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O TEMPO E A MEMÓRIA
O tempo é um dominador implacável. Mas dá algumas compensações permitindo que nos lembremos do que passou. Não apaga, portanto, todas as cenas do passado. Assim, desde que funcionando bem, a memória traz de volta o que o tempo nos levou. Voltam-nos, pois, muitas vezes bem nítidas, imagens de muitos e muitos anos já passados. Inverno de 1951, mês de julho. Era um dia frio e de nevoeiro. Estávamos numa das antigas barcas da velha Cantareira. Nair - minha, então, futura sogra, Guiomar, minha noiva e eu. Elas iam a passeio visitar parentes no Rio, mais precisamente no bairro de Sampaio, e tomariam o bonde na Praça Quinze. Eu, como fazia habitualmente, ia para o trabalho. O importante dessa imagem, que a memória me traz tão nítida, era o clima de alegria que me envolvia. A figura daquela moça de dezessete anos junto a mim fazia-me um sujeito feliz. Seus cabelos negros com as pontas onduladas pela permanente, seu dentinho de ponta quebrada, seu agasalho de frio, compunha a imagem bonita daquela que viria a ser minha companheira de tantos e tantos anos. Certamente que esse é, apenas, um dos incontáveis momentos bonitos que a memória me traz de volta. Inevitavelmente, lágrimas de emoção ameaçam rolar.
Para Guiomar, minha mulher:
Os mares que juntos navegamos, os caminhos que juntos percorremos; As vitórias que juntos alcançamos, as derrotas que juntos superamos; As sementes que, com amor, plantamos, os frutos que, com amor, colhemos dão-nos a certeza do amor que temos... são versos que falaram dos nossos vinte e cinco anos. Agora, pelos cinqüenta, mantenho aqueles e digo mais: A paixão dos verdes anos transformou-se no amor que permanece; não mais sonhos e planos, mas a lembrança boa do que jamais se esquece.
Gilson jan/2002
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