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Última atualização
em 1/10/2001

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Hackers e democracia virtual

Rosiane Correia de Freitas

Esta semana estou abrindo mão dos textos curtos. Dada a invasão do site da prefeitura na semana passada, resolvi desenterrar uma antiga matéria minha, publicada em junho de 1999 no Jornal Laboratório da UFPR. É sobre os movimentos da internet. Pessoas que defendem todo tipo de crença, estilo de vida, preconceito. Boa leitura.

A internet é um lugar democrático. É nesse ambiente que se verifica uma proliferação de movimentos sociais que defendem todo tipo de causa e que divulgam todo tipo de informação. São os que odeiam gays, negros, latinos, muçulmanos, companhias telefônicas, norte-americanos, comunistas, e até a Eduarda da novela das oito. Pode-se não concordar com o que esse sites divulgam mas a internet é um meio que não permite censura sobre seu conteúdo. É o que os internautas gostam de chamar de 'democracia virtual'.

Porém toda essa liberdade dá espaço para comportamentos que a sociedade real não tolera. "O racismo ou a violência são práticas consideradas politicamente incorretas pela sociedade. Entre quatro paredes, em frente ao computador, não há críticas. Então alguém pode juntar-se a grupos racistas sem ser reprimido e desenvolver esse sentimento. Isso é perigoso, pois pode extrapolar os limites do quarto, a fantasia pode virar realidade" avisa a coordenadora de pós-graduação em Psicologia da UFPR, professora Paula Inez Cunha Gomide.

Ku Klux Klan On Line
Supremacia branca. É o que prega o Whites Only Network, site da seita norte-americana que surgiu logo após a Guerra da Secessão. A página avisa as mulheres brancas dos perigos que elas correm ao decidir se relacionar com negros. Também justifica sua tese de supremacia branca através de gráficos e estatísticas de índices de criminalidade. Além dos negros, os gays, judeus e latinos também figuram entre os atacados pela Ku Klux Klan.

Para eles o homossexual é pior do que um assassino porque "algum dia o assassino para de matar. Mas os homossexuais freqüentemente permanecem a vida toda persistindo no pecado. Vários deles são pedófilos e querem persuadir as crianças a aceitar a homossexualidade. E como a homossexualidade é no mínimo igual a um assassinato, isso é equivalente a ensinar as crianças a se tornarem assassinos."

Os judeus são "vítimas profissionais". O Holocausto, segundo o responsável pelo site, é uma mentira, "eu acredito que eles (os judeus que morreram nos campos de concentração) foram todos vítimas da fome e de doenças". Quanto aos latinos, a entrada de milhares de imigrantes nos EUA todos os anos ameaça os empregos dos norte-americanos e aumenta a taxa de impostos já que o governo terá que sustentá-los, fornecendo-lhes "empréstimos, empregos, casas e previdência social gratuitos".

Como o site da KKK, a home page da Westboro Baptist Church (www.godhatefags.com) também utiliza a Bíblia para atacar os gays. No site da igreja é possível encontrar um FAQ (seção de perguntas freqüentes) sobre homossexualismo, aborto e divórcio. Tudo defendido segundo a ótica do pastor da igreja. "Deus odeia bichas. Bichas odeiam Deus. A AIDS cura as bichas, obrigado Senhor pela AIDS. Bichas queimem no inferno." são alguns dos slogans da página.

As últimas vítimas de Hitler
20 de abril de 1999. Aniversário de 110 anos de Adolf Hitler. O adolescente norte-americano Eric Harris e seu colega Dylan Klebold mataram 13 pessoas e se suicidaram no colégio em que estudavam em Littleton, Colorado. Dias antes, Harris já havia avisado na Internet que o aniversário de seu ídolo seria 'inesquecível'. Harris também mantinha uma home page onde explicava como construir bombas e mostrava alguns de seus poemas.

O site de Eric Harris foi retirado do ar pelo FBI, mas dezenas de outros sites divulgam seu conteúdo em nome da liberdade de expressão. Os responsáveis por essas páginas não compactuam com Dylan e seu colega: "O assassinato de pessoas inocentes é simplesmente repugnante" afirma Neocloud, um dos que divulgam as idéias da dupla do Colorado.

Porém, na internet não só os defensores da liberdade divulgam tais informações. Qualquer um dos 150 milhões de internautas pode acessar milhares de sites como o de micheloni, que ensina como destruir um carro, como construir diversos tipo de bombas, como jogar fliperama de graça, entre outras coisas, tudo com finalidades 'educativas', segundo o autor. "Não quero nem saber o que as pessoas que lêem aquilo saem fazendo por ai, é de responsabilidade delas e não minha" defende micheloni.

A questão, no entanto é que efeito ou conseqüências teriam tais informações 'educativas' numa criança ou adolescente que acesse tais dados. Parte da resposta se encontra na constatação de que a maioria dos responsáveis por páginas como a micheloni, são adolescentes como Lucas, 12, que divide seu tempo entre as tarefas escolares e a manutenção de sua página sobre phonephreaking (leia abaixo).

Para a doutoranda em Psicologia Experimental pela USP e professora do departamento de Psicologia da UFPR, Lídia Weber, "a rapidez como as mensagens são divulgadas na internet e a impossibilidade de se verificar a veracidade da informação" são alguns dos elementos que justificam a preocupação com os efeitos desse tipo de site sobre uma criança. O indivíduo que já tem uma tendência violenta está propenso à se deixar levar pelas idéias desses sites. A necessidade de se encaixar num grupo e de manifestar a própria rebeldia além de uma educação moral frágil são outros elementos que possibilitam a ocorrência de casos como o do Colorado.

Phonephreaking
"Os preços cobrados pelas companhias telefônicas do Brasil são realmente um abuso, e isso nos leva e nos incentiva a 'compartilhar' a linha telefônica do vizinho.)" Esse é um trecho de um manifesto phreak, movimento de hackers que desenvolve e divulga estratégias para a utilização de linhas telefônicas sem pagar tarifa. Diversos sites na Web divulgam as idéias phreak. São sites que ensinam a clonar telefones celulares, a pegar a linha do vizinho, entre outras coisas. Na maioria das vezes, instruções para a realização de outras peripécias, como construir bombas e realizar escutas telefônicas são divulgadas nesses sites também.

Os phreaks acreditam que com isso estão realizando um serviço social. "Não é dessa forma que conseguiríamos abaixar a tarifa telefônica, mas já que não temos como abaixar, usamos uns truquezinhos." defende o phreak micheloni.

Piratas da rede
Na internet eles invadem, assumem o controle, fazem o que querem e depois desaparecem sem deixar pistas. São jovens e adolescentes que gostam de utilizar o computador e a rede mundial para aprontar suas 'travessuras'. Recentemente, hackers invadiram os computadores do STF e da Câmara Federal. Os autores da façanha deixaram no lugar das páginas originais um manifesto contra o real, as privatizações e o governo FHC.

A página da CBF já foi invadida hacker Root, que substituiu o texto de abertura do site por outro dizendo que o Brasil perdeu a Copa de 98 para poder ser sede da Copa de 2002. O chat do seriado Malhação também foi vítima de um hacker que deixou na tela a mensagem "Roberto Marinho traficante".

Além desses, a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e o provedor de acesso Elógica, de Recife, foram invadidos provocando um alvoroço devido à divulgação de dados sigilosos. Nos EUA, ataques como o do STF são freqüentes. Entre as invasões mais famosas estão a da CIA, do jornal The New York Times e da Nasa.

O vocalista da banda Nine Inch Nails, Trent Reznor, teve seu número de cartão de crédito roubado por uma fã que invadiu sua conta na America OnLine e usou o cartão para fazer compras via internet. O FBI entrou na luta contra os hackers iniciando uma investigação no Texas e em Houston, mas também teve seu site invadido pelos internautas.

Enquanto o Bureau americano ainda tenta obter ajuda federal no combate aos 'piratas cibernético', o Pentágono se uniu a eles, contratando alguns para testar a segurança e impedir a invasão de terroristas. No Brasil, atividades hacker como invasão de sites são consideradas crime de violação. E, dependendo da mensagem deixada no site, o hacker também pode acabar sendo processado por calúnia e difamação.

ResisTência500
O grupo Resistência500 assumiu a autoria da invasão do site do STF.

- Como vocês conseguiram invadir os sites do STF?
- Resistência500: Com um computador e vontade de fazer alguma coisa por esse país!

- A Polícia Federal está investigando a atividade hacker no Brasil? Qual a chance deles descobrirem quem são vocês?
- Resistência500: Deve estar... Alguma...

- Vocês pensam que a Internet é realmente um espaço democrático? - Resistência500: Até demais. Mas ela foi desenhada pelo departamento de defesa americano para ser assim mesmo, anárquica. Pôr ordem nesse caos é impossível.

- Quais os objetivos do movimento hacker?
- Resistência500: Não conheço nenhum hacker para saber lhe responder, desculpe.

- Então vocês não se consideram hackers?
-
Resistência500: Não, essa palavra ficou muito estigmatizada. Soa mal para quem vê de fora. E para quem está dentro, soa como um imbecil que não entende nada e para mascarar sua inferioridade gosta de ser chamado assim.

- Há diversos sites hacker que divulgam fórmulas de como construir bombas, invadir sites e criar vírus com finalidades 'educativas'. Vocês acreditam que esse tipo de site incentiva crianças e adolescentes a fazerem coisas ilegais?

- Resistência500: O legal nem sempre é justo, o ilegal nem sempre é injusto. A justiça não esta escrita em um livro, é uma coisa que o bom senso comum determina. O Exército faz bombas, no entanto muitas crianças querem ser do Exército e você não se assusta com isso. Os EUA mataram velhinhos inocentes (sic) a pouco tempo e mesmo assim há pessoas que acharam isso um ato de libertação. Difícil julgar até que ponto você precisa se defender desse mundo hoje para saber se é tão mal assim ser influenciado por essas páginas.

- No manifesto de vocês há uma reclamação contra a imprensa. A internet serve como contra-poder com relação a ela?
- Resistência500: Será que se nos fizéssemos uma manifestação em um buraco qualquer do Brasil algum repórter ia colocar isso em todas as rádios? Demos o que a imprensa gosta, notícia. Podemos criticá-la o quanto quisermos, eles não vão publicar a parte que lhes afeta, mas vão publicar alguma coisa.

Matéria publicada no Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social da UFPR em junho de 1999.

Rosiane Correia de Freitas é estudante do 4.º ano de jornalismo da UFPR. Trabalha no portal Tudo Paraná.

 

 

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