O BRUTAMONTES

 

Você sabe o que é enfrentar, literalmente, um sujeito tipo armário - dois de altura por um de largura? E, pior ainda, tendo você apenas sessenta quilos, um magricela de um metro e setenta? Pois bem isso ocorreu comigo. Vamos ao acontecido.

Vinha eu pela Primeiro de Maço - conhecida rua do Rio, num dia chuvoso e, por isso mesmo, com suas calçadas atravancadas,  um tanto distraído quando, procurando desviar-me de um guarda-chuva que ameaçava me atingir, esbarrei num cidadão que, incontinênti, dirigiu-me um palavrão daqueles bem cabeludos. No mínimo, ao que me lembre, algo como "olhe pra onde anda seu f.d.p.". É claro que, instintivamente, retruquei gritando: " é a sua mãe, seu veado". Se arrependimento aleijasse eu hoje andaria, no mínimo, de muletas. O pretenso ofendido deu meia-volta e partiu em minha direção e só então pude avaliar a gravidade da situação.

O cara - um brutamontes de dois por um, ameaçando-me segurar pelo colarinho, fazia a festa dos passantes. O risco da agressão era iminente, uma palavra que eu disse seria o estopim. O sujeito gritava que eu  o havia ofendido, gesticulava de maneira ameaçadora. A minha decisão teria de ser tomada rapidamente. Fugir ou enfrentar o bicho. A primeira alternativa seria vergonhosa, a segunda , heróica, para não dizer temerária. Em poucos segundos refleti e recapitulei meus conhecimentos de relações humanas. De cara, reconheci meu erro mas, por amor próprio, não admitia fazê-lo de público. Percebi, num instante,  que o pretenso ofendido vacilou  na iniciativa da agressão.

Virei o jogo a partir daí. Tendo aquela figura imensa à minha frente, disse-lhe: " o que falei pro senhor foi em resposta ao palavrão que me dirigiu por causa de um esbarrãozinho à toa. Agora, se o senhor diz que não falou nada, apenas resmungou, e quem o agrediu com palavras fui eu, então eu lhe digo o mesmo. Nada falei, apenas resmunguei". Senti que o cara amoleceu, e eu já  começava a suar frio. O desfecho veio em seguida, o "armário" virou as costas e foi embora. E eu, livro do perigo do massacre, prossegui no meu caminho. Foi uma vitória moral.

Moral da história: evite esbarrões mas, se isso ocorrer, peça desculpa mesmo que tenha razão. Afinal, não vale a pena brigar por pouca coisa, principalmente se o adversário foi um brutamontes.

 

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