O IMPERATIVO DA INOVAÇÃO

«Todo o mundo é composto de mudança.» Esta frase, escrita por Luís de Camões há mais de quatro séculos, pode bem constituir um paradigma para a gestão nos dias de hoje. As empresas defrontam-se com uma envolvente competitiva em mudança cada vez mais acelerada. Um dos grandes desafios da gestão actual é precisamente o de responder e antecipar essa mudança.
Estamos a caminhar para uma economia do conhecimento, onde os elementos decisivos da vantagem competitiva não estão mais na posse, na detenção, dos bens físicos. Pelo contrário, assentam de modo crescente na capacidade de gerar, partilhar, integrar e orquestrar conhecimentos. De uma estratégia de conquista de posições, preserváveis por períodos temporais longos, está-se a evoluir para uma estratégia de movimento, baseada na capacidade de antecipar tendências e de acompanhar rapidamente a sua evolução. Da defesa do «meu» castelo vai-se passando para o «estar um passo à frente dos outros», para usar as palavras de Peter Drucker.
O que a economia do conhecimento está a mudar nas empresas sucesso.O que a economia do conhecimento está a Mudar nas empresas, sucesso.

O ciclo de vida dos produtos reduziu-se drasticamente. Os «bons velhos tempos» do Wolkswagen Carocha ou do Renault 5 acabaram. O ritmo de renovação dos produtos é cada vez mais forte. Por isso, para concorrer na economia actual não basta ter um bom produto hoje. É indispensável interiorizar uma lógica de inovação estratégica na empresa que lhe permita ser capaz de conceber, adaptar ou copiar criativamente novos produtos de forma continuada.
Em paralelo com a contracção do ciclo de vida dos produtos e das tecnologias existem dois outros vectores de mudança que importa ter em conta e explorar.
As fronteiras das indústrias vão-se reconfigurando. Tal passa não apenas por uma incorporação de serviço cada vez maior, mas também pela crescente integração entre negócios tradicionalmente distintos, como distribuição alimentar e serviços financeiros. Os espaços de competição — e os respectivos actores — são também diferentes. A concorrência internacionalizou-se, tornando-se indispensável às empresas concorrerem em espaços amplos, que ultrapassam frequentemente o da União Europeia. Do mesmo modo, importa monitorar a evolução dos conhecimentos em múltiplas frentes,
Neste ambiente competitivo a capacidade de inovar tornou-se essencial. Não inovar é ficar para trás. Se é verdade que a inovação tem riscos, o imobilismo tem-nos muito maiores. Bastará recordar exemplos conhecidos de empresas que «pararam no tempo» e que agora clamam por apoios para sustentar unidades industriais e postos de trabalho.
Inovar é fazer coisas diferentes ou de outra maneira. É sair da rotina e experimentar outras soluções ou mesmo formular outros problemas. É usar a criatividade para satisfazer necessidades não satisfeitas ou insuficientemente satisfeitas.

As três dimensões de análise do conceito.

Ao falar-se de inovação pensa-se, na maioria dos casos, em inovação tecnológica, em grandes unidades de investigação, efectuando actividades de investigação e desenvolvimento (I&D) conducentes à concepção e desenvolvimento de novos produtos e processos. E argumenta-se frequentemente que não conseguimos inovar porque não realizamos investimentos suficientes em I&D. Isso é verdade, mas é só uma parte da verdade. Esta nossa perspectiva assenta em duas razões relacionadas entre si.
A primeira razão é que nem sempre as inovações validadas pelo mercado exigem desenvolvimentos tecnológicos de ponta efectuados no interior das empresas. Estas têm de dispor de uma capacidade básica de engenharia para integrar tecnologias e para apresentar respostas criativas. Para isso não é sempre necessário que a empresa tenha investigado aprofundadamente as tecnologias mais sofisticadas. Em certos casos, estas podem ser obtidas no exterior e reformatadas pela empresa.
Os conceitos de «imitação criativa» e de «adaptação criativa» traduzem esta lógica de actuação. O elemento-chave da inovação está frequentemente na ideia sobre a forma de responder a uma necessidade e na articulação de saberes dispersos, não necessariamente no desenvolvimento interno desses saberes.
A segunda razão tem a ver com o facto de haver outras dimensões da inovação para além da tecnológica — a inovação comercial e a organizacional.
A primeira, a inovação comercial, corresponde à identificação de novas oportunidades de mercado — necessidades não plenamente satisfeitas, aspirações não respondidas, novas aplicações de conhecimentos existentes, extensão geográfica —, à introdução de novas formas de relacionamento com os clientes — novos sistemas de distribuição, «resposta rápida», customization dos produtos (concepção de produtos ou serviços à medida do consumidor), lançamento de marcas próprias, diálogo online no desenvolvimento de produtos específicos — ou à utilização de novas formas de promoção comercial.
A capacidade de interpretação dos mercados — não apenas o conhecimento dos mercados já existentes, mas também a identificação de tendências futuras — constitui um ingrediente essencial para o desenvolvimento da inovação comercial.
Por seu turno, a inovação organizacional respeita a novas formas de estruturação, funcionamento interno e relacionamento externo das empresas. Por exemplo, a estrutura organizacional, as rotinas de actuação, a promoção da aprendizagem, a motivação dos recursos humanos e a política de alianças.
Estas três dimensões da inovação completam-se. Uma atitude organizacional de olhar para o futuro e de formular novos desafios, envolvendo o esforço conjunto da organização, conduz a uma nova forma, mais ousada, de perscrutar e de interpretar os mercados. Esta interpretação suscita novas exigências tecnológicas, aproveitando conhecimentos existentes na empresa, identificando os elementos a obter no exterior e articulando-os de modo criativo.

Mudança gradual de atitude entre os gestores portugueses.

A limitada capacidade tecnológica de muitas empresas portuguesas é evidente. A atitude face à inovação tecnológica é, em muitos casos, passiva, orientada pela preocupação de reproduzir o que outros fizeram, de imitar sem acrescentar algo. Esta debilidade é acentuada quando se verifica que, para muitas empresas nacionais, a lógica de competência produtiva prevalece sobre o conhecimento dos mercados, a base de recursos humanos permanece limitada e a gestão excessivamente centralizada. Parece-nos, com efeito, que as principais barreiras à inovação não resultam tanto da falta de capacidade tecnológica em sentido estrito, mas sobretudo de limitações em termos de capacidade empresarial, da gestão comercial e da aprendizagem.
Todavia, existem diversas sementes de mudança ao nível das lógicas estratégicas e das orientações de actuação das empresas. Embora a inovação não constitua, em regra, um elemento fulcral da estratégia das empresas portuguesas, observam-se alguns exemplos interessantes de empresas activas face à inovação, em diversos níveis de dimensão. Uma pequena empresa de electrónica definiu a sua competência tecnológica, o seu know-how de produto e de processo como a «força motriz» da sua estratégia, susceptível de ser aplicada em diferentes soluções. Uma outra, na área de maquinaria, estabeleceu como orientação estratégica o lançamento de um novo produto todos os anos, recorrendo às suas capacidades de imitação criativa e de integração de sistemas. Outra ainda, a partir da resposta a necessidades próprias no domínio da automação industrial, desenvolveu uma unidade de negócio que é, em termos mundiais, a segunda empresa na concepção e instalação de armazéns robotizados. Vai surgindo, gradualmente, uma nova atitude, orientada pelo desenvolvimento, exploração e ampliação das competências específicas das empresas.
Simultaneamente assiste-se a um reconhecimento crescente da importância dos factores organizacionais. Ainda que à sua própria custa, muitas empresas compreenderam que não é a mera aquisição de equipamentos sofisticados que garante a vantagem competitiva. Começa-se, por isso, a dar uma nova atenção à dimensão organizacional, como elemento susceptível de conferir novas fontes de vantagem, de natureza intangível e mais dificilmente imitável pelos potenciais concorrentes. Começa a investir-se mais no soft e não apenas no hard. Uma empresa de calçado começou a aplicar um sistema de CAD a três dimensões que lhe permite uma relação estreita com o principal cliente no desenvolvimento do produto, ao mesmo tempo que evita a elaboração de protótipos reais. Uma empresa de vestuário procedeu à implantação de um novo sistema de controlo e gestão de produção, com uma reorganização do lay-out fabril, tendo conseguido um acréscimo de produtividade da ordem dos 25%. Gradualmente, as empresas vão-se apercebendo da importância da diferença e do papel que a aprendizagem organizacional e o aproveitamento judicioso das potencialidades das alianças podem desempenhar como alavancas de competitividade.

Encarar a inovação como um imperativo para todas as empresas.

O ritmo de mudança e a economia do conhecimento criam novos desafios, mas também novas oportunidades para as empresas portuguesas. Ao contrário do que sucedia nos anos 50 e 60, não existe hoje um único pólo de liderança tecnológica mundial. A dispersão geográfica dos conhecimentos estratégicos e da inovação é cada vez maior. Novos produtos e sistemas são desenvolvidos em locais tão diferentes como a Finlândia e a Índia, Singapura ou o Chile. E também em Portugal. Vejam-se os casos do porta-moedas electrónico, do software para a gestão de centros de atendimento telefónico, do Cartão Vital, da Via Verde, só para citar alguns exemplos.
As possibilidades existem. Na nova economia do conhecimento, a criatividade e a flexibilidade contam mais do que o controlo de activos físicos. A capacidade de identificar novas necessidades e de lhes dar resposta através da articulação de conhecimentos de diversas origens é mais relevante que as posições de mercado conquistadas.
A exploração de tais possibilidades exige, no entanto, uma nova atitude empresarial que interiorize a inovação. O «olhar de outro modo» deve ser um imperativo da empresa e um elemento mobiliza-dor e integrador da imaginação e das competências dos seus membros.
Porque não basta ter um produto inovador uma vez, é preciso inovar sempre!

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