REPÚBLICA DAS CRIANÇAS
Em 1940, quando a guerra tomava conta da Europa, numa pequena cidade de um velho país da Ásia Central, apareceu um profeta a quem não se deu, de início, muita importância. Entretanto, como demonstrava por seu comportamento humilde e caridoso possuir poderes extranaturais, suas pregações passaram a ser respeitadas pela população em geral. Certo dia, dando um tom de gravidade a suas palavras, profetizou: "Ainda este ano, um fenômeno muito estranho acontecerá nesta cidade, o Tempo vai parar de passar para todos, menos para as crianças de até dez anos; estas permanecerão com suas idades e, portanto, não crescerão. Haverá, contudo, uma exceção para os bebês; estes crescerão até os quatro anos e daí em diante ficarão como as outras crianças. Os médicos e cientistas se espantarão, farão investigações sem qualquer êxito. Para os demais habitantes tudo continuará o mesmo, como sempre. Trinta anos depois, essas crianças voltarão a ter um crescimento normal e encontrarão todo o resto da população com esse tempo mais velha, mas não haverá novas crianças com suas idades porquanto durante esse período não ocorrerá qualquer nascimento." A profecia pareceu tão estapafúrdia que o estranho homem perdeu toda a credibilidade, foi considerado louco, até mesmo por seus seguidores, e terminou expulso da cidade. Pelos adultos, é claro, pois as crianças sequer tinham qualquer noção do que significava tudo aquilo. Não obstante a incredulidade da população, o fato deixou-a apreensiva. E, à medida que os meses iam passando, sem que qualquer sinal surgisse que pudesse indicar o que fora profetizado, a tensão aumentava. Mas eis que chega o momento, e não de modo intempestivo. As mães observam que, à exceção dos bebês, seus filhos não aumentam de peso e estatura, mas sem apresentar qualquer indício de enfermidade; as observações são feitas continuadamente durante quatro meses e a profecia passou a ser seriamente considerada. A situação permaneceu a mesma pelos meses seguintes e mesmo anos. Médicos e cientistas de todo o mundo, ao tomarem conhecimento do estranho fato, passaram a visitar a cidade mas, após estudos profundos, concluíram que a condição das crianças nada apresentava de anormal. Conformados, retornaram a seus países, prometendo realizar estudos mais profundos com a utilização das mais recentes tecnologias. E, assim, a situação continuou por trinta anos, com as crianças vivendo livres e felizes em seu próprio mundo. Um pouco mais de uma geração depois, as coisas voltam à normalidade. Com exceção das crianças, ninguém tem menos de quarenta e um anos. Uma nova geração, livre dos vícios e desvios de comportamento da que lhe antecedeu, começa a preparar-se para, alguns anos mais tarde, assumir as responsabilidades de administrar aquela cidade. Os adultos remanescentes percebem que as coisas mudaram e passam a conduzir a comunidade levando em conta essa transformação. Vinte anos mais tarde tudo está definitivamente mudado. Ainda que permanecendo alguns vícios - de pouca importância, é verdade, o comportamento social é outro. A solidariedade é prática comum; a corrupção, sob qualquer forma, sequer é tentada; o culto à personalidade desapareceu por completo e a política é praticada tendo como premissa o servir e não o servir-se. Em conseqüência dessa verdadeira revolução, tudo funciona de maneira satisfatória nessa pequena cidade. Essa a razão porque virou atração turística internacional e ganhou o título de República das Crianças. Embora os que a dirigem tenham se transformado em adultos, assimilaram para si a pureza e a sinceridade que regem o comportamento das crianças. E trataram de preservá-las nas que ainda o são e nas que vão chegando. Não é de espantar, pois, que no aeroporto e em outras entradas da cidade, sejam vistos cartazes em sua própria língua e em outros idiomas com os seguintes dizeres: "Sejam bem-vindos mas, por favor, não transmitam à nossa população quaisquer vírus que possam contaminar seu comportamento.
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