|
Hackers e democracia virtual
Rosiane Correia de Freitas
Esta semana estou abrindo mão dos textos curtos. Dada a invasão
do site da prefeitura na semana passada, resolvi desenterrar uma
antiga matéria minha, publicada em junho de 1999 no Jornal Laboratório
da UFPR. É sobre os movimentos da internet. Pessoas que defendem
todo tipo de crença, estilo de vida, preconceito. Boa leitura.
A internet é um lugar democrático. É nesse ambiente que se verifica
uma proliferação de movimentos sociais que defendem todo tipo de
causa e que divulgam todo tipo de informação. São os que odeiam
gays, negros, latinos, muçulmanos, companhias telefônicas, norte-americanos,
comunistas, e até a Eduarda da novela das oito. Pode-se não concordar
com o que esse sites divulgam mas a internet é um meio que não permite
censura sobre seu conteúdo. É o que os internautas gostam de chamar
de 'democracia virtual'.
Porém toda essa liberdade dá espaço para comportamentos que a sociedade
real não tolera. "O racismo ou a violência são práticas consideradas
politicamente incorretas pela sociedade. Entre quatro paredes, em
frente ao computador, não há críticas. Então alguém pode juntar-se
a grupos racistas sem ser reprimido e desenvolver esse sentimento.
Isso é perigoso, pois pode extrapolar os limites do quarto, a fantasia
pode virar realidade" avisa a coordenadora de pós-graduação em Psicologia
da UFPR, professora Paula Inez Cunha Gomide.
Ku Klux Klan On Line
Supremacia branca. É o que prega o Whites
Only Network, site da seita norte-americana que surgiu logo
após a Guerra da Secessão. A página avisa as mulheres brancas dos
perigos que elas correm ao decidir se relacionar com negros. Também
justifica sua tese de supremacia branca através de gráficos e estatísticas
de índices de criminalidade. Além dos negros, os gays, judeus e
latinos também figuram entre os atacados pela Ku Klux Klan.
Para eles o homossexual é pior do que um assassino porque "algum
dia o assassino para de matar. Mas os homossexuais freqüentemente
permanecem a vida toda persistindo no pecado. Vários deles são pedófilos
e querem persuadir as crianças a aceitar a homossexualidade. E como
a homossexualidade é no mínimo igual a um assassinato, isso é equivalente
a ensinar as crianças a se tornarem assassinos."
Os judeus são "vítimas profissionais". O Holocausto, segundo o
responsável pelo site, é uma mentira, "eu acredito que eles (os
judeus que morreram nos campos de concentração) foram todos vítimas
da fome e de doenças". Quanto aos latinos, a entrada de milhares
de imigrantes nos EUA todos os anos ameaça os empregos dos norte-americanos
e aumenta a taxa de impostos já que o governo terá que sustentá-los,
fornecendo-lhes "empréstimos, empregos, casas e previdência social
gratuitos".
Como o site da KKK, a home page da Westboro
Baptist Church (www.godhatefags.com) também utiliza a Bíblia
para atacar os gays. No site da igreja é possível encontrar um FAQ
(seção de perguntas freqüentes) sobre homossexualismo, aborto e
divórcio. Tudo defendido segundo a ótica do pastor da igreja. "Deus
odeia bichas. Bichas odeiam Deus. A AIDS cura as bichas, obrigado
Senhor pela AIDS. Bichas queimem no inferno." são alguns dos slogans
da página.
As últimas vítimas de Hitler
20 de abril de 1999. Aniversário de 110 anos de Adolf Hitler. O
adolescente norte-americano Eric Harris e seu colega Dylan Klebold
mataram 13 pessoas e se suicidaram no colégio em que estudavam em
Littleton, Colorado. Dias antes, Harris já havia avisado na Internet
que o aniversário de seu ídolo seria 'inesquecível'. Harris também
mantinha uma home page onde explicava como construir bombas e mostrava
alguns de seus poemas.
O site de Eric Harris foi retirado do ar pelo FBI, mas dezenas
de outros sites divulgam seu conteúdo em nome da liberdade de expressão.
Os responsáveis por essas páginas não compactuam com Dylan e seu
colega: "O assassinato de pessoas inocentes é simplesmente repugnante"
afirma Neocloud, um dos que divulgam as idéias da dupla do Colorado.
Porém, na internet não só os defensores da liberdade divulgam tais
informações. Qualquer um dos 150 milhões de internautas pode acessar
milhares de sites como o de micheloni, que ensina como destruir
um carro, como construir diversos tipo de bombas, como jogar fliperama
de graça, entre outras coisas, tudo com finalidades 'educativas',
segundo o autor. "Não quero nem saber o que as pessoas que lêem
aquilo saem fazendo por ai, é de responsabilidade delas e não minha"
defende micheloni.
A questão, no entanto é que efeito ou conseqüências teriam tais
informações 'educativas' numa criança ou adolescente que acesse
tais dados. Parte da resposta se encontra na constatação de que
a maioria dos responsáveis por páginas como a micheloni, são adolescentes
como Lucas, 12, que divide seu tempo entre as tarefas escolares
e a manutenção de sua página sobre phonephreaking (leia abaixo).
Para a doutoranda em Psicologia Experimental pela USP e professora
do departamento de Psicologia da UFPR, Lídia Weber, "a rapidez como
as mensagens são divulgadas na internet e a impossibilidade de se
verificar a veracidade da informação" são alguns dos elementos que
justificam a preocupação com os efeitos desse tipo de site sobre
uma criança. O indivíduo que já tem uma tendência violenta está
propenso à se deixar levar pelas idéias desses sites. A necessidade
de se encaixar num grupo e de manifestar a própria rebeldia além
de uma educação moral frágil são outros elementos que possibilitam
a ocorrência de casos como o do Colorado.
Phonephreaking
"Os preços cobrados pelas companhias telefônicas do Brasil são realmente
um abuso, e isso nos leva e nos incentiva a 'compartilhar' a linha
telefônica do vizinho.)" Esse é um trecho de um manifesto phreak,
movimento de hackers que desenvolve e divulga estratégias para a
utilização de linhas telefônicas sem pagar tarifa. Diversos sites
na Web divulgam as idéias phreak. São sites que ensinam a clonar
telefones celulares, a pegar a linha do vizinho, entre outras coisas.
Na maioria das vezes, instruções para a realização de outras peripécias,
como construir bombas e realizar escutas telefônicas são divulgadas
nesses sites também.
Os phreaks acreditam que com isso estão realizando um serviço social.
"Não é dessa forma que conseguiríamos abaixar a tarifa telefônica,
mas já que não temos como abaixar, usamos uns truquezinhos." defende
o phreak micheloni.
Piratas da rede
Na internet eles invadem, assumem o controle, fazem o que querem
e depois desaparecem sem deixar pistas. São jovens e adolescentes
que gostam de utilizar o computador e a rede mundial para aprontar
suas 'travessuras'. Recentemente, hackers invadiram os computadores
do STF e da Câmara Federal. Os autores da façanha deixaram no lugar
das páginas originais um manifesto contra o real, as privatizações
e o governo FHC.
A página da CBF já foi invadida hacker Root, que substituiu
o texto de abertura do site por outro dizendo que o Brasil perdeu
a Copa de 98 para poder ser sede da Copa de 2002. O chat do seriado
Malhação também foi vítima de um hacker que deixou na tela a mensagem
"Roberto Marinho traficante".
Além desses, a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e o provedor
de acesso Elógica, de Recife, foram invadidos provocando um alvoroço
devido à divulgação de dados sigilosos. Nos EUA, ataques
como o do STF são freqüentes. Entre as invasões mais famosas estão
a da CIA, do jornal The New York Times e da Nasa.
O vocalista da banda Nine Inch Nails, Trent Reznor, teve seu número
de cartão de crédito roubado por uma fã que invadiu sua conta na
America OnLine e usou o cartão para fazer compras via internet.
O FBI entrou na luta contra os hackers iniciando uma investigação
no Texas e em Houston, mas também teve seu site invadido pelos internautas.
Enquanto o Bureau americano ainda tenta obter ajuda federal no
combate aos 'piratas cibernético', o Pentágono se uniu a eles, contratando
alguns para testar a segurança e impedir a invasão de terroristas.
No Brasil, atividades hacker como invasão de sites são consideradas
crime de violação. E, dependendo da mensagem deixada no site, o
hacker também pode acabar sendo processado por calúnia e difamação.
ResisTência500
O grupo Resistência500 assumiu a autoria da invasão do site do STF.
- Como vocês conseguiram invadir os sites do STF?
- Resistência500: Com um computador e vontade de fazer alguma coisa
por esse país!
- A Polícia Federal está investigando a atividade hacker no
Brasil? Qual a chance deles descobrirem quem são vocês?
- Resistência500: Deve estar... Alguma...
- Vocês pensam que a Internet é realmente um espaço democrático?
- Resistência500: Até demais. Mas ela foi desenhada pelo departamento
de defesa americano para ser assim mesmo, anárquica. Pôr ordem
nesse caos é impossível.
- Quais os objetivos do movimento hacker?
- Resistência500: Não conheço nenhum hacker para saber lhe responder,
desculpe.
- Então vocês não se consideram hackers?
- Resistência500: Não, essa palavra ficou muito estigmatizada.
Soa mal para quem vê de fora. E para quem está dentro, soa como
um imbecil que não entende nada e para mascarar sua inferioridade
gosta de ser chamado assim.
- Há diversos sites hacker que divulgam fórmulas de como construir
bombas, invadir sites e criar vírus com finalidades 'educativas'.
Vocês acreditam que esse tipo de site incentiva crianças e adolescentes
a fazerem coisas ilegais?
- Resistência500: O legal nem sempre é justo, o ilegal nem sempre
é injusto. A justiça não esta escrita em um livro, é uma coisa que
o bom senso comum determina. O Exército faz bombas, no entanto muitas
crianças querem ser do Exército e você não se assusta com isso.
Os EUA mataram velhinhos inocentes (sic) a pouco tempo e mesmo assim
há pessoas que acharam isso um ato de libertação. Difícil julgar
até que ponto você precisa se defender desse mundo hoje para saber
se é tão mal assim ser influenciado por essas páginas.
- No manifesto de vocês há uma reclamação contra a imprensa.
A internet serve como contra-poder com relação a ela?
- Resistência500: Será que se nos fizéssemos uma manifestação em
um buraco qualquer do Brasil algum repórter ia colocar isso em todas
as rádios? Demos o que a imprensa gosta, notícia. Podemos criticá-la
o quanto quisermos, eles não vão publicar a parte que lhes afeta,
mas vão publicar alguma coisa.
Matéria publicada no Jornal Laboratório do Curso de Comunicação
Social da UFPR em junho de 1999.
Rosiane Correia de Freitas é estudante do 4.º ano
de jornalismo da UFPR. Trabalha no portal
Tudo Paraná.
|