A GOVERNANTA
Jerusa se apressou em responder o anúncio que dizia simplesmente: "Precisa-se de governanta com experiência, idade mínima quarenta anos, apresentar-se com referências à Av. Rio Branco, 2608, sala 3306, nesta cidade." A pressa se justificava não apenas porque precisasse do emprego mas, pela coincidência de ter tal anúncio saído na mesma página do seu : "Governanta oferece-se ..." Chegando ao local indicado teve de enfrentar uma espera de cerca de uma hora, pois havia três outras candidatas que aguardavam ser atendidas pela pessoa encarregada da seleção. Eis que finalmente é recebida por uma senhora corpulenta, de meia-idade, que se apresenta como a advogada Dra. Lídia, tia e procuradora do interessado. Após os cumprimentos de praxe, a candidata se apresenta: "Chamo-me Jerusa Alcântara de Oliveira e meus dados pessoais estão neste currículo que lhe passo às mãos." A maneira formal com que se apresentou, impressionou positivamente a entrevistadora. "Jerusa, telefone pra você!", era a vizinha Alice que a chamava. Imaginando ser sobre a entrevista, ela sai correndo e entra na casa da outra e vai pegando no telefone. "Alô, sim, é Jerusa quem fala, e você quem é?" "Aqui é Edilberto, secretário da Dra. Lídia que entrevistou a senhora ontem. Ela pede que compareça hoje, se possível, na Rua Torres Cardoso, 189, apartamento 501, e procure o Dr. Álvaro Gimenez, lá pelas cinco da tarde." Logo após desligar, Jerusa ficou repetindo o endereço e o nome até que Alice lhe emprestasse lápis e papel para que ela os anotasse. "Alice, acho que arranjei emprego", falou apressada, agradecendo e desculpando-se por não a ter cumprimentado antes. "Tudo bem", respondeu a vizinha e desejou-lhe boa sorte. Por volta de três e meia da tarde desse mesmo dia, Jerusa desembarcava na Praça Quinze, vinda de Niterói, onde morava, e buscava tomar um ônibus que a levasse à Tijuca. Desceu na altura da Rua Uruguai e caminhou por algumas quadras até o local procurado. Como faltassem ainda alguns minutos para as cinco, Jerusa solicitou ao porteiro do prédio que lhe permitisse aguardar no hall até chegar o momento de subir ao apartamento do Dr. Álvaro. O porteiro assentiu, embora ressabiado por ver aquela mulher quarentona vistosa - uma morena quase mulata, à procura daquele solteirão reservado. Seria ela a nova governanta? pensava ele. Às cinco em ponto tocou o interfone para o Dr. Álvaro e recebeu como resposta a autorização para que ela subisse. Recebida por uma senhora nos seus sessenta ou um pouco mais, muito gentil, esta lhe disse para aguardar que o patrão logo viria atendê-la. Jerusa pensou, e acertou, aquela deveria ser D.Altina, sobre quem o porteiro lhe falara, a governanta que estava prestes a se aposentar. "Se vocês se acertarem será muito bom, o Dr. Álvaro é uma pessoa muito boa. É muito reservado, tem lá suas esquisitices, mas é um homem bom e generoso", disse D. Altina deixando a saleta de espera. Não mais que dois minutos após, a porta se abre e aparece um senhor de cabelos grisalhos, alto, moderadamente gordo, com cara de cinqüentão bem conservado. Cumprimentando Jerusa, convida-a a entrar e seguem para uma sala que era um misto de biblioteca, estúdio e escritório. Havia de tudo ali: livros - obviamente, computador, arquivos, teclado musical, uma parafernália enfim. Tudo arrumado, mas não tanto. Sentaram-se, um de cada lado da mesa principal. Ele, dissimuladamente, dá uma rápida no todo de Jerusa e fica impressionado com a estampa. Diz, então, o Dr. Álvaro: "Seus dados estão aqui nesta folha que me foi passada por minha tia Lídia. Sua experiência me parece suficiente. Gostaria, apenas, que a senhora me dissesse porque se interessou trabalhar para um solteirão." Jerusa, que não conseguia disfarçar uma certa curiosidade pela vida daquele homem à sua frente, respondeu: "Essa atividade de administrar uma casa, eu já venho praticando há mais de vinte anos. Estou quase passando dos cinqüenta, sou solteira embora já tenha tido um companheiro por uns cinco anos. Depois de sua morte, há mais de dez, tenho mantido minha 'solteirice'. Nos últimos tempos trabalhei para uma família de oito pessoas, o casal, cinco filhos e um sobrinho. Como eles se mudaram para a Argentina, vi-me desempregada mas desejosa de trabalhar para alguma família menos numerosa, talvez não tão pequena quanto a sua mas, se quiser, posso ficar por um tempo. Se der certo, para mim e o senhor, a gente continua." A resposta dele foi muito objetiva: "Tudo bem, acho que vai dar certo. O trabalho aqui não é muito para uma governanta, a cozinha está aos cuidados de D. Altina e a limpeza é feita por uma moça que vem duas vezes por semana. Seu trabalho será supervisionar tudo, cuidar do cardápio e manter a casa em condições tais que eu possa mostrá-la a quem me visite como se eu não fosse um simples solteirão. Portanto, se aceita, pode começar amanhã mesmo. O salário é o que minha tia falou. Tudo bem? Ah, outra coisa, eu gostaria que você morasse aqui, as acomodações são boas." Levantou-se em seguida e foi mostrar a Jerusa o quarto que ela ocuparia. Despediram-se. Jerusa estava morando na casa de uma irmão desde que deixara a família que se mudou para a Argentina. Não tinha, portanto, qualquer problema em ir morar da casa do solteirão. Assim, decidiu rapidamente e na manhã seguinte partiu de mala e cuia, para se instalar no apartamento do Dr. Álvaro, na Tijuca. Por quanto tempo? O tempo é que diria. Os hábitos do Dr. Álvaro são realmente conservadores e, de certa forma, curiosos. Ao levantar-se veste, invariavelmente, um dos muitos robes que tem no guarda-roupa. Jamais senta-se para o jantar em bermudas. Andar sem camisa, nem pensar. Por alguns dias Jerusa prestou atenção nesses hábitos mas, com o tempo, se acostumou. E para não desequilibrar o ambiente austero da casa, sem que lhe fosse recomendado, passou a trajar-se no mesmo estilo, quer dizer, com roupas também austeras. Por algum tempo conversavam mantendo a distância que separa um patrão do servidor doméstico. Mas isso não durou muito. Certa noite, após ter-se levantado para tomar um comprimido, Álvaro vê, pela porta entreaberta do quarto de Jerusa que esta costuma dormir de camisola curta. Não se atreveu a olhar mais atentamente, porém teve sua atenção despertada por aquele corpo moreno num sono tranqüilo. Ele, que de forma velada, já observara os atributos físicos de sua nova governanta e se impressionara com sua desenvoltura durante a entrevista, não teve como evitar uma emoção mais forte, embora contida. Os dias que se seguiram foram de olhares curiosos de ambas as partes sem que ela suspeitasse do que ele havia visto. Após passar algumas semanas fazendo suas refeições em companhia de D. Altina, Jerusa foi convidada a sentar-se à mesa com o patrão. "Não veja neste convite qualquer outra intenção que não a de colocá-la à vontade nesta casa. Afinal, suas funções são quase as mesmas de uma dona de casa", justificou-se Álvaro. A partir de então, era comum vê-los, principalmente no jantar, em conversas descontraídas como se fossem um casal. Cerimonioso, é certo, mas um casal. D. Altina percebeu a alteração nesse relacionamento e chegou mesmo insinuar, maliciosamente, que os dois pareciam estar namorando. Por algum tempo o clima amistoso continuou, não passando disso, entretanto. O tratamento cerimonioso de "dona" e "doutor" que utilizavam é que, pouco a pouco, foi cedendo lugar ao "você" pronunciado pelos dois com uma certa freqüência. Essa maneira mais íntima no relacionar-se culminou quando, certo dia, Álvaro recebeu para jantar um colega italiano que viera ao Brasil a serviço. Giuseppe Regazoni, esse o seu nome, chegou ao apartamento do colega brasileiro imaginando-o casado. Ao ser apresentado a Jerusa, não teve dúvidas em tratá-la como a esposa de Álvaro. Durante o jantar e por todo o tempo em que esteve no apartamento, o faz-de-conta foi mantido sem que o visitante percebesse a encenação, aceita de bom grado pelo "casal". Após a visita do italiano o clima para a aproximação afetiva dos dois se tornou irreversível. Já não escondiam o desejo de um contato mais íntimo e isso aconteceu num "'casual" esbarrão quando circulavam pelo corredor do apartamento. O desejo de beijarem-se explodiu no momento em que seus corpos se tocaram como que por acaso. Embora todas as condições fossem favoráveis para que o beijo ocorresse, ainda assim prevaleceu a timidez de Álvaro que, constrangido, pediu desculpas a Jerusa pelo que esteve em vias de acontecer. Depois do "incidente" do corredor, Jerusa resolveu assumir a condição de sedutora e preparou um programa de abordagem ao tímido doutor. Assim foi que, na noite seguinte, aproveitando-se que D. Altina fora visitar a irmão em Itaguaí, Jerusa lá por volta de uma da manhã chamou por Álvaro: "Doutor Álvaro, corre aqui!." Não mais que um minuto após, Álvaro adentra o quarto de Jerusa e a encontra muito assustada dizendo: "Eu ouvi, tenho certeza, era uma voz de mulher!" Vendo-a naquele aparente estado de pavor, diga-se de passagem bem simulado, Álvaro procurou acalmá-la dizendo: "Deve ter sido um pesadelo" e saiu para buscar um tranqüilizante. Ela tomou o comprimido e ele permaneceu no quarto por mais algum tempo. Ao vê-la num sono simulado, que sequer suspeitava, ele não pode conter seus pensamentos pecaminosos. Sentou-se à beira da cama, passou-lhe a mão sobre a cabeça e ela, instintivamente, procurou acomodar-se junto a seu corpo. Aí começou tudo. Mesmo desajeitadamente, Álvaro apertou-a contra seu peito, beijou-a e ela se entregou completamente. A essa altura, mesmo desconfiando que Jerusa lhe preparara uma armadilha, ele se deixou levar pelo inevitável da situação. Por alguns meses eles mantiveram a condição de amantes na sombra. D. Altina, que de boba não tinha nada, desconfiava, fazia insinuações do tipo, "a senhora gosta dele não é D. Jerusa?" ou então, "depois que a senhora veio morar aqui o Dr. Álvaro mudou tanto !!!" Os vizinhos passaram da curiosidade aos comentários à boca pequena. "Sei lá, acho que esse solteirão daí de cima desencalhou, a mulata pegou ele de jeito", dizia uma; "Seu Januário, por favor, não sei de nada, não vi nada, só sei que D. Jerusa é muito boa pessoa e muito atenciosa com o Dr. Álvaro", era a resposta do porteiro às indiretas do aposentado do 501. Pra encurtar a história. Álvaro e Jerusa se casaram. Eram adultos, muito mais que maiores de idade e poderiam, se quisessem, manter as coisas no pé em que estavam. Mas Álvaro tomou gosto pela vida a dois e, mesmo com Jerusa abrindo mão do compromisso, propôs que se casassem. Afinal, o sentimento que ele via nascer em relação a ela, e que retornava dela de maneira muito espontânea e sincera, justificava o fim oficial definitivo de sua "solteirice". Assim é que, para o Dr. Álvaro Gimenez e Jerusa Alcântara de Oliveira, a vida começou mesmo depois dos cinqüenta. Ele, ao que parece, estava esperando alguém que cuidasse de um "maior abandonado". Ela, bem, ela teve sorte de ler os classificados naquele dia reclamando sua presença.
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