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100 dias de sufoco e aventura na primeira volta ao mundo em um motoplanador

Por Eduardo Burckhardt
Fotos: Gérard Moss


Manche em punho, o piloto voa baixo para não ser engolido pelas nuvens. Vai sobre o mar porque a costa russa é repleta de bases militares. Ele ziguezagueia até driblar a tormenta. Sobe e só então consegue falar com a base de Sapporo, cidade ao sul do Japão, país no qual está entrando no espaço aéreo. Mal nivela o avião a 2000 metros e um vulto negro passa à sua esquerda a 300 quilômetros por hora seguido de um barulho ensurdecedor. Nem bem se recompõe do susto e a cena se repete. São dois caças F15 a menos de 50 metros de distância.

Imediatamente, o piloto ajusta a freqüência de emergência: 121.5. Os militares japoneses começam um interrogatório aéreo. A voz deles é abafada pelas máscaras de oxigênio. O contato feito com Sapporo tranqüiliza o piloto. As câmeras e os aparelhos de transmissão de dados que ele leva é que alimentam sua tensão. Teme ser obrigado a descer na base militar e acabar confundido com um espião. Vinte minutos depois o piloto é informado que estava em área militar, mas é liberado. Ele sabe, se estivesse num avião maior, talvez esta história nunca teria sido contada.

Este foi apenas um dos emocionantes relatos que o piloto inglês naturalizado brasileiro Gérard Moss, 46 anos, fez à PLAYBOY durante os 100 dias de sua aventura inédita. À bordo do frágil, porém valente, Super Ximango, Moss fez a primeira volta ao mundo em um motoplanador.

Não é a primeira vez que Gérard Moss dá a volta ao mundo. Sua primeira circunavegação pelo globo durou mais de dois anos e foi feita a bordo de um monomotor junto com sua esposa, Margi. Desta vez o projeto, além de pioneiro, é muito mais arriscado. O Super Ximango AMT - 2005, fabricado no Rio Grande do Sul, tem um motor de apenas 100 HP, mas permite sua decolagem sem um avião de reboque, como nos modelos não motorizados. Com menos de 20 metros de envergadura, asas finas e leve como um carro médio, em boas condições térmicas ele é capaz de planar por horas com o motor desligado. O espaço ocupado por Moss na cabine é semelhante ao de um cockpit de Fórmula 1. Toda a tralha pessoal, incluindo a alimentação – barras energéticas, sopas e bebidas lácteas –, não pode pesar mais de 10 quilos. O restante do espaço é preenchido por equipamentos, principalmente os necessários para a coleta de ar a baixa altitude para uma pesquisa pioneira sobre a poluição global.

A possibilidade de voar baixo permitiu que Moss visse de perto o Lago Powel, nos EUA

No total, o projeto Asas do Vento contabilizou 100 dias, 89 aeroportos em 30 países e mais de 400 horas de vôo. PLAYBOY acompanhou em tempo real a expectativa e emoção do "piloto solitário" nos principais trechos da aventura em oito diferentes países. Confira os momentos mais marcantes das conversas:

Crateras no ar
No percurso entre Toluca e Torreón, no norte do México, o motoplanador não conseguiu subir mais que 3000 pés (914 metros) do solo, então fiquei preso numa área de turbulência. O ar quente que vinha do deserto encontrava as correntes à minha volta e o avião era jogado de um lado para o outro. Parecia que estava dirigindo um carro numa estrada cheia de crateras. A diferença é que não conseguia ver os buracos à frente e não tinha acostamento para descansar. Foram mais de cinco horas segurando o avião na mão porque o piloto automático não agüentaria os solavancos. Meu receio era de que as asas do Ximango, muito compridas, se quebrassem com as pancadas. Por sorte, encontrei a cidade de Torreón, um porto seguro bem no meio do deserto.

Tragado por um vulcão

Poderia ter ficado um dia inteiro planando sobre os vulcões da Guatemala de tão boas que estavam as condições térmicas e de vento. O calor expelido pelo vulcão Fogo, que não está totalmente ativo mas "fumando", dava um empurrão no planador e, mesmo sem o motor ligado, eu conseguia subir até 5000 pés (1524 metros) de altitude. Mas em um dos sobrevôos sobre ele eu quase fui tragado para dentro da cratera. Fiquei perto demais da boca do vulcão, os ventos mudaram e empurraram o Ximango para baixo em uma questão de segundos. Liguei o motor e consegui amenizar a descida brusca, depois estabilizei. Fora o susto, foi um dos melhores vôos que fiz na vida. É em momentos como esse que se descobre a magia de um planador. Poderia ficar horas no ar sem gastar nada de energia. Talvez essa seja uma das voltas ao mundo mais econômicas em termos de combustível.|

Apuros no Alasca
Foi um risco fazer a travessia do Estreito de Behring em condições péssimas de tempo. Estava acompanhado pelo piloto Yakov Sabodin, que, espremido no banco ao meu lado, cuidou de todos os trâmites burocráticos no trecho russo da viagem. Experiente naquela área, ele previu que seria arriscado, mas decidimos prosseguir senão ficaríamos presos no Alasca por vários dias. Os ventos fortes e as nuvens carregadas nos obrigaram a voar a apenas 50, 100 metros da água. Era muita tensão. Tínhamos que evitar que o avião entrasse na grossa camada de neblina acima de nós, com visibilidade quase nula. Só que, perto do mar, também corríamos o risco de sermos pegos de surpresa por uma onda. Qualquer erro seria fatal. Se caíssemos na água gelada do Alasca não sobreviveríamos mais que 10 minutos. Então voamos espremidos entre as nuvens e o mar por mais de cinco horas. Na minha escala de riscos que enfrentei, este trecho certamente recebeu nota 10.

Porre na Sibéria


Os siberianos: isolados do mundo mas fãs de novelas brasileiras

Em Vladimirowka, uma aldeia esquimó de pessoas animadas – e que assistem novelas brasileiras dubladas em russo, claro –, conheci um costume local regado a vodca. O siberianos param o barco no meio do rio, pegam duas ou três garrafas do destilado e um só copo e enchem-no até a boca. O "ritual" consiste em beber de uma vez 90 por cento da vodca no copo e jogar o que sobra no rio. Depois, estender a mão e enchê-lo com a água gelada para repetir o gesto feito com a bebida. A partir da terceira rodada eu fui um pouco mais generoso com o rio: bebia 10 por cento e jogava o resto fora.

Preso no Vietnã
Lutei para encontrar uma saída entre nuvens monstruosas que encontrei no centro do Vietnã. Com uma tempestade pela frente, minha única alternativa era o aeroporto vietnamita de Nha Tang. Mas os controladores locais são severos com a regulamentações de vôo e têm uma certa fobia de que estão sendo espionados sempre. Então, claro que a recepção não foi nada cordial. Para piorar, uma lei local determina que o primeiro pouso de uma aeronave no país tem que ser feito em um aeroporto internacional. Como Nha Tang é de uso doméstico, fui detido e interrogado e o avião foi todo selado. Na manhã seguinte fui liberado e parti antes que mudassem de idéia. Se eles descobrissem todos os equipamentos eletrônicos guardados no avião, certamente eu seria identificado como um espião.

Tempestade de areia


Perigo!
Tempestade em Valência, na Venezuela

Desde a saída da Índia venho enfrentando um fenômeno conhecido na África ocidental como armatã. O vento levanta a areia do chão e a leva até 3000 metros de altitude. Forma-se uma nuvem de areia de baixíssima visibilidade, sem horizonte nenhum. Levo o avião só com os instrumentos do painel, e isso é extremamente cansativo. Depois da terceira hora olhando para o mesmo ponto o vôo vira tortura. Se não me cuidar, pego no sono. Desconfiava que cochilava por segundos, mas só tive certeza que isso acontecia quando vi, já na Europa, as cenas que havia feito no Egito. A câmera interna do avião flagrou quando caí de sono em pleno vôo sobre o deserto e só acordei depois de bater a cabeça na lateral da cabine.

Xixi, inevitável
Na Suíça abri uma exceção na minha dieta para matar a saudade dos fondues e raclettes da minha mãe, que mora em Lausanne e foi se encontrar comigo. Nem sempre é possível aproveitar as iguarias locais. Para não ter sono durante o vôo, decolo de estômago vazio e bebo muita água para compensar a fome. A alimentação em terra também não pode ser muito pesada para que não haja, digamos, complicações no ar. Mas meu corpo está regulado e não tive problema. Para o xixi, inevitável, levo uma ou duas garrafas, depende do trajeto.

E depois do atentado...
Um dia antes do atentado ao World Trade Center fiz um vôo sobre Londres sem restrição alguma. Voei muito baixo sobre os edifícios mais importantes. Bem, talvez eu tenha sido o último piloto a voar dessa forma. Depois do ataque aos EUA todo o espaço aéreo britânico foi fechado para qualquer aeronave que não fosse de uma linha regular. Também senti certa tensão no aeroporto de Cascais, em Portugal. Eles baixaram uma norma que toda aeronave teria de ser vistoriada antes da decolagem e, ao contrário de outras estadas ali, foi proibida a entrada de qualquer conhecido na área onde os aviões ficam estacionados.

 

        

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