ABORDAGEM
E A PARTICIPAÇÃO SOCIAL NOS PROCESSOS DE
SAÚDE BUCAL
Jorge
Cordón
Historicamente, recomendou-se o desenvolvimento de capacitação da força de trabalho em saúde bucal, mais ligada a uma natureza cívica, solidária e pacífica, porém comprometida com a descentralização e a autonomia dos sistemas locais ou distritais de saúde.
Este processo requer a consulta permanente e dialógica com os conselhos de saúde, o desenvolvimento de uma tolerância plural, fundada na diversidade cultural e humana e na justiça social, além de profundo respeito pela natureza, exercício de uma democracia mais participativa e direta, sem a cooptação de pessoas, fato que elide ou esconde as contradições, as divergências, os conflitos, os problemas, uma forte indiferença e denúncia pelas questões antiéticas e desrespeitosas da própria cultura popular e sobretudo, ocultar a importância que a força de trabalho em saúde bucal deve assumir para ser orgânica na construção de um projeto histórico para a sociedade que a maioria quer e almeja.
Estima-se que, neste aspecto fundamental, o trabalho em saúde bucal está desfasado, propondo-se para reflexão, os seguintes assuntos:
*É necessário aprender a apreender.
Reconhecer que existe um saber popular. Que é possível conhecer
a realidade integrando-se com a coletividade, que é muito melhor
juntos, equipe de saúde e comunidade, conhecerem os problemas para
buscar as soluções;
*Articular os estudos macro-sociais, com
as micro-transformações que se dão no seio dos sistemas
locais de organização social, porque os primeiros, necessária
e reciprocamente repercutem nas mudanças sociais;
*Estudar, refletir, pensar, criticar e criar
formas, maneiras, técnicas ou “jeitos” de como o trabalhador em
saúde bucal coletiva se apresenta, chega, entra em contato,
se aproxima de um indivíduo, família, casa, grupo social,
associação, movimento ou comunidade com o objetivo de conhecer,
escutar, dialogar, fazer e entender propostas, agir, educar, aprender ou
intervir com soluções desejadas, participantes, coerentes
e ecológicas; e, especialmente, saber despertar na coletividade
o interesse de ascender ao poder, que, subjetivamente o têm,
porém não utiliza para seu próprio interesse porque
outros dele se apropriaram. Entender este processo descrito como: abordagem
de sociedades.
*Buscar vestígios nos movimentos tradicionais (clientelismo, paternalismo, autoritarismo populista ou estalinista) e nos novos movimentos sociais, novas formas de fazer política, seja nos sindicatos, nos partidos políticos, nas instituições governamentais ou não e nas tensões que entre estes movimentos sociais aparecem. Porque é aqui onde os novos elementos culturais emergem e podem dar uma chance estratégica na construção de novos vínculos ou relações sociais entre os profissionais e a coletividade;
*Quando se aborda uma sociedade, quando é construído um “mapa falante” (mapa do espaço social, construído com participação da visão da comunidade), surge um processo de interação, interlocução e diálogo entre os trabalhadores de saúde bucal, isto é uma relação social. É nestas relações entre os movimentos sociais e o Estado ou o SUS que se podem encontrar novas concepções sobre o espaço do poder da sociedade civil perante o próprio Estado e dar lugar a estas estratégias políticas para construir o SUS, enfatizando o trabalho dos conselhos de saúde. Entende-se que a Saúde Bucal ainda não considerou estes aspectos, ficou atrelada à técnica e ao espaço individual, familiar e escolar. Na aprendizagem da abordagem de sociedades deve-se lembrar que estas, como dinâmicas e únicas, respondem a contextos culturais específicos que devem saber-se diferenciar;
*Repensar as relações com a sociedade considerando o papel das tecnologias de informação nas formas de organização e comunicação da sociedade civil; impedindo a uniformização de valores e entendendo que há organizações e redes sociais na própria sociedade que atuam nas mais diversas direções;
*Estar atento às próprias ações comunitárias de classe, sejam defensivas, de resistência ou contestatárias e saber não somente compreendê-las, mas colaborar em que se as mesmas significam mudanças fundamentais para a sociedade, seguramente também o serão para a saúde e para mudar o modelo assistencial dominante;
*Seguramente, é da maior importância realizar com a população uma crítica profunda as atuais condições de saúde bucal e suas causas sociais, tendo como trabalhadores da saúde bucal um projeto de mudança em contraposição ao que está vigente, porque, nem pensamento, nem ação política, podem ser compreendidas sem um conhecimento persistente da realidade como fonte das idéias críticas e do ímpeto para mudar;
*Se não se compreende o modelo que se quer para a saúde bucal coletiva no espaço local, no distrito sanitário ou no município, criticando e contrapondo-o ao atual, excludente, injusto e desigual, é difícil trabalhar com os movimentos sociais, dai a insistência no trabalho ampliado no tecido social e não ficar restrito aos indivíduos e nas famílias, que restringem a mobilização política, tão necessária na mudança;
*Redescobrir, no espaço social, a própria dignidade como trabalhadores de saúde coletiva e como cidadãos para poder transcender as limitações da realidade presente e poder lutar por um melhor nível de saúde bucal, num bem estar feliz e melhor vida social.
O que se observa na realidade é incompetência da parte de certos poderes públicos de transformar projetos em políticas permanentes.
Quando são colocados processos odontologicos que estão no caminho certo da saúde bucal coletiva, devem também ser ativadas formas de dar continuidade, aperfeiçoar, aprofundar e dar permanência a tais processos através de vontade política manifesta nas políticas de saúde e políticas sociais fortalecidas.
A própria burocracia, que é necessária para a organização e implementação de ações definidas participativamente, as vezes dificulta ou impede a transformação de processos de saúde bucal bem sucedidos em políticas governamentais a longo prazo, a distorção parece estar, no fato de transformar a burocracia em fim e não em meio, instrumento estratégico para obtenção dos objetivos e metas.
Por outra parte, a capacitação dos planejadores ainda permite o individualismo, a gestão de pacotes ou por "softwares" (programas estabelecidos sob uma ótica linear), que anulam a criatividade e a crítica nos gerentes e na burocracia, criando uma servidão de agentes de saúde bucal que seguem as normas impostas pelo "programa" ou "pacote", dando as vezes pequenas modulações que no final promovem a centralização, o monopólio do conhecimento e dificultam a descentralização e o controle social.
Quando são analisadas as formas de capacitação em abordagem comunitária dos trabalhadores em saúde, observa-se que, a população, não aparece nos cursos, e se aparece, é colocada como se não tem suficiente cabedal de conhecimentos científicos e tecnológicos para abordar, numa semana, por exemplo, quase todo o livro de TYLSTROP(1988) que foi encontrado como literatura deste processo num clássico curso de gerente do “GERUS”, nem sequer os CD's presentes podiam valorizar o material entregue, similar material também foi observado no trabalho de pacotes da Estação Saúde para Icapuí, e para Fortaleza. A pergunta que se faz é: este procedimento ajuda na abordagem adequada das sociedades? Esta linguagem técnica colabora na definição de novos vínculos sociais?
Parece que falta clareza e coerência políticas e falta certa vontade de autoridades e planejadores, para trabalhar com mudanças de caráter estrutural da sociedade (daqui a importância de conhecer a estrutura da sociedade brasileira, um dos objetivos do módulo 4). Há um medo exagerado da mudança, particularmente da corporação profissional, ainda que, como observação pessoal, passível de erro subjetivo, encontra-se na mulher profissional maior “garra”, maior empenho, vontade política e coragem na mudança da organização da prática, especialmente na abordagem social, no espaço social que os burocratas chamam fim da linha (o trabalho objetivo na rede de saúde) ou também pelo seu início, porta de entrada ao sistema de saúde."
O enfoque corporativo da odontologia chega ao esforço quase doentio em perpetuar o presente, o tradicional, o comodismo que obstaculiza definitivamente o trabalho enriquecedor de mudança. Há locais onde ainda se pensa que para pobre é suficiente uma intervenção em saúde pobre.
Daí que a saúde bucal não tenha a suficiente prioridade, especialmente a saúde bucal coletiva, pública, universal de qualidade e gratuita, como um bem a adquirir pelo esforço e desgaste da população com seu trabalho e não como uma forma de "pseudo-solidariedade" assistencialista-clientelista de abordar a falta de acesso e a desigualdade econômica.
Também, existem espaços sociais que tem dado lições importantes sobre o enfoque integral, o orçamento participativo, a qualidade do serviço, a discriminação positiva e sobretudo, a vontade política de colocar a burocracia e a gerência governamental à serviço das maiorias.
Uma prática de abordagem coerente requer capacitação no próprio terreno onde se dão as contradições, deve-se profissionalizar a gestão e os agentes de saúde bucal que nela atuam, não deve ser um trabalho de voluntarismo ou "instante ideológico" ou "pseudo consciência política do necessitado". O trabalhador da saúde bucal, nas diferentes instâncias burocráticas deve ser respei-tado, bem remunerado, corretamente formado e selecionado (melhor se é com a participação popular) para agir com competência, com curiosidade cientifica e indagadora, mas ao mesmo tempo com criatividade afetiva e política, situações que conjugam a consciência do trabalho sério, honesto e orgânico com as classes populares e seu projeto histórico de sociedade e de cidade saudável.
O que se observa nos locais onde a saúde bucal coletiva tem sucesso é isso mesmo, respeito pela pratica em saúde coletiva, numa praxis educativa mútua agente/sociedade, por tanto, respeito aos sujeitos dessa prática, os trabalhadores da saúde bucal coletiva, entendendo o processo formativo como uma ação continuada e permanente de sujeitos em aprendizagem, abordando os diferentes problemas que ocorrem na realidade bio-psico-social.
Este respeito pelo trabalhador de saúde traz consigo um respeito igual para o paciente e para a coletividade, na medida que ela também tem seu saber e experiências acumuladas históricamente.
Finalmente, um comentário nesta discussão sobre a reprodução de processos que estão dando certo. Se entende que não é necessário repetir toda uma problemática vivida num espaço social determinado, ou transplantar um processo para outro espaço social, mas reinventar a saúde bucal coletiva num outro espaço social, recriar, à luz de uma própria realidade, nas relações sociais que ali se estabelecem, os aspectos gerais de uma agenda que tecnicamente não há muito para modificar, pois a mudança se revela na consciência, na formação e na vontade política de desenvolver processos participativos.
Em resumo consiste em reproduzir a idéia de construir processos de saúde bucal coletiva como processos próprios de vida, para estimular a integração de odontologia no SUS e a inserção da prática de saúde bucal no projeto histórico de uma sociedade. É um processo de reingenieria do real, é reconstruir, construindo, a realidade.
Os avanços observados, em diferentes
espaços-territórios, são idéias, elementos
e instrumentos que num processo de adequação, são
utilizados como estímulo para recria-los à luz dessa outra
realidade, procurando superar, transcender os erros e as dificuldades observadas
nestes processos bem sucedidos. Uma boa dose de crítica e criatividade
são elementos indispensáveis nesta re-criação.
Entretanto todas as mudanças e avanços que está experimentando a prática odontologica em diferentes partes do Brasil parece não refletir-se ainda nas universidades e centros de capacitação, pois não aplicam estas novas abordagens na formação dos recursos humanos, aliás, esta dicotomia - técnico-acadêmica, tem trazido uma desagregação na organização da prática de saúde bucal, na medida que se exige uma terminalidade de ação nos serviços de forma integral e integrado, multiprofissional e interprofissional, porém, aprende-se separadamente e mais ainda, os currículos respondem a concepções diferentes da forma de intervir junto à sociedade.
Daí que os conhecimentos e praticas nos serviços de saúde, avançam sem ou apesar do apoio acadêmico, esporádico e isolodas ações observam-se no conjunto do Brasil, mas a Universidade, que deveria ser o local por excelência para a discussão e modificação dessas praticas não as aproveitam devidamente. Ela continua emperrada em suas velhas bases giesianas (DE-05), tradicionais e convencionais, de crescimento centrípeto sem se dar conta de que a didática tem estatuto complexo e que leva adaptar-se em conteúdos às transformações que experimenta a mesma sociedade, cujo conhecimento requer não só da ciência e saber odontológico mas da contribuição de várias áreas do conhecimento cientifico e tecnológico.
O que parece ainda difícil de acreditar é a postura da faculdades de odontologia, que aumentam seus créditos e horas de estudo para 5 anos, sem considerar o ambiente e as novas tendências do SUS, como mandato constitucional. Aumentam créditos nas áreas biológica, cibernética e preventiva (agregando as disciplinas de semiologia, informática, cariologia, oclusão clínica, ortodoncia clinica, clinica integrada infantil e adolescente e prótese dentária VII e VIII), porém muito pouco sobre os esforços no domínio teórico e prático das áreas da saúde coletiva, em especial o relacionamento com políticas publicas e intervenção da saúde bucal através do SUS.
Para realizar mudanças nos currículos
de Odontologia há um longo caminho a trilhar, existem novas bases,
conceitos e práticas porém devem prever-se também
mudanças na consciência dos professores que orientam os conteúdos
para os interesses particulares e não para os interesses coletivos,
ou então mudam para não transformar-se, se acomodando às
circunstâncias.
É necessário conjugar todas
as práticas e os conceitos surgidos das experiências continuadas
dos serviços, reunir a outras ciências para interpretar a
riqueza de relações envolvidas na abordagem social e buscar
novos caminhos metodológicos, que permitam formas distintas de abordagem
para conhecimento da realidade e uma intervenção e
participação consciente nos processos de mudança das
práticas de saúde.
REFERÊNCIAS E LEITURAS RECOMENDADAS:
1. ABBAT, F.R. Como ensinar para se aprender melhor. Guia para professores de pessoal de prestação de cuidados primários de saúde. Genebra, OMS, 1980, 108 p.
2. . ARCOVERDE, A.C.B. - O Coletivo Ilusório - Uma reflexão Sobre o Conceito de Comunidade, Recife, Ed. Universitária/UFPe, 1985. pp.50-56.
3. BERTUSSI, D. C. et al. Enfocando o GERUS: elementos para análise. Rev. Espaço para Saúde, NESCO, 5, (5):23-6. Set. 1996.
4. ESTAÇÃO SAÚDE S/C. Programa de inversão da atenção. Sistemas de informações gerenciais. Belo Horizonte: Estação Saúde S/C, Novembro 1994.10 p.
5. MEDINA, W.H. Experiencia sobre las relaciones entre los servicios de salud y la participación comunitaria. In: PROUNI. Encuentro de lideranças comunitárias. Brasília: PROUNI, 21-25 de Março de 1996. 6 p. (mimeo).
6.MORITA, Ione et al. A participação popular na gerencia do Sistema Único de Saúde: erros e acertos da experiência em Botucatu, S. P. Divulgação em Saúde para Debate, (11): 32-7, Set. 1995.
7. PONTES, R. N. Mediação e serviço social. São Paulo: Cortez, 1995. 198 p.
8. THYLSTRUP, Anders & FEJERSKOV, Ole. Tratado de Cariologia. 1ª Ed. Trad. Sérgio Weyne. Rio de Janeiro:Editora Cultura Médica, 1988. 388 p.
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