DECISÕES DE COMANDO
Conto baseado no Universo Star Trek: The Next Generation
As personagens: Capitão Jean Luc Picard, Comandante Willian T. Riker, Conselheira Deanna Troi, Dra. Beverly Crusher, Alferes Wesley Crusher, Tenente Worf, Tenente Comandante Data, Tenente George La Forge, pertencem a Paramount Pictures, não pretendendo o autor infringir seus direitos autorais.
A Capitã Sophia Nelle entrou em seus aposentos e sentou-se à escrivaninha, pressionou algumas teclas no console ligando assim o sistema de gravação e dirigiu o seu olhar para o infinito. Através da vigia ela via pequenos pontos luminosos, uma sensação de paz e prazer invadiu sua alma, espantando momentaneamente os fantasmas e problemas que povoavam sua mente. Sua voz suave preencheu o aposento.
Diário de Bordo: Capitã Nelle gravando - Há dias estamos observando a passagem de um asteróide por este setor. Devido a sua enorme massa e velocidade os planetas próximos a sua trajetória estão sofrendo alterações em sua órbita e consequentes mudanças geológicas e climáticas. Até o momento detectamos apenas um sistema habitado, para o qual nos dirigimos no momento.
Diário Pessoal: Sophia Nelle - Embora seja nossa política não interferir com os povos que encontramos, estou preocupada com a rota deste asteróide, pouco há o que fazer por estas criaturas. Outros problemas também ocupam minha mente. Há muitas estações estamos no espaço, sem a mínima possibilidade de retornar há nossa galáxia, embora todos nós tenhamos aceitado os riscos desta missão, sempre tivemos a esperança de regressarmos ao nosso lar, isso está provocando um certo desanimo na tripulação e abrindo espaço para outros pensamentos. Acho que está na hora de começar a pensar seriamente na possibilidade de nos estabelecermos em algum planeta.
- Comandante - soou uma voz no comunicador que se encontrava em uma espécie de coleira em seu pescoço.
- Comandante Nelle, prossiga. - disse sem muito entusiasmo.
- Detectamos uma nave há três anos luz de nossa posição, suas coordenadas são idênticas ás nossas. - disse o operador.
- Já devem ter-nos detectado também, abram todos os canais de comunicação e avisem-me assim que estabelecerem contato. Nelle desliga.
Ela deitou-se e com um gesto quase que automático enfiou as pontas dos dedos na coleira como se quisesse afrouxá-la. Lembrou-se que há muitos anos quando apresentaram o novo modelo do comunicador ela foi uma das que o reprovaram. Aquilo era a coisa mais incomoda que já usara em toda a sua vida. Sua mente vagou nas lembranças de um passado que já estava muito distante, o comissionamento, o orgulho que sentira em ter sido escolhida, a partida, as primeiras aventuras, as imagens desfilavam em sua mente. Tudo isso tinha ocorrido há tanto tempo; tanta coisa havia mudado que as vezes tinha a impressão de que vivera duas vidas ou mais. Novamente teve suas reflexões interrompidas pela ponte de comando.
- Estão se comunicando senhora. - disse o operador. - Nossos sensores indicam tratar-se de um grande cruzador com poder de fogo superior ao nosso.
- Estou a caminho. Localize o Dr. Lenar. Nelle desliga. - ela levantou-se e foi até o espelho. Com gestos precisos de muitos anos de prática prendeu a vasta cabeleira negra e saiu de seus aposentos em direção a ponte de comando.
- Já temos contato visual? - perguntou a moça ao entrar na ponte de comando.
- Sim senhora - respondeu o jovem operador. Ela dirigiu-se ao centro da ponte, tendo o Dr. Lenar a sua direita. Desde a morte do Capitão, ocasião em que ela assumira o comando da nave que o doutor acumulara a função de médico chefe e segundo em comando. Com um gesto ela indicou ao jovem que estava pronta para receber a transmissão.
- Sou o Cap. Jean Luc Picard da USS- Enterprise. - disse um homem sem cabelos e de olhar penetrante.
- Comandante Sophia Nelle, da nave Athora V. - respondeu a moça com um breve aceno - Este é o Segundo em comando Dr. Lenar Rojha. Observamos os efeitos da passagem do asteróide neste sistema, me parece que nosso destino é o mesmo Capitão. - ela sempre odiava este primeiro contato, sentia-se mal com a desconfiança natural que surgia entre as espécies.
- Qual a sua missão Capitã? - perguntou um outro homem de barba o olhos azuis.
- Estamos explorando este setor de sua galáxia. Há dias detectamos variações eletromagnéticas e no espectro da luz, assim como mudanças climáticas e geológicas em alguns planetas decorrentes da passagem do asteróide. Nossos sensores indicaram que um destes mundos é habitado. Embora seja nossa política não interferir com o desenvolvimento das espécies, resolvi dar uma olhada e ver se é possível fazer alguma coisa por estas pessoas. - respondeu a moça.
- Cientistas? - perguntou Picard aproximando-se. Agora ela tinha uma visão maior da ponte de comando da USS-Enterprise e se ficara admirada com seu formato externo, teve certeza de que ficaria extasiada com seu interior após aquela breve visão.
- Sim. - respondeu com simplicidade. - E qual a sua missão Capitão?
- Também somos exploradores. - respondeu Picard com um breve sorriso. - O planeta em questão é uma de nossas colônias, somos a nave mais próxima, estamos em missão de resgate.
- Mundo pequeno - respondeu Sophia. - Teremos um enorme prazer em ajudá-los no que se fizer necessário.
- De onde vocês vem? - perguntou Picard.
- De muito longe Capitão, acredite. - respondeu a moça - Já ouviu falar de uma entidade chamada Q? - perguntou.
- Sim. - respondeu Picard, com uma expressão que forçou Sophia a sorrir.
- Pelo visto temos outras coisas em comum, além de nosso destino - disse a Capitã ainda sorrindo, o Comandante Riker que ainda não se apresentara oficialmente também sorriu. - Há muitas estações esta criatura apareceu em nossa nave, causou-nos grandes transtornos e depois nos arremessou em seu universo, antes de partir disse que aqui encontraríamos nossos mestres. Somos de uma galáxia muito distante, mesmo em velocidade máxima, precisaríamos de pelo menos cinco vidas para atingir um setor próximo ao nosso mundo.
- É bem o tipo de coisa que Q faria. - respondeu o Capitão. - O que pretende fazer?
- Pedimos em nossas preces todas as noites para que Q apareça e nos restitua ao nosso lar, enquanto isso não acontece perseguimos cometas, asteróides e estudamos as formas de vida que encontramos. Enfim, damos um jeito de passar o tempo. - respondeu a moça em tom jovial.
- Nos daria o prazer de uma visita? - perguntou Picard.
- É claro que sim - respondeu Sophia com um sorriso. - Em três horas está bom para o senhor?
- Perfeito. Picard desliga.
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- Muito jovem para comandar uma nave não acha? - perguntou Riker sentando-se.
- Realmente. - concordou Picard. - Conselheira qual sua impressão? - perguntou dirigindo-se a moça a sua esquerda.
- Não senti nenhum tipo de dualidade, dissimulação. Estava sendo completamente sincera. - disse com simplicidade.
- Ótimo! - disse Riker. - É bom encontrarmos gente simpática de veez em quando.
O Capitão Picard olhou para o seu Imediato e sorriu, ele não fora o único a reparar na beleza da Capitã Nelle. Seus pensamentos voltaram-se para os colonos de Arap IV. Uma providencia boa demais encontrarem uma nave próximo. A Enterprise não conseguiria salvar a todos.
Capitão! - chamou o Tenente Worf de seu console de comunicações instalado atrás da cadeira de comando. - A Athora V está comunicando que vão continuar no curso anterior em dobra 4, estão também transmitindo os dados até agora coletados sobre a missão.
- Senhor Crusher implementar coordenadas. - disse o Comandante Riker.
- Curso marcado senhor. - respondeu o jovem alferes.
- Acionar - disse o Capitão Picard. - Sr. Data compare os registros da Athora se houver alguma divergência envie um arquivo com os dados necessários para que completem sua missão.
- Sim senhor. - respondeu o andróide.
As três horas se passaram sem que nada de novo acontecesse. A USS-Enterprise e a Athora V estavam em continua comunicação, Data observou que apesar do estado precário em que a nave alienígena se encontrava, seus tripulantes trabalhavam com extrema eficiência.
Ele aproveitara este tempo para sondar os recursos dos companheiros inesperados, descobriu que eles tinham pouca velocidade de dobra, isso devido a danos em seus reatores, na nave haviam cerca de 200 tripulantes, sendo o resto das funções efetuadas por robôs e auto gerenciamento do computador de bordo. Em uma seção precariamente vedada ele descobriu vestígios de radiação do tipo deixado pelo armamento dos Borgs. Todos estes dados e mais alguns foram passados ao Cap. Picard antes que se encontrasse com a Capitã Nelle.
- Ainda acho que deveria ir com você? - disse Lenar. Estavam nos aposentos de Sophia, ela vestia apenas um robe e escovava os cabelos em frente a um espelho embutido na parede.
- Fique tranqüilo Lenar. - disse. - Tenho certeza de que não são hostis.
- O Capitão também pensava isso sobre os Borgs - respondeu o homem de cabelos castanhos e olhos azuis enquanto observava ela dirigir-se ao armário e pegar um uniforme limpo e bem passado.
- É disso que tem medo? De assumir o comando da Athora. - disse sentando-se para vestir a meia. Trocava-se como se estivesse sozinha ou com uma amiga, Lenar era seu médico há muitos anos, já havia visto seu corpo tantas vezes, que não lhe passava pela cabeça que era inadequado trocar-se na frente de seu segundo em comando. - Eu também não estava preparada, para falar a verdade as vezes acho que ainda não estou, me sinto confusa e temo as conseguencias de minhas decisões, mas acredito que tenho me saído bem. Do mesmo modo que sei que quando chegar a sua vez, você também fará a coisa direito.
- É diferente. - disse o médico. - Temos um ao outro. Conversamos, discutimos e algumas vezes até brigamos. Se acontecer alguma coisa com você eu estarei sozinho. - Sophia terminou de vestir a túnica do uniforme e fitou o médico a sua frente.
- O computador indicará o seu sucessor. - disse a moça de uma forma quase ríspida. - E então como estou? - disse parando a frente do doutor e mudando radicalmente de assunto.
- Linda. - respondeu, pensando que jamais teria o mesmo carisma que ela ou do antigo Capitão, ele relacionava-se muito bem com a tripulação, mas era um médico, faltava-lhe aquela magia que todos os líderes possuíam. - Todo esse capricho com a aparência tem haver com o Capitão Picard ou com seu Imediato? - perguntou.
- Hum! O Cap. Picard tem um certo charme e me pareceu muito simpático. O seu Imediato é sem dúvida um belo exemplar do espécime masculino, mas o meu interesse está em outro lugar, meu caro doutor. - disse com um sorrio matreiro. - Eles possuem tecnologia de qualidade, talvez seja possível fazer os reparos da Athora em alguma de suas bases estelares.
- Como sabe que possuem bases estelares? - perguntou Lenar, visivelmente surpreso.
- Lenar, a USS-Enterprise não possui sistema de aterrissagem, seu design é típico de uma nave construída em um estaleiro espacial, portanto eles devem ter pelo menos uma base.
- Estou dizendo que isso não vai dar certo. Eu morreria e jamais teria notado este detalhe. Sou um médico e não um capitão. - disse ligeiramente contrariado. Sophia sorriu.
- Aprenderá. - disse dirigindo-se a porta. - Poderá começar a treinar imediatamente, a partir de agora você está no comando. - ela saiu deixando o Doutor sentado com seus próprios pensamentos.
- A Capitã Nelle pede permissão para vir a bordo. - disse Worf.
- Permissão concedida. - respondeu Picard levantando-se e sendo sseguido por Riker e Troi. - Comandante Data assuma o Comando.
O operador do teletransporte teve dificuldade em fixar o sinal enviado pela Athora. Por quase trinta segundos a comitiva da Enterprise prendeu a respiração, receando um acidente, que não só mataria a comandante como também poderia criar algum tipo de incidente desagradável com um relacionamento que começara tão bem. Foi com alívio que viram a forma da moça materializar-se.
- Capitão! - disse Sophia sorridente descendo o degrau da plataforma.
- É um prazer te-la a bordo. - respondeu o Capitão Jean Luc estendo-lhe a mão, ela olhou-o de modo interrogativo e após alguns segundos apertou-lhe a mão.
Durante o trajeto até a sala de conferencias a conversa foi amena, Picard não deixou de observar a admiração da Cap. Nelle pela Enterprise, que segundo suas palavras era simplesmente maravilhosa. Encantara-se também com o fato de haverem várias raças a bordo da nave, trabalhando em total harmonia.
Os modos simples da jovem comandante, a maneira como expressava-se e demonstrava seus sentimentos, dava a sensação de que já se conheciam há muito tempo. Riker não deixava de pensar em como alguém tão jovem poderia comandar uma nave. Talvez não fosse tão jovem assim, pensou, lembrando-se de Guinan que tinha mais de trezentos anos, mas de longe aparentava esta idade.
- É aqui que decidimos o futuro de nossas missões - disse Picard entrando na sala de conferencias. - Aceita uma xícara de café ou chá?
- Apenas um copo d’água. - respondeu a jovem admirando diversos modelos de naves espaciais que ornamentavam uma das paredes. - Sou alérgica a uma infinidade de alimentos, após algumas experiências bem desagradáveis em nossa enfermaria aprendi a não ingerir nada que não conheço. - disse quase se desculpando.
- Nosso oficial de ciências detectou um tipo de radiação peculiar no casco de sua nave ... - disse Picard de modo sério, indicando que a hora de lazer acabara. - ... mas precisamente a estibordo onde aparentemente foi atingida. Vocês estiverem em contato com os Borgs? - perguntou, notando que a expressão de Sophia mudara com sua pergunta.
- Foi há mais ou menos dezoito meses segundo sua contagem de tempo. Perdemos metade de nossa tripulação, incluindo o Capitão e o Segundo em Comando. - respondeu.
- Fizeram contato com eles, ou foram simplesmente perseguidos? - perguntou Riker.
- As duas coisas. - respondeu. - Eles prenderam nossa nave com um raio trator e seqüestraram alguns membros da tripulação, depois abordaram nossa nave. - ela fez uma pequena pausa para ordenar as lembranças daqueles terríveis horas. - O Capitão aproximou-se demais da nave, acreditando que eles não nos fariam mal, quando nos prenderam ele tentou dialogar com os Borgs, mas a única resposta que tínhamos era que qualquer argumento seria irrelevante e que no final seriamos assimilados, não sabíamos ao certo o que isso significava, mas tínhamos certeza de que não seria uma experiência agradável. Então alguém teve a brilhante idéia de abordar a nave, apesar de meus protestos o Capitão liderou o grupo de pesquisa. Eles capturaram todos. - Sophia fez uma pequena pausa, tomou um pouco d’água e prosseguiu sua narrativa. - Após algumas avaliações decidimos deixa-los para trás, durante a perseguição fomos atingidos.
- Como conseguiram escapar? - perguntou Riker. - Sua nave tem poucos recursos.
- A divina providencia associada a uma boa dose de loucura, ou desespero como preferirem. - respondeu a moça - Entramos em uma nebulosa na esperança de que as descargas energéticas nos escondessem, mas não poderíamos ficar ali por toda eternidade, então estimulamos propositadamente uma concentração gasosa e atraímos a nave Borg. A descarga elétrica partiu aquele maldito cubo em mil pedacinhos. - ela fez uma pequena pausa e completou logo a seguir - Quando retornar a Athora enviarei os dados sobre a missão. - O que sabem sobre Q?
- Não muita coisa. - respondeu Picard, que estava muito sério. Tanto ele como Troi notaram a mudança de atitude na comandante, ela simplesmente descrevera os fatos, da forma mais simples e resumida possível, ficou imaginando o que ela estaria omitindo - Ele acredita-se onipotente, onisciente e onipresente, ou seja praticamente um Deus. Cria situações com o único intuito de irritar, causar pânico, isso parece dar-lhe prazer. Um emissário do caos - completou Picard.
- Faz parte de um continuum, - disse Riker - Sabemos que há outros mas nunca os vimos. Tenho certeza que seu encontro foi idêntico a todos que tivemos com ele.
- Todos? - a Cap. Nelle não escondeu sua surpresa - Quer dizer que ele costuma retornar?
- Você não vai gostar muito da experiência. - advertiu Riker com um sorriso.
- Tenho certeza que não Comandante, mas esta criatura é a única esperança concreta que temos para regressar ao nosso lar.
- Não me parecem preparados para enfrentar os perigos do espaço. - disse Picard.
- Esta era para ser uma missão no fundo de nosso quintal. - disse com um sorriso meio sem graça. Ela olhou para fora, onde a Athora vagava suavemente um pouco abaixo da Enterprise, seus pensamentos por um instante foram para bem longe da sala de conferencias. - A primeira nave tripulada a sair do sistema solar. - disse dando grande ênfase a frase - Grandioso não acham? - Deanna notou um pouco de amargura em sua voz. - O que pretendem fazer em relação as pessoas de sua colônia? - perguntou Sophia em tom sério e mudando totalmente de assunto.
- Resgatar o maior número de pessoas possível. - respondeu Riker. - Perdemos contato com eles a dez semanas, isso nos faz pensar que a situação em Arap deve ser critica.
- Sabem quantas pessoas há lá? - perguntou a moça.
- De acordo com nossos registros estimamos uma população de 3000 pessoas, incluindo crianças. - respondeu a Dra. Crusher.
- Estamos aguardando mais duas naves. - disse Picard. - Mas tudo indica que não chegarão a tempo.
- A Athora já teve seus melhores dias, mas temos condições de abrigar até 600 pessoas. - ela fez uma pequena pausa. - O problema maior será a alimentação e recursos médicos.
- Podemos abrigar até 1500 pessoas em caso de desespero. - disse Riker. - Isso quer dizer que perderemos quase um terço da população da colônia.
- Dependendo do que encontrarmos quando chegarmos é provável que metade destas pessoas já tenham morrido. - respondeu Sophia. - Acho que se trabalharmos em conjunto poderemos salvar a todos.
- A troco de que está nos ajudando? - perguntou a Dra. Crusher ligeiramente desconfiada.
- De onde vim chamamos isso de solidariedade, mas pelo que tenho visto nos últimos meses, vocês podem chamar de idiotice. - respondeu Sophia em um tom de voz que não poderia ser interpretado propriamente como agressivo, mas de alguma forma não gostara da desconfiança demonstrada pela doutora.
- Asseguro-lhe que nem todas as criaturas de nossa Galáxia são hostis. - disse o Cap. Picard.
- Não tenho nenhuma intenção de ficar zanzando por seu Universo e descobrir a veracidade de suas palavras Capitão, minha meta principal é retornar para casa.
- Capitão! - ouviu-se a voz do comandante Data - Já temos leituras de Arap IV.
- Relatório - pediu Picard entrando na ponte acompanhado por Riker, Troi, Sophia e pela Dra. Crusher.
Um homem com pele dourada e olhos cor de mel voltou-se para o Capitão dando uma rápida olhada para a Cap. Nelle.
- Atividades geológicas intensas, terremotos, maremotos, ventos de mais de 400 km/h em algumas regiões, grandes tempestades. - respondeu lendo as informações em seu console. - O planeta está se esfacelando.
- Quanto tempo para tirarmos os colonos de lá? - perguntou Sophia.
- Setenta e cinco horas antes que atinja o ponto crítico. - respondeu Data após ter pedido permissão através de um olhar para Riker.
- Qual a situação nos centros populacionais? - perguntou Picard.
- Há apenas uma grande cidade que no momento está atravessando uma grande tempestade com ventos de 150 Km/h. - disse Data.
- Ainda sem contato senhor. - disse o Worf de seu posto. - Há muitas partículas ionicas na atmosfera, não conseguimos obter uma leitura precisa.
Todos olharam para Picard, até mesmo Sophia por um momento permitiu-se comandar por aquele homem.
- Em quanto tempo a USS-Vitória estará aqui? - perguntou.
- Aproximadamente 150 horas se estiverem viajando em velocidade máxima. - respondeu Data.
- E a USS Margareth? - perguntou Riker.
- Duzentas e vinte horas. - respondeu Wesley desanimado.
- Acho que seremos obrigados a aceitar sua ajuda. - disse Picard à Cap. Nelle após alguns minutos de considerações.
- Começaremos os preparativos para recebe-los agora mesmo. - respondeu
- Reunião em cinco horas quando atingirmos a órbita de Arap IV. - disse levantando-se. - Gostaria que estivesse presente com o Dr. Lenar.
- Sim senhor. - respondeu a moça de modo pensativo. - A propósito ... - disse como se lembrasse de algo - ... já que vamos trabalhar juntos me chamem apenas de Comandante ou Sophia, odeio o título de Capitã.
- Lenar aquela nave é incrível. - disse Sophia entusiasmada. O Doutor a olhava, muito sério. Sabia que enquanto ela não contasse todas as novidades não o ouviria com a devida atenção. - Eles possuem uma tecnologia que as coisaas parecem mágicas. Imagine, você deseja comer ou beber algo, pede ao computador e o alimento se processa ali na sua frente, literalmente do nada. Gostaria muito de ver a engenharia, deve ser simplesmente ... - ela parou para procurar uma palavra que definisse seu entusiasmo e deu-se conta da expressão séria do Segundo e de que ele não participava de sua conversa. - O que aconteceu agora? - perguntou com um suspiro.
- Roddy! - respondeu. - Ele vai causar problemas. Andou conversaando com alguns tripulantes, parece que está com uma idéia idiota de seqüestrar a USS-Enterprise.
- Ah! Ah! Essa foi a melhor piada do dia - disse Sophia rindo. - Você escutou tudo que eu falei? Perto de nós aquelas pessoas são deuses. Nem em sonho poderíamos tomar a Enterprise.
- Você esta caminhando por águas fundas Sophia. - disse. - Não temos certeza, mas o mal funcionamento do teletransporte pode ter sido proposital.
- Está sugerindo que Roddy tentou deliberadamente me matar? - perguntou Sophia incrédula. Se bem que tinha certeza de Roddy seria capaz. Já haviam tido muitas discussões no passado. E esta não era a primeira vez que ele tentava provocar um motim - O que ele ganharia com isso? Se eu morresse você automaticamente assumiria.
- Não se eu morresse também. - respondeu Lenar.
- Mesmo assim Lenar. Se acontecer algo a nós dois o computador deverá indicar o sucessor. Como já fez uma vez. E tenho certeza de que Roddy não seria o eleito.
- Como pode ter tanta certeza assim? - perguntou Lenar, embora já soubesse a resposta.
Sophia apenas sorriu. Ela tinha acesso aos códigos de segurança da nave, logo após sua indicação para o Comando quando tudo ainda estava muito confuso ela havia aberto o arquivo de sucessão tentando descobrir um modo de se livrar daquela responsabilidade. O nome de Roddy Malc não constava na relação de sucessão. Isso poderia mudar é claro, de acordo com o desempenho de cada tripulante, mas esta pessoa em questão não tivera nenhum mérito durante todo este tempo, na verdade a maioria de seus atos serviram apenas para desmerece-lo.
- Não há nada que nos obrigue a aceitar a indicação do computador, a não ser o bom senso. - disse Lenar com uma expressão séria.
- Coisa que ele parece não ter. - respondeu a moça levantando-se. - Há alguma evidencia de seus atos?
- Não! - respondeu o médico. - Soube através de boatos na enfermaria, mas parece que ele tem alguns adeptos.
- Dê-me provas de que Roddy está tramando alguma coisa. Procure descobrir na nave quantos estão compactuando com ele. - ordenou a moça.
- Sophia eu sou um médico e não um cão de caça. - respondeu o médico contrariado, porém ele recuou ao ver a expressão de Sophia.
- Chega! Eu estou cansada desta história. - seu tom de voz estava ligeiramente alterado. - Você é o Segundo em Comando, goste ou não, fará aquilo que eu ordeno na qualidade de Capitã desta banheira e aquilo que for preciso na qualidade de Segundo. - ela percebeu que ele ia protestar e não deu-lhe tempo. - Você mais do que ninguém sabe o quanto eu detestei assumir o comando da Athora, e apesar de toda a insegurança e dúvidas sempre procurei fazer o melhor. E é isso que espero de você. Caso não esteja disposto a assumir suas responsabilidade para com esta nave e seus tripulantes junte-se a Roddy e terá muito mais do que se arrepender. - Sophia deu-lhe as costas. - Independentee de nossos problemas internos faça os preparativos para receber os sobreviventes de Arap IV, está nave ficará tão cheia de gente e problemas que duvido que nosso suposto amotinado tenha tempo para brincadeiras.
- Não teremos como alimentar todas estas pessoas. - disse Lenar, desviando sua atenção para o problema de Arap e tentando não demonstrar que ficara sentido com suas palavras.
- O Cap. Picard informou que a Frota estará enviando duas naves de capacidade quase que idêntica a da Enterprise. Teremos que nos agüentar por aproximadamente 80 horas antes de sua chegada. - respondeu sentando-se.
- Mesmo assim é muito tempo. - disse Lenar. - Provavelmente teremos que utilizar os caças e a nave auxiliar. Podemos utilizar os hangares para abrigá-los.
- Foi o que pensei. - disse Sophia esboçando um breve sorriso, pois eles sempre tinham as mesmas idéias ou pensamentos. - Mantenha contato com a Dra. Crusher, ela é a médica chefe da Enterprise, providencie algumas equipes e coloque-as a disposição do Capitão Picard, certifique-se para que não haja nenhum dos adeptos de Roddy entre eles. Está dispensado.
Ela observou Lenar levantar-se e sair. No mesmo instante arrependera-se de ter sido tão ríspida com ele. Sentia falta do tempo em que era apenas a oficial de ciências da nave e de como as coisas eram simples naquela época. Pela vigia viu a Enterprise e lembrou-se dos modos calmos e seguros de Picard. Da confiança que compartilhava com seu Imediato, onde apenas um olhar bastava para entenderem-se. No fundo ela sabia o que atormentava Lenar em relação ao comando, ele temia um dia ter que tomar a mesma decisão que ela fora obrigada.
Sentiu-se deprimida e cansada. Mas sabia que no momento em que saísse de seu gabinete assumiria a papel de comandante bem humorada e confiante.
Passou horas pensando sobre os últimos acontecimentos, mal percebeu que estava na hora da reunião. Quando o operador a chamou deu-se conta que ocupara todo o tempo com seus próprios problemas, esquecendo-se por completo das três mil criaturas que estavam prestes a morrer. “Bom, o sapato apertado é o meu”, pensou levantando-se.
Sophia entrou na sala de conferências acompanhada pelo Tenente Worf. Após os cumprimentos e apresentações de outros membros da tripulação que ainda não conhecia ela sentou-se próxima a Deanna que por um breve instante fitou-a.
- Algum problema? - perguntou a Conselheira solicita, sentindo a angustia e preocupação da outra.
- Ossos do ofício. - respondeu a Capitã com um breve sorriso.
- O Dr. Lenar não veio? - perguntou Beverly que nas últimas horas havia mantido com ele longas palestras que visavam o atendimento dos feridos.
- Ele teve que permanecer a bordo. - respondeu Sophia, que não podia dizer que com uma ameaça de motim, um dos dois deveria permanecer a bordo da Athora.
- Qual a situação? - perguntou Picard sentando-se
- Ainda não conseguimos obter nenhuma leitura senhor. disse Data. - O planeta está saindo de sua órbita original, o ar está carregado de partículas ionicas e descargas eletromagnéticas.
- Isso quer dizer que não poderemos utilizar os transportes. - concluiu La Forge.
- Há muitos sobreviventes Capitão. - disse Troi. - Posso senti-los. - Mediante esta declaração a Cap. Nelle olhou para Troi, pois não sabia que a Conselheira era sensitiva. Isto deixou-a ligeiramente apreensiva. Não que tivesse algo a esconder de Picard, mas gostaria de manter os problemas internos da Athora longe da Enterprise, mesmo porque precisavam de toda sua dedicação a grande tarefa que tinham pela frente.
- Não poderemos resgatar a todos utilizando somente as naves auxiliares - disse Riker desanimado.
- Tenho cinqüenta robôs de mineração a bordo da Athora, poderemos alterar sua programação para localizar os sobreviventes e formar os grupos. - disse Sophia.
- Quanto tempo levaria para reprogramá-los? - perguntou Picard.
- Aproximadamente uma hora se forem conectados a rede. - respondeu a moça. - Dispomos ainda de uma nave auxiliar com capacidade para umas 60 pessoas e dois caças que poderiam transportar 5 pessoas cada.
- Sem dúvida isso facilitaria o trabalho... - disse Data. - ...mas se considerarmos o tempo de ida e volta das naves mais o tempo gasto com o embarque e desembarque das vítimas não conseguiremos resgatar nem a metade da população.
- Os sobreviventes podem ser transportados a partir das naves auxiliares assim que saírem da atmosfera de Arap. - disse Wesley.
- Boa idéia - disse Sophia ao jovem alferes que sentiu-se corar.
- Não temos muita escolha. - disse Picard. - Quando poderemos iniciar a operação.
- Em uma hora. - respondeu Riker. - E você? - perguntou para Sophia.
- Estará tudo pronto.
- Executem - disse Picard. Observando seus oficiais retirarem-se. - Gostaria de falar um minuto com você - disse Picard no momento em que a Cap. Nelle levantava-se. - Algum problema? - perguntou após todos terem saído. Ela não respondeu de imediato, parecia considerar suas palavras e a resposta que daria. - Desculpe... tive a impressão de algo a está incomodando.
- O senhor é muito gentil e prestativo. - disse segurando as mãos de Picard. - Mas é o tipo de coisa que não poderemos resolver juntos. - completou com um breve sorriso. - Preciso retornar. Quando tudo isso terminar espero recebê-lo em minha nave.
- Será uma honra! - disse Picard. - Eu a acompanho até a sala de transporte.
Como se já trabalhassem há muitos anos juntos as duas naves começaram a operação de resgate.
A medida que as horas iam se passando as duas naves iam recebendo os sobreviventes. Adultos, velhos e crianças lotavam as enfermarias e corredores. Os hangares da Athora recebiam aqueles que não precisavam de cuidados médicos. Enquanto que os demais eram encaminhados a enfermaria.
A Capitã Sophia Nelle não era o tipo de pessoa que ficasse parada, e não demorou muito ela percorria a nave dando toda a ajuda possível aos sobreviventes e orientando seus tripulantes.
Quando ela entrou na enfermaria que estava apinhada de pessoas gemendo e sangrando, imaginou como Lenar estaria se virando com tantos pacientes uma vez que não dispunham de uma grande equipe, foi com certo alivio que viu alguns membros da equipe médica da USS-Enterprise em plena atividade.
- Como estão as coisas por aqui? - perguntou ao médico que atendia um jovem adolescente cujas pernas estavam quebradas.
- Não sei o que faria sem a ajuda da Dra. Selar e sua equipe. - respondeu o médico enquanto tratava do paciente. - Os casos mais graves estão sendo enviados para a Enterprise.
- Em três horas teremos que desligar o transporte ou sobrecarregaremos os reatores. - disse a moça. - Na ânsia de ajudar alguém contrariou as ordens e disponibilizou toda nossa capacidade.
- Espero que o pessoal da Enterprise seja mais eficiente. - disse Lenar visivelmente contrariado. A Athora possuía três salas de transporte, Sophia havia liberado apenas duas, para que não houvesse interrupção no resgate, agora eles tinham apenas a área de carga. - Como estão as coisas por ai? - perguntou o médico enquanto suas mãos hábeis faziam os curativos no jovem.
- Se complicando. - respondeu Sophia - Se eles chegassem quietinhos não seria tão ruim, mas estão apavorados, preocupados com familiares, amigos e acredite com animais de estimação, seus pertences, seu trabalho e toda a sorte de coisas.
- Sabe, as vezes imagino que os seres pensantes são iguais em toda parte do universo. - disse Lenar.
- E então? - perguntou o rapaz de cabelos castanhos escuros e olhar penetrante. Roddy não era propriamente bonito, mas tinha uma espécie de charme selvagem, alguma coisa em seu modo de ser, como ele próprio costumava dizer “sua personalidade magnética” que o tornava único entre uma multidão. - Como é esta nave maravilhosa?
- Está muito além de qualquer coisa que já vimos. Sinceramente Roddy, não tenho certeza se poderemos operá-la. - respondeu o técnico que fizera parte da equipe destacada pelo Segundo.
- Ouvi Lenar falar sobre um andróide a bordo que ocupa a posição de terceiro em comando. Além dele, ficaremos com o Engenheiro Chefe La Forge e mais alguns oficiais da engenharia e do setor médico.
- Há crianças a bordo. Famílias inteiras. - disse o rapaz como se não tivesse certeza do que estava fazendo, e tentasse convencer o companheiro a mudar de idéia.
- Kere se você não quiser participar tudo bem, só não quero que estrague tudo. - disse Roddy. - Será uma ação simples e rápida. Tomaremos a ponte de Comando da Athora e comunicaremos a Enterprise que os colonos que estão aqui e os seus oficiais são nossos reféns. Pelo que me disseram este Picard é muito parecido com Nelle - havia desprezo em sua voz. - Ele não permitirá que sua gente sofra.
- Eu não sei... e a Cap. Nelle? Ela parece que desconfia de algo. - disse o rapaz ainda em dúvida.
- Sophia nos conduzirá a morte. Ela está cheia de culpa em relação a morte do Capitão, não tem confiança em si mesma e não está fazendo nada para nos levar de volta. - disse o rapaz com uma expressão de ódio. - Terei um prazer imenso de tirá-la de nosso caminho.
- Estamos muito longe de casa. - disse o rapaz, sentindo um frio na espinha, dando-se conta estavam planejando matar pessoas - Já enfrentamos muitos problemas nestas últimas estações e ela sempre nos conduziu de forma a permanecermos vivos. Mesmo agora, ouvi dizer que a Enterprise vai nos ajudar com os reparos da nave.
- Consertar esta banheira velha enquanto podemos ter aquela maravilha. Kere quando estivermos em poder da Enterprise poderemos regressar para casa - disse Roddy, já imaginando-se no comando da grande astronave, na glória de retornar após tanto tempo e ainda levando recursos tecnológicos somente imaginados por seu povo. - Pense bem se quer participar da ação ou não. Assim que tiverem resgatado todos os colonos daremos início ao nosso plano.
- Como estão indo Imediato? - perguntou Picard entrando na ponte.
- Perdemos contato com 22 dos robôs da Athora. O pessoal que está participando da operação de resgate informou que lá embaixo está um verdadeiro inferno.
- As atividades geológicas se tornaram mais intensas nas últimas horas. Os ventos atingiram a marca de 280 Km/h. - disse Data. - As naves auxiliares estão tendo problemas para aterrissarem e decolarem em segurança.
- Os caças da Athora em breve terão que parar. - informou Wesley. - São muito leves, os ventos fortes vão acabar por derrubá-los.
- Comandante Nelle entrou em contato? - perguntou Picard.
- O último boletim foi a trinta minutos. - disse Riker. - Estão apenas com o transporte de carga operando. Já receberam cerca de trezentos sobreviventes.
O Cap. Picard olhou para a tela central onde a imagem do planeta dava a impressão de que ele era alguma coisa viva, tamanha eram as forças da natureza agindo sobre sua superfície e atmosfera. Podia imaginar perfeitamente o caos que as equipes estavam tendo que enfrentar, mas preocupava-se também com os que permaneciam a bordo.
A caminho da ponte encontrara-se com Deanna Troi que lhe parecera muito abatida, a moça estava exausta, pois tinha que bloquear sua mente e ao mesmo tempo atender a todos que chegavam assustados e preocupados. Sabia também que a Dra. Crusher, a Dra. Selar e o Dr. Lenar não descansavam a mais de vinte e quatro horas. Ele nada sabia sobre a constituição física de Lenar, mas sabia que Beverly iria sucumbir a exaustão em muito breve se não descansasse um pouco. A doutora vulcana não constituía um grande problema uma vez que sua espécie podia passar muitas horas sem repouso.
Seus pensamentos desviaram-se para a Cap. Nelle e sua nave. Sentia-se grato pelo fato de estarem presentes e ajudando-os daquela forma. Isso era muito raro, lembrou-se do que Sophia havia dito sobre o encontro com os Borgs. Eles pareciam ser muito ingênuos, imaginando como alguém poderia pensar que os Borgs eram inofensivos, mas logo a seguir deu-se conta que aparentemente a Cap. Nelle não pensara também sobre essa possibilidade em relação a eles.
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As horas iam se passando mais depressa do que podiam sentir, tamanha a pressão que trabalhavam. Cinqüenta e sete horas haviam se passado, nas duas naves tudo que se via ao passar pelos corredores ou entrar nas salas era a desolação. Como Sophia havia previsto a alimentação se tornara o problema mais sério abordo de sua nave, em dois dias não teriam como manter a todos tendo que utilizarem-se dos recursos da Enterprise.
Outros problemas surgiam a cada segundo a bordo da Athora. O uso contínuo do transporte havia consumido uma grande quantidade de energia e por medida de segurança alguns sistemas haviam sido desligados, para garantir o funcionamento dos transportes e da enfermaria, medida que ocasionara outros transtornos. O problema maior é que precisariam de energia para saírem dali quando o planeta começasse a explodir.
- Comandante! - chamou um dos operadores - Chamado da Enterprise, o Cap. Picard deseja falar-lhe.
- A caminho. - respondeu Sophia. Diferente do Capitão Picard ela estava trabalhando ativamente tanto quanto qualquer um a bordo. Já não se lembrava mais quando tinha sido sua última refeição ou quando deitara-se para um breve descanso. Na verdade a essa altura não sabia nem se ainda tinha aposentos.
Os cálculos da Enterprise estavam ligeiramente defasados, já haviam resgatado mais de 1900 pessoas e ainda haviam pelo menos 1500 desaparecidas. A medida que os sobreviventes iam chegando eles pegavam o seu nome e perguntavam pelos seus amigos e parentes. Se estas pessoas não se encontravam a bordo da Athora a relação era transmitida para Enterprise, que havia adotado o mesmo procedimento, desta forma tinham um parâmetro de quantas vítimas ainda estavam lá embaixo.
- Na tela. - disse Sophia entrando na ponte. Assim que a imagem de Picard surgiu ela cumprimentou-o - Capitão!
- Lamento muito pelos seus oficiais. - disse Picard, com sincero pesar referindo-se a equipe de resgate de um dos caças que havia caído na superfície de Arap.
- Sinceramente não creio que possamos utilizar as quinze horas completas que nos restam. A situação lá embaixo não está nada fácil. - respondeu a moça.
- Era exatamente isso que estava pensando. Quantas equipes tem lá embaixo?
- No momento duas. A equipe Alpha1 localizou cerca de 50 pessoas presas em um subterrâneo. Eles estão tentando resgatá-los - disse a moça - Alpha2 está em um vilarejo inundado junto com uma de suas equipes, a cerca de 150 pessoas lá.
- Quantas missões ainda pode enviar? - perguntou Riker.
- Assim que Alpha1 retornar vou substituir a equipe e envia-los novamente para resgatar Alpha2. Se ainda houver tempo poderemos enviar mais uma.
- Vamos perder seiscentas pessoas - respondeu Picard pensativo.
- Mais. Esses seus colonos reproduzem-se como coelhos. - disse tentando fazer graça a qual pelo menos Riker sorriu pois tivera o mesmo pensamento. Cada vez que olhava a lista de desaparecidos o número era quase sempre o mesmo, ele chegara a pensar que na correria a mesma não estava sendo atualizada.
- Comandante a quanto tempo não descansa? - perguntou Picard, observando a aparência cansada de Sophia, cujo uniforme estava amassado e sujo de sangue.
- Infelizmente não disponho dos mesmos recursos que a Enterprise. - disse a moça com um breve sorriso. - Mas não se preocupe comigo. Haverá tempo para descansar em breve. Nelle desliga.
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Sophia estava na engenharia tentando resolver o problema de energia para saírem da órbita de Arap. Mesmo desligando todos os sistemas e utilizando força auxiliar ainda não teriam força o bastante nos motores para sair da órbita do planeta.
Há quase meia hora que notara a presença de Kere. O modo como ele a olhava e sua aparência ansiosa indicaram-lhe que ele queria lhe falar. Ela dirigiu-se a seção de armamentos, pois havia tido uma idéia. Poderiam utilizar a energia contida nos bancos feisers. Confirmando sua suspeita ela viu o rapaz manuseando alguns instrumentos próximo ao local aonde estava.
- Kere! - o jovem aproximou-se visivelmente nervoso. - Algum problema que queira me contar? - perguntou gentilmente. A rapaz continuou calado, olhando para os lados. Ela parou o que estava fazendo o olhou-o fixamente.
- Não sei por onde começar senhora. - disse o rapaz em voz baixa, como se temesse que alguém pudesse ouvi-lo.
- Não há ninguém aqui. - disse e continuou após uma breve pausa. - Seja lá o que for ficará entre nós.
- É Roddy senhora. - disse o rapaz. - Ele ... está para fazer uma loucura.
- E que loucura é esta? - perguntou Sophia voltando-se para o conssole dos bancos de armamento.
- Ele pretende tomar as vítimas de Arap como reféns para obter o comando da Enterprise. - disse como se vomitasse as palavras.
- E o que mais ... - disse a moça dirigindo-se a outro console tendo o jovem ao seu encalço.
- Ele pretende matá-la. Para falar a verdade... acho que a qualquer um que se interponha em seus planos. - Ao ouvir estas palavras Sophia parou imediatamente o que estava fazendo, pela sua expressão Kere não soube interpretar se ela estava surpresa, assustada ou com raiva.
- Conte-me esta historia direito. - disse sentando-se.
A medida que Kere contava sua conversa com Roddy e respondia as perguntas da Capitã ele notava sua mudança de humor. Sophia dispensou-o pedindo que não comentasse com ninguém o que sabia. E ficou pensando o que faria. Após algumas considerações ela pediu informações sobre a equipe Alpha1.
Em uma hora e meia a nave auxiliar estaria de volta. Enquanto transferia a energia dos bancos de armamentos para a reserva dos motores pensava se seus próximos atos não poderiam ser declarados como um assassinato premeditado, caso acontecesse o pior.
Desejou ardentemente poder conversar com Lenar, mas ele estava muito ocupado tratando das vítimas e não seria justo sobrecarregar-lhe com mais este problema. Não descartou a possibilidade de discutir o assunto com Picard, mas sabia que eles também tinham seus problemas, ela sentiu-se sozinha.
Mais cedo ou mais tarde o rapaz acabaria causando barulho de verdade, sua chance de conseguir tomar o comando da Athora na atual circunstância era muito grande para ser desconsiderada. Mesmo que não levasse a cabo seu intento muitas pessoas inocentes poderiam se ferir. Com um suspiro ela tomou sua decisão. Se ele retornasse com vida da missão estaria tão exausto que veria-se obrigado a adiar seus planos, dando-lhe um pouco mais de tempo.
- Nelle para a ponte. - disse acionando o comunicador em seu pesscoço.
- Ponte. Prossiga. - respondeu uma voz masculina
- Assim que a equipe Alpha1 retornar comunique-me. - disse
- Entendido. Ponte desliga. - respondeu o rapaz.
Restavam menos de oito horas para a operação ser encerrada. A Enterprise mantinha ainda uma equipe na superfície do planeta. No último boletim soube que Picard havia perdido quatro de seus homens e que seu número de baixas havia subido para três.
A equipe Alpha1 chegou como se tivesse saído da boca de um dragão. Alguns de seus homens estavam em pior estado que os colonos resgatados. Ao vê-los ela reconsiderou mais uma vez a atitude que iria tomar. Antes de escalar a equipe que os substituiria consultou a Enterprise, segundo as informações de Riker para completar a missão seria necessário mais um transporte para resgatar Alpha2. Após fechar a freqüência de comunicação com a outra nave ela passou alguns minutos olhando a nave auxiliar, cujo casco estava sujo e amassado. Sem tirar os olhos da nave ela acionou o comunicador e disse em voz clara.
- Sr. Roddy, comparecer ao setor de lançamento. - disse e logo após solicitou ao responsável pelas comunicações que localizassem cinco de seus oficiais e os encaminhassem ao local em que se encontrava. Os cinco homens eram os parceiros de Roddy.
Um a um os homens foram chegando e posicionando-se em frente a nave auxiliar. Ela olhou-os e por um breve instante pensou se estaria fazendo a coisa certa. Roddy foi o último a chegar, e pela sua atitude percebeu que ele iria causar problemas, instintivamente ela levou a mão ao coldre.
- Os senhores devem conduzir a nave até Alpha2 e resgatá-los assim como aos sobreviventes desta catástrofe. - disse com voz firme. - Devo preveni-los que a atmosfera do planeta está muito rarefeita e que em menos oito horas ele explodira, portanto não percam tempo, resgatem todos que estiverem vivos e saiam de lá imediatamente. O Sr. Roddy Malc estará no comando da missão.
- Não vou! - disse Roddy desafiando-a.
- Devo lembrar-lhe que está desobedecendo uma ordem direta? - respondeu friamente. - E quais são as penalidades?
- Quem você pensa que é? - disse Roddy avançando em direção a Sophia. Ela não deu um passo para desviar-se do rapaz e observou que seus aliados estavam em dúvida se a obedeciam ou não. - Você está deliberadamente nos enviando para a morte, assim como abandonou o Capitão em poder dos Borgs. Não irei a lugar algum. - disse aproximando-se mais. Ela viu que alguns de seus homens aproximavam-se também prontos para interceder caso fosse necessário. - Será que não percebem o que ela está fazendo? - perguntou aos que estavam presentes - Durante várias estações temos vagado de um lado para o outro, nos metendo em confusões, bancando os bons samaritanos a troco de que? Ela vai nos conduzir a morte. - disse Roddy deixando-se levar por sua emoções.
- Roddy sem Q jamais voltaremos para casa, no fundo todos sabemos que isso é verdade. Poderíamos nos estabelecer em algum planeta classe M, ou pedir asilo em algum planeta. Mas se nossas chances de retornar são mínimas agora se fizermos uma destas duas coisas estaremos enterrando todas as nossas esperanças. - disse Sophia. - Sei que estão saudosos, que as vezes se sentem abandonados, também sinto isso todas as vezes que olhos para estas estrelas estranhas.
- Pede que passemos o resto de nossas vidas nesta nave procurando uma criatura que não dá o mínimo valor a nossas vidas? Quem lhe garante que se ele voltar nós retornaremos ao nosso mundo? Que certeza você tem de que ele não nos mandará para mais longe? - perguntou Roddy
- Não tenho certeza de nada Roddy. - disse Sophia. - A única coisa que sei é que em menos de oito horas este planeta explodirá, não tenho tempo para isto, nossos amigos estão lá embaixo, assim como as vítimas e os oficiais da Enterprise, quem quiser participar da missão entre imediatamente na nave os demais serão conduzidos as celas de segurança onde aguardarão para responder pelos crimes de tentativa de motim e sabotagem.
Sem que ela esperasse Roddy puxou-a pelo braço empurrando-a. Imediatamente os seguranças que estavam presentes tentaram conte-lo. Os adeptos de Roddy entraram em ação apontando suas armas para os oficiais, obrigando-os a não interferirem.
Ela viu Roddy avançar em sua direção e em seus olhos havia somente ódio, ele a levantou utilizando apenas um braço e com a outra mão deu-lhe um tapa jogando-a no chão novamente. Ela sentiu uma dor aguda no ombro esquerdo.
- Agora é entre nós dois. Vê seus homens não podem protegê-la, ou não querem. Sabe porque? - perguntou aproximando-se dela e empurrando-a novamente para o chão. - Eles sabem que você o matou e que nos matará também.
Enquanto Roddy continuava com seu discurso alucinado, ela avaliava suas chances de sair daquela situação com vida. Ele era muito forte, os dois seguranças estavam imobilizados pelos homens de Roddy.
- Para de falar bobagens - disse levantando-se e limpando o sangue que escorria de seus lábios.
Roddy avançou novamente em sua direção, mas desta vez ela defendeu-se aplicando-lhe um golpe na altura do estômago. Ele curvou-se de dor e ela aproveitou para aplicar-lhe outro golpe na altura da nuca.
- Chega Roddy!
Ele ergueu-se com um impulso e pulou sobre a Capitã que caiu com o peso do homem sobre si. Ele levou suas mãos ao pescoço de Sophia e começou a apertar, ela debatia-se tentando livrar-se dele. Com uma das mãos ela tentou alcançar a arma em seu coldre, no momento em que conseguiu ele soltou-a, levantando-a a seguir e empurrando-a com toda sua força sobre algumas caixas. Neste momento ela viu o raio vermelho atingir um dos seguranças que tentara ir em seu socorro. Sua arma havia caído próximo a Roddy que com um sorriso sádico chutou-a para longe.
- Você não vai conseguir. - disse Sophia com dificuldade. - Lenar assumirá o comando e o Cap. Picard jamais lhe entregará a Enterprise.
- Lenar é um idiota! - respondeu. - E quanto a Picard, tenho certeza de que fará qualquer coisa quando começarmos a transportar os corpos de seus oficiais para a Enterprise.
- Você está louco! - disse Sophia partindo para cima de Roddy com todas as suas forças. Os dois caíram no chão, mas com um gesto rápido ele virou o corpo ficando por cima dela. - Jamais voltaremos para casa - ela gritouu - Você ouviu! Me mate, mate a todos, isso não mudará o fato de que não podemos voltar.
- Tudo que você queria era o comando, por isso deixou-o para trás! - disse Roddy asfixiando-a novamente. - O Capitão Kasy ia nos levar de volta, mas você tinha de atrapalhar com sua ambição. Assassina! - gritou batendo-lhe a cabeça no chão. De todas as dores que sentiu a pior foi o som daquela palavra em seus ouvidos, penetrando- lhe na alma como uma multidão a gritar-lhe “Assassina”.
Assim que Kere lhe contou o que estava se passando no hangar Lenar sentiu-se desesperar. Sem muitas explicações ele pediu para a Dra. Selar assumir o comando da enfermaria e saiu quase que correndo.
Selar não deixou de perceber que algo muito sério estava acontecendo a bordo da Athora, pensou em se comunicar com a Enterprise, mas mudou de idéia, deveria ser alguma emergência médica, uma vez que durante todo aquele tempo a Cap. Sophia demonstrara compreensão o suficiente para não tirar-lhes a atenção com os problemas de comando da nave.
A medida que Lenar aproximava-se do hangar com Kere sentia-se desesperar, o que ele faria se Sophia morresse? A esta altura não sabia se preocupava-se com o bem estar de sua Capitão e amiga ou se consigo próprio. Seus pensamentos e emoções assemelhavam-se as forças avassaladoras que varriam Arap IV. No momento em que chegaram próximo ao hangar Kere segurou-lhe pelo braço fazendo-o diminuir a velocidade de seus passos.
Com um gesto o jovem oficial indicou ao Doutor que ele deveria sacar sua arma. Eles pararam ao lado da porta. Lenar viu um dos homens caído no chão, procurou desesperadamente por sinais de vida, mas não soube determinar se estava vivo ou não, ouvia a voz de Roddy gritando com Sophia, chamando-a de assassina.
Kere apontou para os demais homens de Roddy que assistiam impassíveis aquela cena degradante, viu também o desespero do segurança que além de ter uma arma apontada para si estava seguro por dois rapazes de boa estatura.
Ele e Kere não dariam conta de todos, pensou Lenar, e com passos cautelosos afastou-se o suficiente para que não fosse ouvido e pediu reforços. Só esperava que Sophia agüentasse mais alguns minutos.
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Nelle aproveitou-se de um momento de distração por parte de Roddy e empurrou-o. Com um gesto rápido colocou-se de pé pulando a seguir em direção sua arma. No momento em que alcançou-a Roddy disparou.
Ela viu o reflexo do raio vermelho no casco da nave e a pequena explosão a sua frente, seguido de um som surdo como de um corpo caindo, por uma fração de segundos pensou que tinha sido atingida, logo a seguir ouviu vozes alteradas no recinto e os braços de Lenar amparando-a. Demorou alguns minutos até que compreendesse o que havia acontecido.
Os seguranças algemaram os homens de Roddy. Lenar ao seu lado estava pálido como cera e tremia um pouco.
- Você está bem? - perguntou Lenar enquanto examinava as marcas em seu pescoço.
- Estou bem. - respondeu em voz baixa.
- Ponte para Cap. Nelle. - ouviu-se a voz do operador de comunicações. - Comunicado da Enterprise.
- Prossiga. - respondeu a moça com alguma dificuldade.
- Cap. Nelle! - ouviu-se a voz do Comandante Riker no comunicador. - Algum problema para enviar a outra equipe?
Lenar observou que Sophia respirava pesadamente e que lágrimas brincavam em seus belos olhos.
- Tivemos alguns problemas técnicos Comandante - respondeu Lenar com voz firme, sabendo que Nelle não estava em condições de faze-lo - O resgate sairá em dez minutos.
- O planeta entrará em colapso em cinco horas. - disse Riker, estranhando o fato de ter sido Lenar a responder.
- Entendido Comandante. Lenar desliga. - ele observou Sophia. Tirando o susto e alguns hematomas sabia que ela estava bem. Ele acionou o comunicador em seu pescoço e solicitou a presença imediata de outra equipe dando-lhe ordem pare partirem imediatamente.
- Vamos para a enfermaria mocinha. - disse ajudando-a a se levantar.
- Eu estou bem Lenar. - respondeu tentando sorrir, mas as dores impediram-na. - Você aprende bem depressa. - continuou tentando desviar a atenção de Lenar do seu estado físico.
- Isso não vai funcionar. - respondeu o médico já conhecendo aquela tática. - Você vai agora para a enfermaria e depois que examiná-la e tratar de todos estes hematomas a senhora irá dormir, nem que eu precise sedá-la para isso.
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Sophia estava deitada em uma sala reservada da enfermaria enquanto Lenar a examinava. Sua garganta doía até para respirar, seu ombro esquerdo estava deslocado, sem falar na dor de cabeça e em outras partes do corpo, mas nada disso era tão doloroso quanto a lembrança das palavras de Roddy ou do olhar assustado de Lenar logo após te-lo matado.
- Agora sei como se sente - disse o médico enquanto aplicava-lhe um creme no pescoço massageando-o suavemente. - Eu não queria matá-lo. - disse sem fitá-la.
- Fez o que devia. - Sophia olhou-o fixamente. - Era como um câncer, mais cedo ou mais tarde iria acabar assim.
- Vire-se - Sophia deitou-se debruço e sentiu o creme gelado em suas costas. - Teve sorte de não ter fraturado a coluna.
- Lenar ... - disse fazendo uma pequena pausa. - Obrigado por ter salvo minha vida.
- Continuo a ser um médico e não um comandante. - respondeu Lenar - No que me diz respeito sua vida é a coisa mais preciosa que há nesta nave.
- Fico muito feliz em saber que além de meu melhor amigo, meu comandante, meu médico, você agora se transformou também em meu guardião. - disse com um sorriso.
- É muito bom ver que seu humor sádico retornou. - respondeu Lenar aproximando-se com uma seringa. - Não é um sedativo. - disse antes que ela começasse a protestar. - É apenas um relaxante muscular.
Após alguns minutos observou que ela dormia calmamente. Ele guardou os medicamentos e aparelhos e ficou alguns minutos olhando-a. Ela tinha razão, pensou, quando chegasse o momento ele faria o que fosse preciso, como comandante ou capitão. Era estranho, a morte de Kasy para ela soara como uma prisão, enquanto que a morte de Roddy fora para ele como uma libertação.
Foi só neste momento que se deu conta o quanto vinha se comportando como um egoísta, desde a morte do Capitão Kasy que vivia se martirizando com a possibilidade de vir a assumir o comando da Athora, tornara-se quase que paranóico em relação ao bem estar físico e a segurança de Sophia. Cada vez que deparavam-se com um desafio ou mistério ele insistia em que não deviam averiguar, na sua opinião deviam ficar quietinhos e passarem desapercebidos naquele Universo estranho.
Apesar de conversarem freqüentemente sobre o assunto, ele realmente nunca a ouvia, pensava apenas em manter-se longe dos problemas e permanecer em sua posição, após aqueles terríveis minutos que precederam a morte de Roddy ele deu-se conta do quanto havia sido injusto, deixando toda a responsabilidade do comando sobre ela.
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Foi acordada pela ponte de comando informando-a sobre o regresso da equipe Alpha2. Das cento e cinqüenta pessoas que haviam lá somente oitenta puderam ser resgatadas, perderam também dois membros da equipe de resgate da Athora e um da Enterprise.
Ela tomou um banho rápido e trocou de uniforme, quinze minutos depois estava em contato com a USS-Enterprise prontos para saírem de órbita. Foi com alívio que sentiu a vibração dos propulsores da Athora e mais ainda quando ordenou que aumentassem a velocidade e a nave respondeu sem nenhum problema.
Os três dias seguintes foram bem mais calmos, por todo lado por onde andava haviam colonos, em seus olhos via um misto de gratidão e tristeza pelas suas desventuras. Procurava dar uma palavra de conforto para todos. Neste período estivera três vezes a bordo da Enterprise, onde a situação também não era das melhores devido a quantidade de sobreviventes muito maior que eles haviam abrigado. O Capitão Picard estava contando os minutos para a chegada das outras naves.
Foi um alívio para todos quando viram a USS-Vitória se aproximando. A Athora foi a primeira a enviar seus sobreviventes. Quarenta horas depois chegou a USS-Margareth que recebeu os sobreviventes da USS-Enterprise.
Ainda permaneceram naquele ponto por quase quatro dias observando o efeito devastador da passagem do asteróide. Foi somente então que o Capitão Picard soubera das dificuldades técnicas enfrentadas pela Athora para ajudá-los. Ele enviou técnicos e engenheiros para ajudarem no que fosse necessário e entrou em contado com o Comandante Sisko da DS9, que era a base mais próxima, para que dessem toda a assistência que se fizesse necessário a Athora IV. O Comandante lhe garantiu disponibilizar todos os recursos após ouvir o breve relato do Capitão.
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Sophia e o Segundo estavam na sala de transporte aguardando o sinal da Enterprise.
Assim que o Capitão materializou-se observou o local atentamente, de longe parecia-se com a sala de transporte da Enterprise, assim como a aparência exterior da nave, nada havia ali que denotasse elegância, ou até mesmo bom gosto. Tudo era simplesmente funcional e prático. Sophia deu alguns passos a frente para recebe-lo.
- Capitão! É um prazer te-lo a bordo - disse estendo-lhe a mão.
Andaram por quase duas horas pela nave, se o Cap. Picard tivesse imaginado o estado em que se encontrava a Athora talvez não tivesse aceito sua ajuda, mais uma vez ficou imaginando o que levara Sophia a sacrificar sua gente e a nave por pessoas que ela não conhecia.
Picard sabia que alguma coisa havia acontecido a bordo da Athora, não só pelos boatos que corriam na Enterprise, mas também pela aparência de Sophia. Apesar do comunicador encobrir, podia-se notar as manchas roxas em seu pescoço. Troi havia lhe dito que sentia muita angustia e tristeza na Cap. Nelle, e mesmo com seus modos frios e distante ele tinha sensibilidade suficiente para perceber que ela estava com algum problema muito sério e gostaria muito de poder ajudar, mas também era educado o suficiente para não intrometer-se em assuntos que não lhe diziam respeito
- Venha! Quero lhe mostrar uma coisa. - disse Sophia com um sorriso arteiro.
Eles entraram no elevador e quando a porta se abriu estavam literalmente no espaço. Sophia pareceu deliciar-se com o espanto do Cap. Picard. Ele saiu cautelosamente do elevador para o casco externo da nave. Era incrível, sempre imaginara qual seria a sensação de estar lá fora sem trajes, vidros ou qualquer outra coisa que o prendesse. Ela observou-o caminhar calmamente olhando para as estrelas literalmente extasiado.
- Fiquei horas a fio pensando se havia alguma coisa a bordo da Athora que pudesse impressioná-lo. - disse demonstrando visível prazer em retribuir a sensação de bem estar e alegria que sentiu a bordo da Enterprise. - Posso eliminar a gravidade e você ficará inteiramente livre.
- Não! Seria emoção demais. - disse Picard sem poder evitar o riso. - Como consegue?
- É apenas um campo de força. Utilizamos para fazer os reparos externos, o oxigênio vem daqueles conduítes, o campo é gerado naquelas elevações azuis. - disse apontando para pequenas saliências de aproximadamente vinte centímetros de altura. Picard olhou ao redor e contou doze, cobrindo uma área de quase cinco metros quadrados.
Sophia sentou-se no casco da nave e olhou para o espaço infinito, Picard aproximou-se sentando ao seu lado.
- Parecemos tão pequenos e insignificantes diante de tudo isto. - disse Picard em voz baixa.
- Hum! Hum! - respondeu a moça. Ela sentiu-se muito próxima ao Capitão Picard, ao mesmo tempo que muito sozinha. Após vários minutos de silêncio ela lhe perguntou - As vezes você se sente sozinho?
Picard olhou-a surpreso como se não esperasse por aquela pergunta. Mas não respondeu.
- Não lhe assusta saber que a vida das pessoas a bordo de sua nave dependem apenas de sua palavra e julgamento? - perguntou de novo.
- As vezes. - respondeu - É isso que a esta incomodando?
- Passo metade do tempo questionando-me e a outra metade fingindo ser algo que não sou. - respondeu. - Quando estou aqui, permito-me esquecer todas estas pessoas. Nos últimos meses é o único momento de liberdade que conheço. - ela fez uma pausa e respirou profundamente - Se eu pudesse dizer “Não quero ser mais Capitã, estou pouco me lixando com o destino de todos vocês”.
- O que aconteceu Sophia? - perguntou Picard brandamente. Ela não respondeu de imediato.
- Eu o deixei para trás. - disse em voz baixa. - Eu o deixei em poder dos Borgs. Ele estava vivo ainda.
- Não havia outro meio? - perguntou Picard.
- Você viu a nossa nave. Foi um verdadeiro milagre termos escapado. - respondeu a moça.
- Não! - disse Picard usando um tom de voz que jamais permitiria um questionamento - Não foi um milagre. Foi sua capacidade de comando e conhecimentos técnicos que permitiram aos outros sobreviverem. - continuou - Você é muito jovem e realmente não estava preparada para assumir tão grande responsabilidade. Ninguém está. - disse com convicção - Enfrentar as adversidades da vida no espaço não é para qualquer um, o fato de estarem aqui significa que você tem feito um bom trabalho. - Picard fez uma pequena pausa. - As decisões de comando nem sempre são fáceis, para falar a verdade em alguns casos são até cruéis, mas... com o passar do tempo aprenderá a conviver com isto.
- Tem certeza? - perguntou Sophia encarando-o, como se procurasse em seus olhos a veracidade de suas palavras.
- Absoluta. - respondeu Picard de modo confiante.
Permaneceram por mais de uma hora sentados no casco externo da nave conversando.
Picard não conseguia entender a maldade gratuita de Q em enviar pessoas tão inexperientes para o espaço profundo. A medida que Sophia lhe falava sobre seus sentimentos em relação ao comando, as dificuldades que vinha enfrentando praticamente sozinha, pois o Dr. Lenar também não estava preparado para aquele fardo, ele compreendia que seus últimos atos haviam sido motivados por um grande sentimento de culpa em relação a morte do capitão.
Tentou imaginar como seria sua vida na Enterprise sem o apoio de Riker, Data e os demais oficiais, sentiu-se grato por contar com a ajuda deles, que na verdade não eram apenas seus colegas de trabalho, eram sua família.
Quando Picard e Sophia entraram no refeitório da Athora, Riker, Troi e Beverly já se encontravam sentados em companhia de Lenar conversando animadamente.
- Desculpem o atraso - disse a moça - Não vimos o tempo passar. Huum... o cheiro está bom. - disse sorrindo e indicando o lugar onde Picard deveria sentar-se
- Esqueça. Pedi para Seul preparar algo especial para você. - disse Lenar jovialmente.
- Você é assim também com seus pacientes? - Nelle perguntou a Beverly.
- Quando eles são teimosos, sim. - respondeu a Doutora.
- É um mal da profissão - disse Riker.
- Fico feliz em não ter escolhido ser médica - disse Sophia descobrindo a bandeja e fazendo cara feia para a comida.
Troi e Picard sorriram. A refeição ocorrera em um ambiente alegre e descontraído. Deanna que podia perceber o estado de espírito de todos sentiu-se satisfeita ao observar que aquela nuvem de tristeza e preocupação abandonara seus novos amigos e até mesmo no Cap. Picard podia sentir um prazer imenso em estar ali com eles.
Após o jantar de confraternização e despedida eles de dirigiram a sala de transporte.
Picard foi o último a se despedir de Lenar e Sophia.
- Foi um prazer tê-lo aqui. - disse a Comandante aproximando-se de Picard que estendeu-lhe a mão. Sem que ele esperasse Sophia deu-lhe um suave beijo no rosto. - Obrigado. - disse em voz baixa.
- Não por isso. - respondeu o Capitão visivelmente constrangido diante da quebra de protocolo, subindo na plataforma de transporte e ignorando o sorriso que brincava nos lábios de seus oficiais.
Na manhã seguinte se prepararam para partir.
- Muito obrigado por tudo Cap. Picard. - disse Sophia.
- Nós é que temos muito para agradecer-lhe - respondeu o Capitão. - O Comandante Sisko os estará esperando.
- Em oito semanas estaremos lá... - respondeu a Comandante sem querer despedir-se para sempre da Enterprise. - Se precisarem de uma equipe de resgate, estaremos por um bom tempo passeando por ai. Nelle desliga - disse com um sorriso.
Através da tela central eles viram a Athora afastar-se.
- Sr. Crusher - disse Picard. - Trace curso para a Base Estelar l85.
- Curso traçado senhor. - respondeu o jovem alferes.
- Será que eles vão conseguir? - perguntou Riker vendo a Athora tornar-se menor na tela. Pensando em Sophia e no quanto gostaria de te-la conhecido melhor.
- Espero que sim Número Um. - disse Picard pensativo. - Sr. Crusher acionar.
FIM
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