Epidemia

 

 

 

 Conto baseado no Universo Star Trek: The Next Generation

 

 

As personagens: Capitão Jean Luc Picard, Comandante Willian T. Riker, Conselheira Deanna Troi, Dra. Beverly Crusher, Alferes Wesley Crusher, Tenente Worf, Tenente Comandante Data, Tenente George La Forge, pertencem a Paramount Pictures, não pretendendo o autor infringir seus direitos autorais.

 

 

 

Capítulo I

 

Século XX

 

 

            Era uma noite fria em São Francisco. Alícia encontrava-se sentada no fundo do ônibus, quem a observasse diria que apreciava as ruas enfeitadas para o natal, mas na verdade seus pensamentos estavam muito longe dali.

 

            Tivera um dia cheio. As vezes, perdia-se em sonhos e pensamentos com um outro tipo de vida, sem dor, sangue, com menos responsabilidade. Um mundo onde não houvesse tantas doenças, acidentes de trânsito, violência; talvez desta forma não tivesse tanto trabalho. Imaginou a cara de Trevor quando lhe comunicasse que estava caindo fora. Em trinta dias no máximo estaria trabalhando no Centro de Pesquisas de Doenças Infecto-Contagiosas. Adeus plantões, fraturas, etc ... Não que não gostasse de seu trabalho, ela adorava lidar com as pessoas, amenizar suas dores, mas desde o acidente de trânsito que matara sua família, que ela passara a desejar um outro tipo de trabalho, algo que não lhe lembrasse todos os dias sua desventura.

 

            O ônibus parou para que algumas pessoas descessem, algumas crianças brincavam no parque municipal. Seus pensamentos voltaram-se para sua infância, quando se entregava a todas as brincadeiras de corpo e alma e aguardava o dia em que cresceria e se tornaria uma médica. Sonho este cultivado pelo seu pai, que dera tudo de si para que se concretizasse.

 

            - Ei! Doutora. – ouviu o motorista chamando – Esqueceu-se de descer.

 

-          Obrigado Bob. – disse aproximando-se da porta dianteira. – Estava distraída.

 

            - Parece cansada. Muitos doentes? – perguntou o homem de cor que dirigia o ônibus.

 

            - Deveria haver uma lei contra doenças, acidentes, etc. ... – disse com um sorriso.

 

            - Li estes dias que se a população fosse mais bem informada e melhorasse sua qualidade de vida, não haveriam tantos doentes no hospital.  – disse o homem manobrando o ônibus para que ela descesse.

 

            - Tenho certeza que sim. – respondeu. – Até amanhã Bob. –  disse descendo do veículo.

 

            Alicia andou um pouco e parou em frente uma banca de jornais.

 

            - Olá Andy! – disse em voz alta pois o homem idoso era ligeiramente surdo. – Tem alguma novidade? – disse folheando uma revista casualmente.

 

            - Recebi a Starlog, parece que vão fazer um novo filme de ficção científica. – respondeu o homem entregando-lhe um exemplar da dita revista. Ela olhou a capa onde havia uma enorme nave estelar com a foto dos atores escalados para esta nova produção.

 

            - Vou levar estas duas. – disse tirando alguns trocados do sobretudo. – Boa noite Andy.

 

            Prosseguiu seu caminho pensando que deveria ser bom ser ator de cinema, uma profissão que visava apenas divertir e distrair as pessoas. Entrou no supermercado e dirigiu-se ao balcão da frutas onde escolheu algumas maçãs e pêras. Pegou também um prato de lasanha congelado.

 

            Ao sair do mercado olhou casualmente para o céu. Não havia uma única estrela e soprava um vento extremamente frio. Continuaria a chover no dia seguinte.

 

 

 

Capítulo II

 

Século XXIV

 

 

            Jean-Luc observava as estrelas pela vigia da nave auxiliar. Estava ansioso para chegar logo a Enterprise, considerava a nave seu lar, embora tivesse apreciado muito sua estadia em Betazed. Com um sorriso lembrou-se de Lwaxana Troi. A mãe da conselheira havia movido montanhas para agradar-lhe, chegando aos absurdos. Mãe e filha, duas criaturas tão diferentes...

 

            - Capitão! – chamou o piloto interrompendo seus pensamentos. – Sensores indicam distúrbios energéticos a frente.

 

            - Que tipo de distúrbios Tenente? – perguntou mudando-se para a cadeira do co-piloto.

 

            - Impossível saber. Ainda estamos muito distante. – respondeu o rapaz lendo as informações em seu console.

 

            - A Enterprise está no horário? – perguntou Picard enquanto observava os instrumentos.

 

            - Sim senhor! Nos encontraremos em três ponto cinco horas. – respondeu o rapaz.

 

            - Vamos checar o que temos a nossa frente – disse o Cap. Picard. – Entre em contato com a Enterprise  e transmita as novas coordenadas para encontro.

 

            Enquanto  Jean Luc marcava o novo curso, o rapaz comunicava-se com a nave estelar. Picard sorriu intimamente de prazer, pois há muito tempo não pilotava uma nave, era umas das pequenas desvantagens no progresso de sua carreira, tinha de delegar tarefas, algumas das quais apreciava executar.

 

            - Trata-se de uma onda de energia – disse Picard observando o monitor. – Composição: radiação teta, muitas partículas de prótons e anti-matéria.

 

            - Leituras de curto alcance não indicam presença de destroços. – disse o rapaz.

 

            - Alterando o curso em cinqüenta graus, marco zero virgula cinco. – disse Picard.

 

            - Veja! – disse o rapaz ligeiramente ansioso.

 

            A frente da nave uma outra onda aproximava-se em velocidade vertiginosa.

 

            - Reverter curso! – disse Picard. – Ação evasiva.

 

            - Nossos escudos estão sendo drenados senhor. – disse o rapaz

 

            - Desviando fluxo de energia para os motores de dobra. Aumentando velocidade nos propulsores. – informou o Capitão enquanto executava a manobra.

 

            Antes que a pequena nave conseguisse entrar em velocidade warp a onda a atingiu, levando-a como se fosse uma folha no outono.

 

            Dentro da pequena espaçonave o Cap. Picard e o Tenente Austin tentavam nivelar a nave e permanecerem conscientes. Painéis explodiram e todos os sistemas, assim como o  de suporte de vida entraram em colapso.

 

            Antes de perder a consciência Austin viu Picard no chão com um filete de sangue escorrendo de sua testa.

 

 

Capítulo III

 

Século XXIV

 

            Na sala de comando da USS-Enterprise  Willian Riker ocupava a cadeira de comando. 

 

            -  Nossos sensores não registram a presença da nave auxiliar Comandante. – disse Worf de seu console.

 

            - Data! – chamou Riker.

 

            - Há muitas partículas de anti-matéria, vestígios de radiação, porém não há presença de destroços. É provável que tenha sido arrastada pela onda de energia que o Tenente Austin mencionou. – respondeu o andróide.

 

            - Não podem estar muito longe daqui. – disse Will levantando-se. – Sr. Data inicie um padrão de busca, tendo a ultima posição da nave auxiliar como centro. Procure cobrir a maior volume esférico possível no menor espaço de tempo.

 

            – Iniciando padrão de busca. – disse Wesley logo após Data inserir as especificações no sistema.

 

            Meia hora já havia se passado deste que detectaram o desaparecimento da nave auxiliar. Embora não demonstrassem todos estavam apreensivos, principalmente Riker que deste o início fora contra o retorno do Cap. Picard em uma nave auxiliar.

 

            - Senhor! – disse Data - Nossos sensores registram um objeto a deriva com as mesmas dimensões da nave auxiliar.

 

            - Na tela. – ordenou Riker.

           

            - Sensores registram um fraco sinal de vida. – disse Worf de seu console. – Sistema de comunicações inoperante.

 

            - Sala de transporte! – disse Riker acessando seu comunicador. – Fixem coordenadas nos sinais de vida da nave auxiliar e transportem direto para a enfermaria.

 

            - Enfermaria para Ponte. – ouviram  a voz de Bervely no intercom após alguns minutos. - Will! Apenas o Tenente Austin foi transportado.

 

            - Senhor Worf  grupo de busca. – disse Riker de forma apreensiva. – Doutora qual o estado do Sr. Austin?

 

            - Está inconsciente, aparentemente não há lesões graves. – respondeu a médica.

 

            - Mantenha-me informado. – disse Will.  

             

            Após longos minutos de espera Worf entrou em contato com a Enterprise.

 

            - Senhor não há vestígios do Cap. Picard. – disse o klingon. – Todos os sistemas da nave estão inoperantes, suporte de vida funcionando precariamente com força auxiliar.

 

-          Retorne a nave Sr. Worf. – disse Riker. – Sr. Data acione o raio trator, vamos trazer a nave auxiliar para o hangar 4.

 

 

 

Capítulo IV

 

Século XX

 

 

            Alícia se encontrava em frente a tela do seu computador. Seus dedos percorriam o teclado com extrema agilidade impulsionados pela sua imaginação. Ao fundo o Disk Laser tocava pela enésima vez a trilha sonora do filme City of Angels. Ela estava tão concentrada que não ouviu o seu bip tocar na primeira vez.

 

            - Droga! – disse levantando-se. Não precisava pegar o pequeno aparelho para saber que tratava-se de alguma emergência no hospital.

 

            Em cinco minutos ela já se encontrava vestida.  Desceu correndo as escadas para ir pegar o carro na garagem torcendo para que o vizinho do apartamento 62 não tivesse colocado seu Ford atravessado na frente de seu carro. Quinze minutos depois já se encontrava nas dependências do hospital.

 

            - Ok! O que temos aqui? – perguntou entrando na sala de emergência e vestindo o jaleco.

 

            - Acidente de carro. Dez vítimas. – respondeu a enfermeira.

 

            Alícia entrou no pequeno box onde três enfermeiros aplicavam os primeiros socorros em um homem, havia tanto sangue em seu rosto e roupas que não pode definir sua  idade.

 

            - Perdeu muito sangue. – disse o enfermeiro. – Acho que vamos perdê-lo.

           

            - Não mesmo! – disse Alícia com convicção – Vamos estancar esta hemorragia, e logo após quero uma radiografia do tórax e um ultra-som do abdômen total.

 

            Pôr mais de quatro horas ela viu desfilar sobre a maca braços e pernas quebradas, hemorragias internas e crânios fraturados.

 

            Foi com alívio que atendeu seu último paciente e dirigiu-se a sala dos médicos para tomar um café forte.

 

            - É impressionante como um único cara pode fazer tanto estrago.  – disse um jovem médico sentado no sofá ao vê-la entrar.

           

            - Eu que o diga. Ele toma uns drinks e veja o resultado: um morto, seis estados graves, cinco ferimentos leves, cinco médicos e oito enfermeiros stressados. – respondeu a moça sentando-se na poltrona com um copo de café na mão. – Gostaria de saber quem faz as estatísticas de acidentes automobilísticos.

 

            - Você parece cansada. – comentou  o Dr. Allan Virgo

 

            - Tive um dia difícil. Hoje aconteceu de tudo pôr aqui. Onde está Paul? Ele é que deveria estar aqui no meu lugar. – disse a moça tomando um gole de café e fazendo careta. – Isto está horrível.

            - Não conseguimos localizá-lo. Que tal uma pizza? – respondeu o rapaz levantando-se.

 

            - Não! Vou para casa.  – respondeu Alícia.  – Vamos, lhe dou uma carona.

 

            - Preciso ver um paciente antes. – respondeu.

 

            Alícia o acompanhou até o quarto número quatro. Allan se aproximou do homem que ocupava o leito. Parecia dormir. Enquanto o médico examinava o paciente ela o observava. Tinha aproximadamente cinqüenta e cinco anos, calvo, nariz aquilino, boa constituição física.  A julgar pela sua aparência aquele homem gozava de boa saúde.

 

            - O que ele tem? – perguntou Alícia.

 

            - Não sei! – respondeu o médico. – Foi trazido pôr uma viatura da polícia, o encontraram vagando na rua completamente desnorteado e com um ferimento na cabeça também falava coisas sem nexo.

 

            - Qual o procedimento adotado? – perguntou a moça examinando os olhos do paciente e tomando-lhe o pulso.

 

            - Solicitei exames básicos de rotina. – respondeu – Nunca vi alguém nesta idade gozar de tão boa saúde, possui todos os dentes e nenhuma cárie! As radiografias do crânio não indicaram fraturas ou lesões. Amanhã será feita uma tumografia craniana.

 

            - Disse seu nome pelo menos? – perguntou a moça.

 

            - Falou alguma coisa em francês. Quer ele para você? – perguntou o jovem médico. – Estou lotado de pacientes. Amanhã tenho duas cirurgias e outros casos para atender.

 

            - Que modo de perguntar. Até parece que o homem é um objeto para você me dar. – disse Alícia ligeiramente irritada. – Realmente fiquei curiosa.

 

-          É todo seu! – disse Allan sorrindo. - Vamos, estou morrendo de fome.

 

 

 

 

Capítulo V

 

Século XX

 

 

            Ele abriu os olhos, mas não se moveu. O quarto estava a meia luz e ouvia sons de vozes, havia também aquele cheiro estranho. Pôr vários minutos ficou naquela posição tentando organizar os últimos acontecimentos. Lembrava-se claramente da onda de choque ter atingido a nave auxiliar, depois disso tudo parecia pertencer a um pesadelo: a chuva, luzes, um barulho infernal, muitas pessoas.

 

            Depois aquele lugar de cheiro estranho, aquelas pessoas de branco, enfiando-lhe agulhas,  aparelhos estranhos e frios foram encostados em seu corpo, forçaram-no a ingerir coisas. Ele tentara protestar a tudo, mas não conseguira.

 

            - Como se sente? – perguntou uma jovem de cabelos castanhos claros e olhos azuis aproximando-se. Ele não respondeu de imediato.

 

            Ela colocou a mão suavemente em sua testa e depois em seu pescoço, com a outra segurava seu pulso. Ele tentou dizer algo mas sentiu a garganta seca. Ela colocou um aparelho em forma de forquilha no ouvido e encostou a outra extremidade fria em seu peito na altura do coração.

 

            - Quer um pouco de água? – perguntou a moça, imaginando que ele deveria estar com sede, um efeito colateral do sedativo ministrado. Com um breve aceno ele disse que sim e tentou a seguir sentar-se no que ela prontamente ajudou. – Beba devagar! – disse ajudando-o a segurar o copo.

 

            -  Qual seu nome? – perguntou a moça.

 

            - Jean Luc Picard. – respondeu com um pouco de dificuldade ao mesmo tempo que observava atentamente o aposento em que se encontrava. – Que lugar é este?

 

            - Hospital San Martin. – respondeu a jovem médica. – Se lembra como veio parar aqui?

 

            - Está tudo tão confuso. – disse o Capitão abaixando a cabeça e esfregando as têmporas. – Que planeta é este?

 

            - Terra. – disse Alícia surpreendendo-se com a pergunta, mas respondendo-a em um tom simples, como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém perguntar em que planeta estava. – Tem família Sr. Picard, ou alguém que possamos avisar onde o senhor se encontra?

 

            Ele não respondeu, sentia-se tonto e confuso, além de que sua cabeça estava doendo, ele reencostou-se nos travesseiros e olhou em direção a janela que estava fechada com uma persiana, a voz da doutora soava muito distante.

 

            - Sente alguma coisa? – perguntou a jovem de forma preocupada, não obtendo resposta ela envolveu seu braço com uma tira preta, onde havia uma espécie de relógio e uma bombinha, que a medida que ela pressionava fazia com que sentisse pressão aumentar em sua veia, tentou puxar o braço mas ela segurou-o. – Calma! Estou apenas medindo sua pressão sangüínea. – disse com um sorriso. - Ok! Compreendo que não queira conversar no momento. Procure dormir um pouco. Voltarei mais tarde. 

 

            Ela dirigiu-se a porta, mas antes de sair parou na soleira e observou o paciente. – Sr. Jean Luc! Se precisar de alguma coisa é só pedir para me chamarem. Dra. Alícia Frulhër            .

 

            O Capitão Picard ficou sozinho no quarto. Pôr muito tempo fitou a janela até que adormeceu.

 

 

 

 

Capítulo VI

 

Século XX

 

 

            - E então? Descobriu quem é o nosso paciente  misterioso, ou o que ele tem? – perguntou Allan jovialmente ao se encontrar com Alícia no corredor.

 

            - Correção: meu paciente. – disse a jovem em tom de brincadeira, mas deixando claro que ela agora estava a frente do caso. – É muito estranho, ele parece estar sofrendo de algum tipo de bloqueio mental. Que tipo de coisas ele falou quando você o examinou?

 

            - Já lhe disse. Ele misturava inglês e francês, não dava para entender direito. Parecia muito preocupado com um tal Tenente Austin,  e disse algo sobre ondas de energia. Quer saber o que eu acho? Livre-se dele. Encaminhe-o para a psiquiatria.

 

            - Não! Quero saber mais sobre ele. – disse Alícia de forma resoluta. 

 

            - Você viu as roupas dele? Parecia um tipo de uniforme, muito estranho. Deve ser algum tipo de fanático. – disse o jovem médico. – Talvez pertença a alguma seita ...

 

            - Dá um tempo Allan! Te vejo mais tarde. – disse a médica entrando no corredor a direita.

 

 

 

Capítulo VII

 

Século XXIV

 

            Na sala de conferências da USS-Enterprise encontravam-se todos os oficiais de comando.

 

            - Conseguimos acessar o computador de bordo da nave auxiliar. – disse Data. – As ondas de choque tiveram origem no sistema Andreos IV.

 

            - Temos alguma informação sobre este sistema? – perguntou Riker.

 

            - Possui cinco planetas, apenas um é habitado. Há dois séculos atingiram um nível de desenvolvimento que os possibilitaram aventurar-se pelo  espaço, porém a navegação ainda está restrita ao sistema solar. – disse Data.

 

            - Levantamos a hipótese de estarem trabalhando com algum tipo de bomba e testando-a no espaço. – disse La Forge.

 

            - Eles tem consciência de que não estão sozinhos no Universo? – perguntou Beverly.

 

            - Sim. – respondeu Data. – Foram visitados pôr uma nave Klingon há alguns séculos.

 

            - Austin disse alguma coisa doutora? – perguntou Riker.

 

            - Nada que elucide o caso. Lembra-se da onda de choque, de ter visto o Capitão desacordado no chão e mais nada. – respondeu a médica desanimada. Seus olhos azuis deixavam transparecer sua preocupação.

 

            - Conseguiram mais alguma informação do computador de bordo da nave auxiliar? 

 

            - Não senhor. – respondeu La Forge. – Continuamos investigando.

 

            - Geordi, quero que você e Data entrem naquele computador se necessário. – disse Riker levantando-se. – Vamos dar uma olhada em Andreos IV.

 

            Na ponte de comando o alferes Crusher implementou as coordenadas para Andreos IV e deu a partida em dobra cinco para o dito sistema.

 

            Da cadeira de Comando Riker recebia os relatórios e tentava imaginar o que havia acontecido com o Cap. Picard. Chegara a pensar se não seria mais uma das brincadeiras de Q, tendo pôr base que uma vez ele já seqüestrara o Capitão.

           

            - Quando tempo para chegarmos a Andreos? – perguntou a Wesley.

 

            - Se mantermos esta velocidade em duas horas senhor. – respondeu o jovem alferes.

 

            - Senhor Worf assuma o comando. – disse levantando-se. – Estarei na enfermaria.

 

 

 

Capítulo VIII

 

Século XX

 

            Durante todo o dia Alícia pensou no homem do quarto número quatro. A tumografia nada revelara. Portanto só poderia haver uma causa para sua aparente confusão mental; ele havia sofrido um choque emocional.

 

            Durante o almoço Allan tentara convencê-la a enviá-lo para a psiquiatria ou simplesmente dar-lhe alta, entregando-o ao seu próprio destino. Mas ela recusava-se a fazer isso. Simpatizara com ele, a julgar pela sua aparência e estado físico ele não era um indigente, alguém sem família, sem amigos. Tentaria descobrir mais alguma coisa sobre ele e localizar seus parentes. 

 

            Antes de ir visitá-lo ela parou no plantão da enfermaria do andar para ver como ele havia se comportado durante o dia. Falara pouco e comera menos ainda.

 

            - Oi! – disse entrando no quarto e observando que haviam colocado outro paciente com Jean Luc.

 

            - Ah! Finalmente uma doutora bonita. – disse o outro homem. – Quando vão me deixar sair daqui doutora? O serviço de quarto deste hospital é péssimo.

 

            - Ótimo! – disse a jovem médica lendo a papeleta de sua cama, constatando que o homem era diabético. – Assim todas as vezes que desejar comer algo que não pode, se lembrará destes tristes dias. Sua taxa de glicose está muito acima do tolerado. O senhor deve se cuidar ou deste jeito não verá o próximo milênio.

 

            Ela fez um rápido exame no homem, sem deixar de notar que Jean Luc não dissera uma palavra. Após fazer as anotações necessárias na papeleta ela dirigiu-se ao leito que Picard ocupava e fechou a cortina, proporcionando-lhes maior privacidade.

 

            - Como passou o dia? – perguntou suavemente.

           

            - Bem. – respondeu. Ela colocou a mão em sua testa constatando que sua temperatura estava normal. Leu a papeleta de anotações. Durante todo o dia seus sinais vitais mantiveram-se estáveis, apenas uma leve alteração que ela atribuiu a um pequeno estado de ansiedade.

 

            - Muito bem, vamos conversar. – disse sentando-se na beira da cama e segurando-lhe a mão de forma a tomar-lhe o pulso.  Mesmo após ter concluído o exame ela continuou a segurar a mão de Picard. – Tem alguém, algum amigo com quem possa entrar em contado?

 

            - Não. – respondeu o Capitão.

 

            - Tem para onde ir? – perguntou de novo a médica.

 

            Jean Luc olhava-a fixamente. Após um longo sono seus pensamentos voltaram ao lugar. Durante todo o dia observara o movimento a sua volta e graças ao seu companheiro de quarto, que trazia consigo um rádio, ele chegara a conclusão de que fora transportado para o passado da Terra. O acaso colocara em seu caminho aquela jovem e amável doutora, que provavelmente era igual a centenas de milhares de pessoas daquela época, sendo de pouca utilidade para ajudá-lo a regressar para casa. Pôr outro lado teria dificuldades em sobreviver sem algum tipo de ajuda.

 

            - Não! – disse pôr fim.

 

            - Sr. Picard, vou ser sincera com o senhor. – disse a médica. – Fisicamente não há nada de errado com o senhor, mas este seu desnorteamento me preocupa, pode ter sido causado pôr um choque emocional. Aconteceu alguma coisa que gostaria de me contar?

 

            Picard acenou a cabeça negativamente. Alícia suspirou e olhou demoradamente para a janela que agora se encontrava aberta.

 

             Em que século nós estamos? – perguntou.

 

            Alícia olhou-o surpresa. Pela manhã quando ele perguntara em que planeta estavam ela não levou muito a sério a pergunta, pois ele ainda estava confuso e sob efeito do sedativo.

 

            - No ano de 1998. Século XX. – respondeu observando atentamente sua respiração. Nada em sua postura indicava algum tipo de distúrbio emocional. Porém ele ignorava o local onde estavam e o tempo, não era uma caso comum de anminésia.

 

            - Onde o senhor nasceu? – perguntou a Picard.

 

            - França. – respondeu o Capitão.

 

            - Não tem muito sotaque! – observou a moça. – Deve estar na América há muitos anos.

 

              Jean Luc permaneceu calado. Não podia responder a muitas de suas perguntas sem comprometer-se, mas ao mesmo tempo temia que a falta de respostas fizesse com que ela tomasse atitudes mais enérgicas.

 

            - Ok! Teremos tempo para conversar. No momento estou mais preocupada com o que fazer com o senhor. Tenho três opções, gostaria de me ajudar a escolher? – perguntou, porém não esperou que ele respondesse. – Posso enviá-lo a psiquiatria, mas meu julgamento profissional diz que seria a pior coisa para o senhor. Opção número dois: dar-lhe alta, entretanto o senhor não tem documentos, dinheiro, amigos ou lugar para ir. Se for acometido pôr outro lapso poderá acabar em um sanatório ou meter-se em algum tipo de confusão. Terceira e última opção – ela fez uma pequena pausa, pensando no que iria dizer a seguir e imaginando se não seria uma loucura rematada. – Moro há uns quinze minutos daqui, o aluguel do apartamento está pago até julho do ano que vem, estou aguardando uma proposta para trabalhar no Centro de Pesquisas da Califórnia, o que significa que me mudarei em breve para Los Angeles. Minha proposta é a seguinte, eu me responsabilizo pelo senhor, dou-lhe alta e dividimos o apartamento até minha partida.

 

            - Nunca morei em um apartamento. – disse Picard com um leve sorriso, após alguns minutos de reflexão.  

 

            - Ainda haverá alguns exames de rotina... – disse a médica – Meu turno acaba em duas horas, então passarei pôr aqui para dar-lhe alta.

 

            Alícia retirou-se do quarto fazendo antes brincadeiras com o paciente ao lado. O Cap. Jean Luc Picard mergulhou em seus pensamentos. Como poderia voltar para casa? Era a única pergunta que vinha a sua mente. Final do século XX, o mundo estava apenas no início de sua caminhada rumo a globalização. O único astro explorado era a lua, e se sua memória não lhe falhava estavam preparando-se para enviar a primeira missão tripulada a marte. Ele lutava contra o desanimo, e tentava espantar aquela certeza de que jamais voltaria para casa. Concentrava todas suas esperanças em Riker e seus oficiais, pois tinha certeza absoluta de que eles estariam revirando as estrelas do avesso para encontrá-lo.

 

            Seus pensamentos voltaram-se para a Dra. Alícia Frulhër, durante o exame de tumografia cerebral, embora ele se sentisse apavorado com os efeitos daquela máquina em seu cérebro, não deixou de ouvir que ele era um homem de sorte, uma vez que a Doutora se encarregara do caso. Pelo que pode perceber ela era famosa entre os colegas por se envolver com os pacientes. Lembrou-se da Dra. Beverly Crusher, talvez esta fosse uma características dos médicos.

 

   

Capítulo IX

 

Século XXIV

 

            Haviam chegado as coordenadas de origem da onda energética relatada pela nave auxiliar. Pôr quase quarenta e cinco minutos e Enterprise dedicou cada sensor na análise do asteróide a frente. Tratava-se de uma base de pesquisas espaciais, com aproximadamente cinqüenta cientistas e técnicos. Encontraram também vestígios intensos de radiação teta. Agora estavam na parte delicada, entrar em contato com os cientistas e pedir-lhes informações sobre o que havia causado a onda de choque.

 

            - Ainda sem contato Sr. Worf? – perguntou Riker ansioso.

            - Eles se recusam a responder ao nosso sinal. – disse Worf.

 

            - Vamos tentar de novo! – disse o Número Um levantando-se e arrumando a jaqueta do uniforme. – Na tela. Aqui fala o Primeiro Oficial da nave USS-Enterprise da Federação Unida de Planetas. Nossa nave auxiliar foi atingida pôr uma onda de choque que teve origem nesta base, é de supra importância que nos dêem alguma informação sobre este evento, tínhamos um tripulante a bordo que pode estar precisando de auxílio médico. Reiteramos que não é nossa intenção ser hostil, queremos apenas informações para ajudar nosso colega. – com um gesto ele ordenou que desligassem o áudio e a transmissão de sua imagem.

 

            - Eles estão com medo Will. – disse Deanna Troi aproximando-se. – Parece que os Klingons não deixaram uma boa impressão.

 

            - Senhor estão fazendo contato. – disse Worf de seu console, deixando transparecer em sua voz um pouca da ansiedade que sentia. – Estou tentando limpar o sinal.

 

            - Na tela. – disse Riker. A imagem vinha e ia toda destorcida, devido a radiação intensa em volta da base. Pôr fim firmou-se e Riker observou que tratavam-se de humanóides, pareciam-se muito com Geordi, no que se referia a cor da pele, eram carecas e os olhos amarelos, quase da cor de mel.

 

            - Ouvimos o seu pedido Willian Riker, entretanto não podemos atendê-lo. – disse um dos homens mais velhos.

 

            - Senhor como já expliquei antes a vida de nosso Capitão depende das informações que possam nos dar. – insistiu o Oficial.

           

            - Lamentamos pelo seu Capitão, mas entenda, há muitos anos Klingons estiveram em Andreos e nos causaram muitos danos e dor. A informação que nos pede faz parte de nosso protocolo de segurança.

 

            - Compreendemos suas preocupações. – disse Deanna aproximando-se de Will. Embora ela tivesse percebido uma certa agitação pôr parte dos interlocutores no momento em que entrara na conversa ela prosseguiu – Mas a Federação tem um código de ética, o qual nos orgulhamos muito em zelar. Estas informações serão utilizadas unicamente para o resgate de nosso Capitão.

 

            - Não podemos confiar. – disse o homem de modo convicto e quase agressivo. – Há um klingon entre vocês! – disse o homem referindo-se ao Tenente Worf que eles viram no momento em que Troi aproximou-se de Will

 

            - O Tenente Worf é um oficial da Frota Estelar, está regido pelo mesmo código que nós.   – disse o Comandante.

 

             - Como dissemos, não era nossa intenção causar mal e lamentamos pelo desaparecimento de seu Oficial Superior, entretanto reafirmo que não podemos ajudá-los. Aconselhamos que se retirem de nosso espaço, evitando assim maiores desentendimentos.

 

            Sem mais uma palavra eles encerraram as comunicações, deixando Riker e o resto a tripulação fitando as estrelas.

 

            - Sinto muito Comandante! – disse Worf de seu posto sentindo-se culpado pela negação dos cientistas.

 

            - Você não tem culpa pelos atos de seu povo cometidos no passado Worf. – disse Riker sentando-se na cadeira central. – Se quisermos encontrar o Capitão temos que saber o que eles estavam fazendo. Alguma sugestão? – perguntou aos presentes.

 

            - Eu poderia entrar em seus computadores e retirar as informações. – disse Data.

 

            - Isso não seria a mesma coisa que roubo. – perguntou Wesley.

 

            - Sim Wes. – disse o andróide. – Mas ... se eu apagasse de meus bancos de memória toda a informação retirada não haveria provas, nem poderíamos reutilizá-las de novo. 

 

            - Espero que tenha noção de que está propondo algo indecente. – disse o Eng.º La Forge.

 

            - Poderiam encarar isso como um ato de violência. – disse Beverly.

 

            - Eles nos ameaçaram primeiro mãe! – disse Wesley, esquecendo-se momentaneamente de que estavam em serviço. Will percebera o deslize, mas preferiu não fazer nenhum comentário. De repente deu-se conta de que todos o olhavam, aguardavam sua decisão, e não pela primeira vez ele sentiu o peso da responsabilidade do posto de Capitão.

 

             - Realmente não gostaria de iniciar uma guerra. – disse pensativo. – Data existe algum modo de acessar seus computadores sem que percebam?

 

            - Não sei senhor. Preciso estudar mais seus códigos de acesso. – respondeu o andróide.

 

            - De quanto tempo precisa?

 

            – Umas duas horas. – respondeu o andróide

 

            - Eu e Wes podemos criar algum tipo de distração. – disse La Forge com um sorriso matreiro para o jovem alferes.

            - Muito bem, vocês tem duas horas para encontrarem alguma solução. – disse Riker.

 

 

Capítulo X

 

Século XX

 

 

            A enfermeira Rose Stevens  entrou em seu carro. Desde o início do dia que não se sentia bem, por várias vezes sentira-se tonta e o corpo febril. Ele mesma medicara-se com analgésicos e anti-térmicos imaginando que estaria prestes a ficar resfriada. Ela ligou o carro mas demorou para dar a partida, pois seu coração batia tão acelerado que tinha dificuldade para respirar. Ela esperou alguns minutos e até mesmo pensou em retornar ao hospital e consultar-se com o Dr. Sanders ou com a Dra. Frulhër, mas não havia tempo, sua mãe havia ligado avisando de Stephanny  havia passado mal na escola.

 

            A caminho de casa passou pelo mercado e na farmácia. Sentia-se ansiosa para chegar, não era somente preocupação com a saúde da filha, ela sentia-se pior a cada minuto que passava.

 

            Em outras casas pessoas adoeciam, a princípio imaginavam tratar-se de um dos típicos resfriados de final de ano. Vários coleguinhas de Stephanny também apresentavam sinais de início de resfriado.

 

            Na décima delegacia de polícia o Policial Thomas Wagner fora internado pela manhã, com problemas cardíacos e seu companheiro durante todo o dia se queixara aos colegas de dores no corpo, febre e taquicardia, ao meio dia ele resolveu passar no Hospital San Martin para uma consulta ficando internado para observação. Alguns colegas do distrito também pegaram a estranha gripe e transmitiram a suas famílias, e pessoas com quem lidaram durante o dia.

 

            Em um dia boa parte da região oeste de São Francisco sofria de uma estranha forma de gripe.

 

            Como era época de Natal os Aeroportos estavam repletos de passageiros dirigindo-se  às suas cidades de origem, sem saber levavam o vírus para outras regiões dos Estados Unidos.

 

           

Capítulo XI

 

Século XX

 

 

            Alícia estava preparando o jantar, enquanto Jean Luc estava na sala, vez pôr outra ela o observava atentamente, durante o caminho  para casa não deixara de perceber aquele brilho fugaz de alegria e prazer em seus olhos, como se olhasse o mundo pela primeira vez. Não lhe passara desapercebido também o conteúdo das poucas perguntas que ele fizera durante o percurso. A seu pedido o Dr. Charles Bannon havia aplicado-lhe uma bateria de testes. Os resultados foram interessantes, mas de pouca utilidade para esclarecer alguma coisa sobre o seu estado psicológico. Possuia um raciocínio lógico extremamente aguçado, observador nato, com capacidade de liderança, sexualidade bem definida, enfim uma pessoa normal. Alias, se havia alguma coisa a chamar a atenção era exatamente a normalidade de Jean Luc Picard, tanto o aspecto física, como emocional. 

 

            Pelo menos ela sabia que não estava levando para sua casa um homem violento ou viciado, porém ainda restava a pergunta que ela se fizera o dia todo: O que havia acontecido para que ele negasse não somente sua vida mas todo o mundo?

 

            Charles havia sugerido uma acompanhamento terapêutico e até mesmo dispôs-se a atendê-lo em seu consultório, ela agradeceu-lhe o interesse e disse que iria conversar com o Sr. Picard. Mas antes disso era necessário descobrir mais sobre ele, se tinha família, amigos, onde morava...

 

            Ele pegou um porta retrato sobre o móvel e observou atentamente. Alícia com um jovem loiro de olhos azuis e boa estatura, ao lado do casal um senhor baixo de cabelos brancos e uma garotinha há frente, deveria ter na ocasião não mais que seis anos, poderia-se dizer que era uma versão em miniatura da doutora. Todos sorriam, não um sorriso forçado, mas algo natural, aquela foto retratara um real momento de felicidade.  Ele aproximou-se da porta segurando o porta retrato.

 

            - Sua família? – perguntou a Alícia que estava de cabeça baixa cortando as verduras.

 

            - Sim! – respondeu olhando a foto com um breve sorriso. – Estão mortos. Acidente de carro.

 

            - Sinto muito! – disse Picard arrependido de ter tocado em um assunto tão delicado. Ele retornou a sala e colocou o objeto sobre o móvel com muito cuidado. Haviam outras fotos, mas absteve-se de fazer perguntas.  – Posso ajudá-la em alguma coisa? – perguntou aproximando-se novamente.

 

            - Estou quase acabando. Sente-se. – disse indicando-lhe uma cadeira próximo a mesa em que trabalhava. – Hoje acenderão as luzes do Parque Municipal, é muito bonito. Gostaria de ir?

 

            - Seria um prazer! – disse Picard lembrando-se vagamente de alguns hologramas que havia visto, com árvores enfeitadas com luzes e outros enfeites de natal. – Quando ouvi seu nome pela primeira vez pensei que fosse alemã, mas tapeçaria em sua sala é de origem judaica.

 

            - Na verdade sou judia. Vovó morreu nos campos de Varsóvia, vovô conseguiu fugir para a América com seu único filho, quando chegou aqui mudou de nome temendo que se iniciasse uma caçada aos judeus. Pensou que estaria protegido se seu sobre nome fosse alemão.

 

            - O fato conhecido como o Holocausto. – disse Picard mais para si mesmo, lembrando-se deste período da história.

 

            Alícia não disse uma palavra, foi até a sala, e de dentro do móvel retirou um grande álbum de retratos.

 

            - Pertencia ao vovô. – disse entregando-o à Picard. Talvez se lhe mostrasse algo de sua vida, inspirasse nele a confiança necessária para que ele falasse um pouco de si.

 

            Enquanto o Cap. Picard folheava o álbum e lia algumas manchetes recortadas de jornais e revistas da época a Dra. Frulhër preparava o jantar.

 

            Picard fechou o livro com respeito e dirigiu-se para a sala parando em frente a janela, quatrocentos anos haviam se passado, o que chegara a seus ouvidos foram apenas relatos e algumas imagens, sentiu algo desagradável dentro de si ao ver aquelas fotos e ler as reportagens. Centenas de milhares de pessoas mortas, jogadas nuas em enormes buracos, como se não fossem nada mais que lixo. Não conseguia conceber tamanha barbaridade,  experiências com seres humanos, câmaras de gás ...

 

            - Venha! – disse Alícia suavemente chamando-o para jantar.

 

           

            Jean Luc sentou-se a mesa tentando afastar de sua mente as imagens que vira há pouco. O início da refeição foi um tanto constrangedor. Alícia olhava-o de forma inquiridora, como se esperasse que ele dissesse algo, ele compreendia, em seu lugar já teria exigido algumas respostas.

 

            - Cozinho tão mal assim? – perguntou Alícia de repente.

 

            - Ãh! Não, está ótimo. – respondeu. – Para dizer a verdade há muito tempo não como algo tão gostoso. – era verdade a comida da Enterprise era boa, mas sintetizada.

 

            - Jean Luc Picard. – disse a moça em bom tom como se experimentasse o som de cada sílaba. – Tem classe, imponência. Sabe, você tem jeito de militar, talvez um Almirante? – disse de modo jovial, ele sabia que ela estava tentando fazer graça para diminuir o constrangimento e fazê-lo falar. – Não! Almirante não. Capitão! Combina mais. Capitão Jean Luc Picard. – disse sorrindo.

 

            Ele também sorriu, mal sabia ela o quanto perto da verdade estava.

 

            - Está bem! Não funcionou. – disse prosseguindo.  –  Não precisa dizer nada sobre você, se não desejar, mas também não precisa ficar com esta cara de enterro.

 

            Ele sorriu. Gostaria de perguntar tantas coisas, mas temia chamar pôr demais a atenção, levantar suspeitas.

 

            Após a refeição eles foram até o Parque Municipal, que ficava há algumas quadras do apartamento. No caminho pararam na banca de jornal de Andy, onde Alícia apresentou o Capitão ao velho surdo.

 

            Enquanto Alícia conversava com o homem Jean Luc teve sua atenção voltada para a manchete do jornal “ Objeto não identificado cai na proximidades de São Francisco” .Logo abaixo um pequeno resumo da manchete “ Nesta madrugada um objeto vindo do espaço cruzou nosso céu alojando-se em uma enorme cratera ao oeste de São Francisco. Os militares já cercaram o local e afirmam tratar-se apenas de um meteorito. Maiores informações na página 4.”

 

            Alícia observou quando Jean Luc teve sua atenção desviada para o jornal.

 

            - O que achou de tão interessante? – perguntou aproximando-se dele e deixando Andy atendendo outro freguês.

 

            - Nada! – respondeu o Capitão dissimulando o seu interesse. Ele havia visto a queda do meteorito. A princípio pensou ser a nave auxiliar. Lembrava-se que havia tentado chegar ao local, mas o seu precário estado físico o impedira, assim como diversas pessoas, incluindo os policiais que o levaram ao hospital.– Apenas esta manchete.

 

            - Foi perto de onde o encontraram. – disse a moça pegando o jornal.  – Andy! Amanhã acerto este com você. – disse em voz alta para o homem surdo e mostrando-lhe o exemplar.

 

            - Aqui você manda. – disse o velho com um sorriso. – Se não se apressarem não acharão um bom lugar.

             

            Alícia entregou o jornal a Picard e dirigiram-se ao Parque Municipal. Havia muita gente e crianças brincando, todos pareciam não sentir o frio que fazia. A jovem médica a seu lado sorria e cumprimentava algumas pessoas, ninguém parecia se importar com sua presença.

            Eles se dirigiram ao centro da praça onde várias pessoas se acomodavam no gramado. Agora ele entendia para que ela trouxera o jornal velho. Picard observava tudo com profundo interesse, porém guardava para si suas considerações.

 

            Picard notou que várias crianças e adolescentes  subiam no palco, todos vestidos a caráter para o coral. Além deles subiram também um padre e uma mulher de aproximadamente cinqüenta anos que Alícia informara ser a soprano.

 

            O padre começou seu discurso agradecendo a presença de todos e logo após contou um pouco sobre o que significava o natal e o espírito natalino. O coro começou a cantar canções de natal. Para Picard aquele momento pareceu mágico, esqueceu-se por completo de sua situação e entregou-se ao som da voz da soprano e das crianças, nunca em toda sua vida ouvira “ Ave Maria “ ser tão bem interpretada. Ao final da música os sinos da Catedral anunciaram meia noite e as luzes dos postes apagaram-se no exato momento em que o parque criou vida. Ao seu redor surgiram renas, trenós, estrelas, árvores tudo iluminado por pequenas lâmpadas. Do céu caia neve artificial. Todos estavam contagiados por um sentimento de alegria e fraternidade. Pela primeira vez desde que chegara aquele mundo estranho sentiu-se feliz.

 

             - Gostou? – perguntou a moça.

 

             - Muito! Do lugar de onde vim não comemoramos o natal assim. – disse Picard, lembrando-se da distância que o separava de seus amigos e perguntando-se se algum dia os veria de novo. Alícia nada disse.

 

            Por algum tempo caminharam pela alameda admirando a iluminação e fazendo alguns comentários. Mas na maior parte do tempo havia um silêncio inquisidor sobre eles. Jean Luc estava ciente de sua necessidade de partilhar com alguém sua aventura. Talvez motivado pelos acontecimentos da noite ou pela consideração e respeito que Alícia lhe demonstrara ele decidiu que lhe contaria como chegou a terra.

 

-          Gostaria de saber o que aconteceu ontem a noite? – perguntou Picard, sabendo que não poderia esconder dela por muito tempo sua história.    

 

 

Capítulo XII

 

Século XXIV

 

            Estavam todos na sala de conferências. Não era preciso ser sensitivo como Deanna Troi para ver que todos estavam desanimados.

           

            - Austin lembrou-se de algo. – disse Beverly. – Ele me contou que teve a impressão de que tudo a sua volta piscou e que por uma fração de segundos eles estavam em outro lugar. Suas lembranças são vagas e pouco precisas, mas parece que neste lugar haviam luzes e chovia.

 

            - Uma outra dimensão? – perguntou Riker.

 

            - Isso faria sentido senhor. – disse La Forge. – Uma onda de choque de grande magnitude, dependendo da fonte geradora poderia ter o efeito de um teletransporte.

 

            -  Data o que você conseguiu? – perguntou Riker.

 

            - É possível acessarmos os bancos de dados de Andreos sem que eles saibam, entretanto fica a questão ética.

 

            - Olha quem fala de ética! – disse La Forge.

 

            - Embora seja errado o que vamos fazer isto evitará um mal entendido. – disse Riker, imaginando se sua decisão de invadir a rede de computadores de Andreos não criaria um outro tipo de mal entendido. – Execute Sr. Data e vamos torcer para que não percebam o que estamos fazendo.

 

            - Eu e Wesley cuidaremos da distração senhor. – disse La Forge - Simularemos um mal funcionamento em nossos campos de contenção, isso distorcerá as transmissões subespaciais causando interferência na rede de computadores de Andreos.

 

            - E se eles reclamarem? – perguntou Deanna.

 

            - Diremos que nossos problemas foram causados por suas experiências. – disse Riker, com um sorriso de pouco caso. – Vamos pessoal ao trabalho.

 

            Em dez minutos Data já vasculhava os bancos de dados de Andreos, não demorou muito já tinham a informação de que tanto precisavam. Infelizmente com ela surgiu mais um dilema.

 

            -  ... eles estavam efetuando varreduras de longo alcance, em busca de planetas habitados. – disse Data. – Porém eles utilizam-se de ondas de energia que quando em contado com os nossos escudos defletores gera um campo de distorção temporal. – disse Data.

 

            - Isso quer dizer que para conservarmos a vida como a conhecemos teremos que convencê-los a utilizar um outro tipo de sondagem. – disse Riker pensativo.

 

-          Seja lá onde estiver, o Capitão Picard já pode estar causando alterações em nosso Universo. – disse Geordi de modo sombrio.

 

            - Confiaremos no bom senso do Capitão. Tenho certeza de que a esta altura ele já deve ter percebido o que aconteceu e terá o máximo de cuidado com suas palavras e atos. – disse Will, tentando dissipar os receios de seus oficiais. - Com as informações obtidas,  vocês poderiam determinar o local e época em que poderemos encontrar o Cap. Picard? – perguntou Riker.

 

            - É possível senhor. – respondeu La Forge. – Conhecemos o fator de aceleração da onda, assim como sua origem e destino. No momento em que a nave auxiliar foi transportada para o passado as ondas estavam direcionadas ao sistema, denominado por eles de Hya-4, ou seja Setor 001.

           

            - O Sistema Solar – disse Troi.

 

            - Exatamente direcionado para a Terra, Conselheira - continuou Data. - Com mais alguns dados poderemos fazer uma simulação.

 

            - E qual a margem de erro? – perguntou Riker.

 

            - Zero ponto zero cinco por cento senhor. – respondeu Data.

 

            - Executem. – disse Riker.

 

 

Capítulo XIII

 

Século XX

 

            Alícia estava deitada, mas não conseguia dormir. A história de Jean Luc não lhe saia da cabeça. Século XXIV, isso era loucura. Ele parecia ser um homem tão ponderado, equilibrado, agora suas responsabilidades para com ele redobravam. Allan tinha razão deveria tê-lo encaminhado para psiquiatria.

 

            Bom, ainda havia tempo para isso. Ela revirou-se na cama contrariada pois sabia que jamais teria coragem de fazer isso com ele. Dessa vez ela havia conseguido arranjar uma bela confusão para si. Como poderia partir e deixá-lo sozinho em São Francisco?

           

            Lembrou-se de seu amigo Robert, que trabalhava no FBI, talvez ele pudesse localizar algum parente de Picard. Isso! Pediria a ele que fizesse uma busca na América, França e Inglaterra, até lá Jean Luc ficaria sobre os seus cuidados. Foi elaborando seu futuro próximo que ela adormeceu.

 

             No quarto ao lado Picard também não conseguia dormir. Já não tinha tanta certeza de ter feito a coisa certa, por um lado sentiu grande alívio em partilhar com alguém suas desventuras, mas por outro percebeu que a Dra. Frulhër não acreditou em uma só palavra sua. Outra pessoa teria feito muitas perguntas, mas ela limitara-se a fazer perguntas lógicas que visavam checar a consistência de sua história.

 

            Em toda sua vida Jean Luc Picard nunca se sentira tão sozinho e desamparado. Dependia exclusivamente dos esforços de Riker e seus oficiais para retornar para casa, as chances de não conseguirem eram muito grandes para serem desconsideradas. Isso lhe deixava a perspectiva de passar o resto de sua vida na Terra do Séc. XX.  Teria que aprender uma profissão e ganhar seu próprio sustento e jamais em hipótese alguma ficar no caminho da história. Essa sem dúvida seria a parte mais difícil, tornaria-se mais um insatisfeito, pois ele sabia que não era homem de ficar aguardando o destino, sempre correra atrás de seus objetivos, atingira meta após meta, acostumara-se com o comando. Lembrou-se da sensação de bem estar que tivera no Parque Municipal , tentou reter aqueles momentos em sua mente e acabou adormecendo. Sua noite foi povoada por sonhos e pesadelos.

            Ele acordou com som de vozes na sala. Pela janela entrava uma suave luz, indicando-lhe que já amanhecera. Sem fazer barulho vestiu o roupão e abriu a porta devagar. Alícia estava ao telefone e falava dele.

 

            -  ... realmente não sei Robert, parece ser uma pessoa de boa índole, muito educado, aparentemente culto ...

 

            - Você é maluca Alícia, no mundo em que vivemos colocar um estranho dentro de casa é muito arriscado, principalmente você morando sozinha.

 

            - Robert não liguei para ouvir um sermão. – disse a moça. – Quero que me faça apenas um pequeno favor.

 

            - Por você eu moveria o Universo.

 

            - Não precisa tanto! Gostaria apenas que verificasse nos computadores do FBI se há algum Jean Luc Picard desaparecido.

 

            - Isso vai ser fácil. Tem alguma foto dele?

 

            - Peça ao Hospital, temos sua ficha completa. – disse a moça. – Poderia estender suas buscas até a França e Inglaterra?

 

            - Farei melhor do que isso. Se houver algum Picard na face da Terra eu encontrarei. Retornarei a ligação logo após o Ano Novo.

 

            - Ótimo! Espero que passe um bom Natal com sua família. – disse a moça desligando.

 

            No momento em que levantou-se viu Jean Luc parado a porta, em seu olhos havia algo que poderia ser interpretado como decepção. Ela sentiu-se sem graça, como se tivesse sido pega fazendo algo errado, baixou os olhos sem poder encará-lo e sem saber o que dizer.

 

            - Não acreditou em uma palavra do que eu lhe disse não é mesmo? – perguntou Picard aproximando-se.

 

            - Venha! Vamos conversar. – disse conduzindo-o até a cozinha. Ela pegou duas canecas e serviu-os de café sentando-se próximo a Jean Luc.

 

            Ficaram uns cinco minutos em silêncio, ela sabia que ele aguardava uma explicação.

 

            - Consegue perceber o quanto é inverossímil a história que me contou? Uma parte de mim diz para acreditar em você, para confiar, mas ... – ela fez uma pequena pausa e tomou um gole de café. Estava procurando as palavras certas para não ofendê-lo ou magoar-lhe. - ... sou médica Jean Luc, todos os dias lido com dezenas de pessoas, dezenas de histórias, talvez tenha me tornado céptica em relação há algumas coisas. Acredito em sua história, por que você acredita nela. Seria muito fácil virar-lhe as costas e abandona-lo ao próprio destino, mas quanto tempo sobreviveria lá fora? Quero ajudá-lo, quero ser sua amiga, mas seria irresponsável de minha parte apoiá-lo em suas fantasias.

 

            - Compreendo. – disse Picard em voz baixa. – Se eu tivesse ao menos uma prova. Espere! – ele levantou-se indo para o quarto, quando voltou tinha algo nas mãos.

 

            - Esse é o meu comunicador. – disse mostrando o pequeno broche com a insígnea da Federação. – ela pegou o pequeno objeto de suas mãos e sorriu.

 

            - Coisas como estas são vendidas aos montes por todos os lugares. – disse devolvendo-lhe o comunicador. - Venha! Vou lhe mostrar uma coisa.

 

            Eles dirigiram-se até a janela da sala. Lá fora carros e pessoas iam e vinham, envolvidas com seus próprias vidas e preocupações. Por alguns minutos eles ficaram em silêncio observando o movimento.

 

            - Ultimamente a impressão que temos é que o tempo está passando mais depressa, mas não é o tempo que nos escapa, são as mudanças que ocorrem rápido demais. - começou Alicia a dizer ... – conferências com o outro lado do mundo em tempo real, clonagem de seres vivos, Internet, luz solar, viagens à outros mundos, não conseguimos acompanhar. Isso tudo gera um sentimento de inadequação, falta de perspectiva, ... nos deixamos arrastar pela vida, tropeçamos, levantamos, corremos atrás do prejuízo, mas parece que nada adianta e no fim resta a certeza de que o fim está próximo, olhamos para trás e descobrimos que fizemos muitas bobagens, algumas sem retorno, então olhamos para frente e não vemos nada, e as vezes temos a impressão de que ninguém se importa.

 

            - Por que está me dizendo estas coisas? – perguntou Picard.

 

            - Porque eu me importo. – disse Alícia suavemente e  olhando-o diretamente nos olhos.

 

            - A profecia de que o mundo acabará no ano 2000? – perguntou Picard, imaginando aonde ela queria chegar com aquela conversa.

 

            - O mundo jamais acabará desta forma. Ele apenas está se transformando depressa demais. Por isso as pessoas de sentem perdidas, não sabem o que virá a seguir, a máquina substitui o homem, o homem substitui Deus... e depois o que virá? Nem todos os homens podem ser deuses, então o que eu sou?

 

            - O que acontece hoje no Século XX, pode parecer assustador para vocês, mas no Século XXIV será apenas uma rotina, e jamais alguém tomará o lugar de Deus. – disse Picard.

 

            - Percebe suas palavras? – perguntou Alícia. – Em seu mundo você eliminou as coisas que nos assombram, a seu modo você se reconciliou com o mundo, mas pagou um preço por isso, se desvinculou de tudo e transformou a realidade em fantasia.

 

            -  Não estou louco Alícia, acredite em mim. – disse Picard brandamente, mas Alícia percebeu o apelo que acompanhava sua voz. Ele realmente acreditava que estava em outra época que não a sua.

 

            - Tenho certeza de que não está louco, caso contrário jamais o teria trazido para cá. – disse Alícia. – Você é um homem educado, culto e com grande potencial. – ela fez uma pequena pausa. – Há bastante lugar lá fora, para todos que queiram ousar e tenham coragem para seguir em frente e vencer. Não gostaria de vê-lo em um sanatório, subjugado, alienado e menos ainda de vê-lo jogado pelas sarjetas de São Francisco.  Na noite em que foi levado ao San Martin alguma coisa aconteceu com você, algo que machucou muito, então você esqueceu. Fugiu para um mundo só seu e agora está perdido ...

 

            - Sim! Naquela noite eu estava voltando para minha nave e de repente vi-me atirado em um mundo estranho, barulhento e caótico. – disse Picard olhando-a diretamente nos olhos e demostrando um certa impaciência na voz. – Me lembro perfeitamente de cada detalhe. – Picard saiu de perto da janela e andou pela sala, por fim sentou-se no sofá olhando-a.

 

            - Ok! - disse Alícia com um suspiro desistindo por hora . - Vamos procurar lidar com isso de forma prática. –– Se sua história for verdadeira nada poderemos fazer. Você  não pode voltar por seus próprios meios, pois ainda não possuímos o conhecimento e nem a tecnologia necessária para efetuar viagens no tempo. A única coisa que lhe resta é se adaptar ao resto do mundo. 

 

            - Acho que tem razão! – disse Picard após alguns minutos de reflexão.

 

            - Bom! – respondeu,  ela  pensou em dizer mais alguma coisa, forçar-lhe a encarar a realidade, mas mudou de idéia – Tenho que ir trabalhar! Conversaremos mais tarde, vou deixar o número do hospital e do meu bip se precisar saberá onde me encontrar.

 

            Ela foi pegar sua bolsa. Jean Luc continuava na mesma posição, completamente alheio ao ambiente.

 

            - Se quiser dar uma volta para conhecer a vizinhança não se esqueça de trancar a porta ao sair. Tem algum dinheiro também se precisar. – disse deixando sobre a mesa de centro um cartão de visita e duas notas de dez dólares. - Até mais. – disse saindo.

 

            Alícia tinha razão, não importava se ela acreditasse nele ou não, era fato que estava preso naquele mundo e que tinha apenas ela para orientá-lo. Com o tempo talvez acreditasse nele. Sentiu um arrepio ao dar-se conta que já começava a pensar em um futuro naquele lugar.

 

           

Capítulo XIV

 

Século XXIX

 

            - Comandante já temos a localização aproximada do Cap. Picard. – disse Data ao entrar na ponte de comando acompanhado por La Forge e Wesley. Riker inclinou-se ligeiramente na poltrona, sem deixar de notar uma leve agitação em todos os presentes com a declaração de Data.

 

            - Prossiga. – disse o rapaz.

 

            - Fizemos uma projeção e considerando o impulso e aceleração da onda, mais os dados coletados pela nave auxiliar, o Capitão Picard foi transportado para o Sistema Solar, planeta Terra, final do século XX.. – disse o andróide.

 

            - Como conseguiram rastrea-lo? – perguntou Riker surpreso com a precisão dos dados.

            - No momento em que a nave auxiliar foi pega pela onda de choque, eles estavam efetuando varreduras de longo alcance,... – disse La Forge aproximando-se um pouco. - ... provavelmente procuravam pela origem das ondas. Está tudo registrado no computador de bordo, na verdade toda a nave foi transportada para esta época, porém a aceleração não foi o suficiente e somente o Cap. Picard foi efetivamente transportado.

 

            - Causa? – perguntou Riker.

 

            - Desconhecido senhor! – respondeu Data.

 

             - De quanto tempo precisam para preparar a Enterprise? – perguntou Riker.

 

            - Com pessoal extra em duas horas e meia senhor. – disse La Forge.

            - Ok! Vamos lá. – disse o Comandante. Ele observou seus oficiais saírem. Sentiu a mão cálida de Troi em seu braço e voltou-se para ela.

 

            - Nós vamos conseguir Will. – disse tentando aplacar um pouco de sua ansiedade. – O que faremos com os Andreanos?

 

            - Espero terminar com isso antes que façam sua próxima varredura. – respondeu. – Quando voltarmos tenho certeza de que o Capitão será capaz de convencê-los.

 

            - Já pensou que a presença do Capitão constituirá uma prova de que “ roubamos “ seus segredos de estado? – perguntou a moça com sua voz suave.

 

            - Hum! Hum! – respondeu Riker. – E isto é um outro fator para atrapalhar.

 

 

Capítulo XV

 

Século XX

 

              Picard caminhava pela calçada distraidamente. Eram tantas coisas novas, tinha tanto para aprender. A sua volta pessoas caminhavam apressadas carregando sacolas e pacotes. Muitos carros passavam pela rua, buzinando e soltando uma fumaça que irritava seus olhos e garganta. A doutora lhe explicara que o grande movimento era devido ao Natal. Ele observava atentamente as pessoas a sua volta e como se comportavam. Era fascinante observar " in loco " como era o mundo há quatrocentos anos.

 

            De repente algo bateu contra ele que perdeu o equilíbrio e antes que pudesse fazer algo, um garoto com a idade aproximada de Wesley já se encontrava na outra esquina.

 

            - Tudo bem? – perguntou uma mulher idosa ajudando-o a levantar-se. – Hoje em dia não há mais respeito pelas pessoas. Acho melhor o senhor verificar sua carteira. - Picard olhou-a sem compreender de imediato seu comentário.

 

            - O que quer dizer? – perguntou, instintivamente levando sua mão ao bolso da calça, seu comunicador havia desaparecido.

 

            Sem pensar ele saiu correndo na direção que o garoto tomara deixando a senhora plantada no meio da calçada gritando que ele era um mal-educado, pois nem ao menos havia agradecido.

 

            - O que aconteceu? – perguntou policial aproximando-se de Picard que olhava ansioso para todos os lados do cruzamento na esperança de localizar o menino.

 

            - Meu comunicador! – respondeu Picard sem dar-se conta de que falava com um policial. O aparelho nas mãos de técnicos poderia alterar toda a história na humanidade, pois apesar de pequeno possuía uma tecnologia altamente avançada, sem mencionar o fato de que infringia diretamente a primeira diretriz . – O garoto levou meu comunicador.

 

            - Esqueça! Jamais vamos encontrá-lo. – respondeu o homem ao seu lado.

 

            - Você não entende! Precisamos encontrá-lo. – disse Picard extremamente preocupado.

 

            - Senhor eu realmente gostaria de ajudá-lo... - disse o homem sem conseguir esconder sua impaciência, já não bastavam os problemas diários com o trânsito, violência doméstica, assaltos e pequenos furtos, agora tinha de lidar com loucos também. – O metrô fica a cem metros daqui, neste instante o garoto pode estar em qualquer ponto da cidade, nós nem ao menos vimos seu rosto. Se o objeto é tão importante assim para o senhor, vá até a delegacia e faça uma queixa. Mas asseguro-lhe, eles não irão encontrá-lo, as circunstâncias do assalto e a descrição do suspeito correspondem a quase cem por cento dos assaltos de rua de todo o país. – É melhor ir para casa amigo. – disse o policial saindo e dando um tapinha amistoso no ombro de Picard.

 

 

Capítulo XVI

 

Século XX

 

            Durante todo o dia anterior e principalmente durante a noite chegaram casos de pessoas apresentando os mesmos sintomas. No ônibus Alícia escutara alguma coisa sobre uma nova gripe, mas não deu muita importância ao fato uma vez que gripe era comum naquela época do ano. Mas ficara surpresa ao chegar no hospital e descobrir que quarenta por cento dos leitos já eram ocupados por portadores do vírus.

 

            Sem perder tempo ela iniciou  o seu turno. Por volta das onze horas ela estava na sala de raio X verificando alguns exames quando Allan chegou.

 

            - Hoje será um dia muito longo. – disse Allan entrando na sala. – Nas últimas três horas já atendi quinze casos idênticos.

 

            - Febre alta, dores no corpo, tontura, arritmia ... – respondeu a moça largando os exames e sentando-se na beira da bancada. – Acabo de internar três pessoas, duas delas são nossos funcionários. E devo ter atendido a mesma quantidade de pacientes que você além destes que citei. Paul pediu informações nos outros hospitais e postos de emergência.

 

            - Na véspera de Natal! Belo presente. – disse o rapaz a sua frente. – Só espero que isto não piore.

 

            - Sinto muito amigo. – disse Paul que entrara a tempo de escutar as últimas palavras de Allan. – Acabo de receber os resultados do laboratório.

 

            - Solte a bomba! – disse Alícia.

 

            - Trata-se de um vírus altamente contagioso, o período de incubação é de aproximadamente vinte e quatro horas, dependendo do estado físico da pessoa pode ser apenas de uma hora para manifestar-se os primeiros sintomas. Trevor já está em contato com o prefeito para que a população seja informada. – disse o Dr. Sanders.

 

            - Vocês  não estão exagerando?. – perguntou Allan – Até agora não tivemos nenhum caso grave.

 

            - Engano seu, nobre colega, enquanto você fica aqui tentando seduzir a Dra. Frulhër com este seu sorriso torto, acabo de mandar para a UTI aquele policial que chegou ontem pela manhã.

 

            - Quais os sintomas? – perguntou Alícia sem fazer caso da brincadeira em relação a sua pessoa, há anos aqueles dois disputavam por sua atenção, mesmo quando Friedrich ainda estava vivo.

             - Infecção generalizada, atingiu alguns órgãos vitais. E temos outros caminhando para o mesmo quadro clínico. – disse o jovem médico. – É um fato. Estamos com uma epidemia!

 

            Durante toda a dia foram chegando casos novos, a única coisa que tinham certeza era que a doença era contagiosa.  Logo após o almoço Allan começou a sentir-se mal. Receberam também a notícia de que em outros pontos da cidade haviam casos semelhantes. Não demorou muito chegou a informação de que havia surgido dois casos em Nova York e um em Detroit. Aquilo estava se alastrando rapidamente e sem nenhum controle.

 

            Apesar da confusão reinante no hospital, Alícia havia tentado entrar em contato com Jean Luc várias vezes durante o dia, porém o telefone apenas chamava. Talvez ele não soubesse como atendê-lo, pensou consigo mesma, imaginando como poderia existir alguém no mundo que não conhecesse um telefone ou mesmo o funcionamento de um simples aparelho de CD.

 

            Por quase todo o dia Jean Luc caminhou pelas ruas da cidade, tinha de encontrar seu comunicador. Pediu informações a diversas pessoas, e por muitas foi tratado como se estivesse louco. A cada minuto que passava detestava mais o século XX, imaginando que jamais conseguiria se adaptar há um mundo tão caótico e diferente do seu. Pessoas iam e vinham sem dar-se conta de que haviam outras ao seu redor, para conseguir uma informação precisa era necessário perguntar a mesma coisa a diversas pessoas.

 

            Por fim cansado e com fome resolveu voltar para o apartamento de Alicia. Agora caia uma chuva fina. Enfiou a mão nos bolsos e imaginou se conseguiria comprar alguma coisa para comer com as poucas moedas que lhe sobraram.

 

            Passou em frente a um estabelecimento onde observara algumas pessoas comendo sanduíches e tomando café. Resolveu parar ali.

 

            Ele entrou na lanchonete e ficou observando o local por algum tempo, até que um homem robusto sentou no banco próximo ao seu e pediu um chesseburger e uma coca-cola isso tudo acompanhado de brincadeiras de mal gosto com a garçonete. Cansado, irritado e frustrado, as grosserias daquele homem quase o fizeram intervir a favor da moça, porém o bom senso ainda o acompanhava e ele engoliu sua indignação.

 

            A jovem aproximou-se dele e perguntou se queria alguma coisa, em bom tom  e com toda a educação que possuía ele pediu a mesma coisa que o homem. Ambos foram servidos ao mesmo tempo, e enquanto Jean Luc examinava seu lanche o homem em três ou quatro dentadas acabou com o seu sanduíche.

 

            Ele pegou o seu lanche do jeito que o sujeito fizera e deu uma pequena mordida. Aquilo era horrível, muito óleo e uma coisa amarela escorria de dentro do pão. Ele desistiu, tomou apenas o refrigerante pagou a conta e pôs-se a caminho.

           

 

Capítulo XVII

 

Século XX

 

            Alícia chegou em casa no final da tarde. Jean Luc estava sentado na sala fitando o nada.

 

            - Olá! Como passou o dia? – perguntou fechando a porta.

 

            - Roubaram o comunicador! – respondeu levantando-se. – Precisa ajudar-me a encontrá-lo. – disse demonstrando em sua voz toda a urgência que sentia

 

            Ela parou a meio caminho para a cozinha, já imaginando o que deveria ter acontecido.

 

            - Venha! – disse – Conversamos enquanto preparo o jantar.

 

            Jean Luc lhe contara tudo o que acontecera e suas andanças pelas ruas de São Francisco a procura de um garoto de aproximadamente dezesseis anos, usando tenis, jeans e camiseta. Se ela não estivesse tão cansada e preocupada com a epidemia e se os atos de Jean Luc não fossem frutos de sua “ doença “ ela realmente teria soltado uma boa gargalhada.

             

            - Sinto muito Jean Luc, aquele objeto parecia ser muito importante para você. – disse a moça colocando os pratos na mesa.

 

            - Você não entendeu, se o comunicador cair nas mãos de técnicos, o futuro poderá ser alterado. Há muita tecnologia naquela pequena peça. – diante do silêncio da Doutora , o Capitão Picard resolveu apelar para sua pessoa. - Alícia, quando a Enterprise chegar, o único meio de me localizarem será o sinal do comunicador.

 

            - Tenho certeza de que seus amigos encontrão um meio. – respondeu a Doutora, sentindo-se culpada por incentivá-lo daquela forma, enquanto deveria fazê-lo encarar a realidade, mas a perda do objeto parecia tê-lo perturbado muito. – Preste a atenção. – disse sentando-se. – Se este garoto for das redondezas e seus amigos do Século XXIV chegarem, a atitude lógica será iniciar as buscas nas proximidades, será fácil localizá-lo, muita gente me conhece por aqui e ontem a noite muitos nos viram juntos no recital e sabem que está morando aqui.

 

            - Não me trate como se eu fosse um louco! – disse Picard irritado.

 

            - Esta é a segunda vez que vou lhe dizer isto. Se eu acreditasse que você está louco, não teria deixado que ficasse aqui. – respondeu a moça em tom sério. Ela segurou-lhe a mão na intenção de dar-lhe apoio -  Você não é louco. – disse suavemente. – Apenas está confuso. A loucura é algo muito triste.

 

            Neste momento o Bip soou. Ela levantou-se pegou o aparelho e leu a mensagem.

 

            - Tenho de voltar para o hospital. Estamos com um vírus a solta. – disse. – Me desculpe por não lhe dar a devida atenção.

 

            - Eu compreendo. – respondeu o Cap. Picard.

 

 

Capítulo XVIII                     

 

Século XXIV

 

 

 

            A tela central mostrava um caleidoscópio vertiginoso. A velocidade da Enterprise era tão grande que  todos podiam sentir uma leve trepidação.

 

            - Temperatura do casco aumentando. – disse Wesley.

 

            - Integridade estrutural do casco em noventa e oito por cento. – ouviu-se a voz gutural de Worf.

 

            - Atingindo o ponto de transição. – disse Data de seu console. Will inclinou-se para frente como se ele mesmo impulsionasse a nave. La Forge olhava para Data no aguardo de seu comando, ao mesmo tempo em que monitorava o painel a sua frente.

 

            - Prepare-se Geordi. – disse Data, cuja voz soara alta tamanho era o silêncio e tensão na ponte de comando. – Agora!

 

            Com gestos rápidos e precisos o jovem engenheiro cego manipulou seu console, poucos tinham consciência do que ele estava fazendo, mas todos sentiram os efeitos de seus atos. Por milésimos de segundos sentiram o universo piscar, era como se estivessem presos no raio transporte, nem num lugar, nem no outro.

 

            De repente tudo se firmou, todos olhavam em volta e uns para os outros como se quisessem constatar alguma mudança ocorrida.

 

            - Transição completa. – disse Data.

 

            – Estamos nos aproximando do planeta Terra. – disse Wesley

 

            - Senhor! – disse Data virando-se para o Comandante Riker. – Sugiro entrarmos em órbita do satélite natural e nos escondermos a sua sombra. A Terra nesta época já era capaz de detectar grandes objetos em sua órbita, sem mencionar o fato de que nossa presença possa afetar os sistemas de comunicação.

 

            - Órbita padrão da Lua.  – ordenou Riker.

 

            - Atingindo órbita padrão senhor! – confirmou Wesley.

 

            - Parada total. – disse Riker levantando-se.

 

            - Parada total – confirmou o rapaz.

 

            - Senhor Worf! – disse Riker subindo a rampa e aproximando-se do tenente. – Consegue localizar o comunicador do Capitão?

 

            - Há muita interferência senhor. – respondeu o klingon. – Os satélites de comunicação não permitem que nossos sinais atinjam a superfície.

 

            - Estou alterando nossos sensores para lerem em uma faixa pouco utilizada. – disse La Forge.

            - Localizei um sinal muito fraco. – disse Worf sentindo que todos prestavam a atenção em sua pessoa. Riker aproximou-se mais. – Leste da América do Norte, cidade São Francisco.

 

            - É possível se comunicar com ele? – perguntou.

 

            - Não senhor. – disse Worf manipulando os controles.

 

            - Talvez esteja quebrado! – disse Deanna Troi.

 

            - Ou não esteja com ele. – disse Riker descendo a rampa.

 

            - Computador roupas do civis, planeta terra, dezembro de 1998. – disse Riker. – Sr. Data assuma o comando. Deanna, Geordi, sala de transporte três. – chamou o pessoal que faria parte do grupo avançado. – Doutora Crusher nos encontre na sala de transporte três – disse acessando seu comunicador.

 

            - Entendido. – ouviu-se a voz de Beverly.

 

            Quando Will entrou na sala de transporte o resto do grupo avançado já o aguardava. O Tenente Austin também estava lá vestido a caráter.

 

            - Senhor! – disse o jovem tenente aproximando-se. – Gostaria de fazer parte do grupo de buscas do Capitão.

 

            - Você não tem culpa de ter perdido o Capitão... – disse Riker – ...mas se isso lhe faz sentir melhor. – disse com um sorriso e apontando a plataforma de transporte. O tenente subiu os degraus com um ligeiro sorriso para a Dra. Crusher. Desde o momento em que recobrara a consciência sentia-se extremamente culpado por toda aquela situação.

            -  Sr. O´Brien já tem as coordenadas do comunicador do Capitão? – perguntou Riker também tomando o seu lugar na plataforma.      

           

            - Sim senhor! – respondeu.

 

            - Acionar!

 

            Diante dos olhos de Miles O´Brien as cinco pessoas de dissolveram. Por alguns minutos ele fitou o espaço vazio deixado por seus colegas.

 

            - Boa sorte! – disse para ninguém, mas torcendo para que suas palavras transcendessem a distância e trouxessem o Capitão de volta.

 

 

Capítulo XIX

 

Século XX      

 

            Vários Centros de Pesquisas de Doenças Infecto-Contagiosas estavam em plena atividade tentando uma forma de combater o vírus.

 

            A Defesa Civil havia sido alertada assim como o Exército. Todas as pessoas contaminadas haviam sido isoladas, procedimentos de esterilização haviam sido postos em prática e outras medidas foram tomadas para evitar que o vírus se propagasse.

 

            Os sintomas da doença estavam sendo amplamente divulgados através de todos os sistemas de comunicação no sentido de alertar a população e evitar que a mesma corresse para o hospital sem necessidade expondo-se ao vírus.

 

            O Prefeito estava neste momento em reunião para decidir se declarava estado de calamidade pública. Os aeroportos já haviam suspendido suas atividades e neste momento estavam pensando em fechar as rodovias para evitar que a epidemia  saísse da cidade. 

 

 

Capítulo XX

 

Século XX

 

            Alícia estava no laboratório do hospital. A situação nas últimas horas se agravara muito. Já tinham cerca de duzentos pacientes, sem falar nos que voltaram para casa devidamente medicados e nas outras centenas espalhados pelos hospitais da cidade. Já haviam tentado todo o tipo de medicação conhecida e contactado todos os grandes laboratórios.

 

            Muitos dos pacientes que deram entrada no hospital pela manhã já se encontravam na UTI, alguns em estado de coma, a Dra. Frulhër estava imaginando quando teriam sua  primeira vítima fatal. Havia examinado o Dr. Allan, seu quadro clínico não era nada promissor e tudo indicava que antes do amanhecer teria que colocá-lo na tenda de oxigênio. Ela mesma não se sentia muito disposta, há horas tentava ignorar as dores musculares que sentia.

 

            - Conseguiu alguma coisa? – perguntou Paul entrando no laboratório e se aproximando da doutora.

 

            - Não! O vírus reage a todos os antibióticos. Não parece ser uma mutação. – respondeu examinando o microscópio.

 

            -  Lá fora está um verdadeiro caos. Já recebemos os resultados do Centro de Pesquisa da Califórnia. Não há nenhum registro desse vírus. Enviaram os dados pela Internet para vários Centros de Estudo em todo o mundo.  – disse o médico. – A propósito, porque não nos contou que está indo embora?

 

            - Ia convidar você e Allan para jantarem em casa esta semana e contar-lhes – respondeu a médica misturando o conteúdo de alguns tubos de ensaio.

 

            - Sentiremos sua falta. – disse Paul, imaginando o quando o hospital ficaria sem graça sem Alícia. – Allan contou-me sobre o seu hóspede. Como ele está?

 

            - Acho que um dia irá se recuperar. – disse a moça. – Para ser sincera eu devia ter pensado melhor antes de me meter nesta confusão. O homem não está em seu juízo normal, H.G. Wells perderia para sua imaginação. – disse Alícia lembrando-se do que Picard lhe contara durante o jantar. – Talvez devesse tê-lo enviado a psiquiatria, como Allan sugeriu.

 

            - Você não devia levar estranhos para sua casa. Lembra-se daquele drogado. Ele poderia tê-la matado. – disse Paul observando a reação do vírus no microscópio quando a Alícia pingou um composto de cor azulada na plaqueta. – O que vai fazer com ele quando mudar-se para Los Angeles?

 

            -  Não sei! Acho que irá comigo. – respondeu Alícia sentando-se. – E então aconteceu alguma coisa?

 

            - Sim! Esta coisa está absorvendo todo o medicamento. – respondeu Paul deixando de lado o microscópio. – De onde será que isso veio? – perguntou referindo-se ao vírus.

 

            - Há centenas de vírus e bactérias que ainda não foram catalogadas e surgem mais a cada instante. – respondeu Alícia observando o microscópio. Que tal darmos uma olhada na procedência dos pacientes. – disse Alícia já levantando-se e indo em direção ao terminal de computador.

            - Consegue acessar os dados do setor de triagem? – perguntou Paul puxando uma cadeira e sentando-se ao lado da doutora, enquanto esta manipulava o teclado e o mouse com extrema facilidade. – Gostaria de entender de computadores deste jeito. – disse o médico ao ver na tela os registros de todos os atendimentos.

 

            - Se Trevor me pegar mexendo nestes arquivos me mata! Agora vamos selecionar todos os portadores do vírus X. – disse a médica. Na tela o nome de todos os pacientes portadores da estranha doença foram marcados com uma tarja vermelha – Agora vamos criar um pequeno arquivo apenas com estes pacientes.

 

            - Porque? – perguntou Paul.

 

            - Primeiro porque não tenho autorização para fuçar nestes arquivos e quanto mais tempo permanecer na rede, maiores são as chances de me meter em confusão, segundo porque os demais dados não nos interessam. Pronto! – disse a moça observando a tela.

 

            - Pode reagrupá-los pela localização de suas residências? – perguntou Paul enquanto Alícia manipulava o teclado para atender sua solicitação.

 

            - Isso não vai dar certo! Quantas vezes será preciso dizer ao pessoal da administração que os dados dos pacientes devem ser completos. – disse Alícia contrariada pois em um grande número de registros faltava o bairro onde residiam.

 

            - Não ia dar certo mesmo. Nem todos contraíram o vírus em casa, podem ter pego na rua, no trabalho. – disse Paul passando a mãos pelos cabelos que já estavam todos arrepiados de tanto ele fazer aquele gesto.

 

            Alícia lia a tela e mudava-a sem muito entusiasmo, seus pensamentos voltaram-se para Jean Luc, o que será que estaria fazendo naquele momento?

 

            Ela acessou a Internet. Por alguns minutos navegaram pelos sites jornalísticos. Em vários encontraram referências a situação quase que desesperadora em que se encontrava São Francisco.

 

            De repente viu algo na tela que chamou-lhe a atenção. Uma seita religiosa   afirmava que o meteorito que caíra nas proximidades de São Francisco  era um emissário divino trazendo o castigo para os homens: a epidemia

 

            - O que foi? – perguntou Paul ao vê-la mudar de posição, aproximando-se mais da tela. Ele também aproximou-se e leu a notícia que chamara a atenção da Doutora

 

            - Ah! Alícia isto é bobagem! – disse o médico ligeiramente irritado.

             

            - Jean Luc foi encontrado algumas horas após a queda do meteorito e o policial que o trouxe foi internado aqui na manhã seguinte. – disse Alícia que havia visto o nome do policial na ficha de entrada de Picard.

 

            - O que isso quer dizer? – perguntou Paul, sem entender aonde ela queria chegar.

 

            - O Sr. Picard não está doente,  mas os policiais e todos que entraram em contado com ele estão. Aparentemente a epidemia teve início no lado oeste da cidade – disse a médica com os olhos fixos na tela. - Me ajude a procurar as amostras de sangue de Jean Luc. – pediu a Paul..

 

            - Acha que ele tem alguma coisa haver com isto tudo? – perguntou o rapaz. Por um breve instante ele fitou-a e esboçou um leve sorriso. – Será que está pensando que estamos enfrentando nossa primeira epidemia causadas por agentes extra terrestres? – perguntou incrédulo.

 

            - O próximo passo será dizer que Jean Luc é um E.T. – respondeu Alícia - Pare de fazer perguntas tolas e procure as amostras! – disse a moça de modo impaciente. – É de conhecimento público os testes que a NASA vem fazendo com material biológico e se aquele meteoro não for aquilo que divulgaram nos jornais.

 

            - Li alguma coisa sobre o exército ter isolado o local. – disse Paul. – Talvez sejam armas biológicas. Mas onde o Sr. Picard se encaixa nisso tudo?

 

            - Ele não se encaixa.  – disse Alícia verificando os tubos de ensaio. – Foi exatamente isto que me chamou a atenção. Hoje ele perambulou por boa parte da zona oeste da cidade e a maior parte de nossos pacientes residem ou trabalham neste lado da cidade, esteve duas vezes na região de contágio e ainda assim não está doente. Ou ele é o transmissor ou carrega algo em seu sangue que impede o contágio.

 

            - Você não está doente! – disse o médico enquanto examinava o rótulo de diversos tubos de ensaio que estavam no congelador.

 

            - Talvez já esteja portando o vírus.  – disse Alícia expressando pela primeira vez sua desconfiança. – O período de incubação é pequeno mas varia de pessoa para pessoa.

 

            - Aqui! – disse o jovem médico segurando um tubo de ensaio com o rótulo Sr. X/ Quarto nº 4. – Você quer saber,  naquela correria com o acidente acho que nem chegaram a fazer uma análise do sangue dele.

 

            - Fizeram apenas o básico, eu vi os resultados. – disse Alícia pegando o tubo de ensaio das mãos de Paul e tirando algumas gotas.

 

            Por vários minutos os dois observaram o sangue na plaqueta. Ela pegou um outro microscópio, mais potente  e conectou-o ao computador. Agora ambos podiam ver as imagens.

 

            - Veja! – disse Paul. – No canto superior da lâmina!

             

            - Parece-se com o nosso vírus. – disse Alícia observando o minúsculo corpo na tela. – Vamos melhorar esta imagem. – disse a moça manipulando o teclado. A imagem não só se tornou mais nítida como também foi ampliada, de forma que agora viam perfeitamente a pequena célula mover-se.

 

            - Há alguma coisa no sangue do Sr. Picard que o impede de propagar-se. – disse Paul.

 

            - Ok! Você fica aqui tentando isolar esta coisa e fazendo os testes necessários. Eu vou para casa ter uma conversinha com o Sr. Picard. – disse Alícia levantando-se.

 

            - Antes quero uma amostra do seu sangue! – disse o rapaz.

 

 

Capítulo XXI

 

Século XX      

 

            O grupo avançado se materializou em um beco escuro e sujo próximo a uma avenida de grande movimento.

 

            Eles olharam em volta observando atentamente o local. Willian Riker acionou o seu tricorder procurando obter uma leitura do comunicador de Picard.

 

            - Por aqui! – disse apontando para o lado direito.

 

            Os cinco saíram do beco chamando a atenção de diversas pessoas que por ali passavam.

 

            Deram alguns passos e já haviam se misturado aos transeuntes. Troi achou interessante que ninguém mais parecia se preocupar com eles. Haviam muitas pessoas pelas ruas voltando para casa ou fazendo suas compras de Natal, embora já fosse noite.

 

            Caminharam quase duas quadras até que chegaram a um quarteirão onde haviam muitos prédios em franca decadência. Em frente ao prédio para onde se dirigia o grupo avançado um grupo de jovens estava sentado a porta fumando e falando alguma coisa muito engraçada, pois riam muito.

 

            Ao aproximarem-se do prédio de onde vinha o sinal do comunicador Troi colocou a mão no braço de Will, querendo alertá-lo.

 

            - O que foi? – disse o rapaz virando-se para encará-la.

 

            - Eles não são muito amistosos. – respondeu Troi. O grupo de rapazes calaram-se e observaram os cinco pessoas paradas do outro lado da rua olhando-os.

 

            - Fiquem aqui! – disse Riker. – Sr. Austin, Doutora.

 

            Os três aproximaram-se da porta do prédio.

            - Procuramos por uma pessoa, será que poderiam nos ajudar. – disse Riker.

 

            - Cai fora branguelo! Agui ninguém ajuda branco. – disse um dos rapazes levantando-se e ficando quase que da altura que Riker.

 

            - Nosso amigo está desaparecido e pode estar precisando de ajuda. – disse Berverly.

 

            - Olha só, que gata rapaz! – disse um outro jovem rodeando a doutora. – Eu também estou precisando de ajuda, quem sabe você ... – disse quase no ouvido da doutora e passando a língua nos lábios.

 

            - Obtivemos informações de que ele esta neste prédio! – disse Riker ignorando o comportamento nada educado do outro rapaz em relação a doutora e observando que Austin se colocara bem próximo a médica.

 

            - Aqui não tem ninguém não cara! É melhor ir dando o fora. – disse o rapaz empurrando Riker.

 

            - Acho melhor nos deixarem passar. – disse Will dando alguns passos em direção ao jovem que o empurrou sem deixar intimidar-se.

 

            O garoto ergueu o braço para dar um soco em Riker mas este segurou-o no ar. Os outros garotos fizeram um cerco em torno do grupo avançado. Geordi estava atravessando a rua para ajudá-los quando ouviu um barulho de sirenes, neste momento os garotos baterem em retirada fazendo gestos obscenos para Riker e seu grupo.

 

            - Acho que pensaram ser a polícia. – disse Austin aproximando-se de Riker e observando os garotos virarem a esquina.

 

            - Vamos logo!  - disse subindo as escadas – O século XX não me parece tão atraente assim.

 

            Eles subiram as escadas, sem deixar de notar as paredes riscadas o chão sujo com dejetos e detritos de alimentos.

 

            - Como alguém pode viver em um local assim – disse Troi fazendo cara de nojo.

 

            - Espero que o capitão esteja bem! – disse Austin.

 

            - É aqui! – disse Riker parando em frente a uma porta, toda remendada. Ele procurou por um painel ou campainha, mas nada encontrou. Olhou para seus companheiros e bateu na porta três vezes.

 

            Uma senhora atendeu a porta, parecia muito assustada ao vê-los.

 

            - Desculpe incomodá-la senhora, mas estamos procurando alguém. – disse Riker de modo cortes.

 

            - Não há ninguém aqui! – disse a mulher fechando a porta, porém Austin colocou o pé no batente. Riker olhou-o surpreso.

 

            - Senhora, não queremos fazer-lhe mal, procuramos um amigo e sabemos que ele esta ai. Por favor deixe-nos falar com ele. – pediu Riker.

 

            - Quem está aí mãe? – perguntou um garotinho de aproximadamente onze anos. – O que vocês querem? Joe está na rua com seus amigos. – disse o menino imaginando que aquelas pessoas teriam alguma coisa a tratar com Joe, que vivia na rua arranjando confusão e metendo-se com maus elementos.

            Foi Beverly que viu o comunicador preso na camisa do menino por baixo da jaqueta. Com um gesto ela mostrou a Will, que agora segurava a porta impedindo que esta fosse fechada.

 

            - Não estamos procurando Joe! - disse Beverly – Procuramos o dono do broche que você está usando.

 

            Ao dizer estas palavras a mulher largou a porta, o sangue parecia ter sumido de sua face.

 

            - Eu sabia! Eu sabia! – começou a dizer a mulher em prantos.

 

            - Do que ela está falando? – perguntou Austin. Agora todos estavam no que parecia ser sala. O garoto estava próximo a sua mãe.

 

            - Eu sabia! Agora ele será preso! Meu pobre Joe, ele nunca machucou ninguém. – dizia a mulher entre lágrimas.

 

            - Calma! – disse Troi aproximando-se. – Não viemos para machucar ninguém.

 

            - Me diga filho onde conseguiu isto? – perguntou Riker tirando o comunicador da camisa da criança. O garoto não respondeu, estava assustado. Olhava ora para sua mãe, ora para os visitantes.

 

            -  Isto pertence a um amigo nosso que está desaparecido, é muito importante para nós encontrá-lo. Talvez esteja ferido, precisando de ajuda. – disse Troi com sua voz calma e angelical.

 

            - Não vão machucar mamãe e Joe? – perguntou o menino.

 

            - Não! Tem minha palavra. – disse Riker.

 

            - Foi Joe quem me deu! – respondeu o garoto. – Ele afanou do homem que estava ontem a noite com a Doutora no recital.

           

              - Você sabe onde mora a doutora? – perguntou Will

 

            - Sei que é aqui perto! Parece que ela trabalha no Hospital San Martin.

 

            - Muitos conhecem a Doutora. Ela ajuda os pobres e doentes da Casa Paroquial, talvez o padre Albert possa ajudá-los. – disse a mulher. – Por favor não machuquem meu filho, ele as vezes faz coisas erradas, mas é um bom garoto.

 

            - Fique tranquila! – disse Beverly sorrindo com simpatia. – Onde podemos encontrar o padre Albert?

 

            - A Casa Paroquial fica do outro lado do parque. – respondeu o menino. – Não será difícil de encontrar. Está quase na hora da sopa. Deve estar cheio de mendigos por lá.

 

            O comunicador de Riker soou e ele afastou-se do grupo indo em direção a janela.

 

            - Comandante Riker? – chamou La Forge.

 

            - É melhor saírem logo daí! Aqueles jovens estão voltando acompanhados de mais seis garotos. Não parecem muito dispostos a conversar.

 

            - Entendido Geordi. – respondeu Riker.

 

            O grupo saiu e afastou-se dos prédios rapidamente. Andaram até chegaram a avenida, que era um lugar mais movimentado, portanto oferecia menos perigo.

 

            - E agora? – disse Geordi.

             

            - Vejam! Deve ser o parque que o garoto falou. Vamos. -  disse Riker.

 

            Os cinco caminharam calmamente em direção ao parque que estava todo iluminado com os motivos natalinos.

 

            - É lindo – disse Troi admirando a decoração.

           

 

Capítulo XXII

 

Século XX

            Quando Alícia chegou em casa encontrou um bilhete com as letras bem traçadas de Jean Luc. Aquele maluco estava no Parque Municipal!

 

            Sem pensar duas vezes ela fechou a porta do apartamento e foi ao seu encontro. Ele estava sentado em um banco próximo a avenida observando o movimento. Estava tão absorto em seus pensamentos que não viu a moça aproximar-se.

 

            - Não se cansou de aventuras por hoje? – perguntou Alícia aproximando-se.

 

            - Estava abafado lá dentro! Resolvi dar uma volta. – disse Picard com um breve sorriso, sem deixar de notar a expressão de pouca disposição da doutora.

 

            - Precisamos conversar! – disse sentando-se ao seu lado. – E não me venha com histórias do Século XXIV e de uma nave chamada Enterprise.

 

            - Não posso fazer nada se não acredita em mim. – respondeu o Capitão

 

             - Estamos com uma epidemia na cidade. E acho que você tem alguma coisa a ver com isso. – disse a médica a queima roupa.

 

            - Como? – perguntou Jean Luc. – De onde eu venho todos são vacinados contra ....

 

            - Por favor! – interrompeu a doutora perdendo a paciência. – Pessoas podem morrer, pare com esta brincadeira, ou pelo menos tente se lembrar do que aconteceu na noite em que o levaram para o hospital.

 

             - Como pode ter tanta certeza de que eu sou o transmissor desta epidemia? – perguntou Jean Luc, ligeiramente preocupado.

 

            - Não disse que você é o transmissor, mas encontramos em seu sangue um corpo muito parecido com o vírus! – disse Alícia. – Não tenho certeza Paul ainda está fazendo os testes, mas nossa hipótese é que o vírus em seu corpo  foi alterado a nível do DNA de forma a se tornar inócuo. Se isso for provado Jean Luc, alguém está de posse de uma técnica revolucionária que pode acabar com praticamente todas as doenças que assolam a humanidade.

 

            - Posso ter contraído uma forma mutante do vírus! – disse Picard mentindo. Tinha certeza de que ele era o responsável por esta catástrofe, sua presença no Século XX  já começava a produzir seus efeitos, sem que ele tivesse um mínimo de controle já alterara a história de seu planeta.

 

            - Jean Luc, todas as pessoas que estiveram em contato com você estão neste momento internadas no San Martin e algumas podem morrer antes do amanhecer. – disse Alícia.

 

            - Você não está doente. – disse utilizando-se de seu último argumento.

 

            - Antes de vir falar com você fiz um exame de sangue. Paul me bipou ainda pouco, uma mensagem curta e simples “ Você esta contaminada! “. – respondeu a moça.

 

            - Não sei como ajudá-los! – respondeu Picard sentindo sincero pesar pela situação que involuntariamente colocara a todos.

 

            - O que aconteceu naquela noite? – perguntou Alícia brandamente e a meia voz.

 

            - Já lhe contei. – respondeu Picard, desejando que ela acreditasse nele.

  

-          Droga Jean Luc! – disse em voz alta levantando-se. Ela virou-lhe as costas  e levando as mãos aos ombros girou lentamente a cabeça, uma tentativa de diminuir a tensão acumulada nestes músculos e aliviar  o mal estar que sentia. – Preciso de sua ajuda! – disse suavemente, tentando controlar-se e voltando a sentar-se ao seu lado.  -  O que é dito à um médico é considerado informação confidencial, tente se lembrar de alguma coisa sobre o seu passado, me conte por onde andou, lhe prometo que jamais repetirei uma palavra do que me disser, a única coisa que quero é que me ajude a parar com isso. Pessoas estão morrendo!

 

 

            - Você não parece bem! – disse Picard observando que a moça estava ligeiramente pálida e seus olhos indicavam que sentia dores.

 

            - Não! Não estou bem. – respondeu.    

           

            - Iremos para o hospital agora. – disse Jean Luc. – Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-los, farei, nem que para isso utilizem todo o meu sangue. Vamos. 

 

 

Capítulo XXIV

 

Século XX

 

            Cinco pessoas que passavam casualmente próximo a eles pararam ao ouvir o nome do Capitão.

 

            Riker fez um gesto para que seus companheiros parassem. Sem fazer barulho eles se aproximaram de um arbusto próximo as pessoas que conversavam.

           

            Picard pegou Alícia pelo braço levando-a em direção a rua.

 

            - Capitão! – gritou Austin antes que Riker pudesse impedi-lo.

           

            Foi indescritível o que Picard sentiu ao ouvir a voz do jovem Tenente. Ele e Alícia viraram-se em direção a voz surpresos.

 

            - Quem são eles? – perguntou Alícia em voz baixa ao ver aquelas pessoas se aproximando.

 

            - Fique tranqüila a cavalaria chegou! – disse Picard com um sorriso amplo, também caminhando em direção ao grupo avançado sendo acompanhado pela Doutora.

 

            - O senhor está bem? – perguntou Riker ao aproximarem-se.

 

            - Agora estou muito bem Número Um! – disse Picard, sem esconder a sua satisfação em vê-los. – Como me encontraram?

 

            - É uma longa história! – disse Riker dirigindo seu olhar para Alícia.

 

            - Esta é a Dra. Alícia Frulhër. – disse Picard apresentando a doutora aos demais. – Se não fosse por ela talvez eu estivesse internado em algum sanatório.

 

            - Não sei o que aconteceu por aqui, mas ficamos muito gratos por sua intervenção. – disse Riker esboçando um largo sorriso para a Doutora Frulhër.

 

            Ela nada respondeu, sentia-se pior a cada minuto, talvez fosse a tensão provocada por toda aquela situação, mas a verdade é que nos últimos minutos por duas vezes sentira-se tonta e como médica sabia que estava com as batidas de seu coração aceleradas. A única coisa que queria naquele momento era voltar ao hospital, e de preferência acompanhada por Jean Luc, ele era a resposta para tudo aquilo. A Dra. Frulhër sentiu a mundo a sua volta rodar, instintivamente segurou o braço de Picard que estava ao seu lado, no momento em que ele virou-se ela caiu sentindo uma dor forte na altura do peito. Riker prontamente ajudou o Capitão a ampará-la. Imediatamente Beverly acionou o seu Tricorder.

 

            - Está tendo um ataque cardíaco! Temos que levá-la para a enfermaria. - disse a médica.

 

            -  Não! Já causei problemas demais! – disse Picard amparando a cabeça da moça. – Vou levá-la ao Hospital San Martin.

 

            - Isso deterá o enfarte por uns trinta minutos. – disse Beverly aplicando um hipospray na altura do pescoço da Dra. Frulhër.

 

            - Estou contaminando a população local com algum tipo de vírus! Voltem a nave e procurem um meio de reverter esta situação. – disse o Capitão.

 

            - Sr. Austin acompanhe o Capitão – disse Riker.

 

            Picard pegou a moça do chão e carregou-a até a Avenida onde muitos carros passavam. Por sorte o velho Andy do outro lado da rua os viu e providenciou um carro para levá-los ao hospital.

 

            No momento em que Jean Luc chegou ao hospital os enfermeiros providenciaram uma maca para a doutora e conduziram-na ao setor de emergência, pedindo que ele aguardasse do lado de fora.

 

            Por quase duas horas ele esperou em uma grande sala. Havia muitas pessoas no recinto, ele e Austin procuraram manter a maior distância possível dos outros, uma tentativa quase que ridícula de impedir a contaminação. Sentia-se tranqüilo por ter sido encontrado por seus oficiais, e ao mesmo tempo estava inquieto com toda aquela situação. Sentia uma responsabilidade enorme pela vida de todas aquelas pessoas, mas seu pesar maior era pela Doutora que, embora não acreditasse nele o tratara com respeito e afeição.

 

            Durante este tempo o Tenente Austin permaneceu por perto, Picard o havia instruído a falar o mínimo necessário e disfarçar ao máximo que já se conheciam.

 

            Um jovem rapaz de cabelos castanhos arrepiados trajando roupas brancas aproximou-se dele

 

            - Sr. Picard! – disse Paul apresentando-se  - Sou o Dr. Sanders, obrigado por tê-la trazido imediatamente para cá, salvou sua vida.

 

            - Era o mínimo que eu poderia fazer. – respondeu. – Como ela está? Posso vê-la?

 

            - É claro que sim, mas antes temos um assunto a tratar. – disse o jovem médico conduzindo o Cap. Picard para um pequeno consultório. Ao passarem pelo Tenente Austin, o Capitão fez um gesto quase que imperceptível para que aguardasse.           

 

            - A Dra. Frulhër lhe contou alguma coisa antes de passar mal? – perguntou o jovem descansando uma das pernas sobre a mesa e indicando a cadeira em frente para que Picard se sentasse.

 

            - Sim! – respondeu – Ela disse algo sobre eu estar transmitindo esta doença.

 

            - E o senhor fez um bom trabalho com suas andanças – disse o médico com uma expressão reprovadora. – Depois que Alícia saiu continuei com as pesquisas, e descobri alguma coisa interessante. Veja! – disse o rapaz ligando o computador. – Na verdade o vírus sozinho é inofensivo, mas quando em contado com está bactéria ele a contamina produzindo toxinas, o agente patogênico desta doença.

 

            - Não tenho a mínima idéia de como isso foi parar em meu sangue. Farei o que for necessário para ajudá-los. – disse Jean Luc. – Mas antes gostaria de vêr a Dra. Frülher.

 

            - Muito bem! – disse o rapaz. – Poderá ver a doutora por alguns minutos, mas depois conversaremos mais a respeito.

 

            Alícia se encontrava em um quarto sozinha, havia uma agulha enfiada em seu braço e um tubo em seu nariz. Ela estava semi-consciente.

 

            - Como se sente? – perguntou Jean Luc aproximando-se da cama.

 

            - Como se um trator tivesse passado por cima de mim ida e volta! – disse com dificuldade. – Seus amigos?

 

            - Voltarão mais tarde. – disse Picard. – Procure descansar. Estarei por aqui se precisar. – disse apontando para Paul que estava em pé ao lado da porta com os braços cruzados.

 

            - Vamos Sr. Picard – disse o médico. – Temos muito trabalho para fazer.

 

 

Capítulo XXV

 

Século XX

 

 

            Antes de se transportarem Beverly havia colhido um pouco de sangue da Doutora Frulhër. Ela estava concluindo suas analises no momento em que Riker acompanhado por Troi entrou na enfermaria.

           

            - E então descobriu o que está matando estas pessoas? – perguntou aproximando-se.

 

            - É um vírus muito antigo em Betazed. – disse a doutora. – A doença há muito foi erradicada, mas o seu vírus ainda existe. Ele só se torna letal quando  contamina uma bactéria existente em nossos corpos.

            - Staclys – disse Troi aproximando-se. – Altamente letal. Matou milhares de pessoas em Betazed em um curto espaço de tempo, inclusive oficiais da frota.

 

            - Na verdade foi o contato entre nossas espécies que produziram a doença. – disse a médica. – O vírus sempre existiu em Betazed, assim como a bactéria em nossos corpos.

 

            - Isso tudo é muito interessante – disse Riker de modo impaciente. – Mas precisamos reverter a situação daquelas pessoas antes que haja alguma vítima fatal. Data acessou o banco de dados do hospital e verificou a árvore genealógica das pessoas afetadas, algumas terão uma certa importância no futuro.

 

            - Não é tão simples assim Will – disse Beverly encostando-se em uma mesa de diagnóstico. - Nós alteramos o DNA do vírus de forma que ele se torna inócuo em nossos corpos, mas eles estão apenas no início das pesquisas sobre o DNA, o que chamam de Engenharia Genética é apenas um esboço do conhecimento que temos hoje. Se aplicarmos este tratamento estaremos introduzindo um conhecimento que eles ainda não possuem, pelo ponto de vista da primeira diretriz este curso de ação seria viável, pois estaríamos  agindo para reverter uma contaminação involuntária , mas não devemos nos esquecer de que estamos no passado da Terra e tal conhecimento pode alterar todo o futuro.

 

            - E então o que faremos? – perguntou o comandante Riker.

             

            - Estamos trabalhando em uma vacina, que poderá ser sintetizada a partir dos elementos do próprio planeta, e que terá o mesmo efeito que o tratamento utilizado em Betazed. Foi o único modo que encontramos de reverter a situação sem introduzir novos conhecimentos – disse Beverly dirigindo-se a outra sala sendo seguida pelos dois. – Mas como iremos vacinar as pessoas dentro do hospital e principalmente anular o vírus nas pessoas que estão em suas casas ou que nem sabem que estão contaminadas?

 

            Willian Riker ficou algum tempo em silêncio refletindo sobre a situação. De repente seus olhos brilharam, como se ele tivesse descoberto algo. Troi pode sentir claramente seu entusiasmo.

           

            - Continuem trabalhando nesta vacina, acho que tenho uma idéia. – disse Riker. – Mas antes preciso conversar com o Capitão. – e saiu deixando as duas moças perplexas.

 

 

 

Capítulo XXVI

 

Século XX

 

            Riker se materializou no estacionamento do Hospital. Com passos tranqüilos dirigiu-se ao guichê de informações e pediu informações sobre o seu tio Jean Luc Picard. A jovem atendente indicou-lhe aonde poderia encontrá-lo.

 

            Ele entrou no quarto sem fazer barulho, Alícia dormia profundamente. Jean Luc estava sentado em uma poltrona e parecia dormir.

 

            - Capitão! – chamou-o em voz baixa.

 

            Jean Luc abriu os olhos, demorando alguns minutos para localizar-se.

 

            - Número Um! – disse levantando-se. – Venha vamos conversar lá fora.

 

            - Como ela está? – perguntou o rapaz.

 

            - A doença está progredindo rapidamente em seu organismo. – disse Picard de modo preocupado. – A Dra. Crusher já conseguiu alguma coisa?

 

            - Está trabalhando em uma vacina! – disse o rapaz contando-lhe resumidamente sua conversa com Beverly e o seu plano.

           

            - Muito bem comecem a agir o mais rápido possível! Parece que há dois pacientes em estado muito grave.  – disse Picard.

 

            - Seu comunicador. – disse Riker entregando o pequeno objeto a Picard. – O senhor ficará bem? – perguntou.

 

            - Por enquanto está tudo bem. -  respondeu o Capitão. – Leve Austin com você. É mais do que provável que ele também seja um transmissor desta praga.

 

            Riker ia saindo quando se lembrou de algo.

 

            - A propósito me identifiquei no setor de informações como sendo seu sobrinho. – disse sorrindo ao aproximar-se da porta.

             

 

Capítulo XXVII

 

Século XX

           

            São Francisco! Cinco horas da manhã, uma chuva fina caia sobre a cidade que se preparava para enfrentar dali a cinco dias o Natal mais triste que se lembravam.

 

            Em meio ao movimentado pátio na frente do hospital, um casal aproximou-se da entrada principal.  A mulher possuía cabelos pretos compridos um pouco abaixo dos ombros e seus olhos azuis expressivos conferiam-lhe uma beleza singular. Ao seu lado caminhava um jovem de boa estatura e compleição física, seus cabelos eram castanhos claros e seus olhos pendiam para um tom amarelado.

 

            - Acho que é ali que devemos nos apresentar – disse Data para a Dra. Crusher que caminhava ao seu lado.

 

            Durante o resto da noite eles se prepararam para executar o plano maluco de Riker, se alguma coisa desse errado, pelo menos duas das pessoas internadas morreriam. Cientes da importância de sua missão os dois se dirigiram ao jovem no balcão e apresentaram-se.

 

            Mostradas as credenciais e satisfeitas as perguntas eles foram conduzidos ao escritório de Trevor que os recebeu sem desconfiar de nada. Eles haviam se apresentado como médicos do Instituto de Doenças Infecto-Contagiosas de Nova York, enviados para ajudarem nesta emergência, uma vez que foi em São Francisco que começara a epidemia.

 

            Trevor apresentou-os ao Dr. Sanders que imediatamente levou Data ao laboratório pois ali seria sua área de atuação já que se apresentara como um Virologista, altamente versado em computação, sem medir esforços e tentando impressionar Trevor deu-lhe acesso ilimitado ao sistema do hospital. Se Data fosse humano sem dúvida nenhuma teria dado um grande sorriso de satisfação, pois tudo estava correndo de acordo com o plano de Riker, mas simplesmente agradeceu com toda a educação que lhe era peculiar e sentou-se ao terminal averiguando os últimos progressos que haviam feito .    

 

            Beverly se apresentara como médica, também especialista em doenças transmitidas por vírus, porém sua área de atuação era junto aos pacientes. Ajuda mais que necessária, pois parte do corpo médico do hospital já haviam sido contaminado dentre eles, dois membros valiosos a Dra. Früller e o Dr. Allan, sem falar em enfermeiros e atendentes. A estimativa era que até o anoitecer mais de cinqüenta por cento do corpo médico do hospital estaria internado. 

 

            Beverly visitou os casos mais graves ministrando-lhes a vacina sem que os enfermeiros percebessem, os demais ela deixou para que fossem vacinados pelo antídoto sintetizado pelo laboratório do hospital, era para isso que Data fora implantado lá, para indicar-lhes o caminho sutilmente.

 

            Ao entrar no quarto ocupado por Alícia encontrou Picard  observando o movimento da cidade pela janela.

 

            A médica dormia profundamente, tiveram que aplicar-lhe um sedativo. A febre alta que consumia seu corpo havia trazido as lembranças do acidente de carro que matara sua família e Paul achara melhor sedá-la levando em consideração seu problema cardíaco.

 

            Ao perceber o entrada da médica Picard não reconheceu-a de imediato, após um breve sorriso de Beverly ele se aproximou o perguntou.

 

            - Como estão indo?

 

            - Se não acontecer nada, em breve estará tudo acabado! – disse Beverly aproximando-se de Alícia com o tricorder. – Mais cedo ou mais tarde ela terá que fazer uma cirurgia no coração. Mas por enquanto esta fora de perigo.

 

            - Está com a vacina aí! – perguntou Picard. Todo o seu ser impulsionava-o para pedir a doutora que medicasse a moça, mas ele sabia que se Alícia fosse milagrosamente curada as suspeitas cairiam sobre ele, e por mais maluca que parecesse sua história, alguém poderia acreditar que um homem do Século XXIV os havia salvado.

 

            - Não desconfiarão de seus atos? – perguntou Picard.

 

            - Apliquei uma dose mínima nos pacientes em estado grave. Eles precisarão de uma outra dose para recuperarem-se. – respondeu Beverly.

 

            - E Data como está indo? – perguntou Jean Luc em voz baixa.

 

            - Fazendo progressos! – respondeu a médica.

 

            - Retornarei a nave assim que o Dr. Sanders me dispensar. – disse o Capitão. – Não creio que ainda possa ser útil por aqui. – disse olhando para a Doutora Frülher.

 

            Durante o resto do dia e no dia seguinte Beverly monitorou pessoalmente todos os pacientes aplicando uma dose mínima do medicamento naqueles que se encontravam em estado mais grave. Data fazia grandes progressos no laboratório estimulando os cientistas locais a pensarem de forma lógica e irem na direção correta. O tráfego na Internet era grande, informações iam e vinham quase que instantaneamente, para Data aquilo era normal, mas para os médicos e as demais pessoas que trabalhavam no laboratório abria-se diante deles uma nova perspectiva de trabalho, pela primeira vez eles estavam em contato direto com o mundo.

 

            Foi Sanders que encontrou o reagente ao vírus. Quando Trevor lhe contou o que estava acontecendo no laboratório ele quis ver tudo pessoalmente. Não desconhecia o poder que a informática adquirira nos últimos anos, mas está era a primeira vez que via uma aplicação prática da Internet e os benefícios que podia trazer para dentro da medicina. Data havia contactado vários centros de estudos em diversas partes do mundo, no total deveria haver mais de cem cientistas envolvidos na busca de uma cura para esta nova doença. Criaram um verdadeiro laboratório virtual. Imagens, resultados de testes e pesquisas chegavam a cada segundo aos terminais do Hospital San Martin, que havia se transformado no QG da operação.

 

            A solução apareceu de forma casual enquanto Paul analisava alguns dos dados coletados.  Ele observava na tela do computador a bactéria contaminada pelo vírus movendo-se dentro do sangue de um dos pacientes e da reação da mesma ao entrar em contato com uma substância. Aquilo lhe pareceu extremamente familiar. 

 

            Havia visto há muitos anos, durante um trabalho da faculdade, uma imagem semelhante e com a ajuda de Data, eles acessaram os bancos de dados da Universidade em que estudara, lá também haviam estutantes e cientistas conectados a rede e fazendo parte do laboratório virtual criado por Data. Em poucas horas já estavam com a resposta, a bactéria contaminada morria ao entrar em contato com o extrato retirado de uma planta que só poderia ser encontrada na floresta amazônica.

 

            A informação foi transmitida para o resto do mundo, em todos os continentes os cientistas envolvidos começaram a fazer testes com substâncias sintetizadas, e algumas horas mais tarde,  obteve-se um resultado positivo. Após os testes preliminares, tinham as primeiras doses.  As quais Beverly fez questão de analisar e sem que percebessem enviou os dados de seu tricorder ao computador da Enterprise que deu sinal verde para continuarem.

 

 

Capítulo XXVIII

 

Século XX

 

 

            Alícia estava sentada em seu consultório terminando alguns relatórios. Voltara ao trabalho há dois dias e a não ser por ligeiras dores musculares se encontrava em plena saúde. Alguém bateu a porta.

 

            - Eu lhe disse para ir devagar! – disse Paul entrando.

 

            - Estou bem! Como vão as coisas? – perguntou a moça colocando os papeis de lado e assumindo uma postura descontraída.

 

            - Bem! Ainda há alguns casos chegando, mas são imediatamente vacinados. O pessoal do laboratório está trabalhando em uma vacina de prevenção da doença. – disse o médico sentando-se.

            Alícia olhou casualmente para a janela. Lá fora fazia um lindo dia ensolarado, no céu não havia uma única nuvem. Imaginou aonde teria ido Jean Luc, lembrava-se dele vagamente em seu quarto no hospital, segundo Sanders ele só saíra de lá quando ela ficou completamente fora de perigo.

 

            - Alguma notícia? – perguntou Paul observando a expressão pensativa e triste da doutora.

 

            - Não! Foi embora do mesmo jeito que chegou. – disse a moça voltando-se para o doutor. –  É uma pena que você não tenha conversado com seu sobrinho. Ficaria mais tranqüila se soubesse aonde ele está e com quem.

 

            - Você se apega muito depressa as pessoas, deveria se conter. – disse Paul. – Não se preocupe tanto, o homem goza de boa saúde, sinal de que é bem tratado.

 

            - Comida e roupa lavada não são as únicas coisas que importam Paul! – respondeu Alícia. – Alguma coisa aconteceu para que ele negue toda uma vida.

 

            - Talvez queira recomeçar! – disse o rapaz. – Sente-se culpado por alguma coisa, então voltou no tempo para que possa ter uma nova chance.

 

            - Teoria interessante! – respondeu a moça inclinando-se para a frente. – Mas ele não voltou no tempo, foi para o futuro! Um mundo completamente diferente do nosso, imagine que São Francisco neste mundo novo é a capital do uma grande instituição que engloba não só o sistema solar, mas uma infinidade de planetas. Consegue imaginar nossas ruas repletas de seres alienígenas.

 

            - Não precisamos ir até o século XXIV para isto! – respondeu o rapaz sorrindo. – Alícia, além destas portas o mundo está cheio de pessoas que desejam um outro tipo de vida, pessoas arrependidas, desiludidas, neuróticas. Picard é apenas mais um.  Conversei um bocado com ele, que me pareceu bem estável e ponderado, tenho certeza de que saberá se adaptar a esta “nova”  realidade.

 

            - Tenho certeza que sim. – respondeu a moça pensativa. – Engraçado... a maioria das pessoas se isolam em um mundo fictício. Ele transformou a realidade em ficção para sobreviver. – ela fez uma pequena pausa – Acho que escreverei sobre ele.

 

            - Quando você vai publicar suas histórias! Não tem graça escrever uma porção de coisas legais e não divulgá-las. – disse Paul.

 

            - Um dia quem sabe. – respondeu a doutora. – Passa o Natal comigo?

 

            No momento em que ele ia responder Allan entrou na sala.

 

            - É só eu me descuidar e você se aproveita para jogar este seu charme de Don Juan para cima dela. – disse entrando e aproximando-se da mesa .

 

            - Deixe de falar bobagens – disse Alícia. – Pelo visto vai passar o Natal aqui também.

 

            - Nem me fale! O velho ficou muito zangado. – disse Allan sentando-se em um pequeno sofá. – Ele não se conforma de não ter a família reunida.

 

            - É uma profissão ingrata, nos tira o lazer, a família, a juventude ... – disse Paul. – Vocês viram o Dr. Bannon! Vai de divorciar assim que passarem as festas.

 

            - Por isso que não me caso. – disse Allan. – Já que estamos os três solitários neste Natal porque não passamos juntos?

 

            - Estávamos falando sobre isso! – disse Alícia. – Quer passar o Natal conosco?

 

            - Legal! Eu levo o vinho. – disse Allan animado.

 

            - E eu o perú. – disse Paul.

 

            - Levem apenas disposição! – disse a Doutora levantando-se. – O jantar será em casa, mas depois iremos a casa paroquial, onde o Padre Albert organiza uma ceia para as pessoas pobres e indigentes. Tem muito serviço por lá – disse Alícia com um sorriso matreiro.

 

            - Você vai acabar nos convertendo com essa sua mania de ser solidária ao próximo. – disse Allan.

           

            - Ficarei muito feliz quando isto acontecer. – respondeu a médica sorrindo.

 

 

Capítulo XXIX

 

Século XX

 

            Jean Luc estava em seu gabinete aguardando o retorno dos grupos avançados, que ainda se encontravam na Terra, vacinando as pessoas contaminadas pelo vírus. Os médicos da Enterprise haviam sintetizado uma substância para ser colocada nos reservatórios de água, de forma a prevenir a disseminação da bactéria contaminada pelo vírus de Betazed, as projeções de Data mostravam que tal ação terminaria por erradicar a doença que ele involuntariamente espalhara em seu planeta natal. Foi por muito pouco, pensou sentindo um arrepio na espinha, que não causara uma catástrofe de dimensões homéricas. O vírus com o qual contaminara a população de São Francisco seria capaz de dizimar toda a cidade em questão de dias e com a velocidade com que se propagava em muito pouco tempo todo o planeta estaria contaminado. A campainha soou indicando que alguém queria falar-lhe. – Entre! – disse.

 

            - Capitão! – disse Data ao entrar.

 

            - Sente-se Data, em que posso ajudá-lo. – perguntou Picard.

 

            - Na verdade senhor eu estava fazendo uma pesquisa nos arquivos da história da Terra e encontrei algo que acho que o senhor gostaria de ver. – disse o andróide.

 

            - Prossiga. – disse Picard. Sem cerimonia Data virou a tela da mesa do Capitão para sí e habilmente manipulou as teclas até que a informação desejada apareceu na tela.

 

            “ Frulhër, Alícia: Falecida em 11 de Setembro de 2001, vítima de um ataque terrorista ao World Trade Center, o atentado foi declarado como responsabilidade de Usama Abi Laden. Sua contribuição para a sociedade foi pouca, mas significativa. Escreveu vários livros na maioria contos de ficção científica e alguns na área médica alcançando sucesso com o título “ Um mundo sem doenças “.

 

            - A Dra. Crusher leu este livro – disse Data. – Ela tinha umas idéias muito avançadas sobre relacionamento médico/paciente e uma visão muito bem estruturada para a construção de um mundo melhor.

 

            - Ela foi uma pessoa muito especial Data. – disse Picard com um leve sorriso, contente por não ter-lhe abreviado a vida

 

            - Tem algo mais adiante que o senhor deveria ver! – disse Data  novamente acessando o terminal. No momento em que encontrou a informação desejada ele virou o pequeno monitor em direção a Picard.

           

            “ Construindo o Futuro: Coletânea de Contos.

            Meu amigo do Século XXIV – Alícia Frulhër “

             

            Data saiu do gabinete do Cap. Picard deixando-o absorto com a narração de sua recente aventura na Terra.

 

            Após a leitura ele virou-se para a janela e fitou as estrelas. Ela escrevera sobre tudo o que ele lhe falara, descrevera seu mundo com perfeição como se nele tivesse vivido e mais, captara uma parte de sua alma que poucas pessoas tinham acesso. Por instantes desejou retornar a São Francisco e convencê-la de que era tudo verdade, levá-la a Enterprise e mostrar-lhe um final feliz para a humanidade. Convencê-la de que não estava louco.

 

            Com um suspiro ele arrumou a blusa do uniforme e dirigiu-se à ponte de comando. Era assim que tinha de ser, fato ou não, cada um deles tinha de seguir seu destino.

 

 

Capítulo XXX

 

Século XX

 

            - Usaremos a órbita do sol para voltarmos a nossa época. – disse La Forge.

 

            - Esta técnica já foi utilizada antes pela Federação. – disse Data. – Na verdade esta viagem de volta ao Século XX  foi realizada em uma Ave de Rapina comandada pelo Cap. Kirk.

 

            - Alguma informação do grupo de Terra? – perguntou Picard.

 

            - Todas as equipes retornarão em seis horas. Um senhor fez um grande estrago por lá. – disse Riker com um breve sorriso.

 

            - Graças a vocês não aconteceu o pior. – disse Picard. – Iniciem os preparativos para o nosso retorno. Assim que a última equipe voltar, retornaremos ao nosso tempo. Creio que vocês deixaram um pequeno problema para ser resolvido. – disse Picard devolvendo a brincadeira ao seu Oficial Imediato.

 

            - Não consigo encontrar um meio de convencer os Andreanos a pararem com suas experiências – disse Riker.

 

            - Se estiveram cientes do poder de detêm será muito difícil para-los. – disse Picard.

 

            - E então o que faremos? – perguntou La Forge.

 

            - Pensaremos em alguma coisa. – respondeu Picard levantando-se. A reunião estava encerrada.

             

 

Capítulo XXXI

 

Século XXIV

 

            A viagem de retorno ao Século XXIV ocorreu sem nenhum transtorno. Chegando ao sistema de Andreos, o Cap. Picard preparou-se para uma tarefa aparentemente muito difícil.

 

            - Senhor! – chamou Worf de seu posto. – Andreos está respondendo ao nosso chamado.

 

            - Na tela! – disse Picard levantando-se e arrumando o blusão do uniforme.

 

            - Sou o Cap. Jean Luc Picard da nave USS-Enterprise. – disse o Capitão apresentando-se.

 

            - Capitão Picard! – disse um dos cientistas. – Sou o Prof. Ypio é com prazer ver que seus oficiais conseguiram encontrá-lo, embora estejamos curiosos para saber como?

 

            - Essa é uma longa história Professor. – disse Picard, mais tarde terei um enorme prazer em contar-lhe, mas no momento temos um outro assunto de máxima urgência a tratar.

 

            - Como já dissemos ao Oficial Riker, não temos assuntos a tratar com a Federação. A presença do Klingon nesta astronave nos leva a crer que vocês tem aliança com esta raça hostil e guerreira. – respondeu o Professor Ypio num tom ligeiramente agressivo.

            - Muita coisa mudou nesta última centena de anos. – disse Picard. – Isolados do resto da Galáxia, vocês não tem conhecimento das mudanças políticas ocorridas.

 

            - Talvez o senhor tenha razão Capitão Picard. Mas os atos de seus oficiais, só enfatizam que vocês não merecem confiança. – disse o professor insinuando que haviam descoberto a manobra de Riker de violar a rede de computadores de Andreos. - Mais uma vez peço que se retirem de nosso sistema. – disse o professor. – Não queremos agir com violência, mas se insistirem em permanecer seremos obrigados a força-los a retirar-se.

 

            - Professor a única coisa que lhe peço é que nos escutem. – disse Picard, sentindo que estava a ponto de perder esta batalha. – A cerca de cento e vinte anos todo o investimento Klingon era direcionado para o desenvolvimento de armas, sua maior e mais poderosa indústria de material bélico se encontrava na Lua de Praxes, uma catástrofe destruiu esta lua, lançando o Império Klingon ao caos econômico e forçando-o a pedir ajuda a Federação Unida de Planetas. Hoje temos um acordo de colaboração mútua, um acordo benéfico para ambas as partes. Os klingons não são mais uma raça conquistadora, hoje participam de nosso desejo de um universo unido e em paz. A prova maior disso é que temos oficiais klingons em nossas naves.

 

            A comunicação foi cortada  e por vários minutos  tripulação da Enterprise esperou com grande expectativa.

 

            - Pretende contar-lhes sobre a distorção temporal? – perguntou Riker, que permanecia sentado em sua cadeira.

 

            - Somente se for absolutamente necessário. – disse Picard.

 

            - Senhor! – chamou Worf. – Estão restabelecendo a comunicação.

 

            - Capitão Picard! – disse o Professor. – O primeiro contato se fez necessário devido ao seu suposto desaparecimento, quais são suas intenções agora?

 

            - O tipo de energia que estão utilizando em busca de planetas habitados é capaz de romper dimensões e causar grandes danos ao Universo. No interesse de todos quero propor-lhe o auxílio da Federação. Existem outras fontes de energia que produzem o mesmo efeito que desejam sem riscos para outras formas de vida que habitam o quadrante ou naves que atravessem o mesmo.

 

            - E estariam dispostos a nos fornecerem esta informação? – perguntou Ypio desconfiado.

 

            - Desde que concordem em não utilizar mais este tipo de energia. – disse Picard.

 

            - O nosso governo estaria disposto a dialogar. Desde que nos forneçam provas concretas de que os Klingons não são mais uma ameaça.

 

            - Providenciaremos tudo que seja necessário. – Picard desliga.

 

            Após a imagem dos Andreanos ter desaparecido da tela central Picard virou-se para sua tripulação com um sorriso de satisfação nos lábios.

 

            - Tinha certeza de que o senhor conseguiria. – disse Riker também sorrindo.

            - Ainda não vencemos esta batalha Número Um. – disse Picard retornando ao sua cadeira. – Há muita desconfiança no ar. E ainda teremos de contar-lhes como fizeram para me localizar.

Capítulo XXXII

 

Século XXIV

 

            Foram necessárias muitas horas de exposição dos fatos e provas para convencer os Andreanos das boas intenções da Federação e outras tantas para lhes explicarem os efeitos nocivos de suas experiências.

 

            Picard encontrava-se em seu gabinete apreciando seu chá favorito El Gray. Seus pensamentos corriam de sua recente aventura pelo Século XX para o problema com os Andreanos. O perigo que pairava sobre o Universo era muito grande e se eles não aceitassem a ajuda da Federação? Continuariam com suas experiências e poriam a vida da Galáxia como a conheciam em perigo.

 

            - Entre! – disse ao ouvir o sinal a sua porta. Willian Riker entrou em seu gabinete. O Capitão conhecia muito bem o seu Imediato e naquele momento tinha certeza de que ele estava muito preocupado com o resultado da reunião de conselho que estava sendo realizada em Andreos. – Sente-se Número Um! – disse indicando a cadeira para o rapaz.

 

            - O que faremos se eles não aceitarem nossa ajuda? – perguntou Riker.

 

            - Em nome de um interesse maior tenho certeza de que eles aceitarão. – disse Picard. – Chá? – perguntou.

 

            - Não senhor! – levantando-se para pedir ao processador uma xícara de café. – Gostaria de ter essa sua certeza. E se eles aceitaram nossa ajuda, mas continuarem com suas experiências? Afinal o poder de alterar a história é uma grande arma.

 

            - Já pensei nisso também. – disse Picard. – Mas não podemos destruí-los ou a sua pesquisa. Além de constituir um ato bárbaro, também significaria fraqueza, medo por nossa parte, na verdade um incentivo para continuarem a utilizar esta fonte de energia.

 

            - Então ficamos parados e esperamos eles descobrirem o que tem em mãos e vemos o mundo a nossa volta desaparecer? – perguntou Riker.

 

            Por longo tempo Picard fitou seu Oficial, lembrou-se da conversa que tivera com Alícia, sobre o medo que as pessoas tinham das mudanças, de sentirem-se perdidas e inadequadas, naquele momento ele compreendeu o clima que reinava entre a maior parte da população da Terra durante aquele final de Século. Como reagiriam as pessoas de outros mundos se soubessem que o Universo como eles conheciam estava prestes  a desaparecer? Sua presença involuntária no passado da Terra quase causara uma catástrofe de grandes dimensões. O que os andreanos não poderiam causar involuntariamente, ou deliberadamente? O que aconteceria se os Klingons, Romulanos, Ferengis ou Cardassianos descobrissem esta fonte de energia?

 

            Compartilhava dos temores de Riker e tinha certeza que os outros oficiais também perdiam-se nestas reflexões. Mas não eram deuses, nem pretendiam ser. A Federação Unida de Planetas tinha como filosofia o livre arbítrio e a liberdade. Tinha consciência de que esta intervenção em prol do bem comum do universo constituia por si só uma violação da Primeira Diretriz.

 

            - Senhor! – ouviam a voz de Worf no intercom. – A reunião do conselho de Andreos acabou. Eles desejam falar-lhe.

 

            - A caminho Tenente! – disse levantando-se e sendo seguido por Riker.

 

 

 

Capítulo XXXIII

 

Século XXIV

 

            - Na tela! – disse entrando na ponte de Comando.

 

            - Capitão Picard! – disse Ário o governante de Andreos. – Deram-nos provas mais que suficientes sobre a idoneidade da Federação e sua associação com a raça Klingon, entretanto não nos interessa no momento nos filiarmos a vocês.

 

            Involuntariamente Picard sentiu seus músculos contraírem-se. Riker remexeu-se em sua cadeira e Troi pode sentir a tensão aumentar na ponte de comando.

 

            - Compreenda que não podemos acreditar plenamente em vocês, principalmente após os atos de sua tripulação, entendemos que foram motivados por uma boa causa, salvar uma vida. – o homem deu um passo a frente e esboçou um breve sorriso. – Entretanto partilhamos de alguns dos valores da Federação e compreendemos em parte o perigo que nossas experiências com esta nova fonte de energia representam para nós e para outras espécies. No interesse do bem comum e na expectativa de um novo alvorecer para nossas espécies aceitaremos a ajuda da Federação para alcançarmos o Espaço.

 

            - Ficamos muito satisfeitos com sua decisão. – disse Picard tentando conter o alívio que sentiu ao ouvir a última frase. – Daremos todo o apoio necessário para que o seu projeto de exploração da galáxia tenha êxito.

 

            - Tenho certeza de que teremos muito a aprender uns com os outros. – disse o monarca. – O tempo dirá se no futuro poderemos ou não partilhar a honra de pertencer a tão nobre instituição.

 

            Com estas palavras Andreos encerrou as comunicações.

 

            Picard dirigiu-se a sua cadeira sentindo um peso enorme abandoná-lo. Dali para frente haveria apenas o trabalho burocrático dos embaixadores.

 

            - Conselheira? – perguntou virando-se para  a moça que sorria ao seu lado.

 

            - Ele estava sendo sincero em suas palavras. – disse simplesmente.

 

            - Mas será que seus subalternos seguirão o seu sonho? – perguntou Riker cético.

 

            - Lhes daremos o benefício da dúvida Imediato. – respondeu Picard. – Senhores teremos que aguardar nas imediações até a USS - Margareth chegar com a delegação. – disse o Capitão comunicando suas ordens. – Tenho certeza de que nosso Imediato saberá como ocupar este tempo. – disse retirando-se.

 

            Wesley fez uma pequena careta. Tinha certeza de que Riker iria fazer todo o tipo de exercícios com a tripulação nos próximos dias. Deanna Troi sorriu divertida, pois sentira  a mudança de atitude nos oficiais da ponte.

 

                Riker apenas acompanhou com os olhos o Capitão Jean Luc Picard retirar-se.

 

FIM

 

 

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