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A Viagem
O ano, 1940. O mês, janeiro, com certeza. O dia, sei lá, acho que antes de quinze. O cenário, uma modesta estação ferroviária - Porto da Madama, S.Goncalo, RJ, nas primeiras horas da manhã daquele dia. Os personagens, minha família de então, a saber: o pai - Lauro, a mãe - Maria Izabel (Morena) e os irmãos Roberto, eu, Ronaldo, Marília, Lauro e Gelson. E Laurimar? - este só chegaria ao final daquele ano, em Macaé, que era o destino daquela viagem. O primeiro da série tinha treze anos e alguns meses; o último, o mais novo, não chegara, sequer, aos dois anos. Os intermediários, onze, nove, seis e quatro respectivamente. Havia na comitiva, também, tenho lembrança, uma senhora que nos acompanhava, que continuaria como nossa empregada em Macaé. Esta pessoa, por sinal, viria a nos proporcionar lances de bom humor durante a longa e cansativa viagem. O trem da Leopoldina, que nos conduziria por cerca de duzentos e vinte quilômetros e mais de quinze horas, era o chamado misto; quer dizer, uma locomotiva maria-fumaça, mais de uma dezena de vagões de carga e, fechando o comboio, um carro de passageiros com duas classes, a segunda, com bancos de madeira, e a primeira, com assentos de palhinha. Nossa condição sócioeconômica não nos permitia viajar no expresso ou no rápido, cujas passagens eram mais caras. Todavia, restava-nos o consolo de viajar na primeira classe do misto. E lá íamos nós, na manhã já aquecida daquele início de verão, no balanço vagaroso do trem. Aquilo era, para nós crianças, uma verdadeira festa. A cada estação de parada - todas, por sinal - o olhar curioso e a impaciência em ver de novo o trem em movimento. E, assim, se sucediam as estações, S.Gonçalo, Guaxindiba, Itambi, Visconde Itaboraí. Nesta, a demora era bem maior pois havia conexão de vagões de outro trem que vinha do Rio, a capital federal de então. Desde o início da viagem já se tinham passado cerca de três horas pra percorrer pouco mais de vinte quilômetros. Estávamos em Itaboraí, entre nove e dez horas da manhã e o sol esquentava rapidamente. Vendas das Pedras, Tanguá, Rio dos Índios eram as estações que ficavam no rumo de Rio Bonito, aonde chegaríamos por volta de meio-dia. É curioso como tenho boa lembrança desse momento da viagem. A demora talvez tenha sido superior a uma hora, pelo menos uma e meia. Um calor abrasador, fumaça e barulho de locomotivas e vagões manobrando. E o velho, onde estava? Sei lá, saíra para ver alguma coisa e demorou bastante pra retornar ao trem, talvez tenha-se informado sobre o tempo da parada. Finalmente, acho que por volta de duas da tarde, retomávamos nossa já extenuante viagem. Cesário Alvim, Capivari (hoje Silva Jardim), Poço das Antas - a estação tinha o nome da hoje Reserva Florestal onde se tenta preservar a espécie do mico-leão dourado, Juturnaíba - lagoa que responde hoje por boa parte do abastecimento de água na Região dos Lagos, eram as estações que antecediam a chegada a Casemiro de Abreu - terra natal do poeta fluminense que lhe deu o nome, autor, entre tantos outros belos trabalhos, do poema "Meus oito anos ... Oh! que saudades que tenho da autora da minha vida...". Nesse trecho entre Rio Bonito e Casemiro de Abreu, ou pelo menos próximo dele, aconteceram três fatos que a minha memória não apagou. O primeiro foi que começou a chover, nada de estranhar num mês de janeiro, no estado em que o verão está implícito no próprio nome; o segundo foi um quiproquó envolvendo o chefe do trem e um tipo que parecia embriagado o qual, porque tivesse provocado uma briga com outro passageiro ou alguém da tripulação, foi preso por ordem do citado chefe. Este, segundo me consta, era a autoridade policial nas circunstâncias; o terceiro fato foi a cusparada que nossa empregada deu na janela do vagão, que pensou estivesse aberta na hora de seu lance olímpico. Foi uma risada geral entre os maiores, de Ronaldo pra cima. Este relato não menciona alguma ação marcante de que minha mãe tivesse tomado parte durante toda a viagem. É compreensível que assim fosse. Ocupada com os menores - Marília, Lauro e Gelson, que lhe tomavam todo o tempo, juntava a essa circunstância sua própria mansidão e tolerância. Mesmo assim, acho que ela riu no lance do cuspe na janela. Minha mãe teve naquela viagem duplo destino, o de passageira e de criatura, pois esta passou para a Eternidade pouco menos de quatro anos depois, em Macaé. A viagem prosseguia. As chuvas de verão continuavam, intermitentes, lavando de vez em quando as vidraças do vagão e trazendo aquele cheirinho de terra molhada. Rio Dourado, Rocha Leão, Califórnia, Imboassica e, finalmente, Macaé. Esse trecho foi percorrido ao cair da tarde pela noite a dentro, completando-se a viagem após as nove da noite, quinze horas depois de iniciada. Felizmente não chovia em Macaé àquela hora. Não sei como explicar, mas o carro que nos conduziu da estação à casa que o velho alugara, na Praça Visconde de Rio Branco, era um Ford bigode, cujo motorista ouvi meu pai chamar de Bentinho. Meu espanto, hoje, é que ao todo eram nove pessoas fora o motorista, mesmo considerando-se que quatro eram crianças pequenas. A chegada à casa e o percurso desde a estação não registraram fatos marcantes na minha memória. Apenas vagas lembranças de ruas de iluminação precária, as crianças sonolentas, silêncio quase total. A quebrá-lo os acordes da marcha-rancho "Mal-me-quer" vindos de um clube próximo à casa aonde iríamos morar por alguns meses antes da casa da rua Boavista. Acabei por dormir sentindo o cheiro de terra molhada pelas chuvas da tarde, lembrando a algazarra provocada pelo passageiro embriagado e rindo com a cusparada na janela do carro de primeira classe daquele inesquecível trem misto.
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