A
ESPANTOSA
REALIDADE
DAS COUSAS
Alberto
Caiero
Poeta
português
- Heterônimo
de Fernando
Pessoa
A
espantosa
realidade
das cousas
É
a minha
descoberta
de todos
os dias.
Cada cousa
é
o que
é,
E é
difícil
explicar
a alguém
quanto
isso me
alegra,
E quanto
isso me
basta.
Basta
existir
para se
ser completo.
Tenho
escrito
bastantes
poemas.
Hei de
escrever
muitos
mais,
naturalmente.
Cada
poema
meu diz
isto,
E todos
os meus
poemas
são
diferentes,
Porque
cada cousa
que há
é
uma maneira
de dizer
isto.
Às
vezes
ponho-me
a olhar
para uma
pedra.
Não
me ponho
a pensar
se ela
sente.
Não
me perco
a chamar-lhe
minha
irmã.
Mas gosto
dela por
ela ser
uma pedra,
Gosto
dela porque
ela não
sente
nada.
Gosto
dela porque
ela não
tem parentesco
nenhum
comigo.
Outras
vezes
oiço
passar
o vento,
E acho
que só
para ouvir
passar
o vento
vale a
pena ter
nascido.
Eu
não
sei o
que é
que os
outros
pensarão
lendo
isto;
Mas acho
que isto
deve estar
bem porque
o penso
sem estorvo,
Nem idéia
de outras
pessoas
a ouvir-me
pensar;
Porque
o penso
sem pensamentos
Porque
o digo
como as
minhas
palavras
o dizem.
Uma
vez chamaram-me
poeta
materialista,
E eu admirei-me,
porque
não
julgava
Que se
me pudesse
chamar
qualquer
cousa.
Eu nem
sequer
sou poeta:
vejo.
Se o que
escrevo
tem valor,
não
sou eu
que o
tenho:
O valor
está
ali, nos
meus versos.
Tudo isso
é
absolutamente
independente
da minha
vontade.