HISTÓRIA DE UMA FOTO

 

     1958 - Logo abaixo da manchete BRASIL - CAMPEÃO DO MUNDO, o Correio de Macaé da segunda-feira, 30 de junho, estampava a foto de uma ocorrência não usual naquela então pacata cidade fluminense. A legenda dizia: Campeã brasileira de nado livre, Ester Monforte, salva de afogamento na Imbetiba, comerciante da cidade.

 

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     1950 -  A cidade de Macaé - a mais clara do Brasil segundo se dizia àquela época, sequer imaginava que menos de quatro décadas depois seria um importante polo petrolífero. Como o restante dos brasileiros, o macaense curtia a tristeza pela derrota do Brasil no Maracanã, na primeira copa mundial de futebol após o fim da guerra. Por isso, não dava muita bola - sem trocadilho,  para o que estava acontecendo na extremo Oriente: a guerra da Coréia. Tampouco se deixava levar pelos questionamentos que os udenistas faziam em relação ao governo Dutra e ao possível retorno de Getúlio Vargas.

                

     Do balcão de seu pequeno armarinho na rua do Imperador, Euclides, então com vinte e dois anos, vê passar, quase todos os dias, uma garota  nos seus quinze, pedalando sua bicicleta.  É a adolescente Ester indo para a aula de piano, com a professora Benilda, naquela mesma rua. Euclides, rapaz tímido, não deixa transparecer o entusiasmo que lhe provoca  aquela menina. Mas, três vezes por semana, já há quase seis meses, fica atento à passagem de Ester em sua bicicleta. Seu coração apaixonado dispara nos minutos que antecedem cada um desses momentos. É possível perceber em seus olhos o encantamento pela menina Ester, seu amor platônico.

     A empolgação de Euclides  se transforma em tristeza profunda, que procura dissimular, ao perceber que a menina da bicicleta deixou de passar  em frente à sua loja.  Em conversa com colegas da associação comercial, de maneira muito reservada,  acaba por descobrir que ela se mudou para outra cidade fluminense. Filha de um funcionário da Fazenda estadual, que foi transferido, Ester agora já não provoca taquicardia no tímido Euclides, mas uma nostalgia que a todos intriga. Mas ele agüenta firme e não revela a causa.

     1953 - Na bela cidade serrana de Nova Friburgo realiza-se um encontro internacional do Rotary Club. O evento acontece no hotel onde Euclides se hospeda por alguns dias, ele que veio fazer compras para renovar o estoque de rendas de sua loja, saber das novidades do ramo e, também descansar um pouco.   O saguão do hotel é o lugar onde ele fica após o  jantar, vendo o movimento dos hóspedes. Distrai-se, também, olhando as imagens não muito perfeitas da televisão ali colocada.

     Na segunda noite, repetindo o que fizera no dia anterior, está sozinho como de hábito, vendo o movimento no saguão. Observa que aos poucos  o número de pessoas aumenta e não parece que sejam todos hóspedes. Lembra-se, então, da tal reunião do Rotary.  Naquela noite um convidado importante, parece que um senador, daria uma palestra. Euclides já se dispunha a ir para seu quarto quando leva um susto: a menina da bicicleta,  já agora moça feita, chega de braços com um casal, certamente seus pais. Todo aquele encantamento, que a muito custo vinha arquivando num escaninho bem escondido de sua memória, renasce de forma incontida. Num rompante levanta-se e adentra o auditório do Seminário e posta-se, de pé, num ponto do qual podia vê-la sem que ela percebesse. À sua memória vêm, de imediato, as imagens dela na bicicleta passando em frente de sua loja em Macaé, três anos atrás.  Enquanto ali permanece, não a perde de vista. Infelizmente, para ele, isso acontece na saída; não lhe foi possível acompanhá-la, mesmo à distância. "Não irei mais vê-la", pensou. Engoliu um suspiro de tristeza.

     Os anos que se seguiram foram carregados de emoções nacionais: em 1954, vexame da Seleção na Suiça e crise política que culmina no suicídio de Getúlio Vargas. No ano seguinte, continuação da crise política com dois movimentos militares com o propósito de garantir a posse de Juscelino Kubitschek, em janeiro de 1956. Daí para diante houve um certa calmaria com o estilo "bossa nova" do novo presidente. Essa adjetivação tem a ver com o novo estilo de samba o qual, nos anos seguintes, viria a se constituir em sucesso no Brasil e internacionalmente.

     Esses mesmos anos revelaram uma jóvem nadadora que, já em 1957, conseguira o título brasileiro de nado livre e, logo em seguida, bateu o recorde sul-americano da categoria. Ester Monforte, esse o nome da campeã. O piano, ela deixara de lado ficando, apenas, para distração nas horas de lazer. Embora amadora, seu prestígio lhe garantia certos rendimentos publicitários.                                                                      

     Em Macaé, no balcão de seu armarinho, o tímido Euclides continua solteiro e não perde a esperança de rever a sua garota da bicicleta. Sempre que alguma figura feminina passa por sua loja pedalando, a imagem que lhe vem é dela. Mesmo lendo os jornais da capital todos os dias, não lhe chamou a atenção a Ester  que  vinha  sendo  notícia nas páginas esportivas. Apenas um certo dia ficou  bom tempo examinando uma foto, mas não a identificou. Como sequer lhe sabia o nome, ficou a matutar: será que é ela?

     1958 - O país vive momentos de euforia desenvolvimentista com JK. A Bossa Nova começa a ganhar espaço nas rádios. A seleção de futebol se prepara para recuperar na Suécia o prestígio perdido na Suiça. A campeã Ester continua firme na busca de uma medalha olímpica que poderá conseguir em Roma, em 1960.

     O domingo vinte e nove de junho de 1958, apesar de ser inverno, está com uma temperatura boa para uma praia. E é isto que faz Euclides, vai para a Imbetiba. Não há muitas pessoas e a água está muita fria, ele pôde observar.  Junto à calçada, um grupo está em volta de um taxi ali estacionado; com toda a certeza estão ouvindo a transmissão do jogo Brasil x Suécia. Sobre a grande pedra próxima do hotel, um grupo de moças conversa animadamente, algumas em trajes de banho. Parecem turistas pelo jeito como olham a paisagem, com especial atenção para a ilha de Santana.

     Euclides decide mergulhar apesar da água muito fria. Dá algumas dezenas de braçadas e pára quando sente uma forte câimbra. Embora nadasse regularmente, preocupa-se com o que lhe está acontecendo, receia mesmo que possa se afogar; a dor está muito forte e ele começa a debater-se. Alguém, de sobre a grande pedra, observa o que está acontecendo com o rapaz. Certa de que pode ocorrer um afogamento, a moça não pensa duas vezes, mergulha  e nada na direção desse banhista. Suas braçadas são firmes e muito rápidas. Ao aproximar-se dele percebe que o afogamento é iminente, o rapaz parece desacordado. Por sorte a maré está calma e a distância da areia não é grande, não chega a cem metros. A muito custo, a moça consegue arrastá-lo até a praia onde um grupo assistia a tudo. Além dos movimentos adequados a esse tipo de salvamento, a moça faz respiração boca-a-boca e a cena é fotografada por um turista que a presenciava. Tão logo percebe que o afogamento está afastado, a moça se retira e deixa o rapaz aos cuidados de um salva-vidas a serviço do hotel. Ouve-se o espocar de alguns foguetes, com certeza para comemorar mais um gol do Brasil no inesquecível 5x2.

     O grupo de moças, do qual partiu aquela que salvaria Euclides, embarca na tarde do mesmo dia para Campos, onde, no clube Saldanha da Gama, elas participariam, na semana seguinte, de um torneio nacional de natação. A estrela desse evento é Ester, a heroína do dia. A idéia de dar um passada em Macaé foi dela,  que  queria   matar   a   saudade   dos   tempos  em  que, oito anos atrás, caminhava em sua bicicleta pela rua do Imperador para suas aulas de piano.

     Na segunda-feira, 30 de junho, Euclides, já restabelecido do ocorrido na véspera, olha a foto na primeira página do Correio de Macaé,  em que ele aparece nos braços de Ester. E nem de longe imagina que foi salvo pela moça que há oito anos povoa seus sonhos de felicidade.  Mas vê nas feições dela algo que o leva a lembrar-se da garota da bicicleta.  E imagina vê-la  pedalando em frente à sua loja. Só que  as imagens que lhe chegam estão embaçadas e distorcidas pelas lágrimas que lhe molham os olhos.

 

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