Crítica
por Oscar D´Ambrosio
Periodista,
crítico de arte.
Integra la Asociación Internacional de Críticos de Arte (Aica- Seção Brasil), la
Asociación Paulista de Críticos de Artes y la Unión Brasilera de Escritores.
Es autor del libro “Los pinceles de Dios: vida y obra del pintor Taif Waldomiro
de Deus” Editorial UNESP
Rosa María Campos
A força da simplicidade
O cientista Albert Einstein, (1879-1955), tão hábil com as palavras como era com
seus conceitos físicos, declarou que "tudo deveria ser tornado tão simples
quanto possível, mas não mais simples do que isso". Afinal, ser simples é um
desafio, apto apenas aos talentosos, enquanto o simplismo ou o rebuscamento são
as grandes ameaças para os artistas ainda não seguros do seu ofício.
A artista plástica Argentina Rosa María Campos de Videtto não cai nessas duas
armadilhas. Nascida em 17 de maio de 1947, em Buenos Aires, começou a pintar em
1995. Freqüentou diversos ateliês e conheceu várias técnicas, mas, apenas em
1997, realizou quadros que receberam a denominação de naïf. Embora tenham
bastantes elementos também do hiper-realismo", diz a pintora, que pinta em
acrílico e vem desenvolvendo novos trabalhos com tinta a óleo.
Corrente das artes plásticas surgida nos EUA, no final dos anos 1960, o hiper-realismo
se caracteriza por ser uma interpretação quase fotográfica do visível, o que
pode ocorrer com ou sem intenção crítica. Nas telas de Rosa María, ele se
manifesta principalmente no amor aos detalhes e ao preciosismo estilístico, no
entanto, a escolha de temas campestres, florais e paisagens de barcos e de cenas
tranqüilas fazem com que geralmente seja considerada naïf.
Em 1997, Rosa María participou de seu primeiro concurso e já mereceu a honra de
ter sua obra selecionada para ser exibida no Congresso Nacional.Seus interesses,
além da pintura, são múltiplos. Estudou arte francesa, língua inglesa, teatro e
violão. "Enfim, tudo o que se relacione com arte, que é aquilo que eu gosto",
afirma. Entre seus temas preferidos estão as paisagens. "Tudo o que vejo me
atrai e quero pintá-lo. Tenho feito naturezas mortas e também gostei", comenta.
A beleza da humildade é um quadro que revela bem as características principais
do trabalho de Rosa María. O céu com poucas nuvens, a vegetação equilibrada e a
composição entre a casa principal e o atracadouro, conectadas por um estreito
caminho constituem uma lição de equilíbrio e harmonia.
As águas plácidas e as plantas igualmente equilibradas na outra margem também
contribuem para emoldurar uma situação em que nada parece estar fora do lugar. A
presença de seres humanos, simetricamente distribuída, constitui mais um
elemento comprovador de simplicidade no trato com as formas e os elementos
pictóricos.
Outra expressão evidente dessa precisão é A esquina das flores. A rua, o carro
empurrado com flores, as cestas no chão e os portões ao fundo compõem um
universo em que até a presença de um cão na calçada, além de dar um charme
especial à cena, preenche um vazio da tela.
O segredo das composições de Rosa María está no controle sobre a sua própria
arte. Se há pintores espontâneos que não suportam confrontar-se com a tela em
branco, necessitando ocupar todos os espaços para realizar sua forma de
expressão, a artista argentina pertence a uma outra linhagem, que não aprecia os
excessos emotivos.
Chegando ao porto exemplifica bem como é possível dizer muito com recursos
precisos. No meio da tela, é apresentado um veleiro retornando para casa. Dos
lados direito e esquerdo, paisagens semelhantes são apresentadas. Casas entre as
colinas constroem o pano de fundo para o avanço da embarcação.
Configurando ainda mais esse painel repousante, numerosas estacas na água
constituem uma estrutura paralela, em meio a qual o barco avança. A imagem,
realizada com economia de elementos pictóricos atinge um excelente resultado.
Não se trata de uma obra impactante sob o ponto de vista imagético, mas densa ao
se verificar como tem na simplicidade seu principal motivo.
Conta-se que o teólogo tcheco Jan Huss (1369-1415), ao ver uma velhinha inocente
trazer lenha para alimentar a fogueira em que estava sendo queimado como herege
por determinação do Concílio de Constança, teria proferido as palavras O sancta
simplicitas ("Ó santa simplicidade!").
Huss apontava como a simplicidade pode ser um caminho para a ingenuidade e a
ignorância. Por isso, o intelectual brasileiro Roberto Alvim Corrêa (1901-1983),
na mesma linha de raciocínio de Einstein, já alertava: "O simples é o contrário
do fácil". A arte de Rosa María Campos enquadra-se nesse perfil. É simples em
sua grandiosidade, mas evita a facilidade na técnica, nas cores ou nas formas.
Torna suas telas um deleite para os olhos, pela beleza imagética, e para o
coração, pela ingenuidade e pureza temática. Revela, portanto, a simplicidade
essencial de que é constituída a vida.