|
SITUAÇÃO DE RISCO
Em meados dos anos 1940, logo após o fim da Segunda Guerra, a cidade do Rio de Janeiro - capital do país que era, resumia todo o clima que o Brasil vivia. O Estado Novo - o regime autoritário que Getúlio Vargas iniciara em 1937, vivia seus últimos momentos, abalado que estava por influência da derrota dos alemães e seus aliados. Vivia-se, portanto, àquela época, numa euforia cujo palco de maior destaque era a capital federal. Com sua recém-aberta avenida Presidente Vargas - o velho culto à personalidade dando seus últimos estertores, a contrastar com o velho casario da área central, a já batizada Cidade Maravilhosa era, além de Distrito Federal - sede política e administrativa do país, a capital, de fato, do Estado do Rio de Janeiro - a velha província fluminense. Era natural, portanto, que das diversas comunidades interioranas chegassem, permanentemente, em busca de trabalho ou para estudar - em muitos casos com ambos os propósitos, jovens em geral de classe média. Pois foi nesse cenário em que predominavam os prédios de três pavimentos construídos na virada do século, em muitos dos quais se instalavam pensões familiares, que se passou a história protagonizada pelo nosso herói, Gustav. Ele chegara ao Rio em maio de 1945, na efervescência das comemorações do fim da guerra na Europa. No dia do anúncio - 8 de maio desse ano, a cidade viveu um verdadeiro carnaval, principalmente na Av. Rio Branco, que se transformou numa verdadeira passarela do samba - um sambódromo, se o termo já existisse àquela época. Esgotados os estoques de bebidas, era comum os manifestantes consumirem um fortificante em voga, com alguma dosagem alcóolica, muito popular naqueles tempos. Gustav da Silva Olafson - esse o seu nome completo, era um brasileiro atípico. Filho de sueco com mulata da terra, tinha o porte e os olhos característicos dos escandinavos e a pele e o cabelo comuns de nossos mulatinhos. Não era, portanto, o que chamam modernamente de afro-brasileiro. Apoiado numa condição econômica boa e estável, viera de Nova Friburgo para concluir os estudos preparatórios com vistas a ingressar na Escola Nacional de Engenharia. Por conveniência, Gustav alugou um quarto numa das pensões existentes. O prédio da pensão, construído no início do século, tal como os demais vizinhos, tinha três pavimentos e, como usual nas construções dessa época, com pé direito muito alto. O andar térreo, comportava com folga um jirau que era como um segundo piso. Ocupava essa loja um comércio atacadista de drogas farmacêuticas e remédios. Os demais andares, que eram alcançados por escadas de madeira, já bem gastas, levavam a corredores compridos os quais, por sua vez, davam acesso aos cômodos - seis quartos, na frente e ao longo do corredor, sala de jantar, banheiro e cozinha na parte de trás. Havia, ainda, bem lá no fundo, um pequeno cubículo com chuveiro, do qual se utilizavam os homens da casa. A ventilação e iluminação se faziam pela janelas da frente, dos fundos e das que davam para a área interna onde localizava uma clarabóia que deixava passar a iluminação natural para o pavimento térreo. No terceiro andar, onde ficava o quarto de Gustav, dois dos dormitórios eram ocupados pela dona da casa, D. Giovanna, e seu filho, Giuseppe, casado com Emília, uma balconista muito atraente e bem mais jovem que seu marido. Os demais cômodos tinham como ocupantes além deste narrador, o nosso sueco-brasileiro, um comerciário e um bancário. Havia entre todos um clima quase familiar e era comum fazerem reuniões aos sábados para jogos de baralho, em geral os mais simples. Costumavam, também, dividir os problemas que os afetavam, sobretudo o mais grave : abastecimento de água. Naquela época, a área central do Rio ainda sofria de periódicas crises de falta d'água, ocorridas com mais freqüência entre outubro e março, indo das vésperas ao final do verão. Era dureza! Além do clima político do país, a seca em plena cidade. Em tais ocasiões, era comum ter-se água apenas à noite, depois das dez. Esse horário deveria ser aproveitado para encher vasilhas e tomar banho; com parcimônia, é claro. Numa dessas noites, Gustav chegou por volta de onze e meia quando todos pareciam dormir, pelo menos era isso que indicava o silêncio reinante na casa. Apesar de ser ainda primavera, o calor que fazia - uma temperatura em torno de trinta graus, mesmo àquela hora, parecia acompanhar o clima fervilhante da política; afinal, poucos dias depois o Estado Novo iria acabar, levando Getúlio Vargas de volta a S.Borja. Mal tirou a roupa, que jogou sobre a cama, Gustav apanhou uma toalha e se encaminhou rapidamente para o banheiro, quero dizer, para aquele cubículo lá de trás. Para não fazer barulho, mesmo apressado, nosso herói caminhou furtivamente evitando, assim, que alguém acordasse. Ao abrir a porta - parece que intencionalmente não trancada, a surpresa de Gustav. À sua frente, vestindo apenas um robe quase transparente, Emília tentava abrir a torneira do chuveiro. Surpreendida, mas não assustada, a moça pede-lhe que a ajude a conseguir água. Diz ela: "o nosso banheiro estava tudo seco. Vim aqui pra tentar um banho, vê se você consegue alguma coisa." Sua voz era tranqüila demais para a situação inesperada e Gustav percebeu que Emília se insinuava, deixando-o numa dúvida cruel. Excitado, mas receoso, passou-lhe pela cabeça o que poderia ocorrer se embarcasse nas insinuações dela. Pensava ele com seus botões - que, por sinal, não estavam presentes: "Será que ela topa ou vai fazer um escândalo e vou acabar na delegacia?" Vivia ele esses segundos cruciais, sentindo a respiração ofegante de Emília, quando ouve uns passos arrastados vindos da cozinha. Os dois, já quase instintivamente abraçados, separam-se bruscamente mas em absoluto silêncio e assim ficam, atentos ao se passa naquela dependência. Passam-se dois minutos e um ruído de porta de armário que se fecha, os passos arrastados - que no caso eram os de D. Giovanna, indicam que a pessoa estava retornando a seu quarto. Lívidos, assustados mas aliviados, suados e sem banho, os dois se afastam de vez. Gustav encara Emília e esta disfarça e sai "de fininho". A situação de risco se dissipara. Este relato me foi feito pelo protagonista desta quase aventura erótica, algum tempo depois, quando já havia deixado aquele domicílio. Se não fosse assim, como poderia o autor contar uma história de que não foi testemunha?
|