TEMPOS DE RECRUTA

 

Parece que foi ontem, mas já se passaram cinco décadas. Foram seis meses apenas mas pareciam intermináveis enquanto vividos. Pelo menos para mim, que tive de interromper minha carreira profissional que fazia pouco se iniciara. Bem, isso é o que eu pensava naquela ocasião. Hoje, relembrando aquele  breve período, vejo que não apenas se passaram rapidamente como foram marcantes e benéficos para mim e, creio, também para o resto da turma. Estou falando de meu serviço militar na Fortaleza de Santa Cruz, em 1949. Bons tempos aqueles.

É quase certo que a memória me falhou e alguns dos bons companheiros daquela jornada não sejam citados aqui. Peço desculpas e espero que, vendo os nomes de outros, considerem-se igualmente lembrados. É possível, também, que os números que mencione - pelos quais muitos eram conhecidos e identificados, não estejam corretos. Se assim for, desculpem nossa falha.

Mas, vamos às reminiscências. Havia um recruta muito folgado, o 77, de boa índole e muito brincalhão que jamais permitia que uma conversa fosse levada a sério; sempre encontrava um meio de fazer rirem seus companheiros. Uma de suas brincadeiras prediletas era chegar sorrateiramente junto ao soldado 90 ( posteriormente promovido a cabo) e riscar um fósforo no jornal que este, muito  compenetrado, lia recostado um muro de pedra. O  recruta 90, que era a sobriedade e a disciplina personificadas, reclamava , mas logo em seguida, como era de seu feitio, perdoava o brincalhão 77. Agora, os nomes aos bois, quer dizer, aos ilustres soldados. O 77 era o Carlinhos - Carlos Gonçalves, figura das mais marcantes daquela turma. o 90, o cabo, era o Geremias - Geremias de Mattos Fontes, que àquela altura podia pensar em tudo menos que viesse a ser, nos anos sessenta, governador do Estado do Rio de Janeiro.

De gênio brincalhão e gozadores havia outros: o 115 - Luiz Carlos, o Aranha; o 116 - o Lula; o 162, o Nero; o 133, o Othon, o 70, o Diniz. Havia, também, os descansados e de boa paz: o 96, - Heraldo e o 101 - Joffre Abi Ramia. Este gostou tanto que saiu cabo e voltou como oficial médico alguns depois e fez brilhante carreira. Hoje só usa a farda em ocasiões especiais; continua, no entanto, a usar o jaleco, o estetoscópio e o talento para cuidar de seus pacientes mirins, grande pediatra que é. Grande figura, o Abi Ramia! Personalidade marcante era o 137 - o famoso Nictheroy, no seu porte de príncipe africano. Outrso bons companheiros foram o 89 - Geraldo Cardoso, que viria a ser reitor da UFF - Universidade Federal Fluminense, nos anos setenta; o 124 - Nelson Vieira, o contador; Euclides da Cunha Filho, que lembrava na raça os brasileiros do grande escritor, seu homônimo; o 136 - Paulo Pilotto, que fez brilhante carreira médica na Aeronáutica; o Bastos, o José Luís, o Geraldo Moacyr Fortes de Azevedo, enfim, um mundo de grandes criaturas.

Entre os que comandavam havia figuras inesquecíveis pelo seu caráter e generosidade: o tenente Vasco, o sargento Netto, o capital Felipe, o subtenente Nilo. Gente muito boa que representava com total dignidade o glorioso Exército Brasileiro. Muito do que aprendemos na Fortaleza de Santa Cruz  se deve a essas brilhantes figuras.

Talvez o fato mais marcante acontecido naquele longínquo 1949 - pelo menos para nós, foi o naufrágio do navio inglês Madalena, que  a soldadesca viu partir-se em dois a poucos quilômetros da entrada da baía. Felizmente o fato só provocou perdas materiais. Para a turma que foi convocada para dar serviço junto à parte que soçobrou próximo ao forte Imbuí, foi uma farra que marcou época pelo inusitado do evento.

Pelo fato de ter sido convocado desde o início para exercer funções administrativas, eu pouco pude participar de atividades que ensejavam situações engraçadas como, por exemplo, tirar serviço de guarda na Fontinha. O Joffre que o diga. Mesmo assim, tive de fazer ronda, a altas horas da noite  e disso posso fazer um relato de certa forma hilariante:

Na primeira vez, nas funções de cabo de dia, eu estava absolutamente cônscio da importância de fazer ronda contornando a fortaleza pela parte superior das galerias. As histórias de fantasmas que nos contavam eram aterrorizantes: oficial decapitado, vozes que vinham das solitárias, tudo isso amedrontava a mim e aos demais recrutas. Ainda assim, fiz a primeira ronda, arrepiado, assustando-me  com o ruído de qualquer folha de amendoeira que caía,  olhando rigidamente para a frente, na solidão da noite silenciosa. Da segunda vez, repeti a ronda menos assustado fazendo, no entanto, uma grande descoberta:  os outros participantes do serviço não faziam a ronda naqueles partes "mal assombradas"; ficavam "de papo" junto aos alojamentos esperando a hora de voltarem para suas camas. No terceiro serviço não fiz o trajeto pela zona do medo mas, em compensação, me sentia capaz de fazê-lo se necessário.

Bons tempos aqueles!!!

 

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