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Batalha de Canas
por Diogo Dutra (10/03/05)
Canas (sul da península itálica), verão de 216 a.C.
Oponentes
Roma (Caius Terentius Varro e Lucius Aemilius Paulus) X Cartago (Aníbal Barca)
Contexto
Roma e Cartago em 218 a.C., início da Segunda Guerra Púnica
=> Aliados e domínios de Roma (verde escuro)

=> Aliados e domínios de Cartago (verde claro)

=> Regiões cartaginesas adquiridas por Roma no fim da Primeira Guerra Púnica (tracejado verde)

=> Caminho percorrido por Aníbal desde Nova Cartago (península ibérica) até Canas (península itálica) (caminho tracejado)
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A Segunda Guerra Púnica já se arrastava por quase dois anos e o exército cartaginês estava impaciente com a carência de recursos provocada pela campanha prolongada. Para resolver a situação, Aníbal decidiu se instalar no abandonado forte romano na cidade de Canas, situada no monte do mesmo nome ao sul da península itálica.
Local onde eram estocados alimento e materiais para os legionários, Canas também era uma região muito próxima e estimada pelos romanos. A perda material aliada ao orgulho ferido provocou uma forte reação do Senado que, decidido a terminar com a ameaça cartaginesa definitivamente, resolveu enviar oito legiões inteiras - chefiadas pelos cônsules daquele ano (Caius Terentius Varro e Lucius Aemilius Paulus) - para combater o exército de Aníbal. Numa época em que normalmente se recrutava quatro legiões por ano e dificilmente se empregava todas juntas numa única campanha esse movimento era perigoso. Se Roma fosse derrotada estaria completamente vulnerável.
Mas apesar disso, a vantagem romana era grande. As oito legiões (cerca de 80.000 homens a pé e 6.000 homens a cavalo entre romanos e aliados latinos) - provavelmente o máximo de soldados que Roma dispunha (a cidade encontrava-se carente de tropas, uma conseqüência de derrotas anteriores para os cargineses) - colocavam o exército de Aníbal em uma enorme inferioridade numérica, visto que este dispunha apenas de 50.000 homens (40.000 a pé e 10.000 a cavalo, entre cartagineses e mercenários gauleses, ibéricos, númidas e celtas).
Imagem do Rio Aufidus tirada de cima do monte Canas (local aonde os dois exércitos se encontraram)
O que os romanos não sabiam é que, apesar do quadro desfavorável, Aníbal havia planejado tudo, inclusive o envio das legiões pelo Senado. A ocupação de Canas se destinava não só a suprir o seu exército com comida e armas, mas também a obrigar Roma - que evitava as batalhas campais devido às esmagadoras derrotas sofridas nas mãos dos cartagineses - a reagir para um combate direto.
"First, then, give thanks to the gods:
for they have brought the enemy into this country,
because they designed the victory for us.
And, next to me, for having compelled the enemy to fight -
for they cannot avoid it any longer -
and to fight in a place so full of advantages for us."
(Aníbal)
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A Batalha
(Primeiro, dai graças aos deuses: por eles terem trazido o inimigo a este campo, porque eles arquitetaram a vitória a nós. E, depois a mim, por ter compelido o inimigo a lutar - já que não podiam evitar por muito tempo - e lutar num lugar tão vantajoso para nós.)
Ao lado do rio Aufidus, perto da cidade de Canas, os exércitos se encontraram.
As legiões romanas eram a melhor unidade militar de sua época. Seus métodos de luta, treinamento e equipamento eram altamente sofisticados e eficientes. Mas um exército sozinho não ganha batalhas. Precisa de bons comandantes e a longa linha de brilhantes líderes militares de Roma ainda estava para surgir.
O exército cartaginês estava em significativa desvantagem numérica. Possuía nenhum elefante de guerra (todos mortos desde a última batalha) e suas armas e armaduras eram inferiores às do oponente. Além disso era composto em sua maioria por mercenários, uma mistura heterogênia que dava vazão à falta de disciplina e dificultava o treinamento e o estabelecimento de uma tática.

No dia anterior havia ocorrido um ataque cartaginês infrutífero às linhas romanas e Aníbal, percebendo que a tropa estava de moral baixa, convocou seus generais para uma reunião. Tentou convencê-los de que estavam em vantagem: as legiões romanas, que se encontravam acampadas à frente, tinham acabado de ser convocadas e ainda eram inexperientes (os soldados veteranos haviam sido dizimados em batalhas anteriores); os cônsules em comando nunca havia estado juntos em um campo de batalha; e o terreno plano proporcionava uma enorme vantagem às manobras de cavalaria.
Disposição dos exércitos

Vermelho: Aníbal e seu exército
Azul: os cônsules Caius Terentius Varro e Lucius Aemilius Paulus comandando o exército romano

Obs: nos esquemas abaixo as cores se encontram trocadas.
A batalha começou com os romanos direcionados para o sul e os cartagineses para o norte, ambos tentando evitar lutar olhando diretamente para o sol. Em que altura do rio ocorreu ainda não está esclarecido, mas com certeza o Aufidus cortava a lateral do campo de batalha protegendo o flanco esquerdo cartaginês e o flanco direito romano.
É importante lembrar que nesse período da história todas as batalhas ocorriam de forma frontal com o objetivo de quebrar a linha de frente do inimigo e era assim que os romanos pretendiam lutar em Canas. A infantaria foi alinhada e a cavalaria disposta nas duas laterais com a missão primordial de proteger os flancos. Lucius Aemilius se encontrava na cavalaria pesada romana no flanco direito (próximo ao rio) e Caius Terentius na cavalaria ligeira formada pelos aliados latinos, no flanco esquerdo. Sob o comando dos ex-cônsules Marcus Atilius e Gnalus Servilius, a infantaria ligeira estava disposta à frente e a infantaria pesada na retaguarda de forma não usual (maior profundidade e menor largura da linha de frente).
O exército cartaginês estava disposto da seguinte forma. No flanco esquerdo, sob o comando de Asdrúbal, se encontrava a pesada cavalaria ibera e celta e no flanco direito, sob o comando de Anno, a leve cavalaria númida. À frente estava a infantaria leve cartaginesa; no centro os celtas e iberos, comandados por Aníbal e seu irmão Mago, formavam uma 'meia-lua' com o lado convexo voltado para os romanos; e nas extremidades, em menor número e recuada em relação aos iberos e celtas, ficou a infantaria pesada líbia.
Embora Aemilius tenha levantado o problema do terreno plano que favorecia a cavalaria, Terentius - que estava no comando no dia da batalha - acreditava que a vitória era praticamente inevitável. E realmente assim seria, se não fosse a genialidade de Aníbal.
Seguindo sua consagrada tática, os soldados romanos marcharam à frente buscando um confronto frontal. O primeiro contato, entre as infantarias leves, terminou inconclusivo e Aníbal enviou sua tropa montada para um
combate direto com a cavalaria romana.
A infantaria pesada de legionários avançou, mas somente os soldados ao centro encontraram os mercenários iberos e celtas, devido à disposição convexa das tropas cartaginesas. Como as unidades romanas nas extremidades estavam ansiosas para entrar em combate e as linhas inimigas eram excessivamente afinadas, seguiram instintivamente em direção ao centro afunilando a linha de frente.
Enquanto isso, no flanco esquerdo cartaginês, a cavalaria pesada comandada por Asdrúbal derrotou a cavalaria pesada romana. Os sobreviventes fugiram, inclusive Lucius Aemilius, e foram perseguidos até a outra margem do rio. A leve cavalaria númida comandada por Anno permanecia em combate com a cavalaria leve de Caius Terentius, no flanco direito. As linhas centrais de mercenários recuavam lentamente e a infantaria líbia avançava sem entrar em contato direto com os soldados romanos, que se concentravam cada vez mais no centro.
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Quando Asdrúbal finalmente afastou a cavalaria pesada romana para além do rio Aufidus, voltou e percorreu todo o campo de batalha à retaguarda das legiões até o flanco esquerdo, onde ocorria o embate entre as cavalarias leves. Assim que Caius Terentius e os cavaleiros aliados avistaram a tropa montada de Aníbal fugiram. Nesse momento, Lucius retornou a cavalo ao centro do campo de batalha e evocou a infantaria a avançar contra o inimigo.
Asdrúbal deixa o trabalho de perseguir a cavalaria leve para Anno e retorna para a retaguarda das legiões romanas. A linha de frente cartaginesa ainda não havia sido quebrada e a infantaria líbia já estava disposta nas laterais dos legionários.  Enquanto isso, a cavalaria pesada finalmente alcança a retaguarda romana.
Xeque-mate. O exército romano está cercado e pressionado. Os legionários, sem espaço para a locomoção e o manuseio da armas, são massacrados até a rendição.
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Conclusão
O exército romano, confiando na superioridade numérica e técnica de seus legionários avançou nas linhas inimigas ignorando as manobras táticas cartaginesas. Agiu somente com a força de sua infantaria tentando derrubar sem inteligência ou imaginação um adverário muito mais esperto e ágil.
Na sua pior derrota até então as tropas romanas foram massacradas. Segundo o historiador romano Tito Lívio, 50 mil soldados tombaram no campo de batalha - incluindo 80 senadores e 29 tribunos militares (quase a totalidade da oficialidade legionária) -, 19 mil foram tomados como prisioneiros e 15 mil conseguiram fugir. O cônsul Lucius Aemilius Paulus e os ex-cônsules Marcus Atilius e Gnalus Servilius se renderam e morreram, enquanto Caius Terentius Varro fugiu para Roma.
O destaque vai para a genialidade de Aníbal que transformou a batalha de Canas em uma obra-prima das táticas de guerra, obrigando o adversário a lutar simultaneamente em várias frentes e utilizar inteligentemente a sua cavalaria. A partir daí, a visão apenas frontal de um conflito armado caiu gradativamente em desuso e a tropa montada ganhou mais importância.
"A batalha de Canas" (1963?)
Peter V. Bianchi
Kenosha Public Museum
O sucesso do líder cartaginês também se deve à sua habilidade de controlar uma heterogênea tropa de mercenários, fazendo com que obedecessem rigidamente as suas ordens e não apenas avançassem por instinto como era o habitual. Outros fatores importantes foram a escolha do terreno e a precisa coordenação dos eventos durante a batalha. Se as cavalarias avançassem muito cedo, estariam sozinhas à frente e seriam derrotadas pelas legiões; se avançassem muito tarde ou demorassem a derrotar os cavaleiros romanos, a tropa a pé não resistiria por um longo período à investida dos legionários e a linha de frente se romperia. Além disso, se a infantaria líbia avançasse muito cedo para alcançar os flancos do inimigo, acabaria sendo interceptada antes do adversário convergir para o centro. A genialidade de Aníbal e a precisão de seu exército ganharam a batalha de Canas.
Fontes Bibliográficas:
(1) BRIZZI, Giovanni. O guerreiro, o soldado e o legionário. Tradução Silvia Massimini. São Paulo:Madras, 2003. 

(2) Polybius. The Histories of Polybius. Tradução do latim Evelyn Shuckburgh. Londres: Macmillan, 1889. Disponível em: <http://www.fordham.edu/halsall/ancient/polybius-cannae.html>. Acesso: 9 de Março de 2005.

(3)Livio, Tito. The History of Rome. (Electronic Text Center, University of Virginia Library). Disponível em: <http://etext.lib.virginia.edu>. Acesso: 9 de Março de 2005.
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