo de rir
Tempo de lamentar, e tempo de dançar
Tempo de jogar pedras, e tempo de juntar pedras
Tempo de abraçar, e tempo de separar
Tempo de achar, e tempo de perder
Tempo de guardar, e tempo de jogar fora
Tempo de rasgar, e tempo de costurar
Tempo de calar, e tempo de falar
Tempo de amar, e tempo de odiar
Tempo de guerra, e tempo de paz
Eclesiastes
FIM
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