ESPELHO AMIGO

 

     Herculano está diante do espelho, na manhã seguinte ao dia em que completou sessenta e cinco anos. Ele observa, curioso e intrigado,  pela primeira vez desde os dezoito, que seu rosto está refletido exatamente como é, sem qualquer alteração. Ao longo de quase cinqüenta anos ele se habituou a ver na imagem refletida no espelho uma espécie de alter ego que, mudando sua  expressão facial,  analisava-o comentando suas atitudes, ora criticando-as, ora elogiando-as e, às vezes, demonstrando indiferença. O rosto que o espelho lhe devolve agora não esconde as rugas, o grisalho dos cabelos, a calva acentuada e um ar de preocupação por ser agora um idoso oficial; tudo isso está rigorosamente na imagem refletida, nenhuma alteração a guisa de comentário, sequer um franzir de cenho.

     Herculano se lembra, nitidamente, da primeira vez em que notou as mudanças de sua imagem no espelho. Tinha dezoito anos e o fato aconteceu na manhã do dia seguinte a um encontro com Marisinha. A imagem tomou um ar de cinismo como se lhe indagasse: "Não sabia que a menina é de família, muito ciosa de sua virgindade? Ao forçá-la, você pôs perder boa parte do quase amor que ela lhe dedicava." E comentou, com ar de deboche: "Agora se vire para apagar a bobagem que fez."

     Estando agora diante de um espelho que se mantém rigorosamente impassível a seu semblante, começa a relembrar algumas situações por que passou e que resultaram em manifestações do espelho da ocasião. Aos trinta anos, já casado há pelo menos cinco, e não com a Marisinha, empolgou-se com a estagiária que iria secretariar o seu chefe Adalberto. Naquela época não se usava o termo "avião" para definir as mulheres de porte e rosto atraentes; ao vê-la chegar, Herculano disse pra si mesmo, mas com enorme vontade de dizer pra ela: "Que mulherão!". Os dias que se seguiram foram de inequívoco desejo de se aproximar da moça, seus olhares o denunciavam. Adalberto, que não era ingênuo, percebeu o lance e o advertiu: "Herculano, vá ciscar noutro terreiro, essa paquera é minha." Decepcionado, recolheu-se. O espelho, como de hábito, manifestou-se, o semblante irritado e ao mesmo tempo irônico, "passando-lhe um sabão" e dando, de lambuja um conselho:  "Você é burro ou o quê? não viu que seu chefe, recém-divorciado, ia assediar a estagiária, um mulherão daqueles? Além do mais,  é preciso respeitar a gravidez de sua mulher, pela qual vocês tanto lutaram.  Pelo amor de Deus, não faça mais uma besteira dessa. Se der outra mancada igual, não conte mais comigo."

     Essas lembranças e a indiferença do espelho ante sua imagem de idoso oficial, causavam a Herculano uma profunda tristeza. Talvez por isso, sua memória decide fazê-lo lembrar de um caso de  que participou  aos quarenta. Um colega seu por quem tinha grande estima, entregara-se - não importa por quais razões, ao alcoolismo, vício que já o estava prejudicando no trabalho e prestes a provocar sua demissão por justa causa. Em nome da amizade com o Amaury - esse o nome do colega, interferiu junto à direção da firma no sentido de obter a antecipação das férias do rapaz e comprometeu-se a trazê-lo na volta em plenas condições de trabalho. Herculano "fez das tripas, coração" e conseguiu seu objetivo. Amaury era outro quando voltou das férias e seu benfeitor recebeu elogios e cumprimentos. No dia seguinte,  olhando-se no espelho, Herculano  viu uma imagem radiante que parecia dizer-lhe: "Belo gesto, meu rapaz. A solidariedade é prova de bom caráter. Uma ação como essa que você praticou, recuperando o colega Amaury, compensa com sobras umas escorregadelas que você andou dando."

     Nem mesmo a rememoração desse meritório fato fez com que  a imagem do agora idoso Herculano se emocionasse; ela continuava insensível, para desgosto dele, que continuava lembrando  outras situações em que o espelho amigo se manifestou de forma enfática. Foi aquela em que uma "perua" tentou agredi-lo numa agência bancária; o incidente foi desagradável, porém hilariante. Ao buscar uma informação no início da fila das caixas eletrônicas, uma mulher destrambelhada, supondo que ele pretendesse passar à frente dos demais, dirige-se a ele de forma grosseira e ofensiva. Surpreendido com aquela atitude intempestiva, Herculano apenas a contesta, chamando-a de débil mental. A mulher, ensandecida, interpreta a ofensa dele como um ensaio para agredi-la e, ela sim, empurra-o com as duas mãos. Mas Herculano não reage fisicamente, apenas continua a chamá-la de louca varrida e expressões similares. Com a interferência de uma das gerentes, o entrevero se encerra. Na manhã seguinte, foi inevitável. Ao olhar-se no espelho, já nem mais se lembrando do ocorrido na véspera, sua imagem abre um sorriso e em seguida uma gargalhada. E, como se falasse: "Você é um frouxo, devia ter-lhe dado uma ‘bolacha’. Essa mania de bom moço às vezes o atrapalha." Logo depois a imagem ganha seriedade e parece dizer: "Na verdade não o censuro, você foi um cavalheiro."

     Mais de meia hora   permaneceu   Herculano   diante   do   espelho,  tentando arrancar-lhe alguma reação, ao mesmo tempo em  que trazia à memória tantos fatos sobre os   quais  o  velho  amigo  se "pronunciara." Já estava ele prestes a apagar a luz e sair da frente do espelho quando este decide satisfazer o seu desejo. A imagem abre-se num largo sorriso e, como se fosse realmente alguém falando, diz-lhe: "Herculano, não se  preocupe. Sua já longa trajetória, tal como num livro contábil, recebeu muitos débitos e créditos, estes, porém foram em maior quantidade e de maior valor; seu saldo é amplamente credor. Curta em paz sua velhice."

     Herculano, com uma pequena lágrima a lhe correr pela face, sai da frente do espelho e apaga a luz.

 

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