TUDO NO ESCURO

 

Há fatos na vida das pessoas que, uma vez acontecidos, ficam indelevelmente marcados na memória dos protagonistas. O que vou narrar é um desses fatos e acredito que a outra parte envolvida - uma senhora que devia andar pelo trinta ou pouco mais, se lembre muito bem do incidente pelo inusitado da situação.

Estávamos numa daquelas festinhas em casa de família, muito comuns naquele tempo - quarenta e seis ou sete, por aí. Um barril de chope, um toca-discos e as canções em em voga: Sleepy Lagoon, com solo de Harry James, Morena Boa de Ouro, de Ary Barroso ( o seu jeitinho é que me mata ... ). Afastados os móveis da sala, ficava o espaço suficiente para que os mais jovens das famílias ali reunidas, e também os mais velhos - por que não?, dançassem e brincassem alegremente. De vez em quando uma ida até à área de reabastecimento:  chope e salgadinhos. Tudo exatamente igual a todas  as festinhas em casas de família dos  subúrbios.

Era natural, portanto, que o chope obrigasse os convivas a ir ao banheiro uma, duas ou mais vezes conforme o volume de bebida ingerido e a eficiência renal de cada um. Eu, evidentemente, não seria exceção. Creio que fosse perto de meia-noite, já um tanto  tarde para os hábitos da época, quando se deu o fato marcante. Dirigi-me tranqüilamente para o banheiro; a porta estava fechada mas não trancada. Girei a maçaneta e empurrei a porta. Como estava escuro, procurei o interruptor. Ao acender a luz o que vejo? Numa fração de segundo, porque logo em seguida apaguei a luz e saí:  uma  senhora, jovem senhora melhor dizendo, estava sentada no vaso, saia levantada, jogando pelo "ladrão" o excesso de chope. Talvez porque estivesse apertada, não se deu ao trabalho de trancar a porta e acender a luz. Era um quadro efetivamente grotesco que só uma pessoa sentada num vaso sanitário pode produzir.

De volta à sala, um tanto acabrunhado, fiquei a pensar  nas eventuais conseqüências daquele fato. Em verdade não cheguei a gravar a fisionomia da senhora em questão e creio que também ela não gravou a minha. Mas , desconfianças de parte a parte estou certo que ficaram. Eu , constrangido, não podia encarar qualquer uma das mulheres presentes sem imaginá-la sentada no vaso fazendo pipi. Uma delas, entretanto, me pareceu responsável pelo acontecido, pelo menos parecia disfarçar sempre que me olhava.

Depois daquele instante a festa para mim acabou deixando-me para sempre a dúvida: quem era aquela senhora que numa festinha de subúrbio, há tantos anos, resolveu fazer pipi no escuro e, ainda por cima, sem trancar a ponta do banheiro?

 

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